sexta-feira, 6 de novembro de 2026

CORTEZIA, POLIDEZ E ELEGÂNCIA ATÉ NA HORA DA MORTE

 



Naquele tempo as pessoas não tinham medo de morrer e embora não houvesse o diagnóstico inexorável de certas radiografias de hoje, as pessoas muitas vezes pressentiam a morte. Quando pressentiam a sua morte, iam se despedir. E as pessoas que recebiam a visita de despedida achavam aquilo natural: entrava, conversava, tomava chá, depois, na hora de sair, despedia mesmo. Também depois não se viam mais antes de morrer.

Nosso Padre José de Anchieta foi assim. A horas tantas ou quantas ele soube, por alguma advertência interna da graça, que ia morrer. Ele visitou todo o pessoal do pequeno burgo de São Paulo, de quem ele queria se despedir. Ele dirigiu-se a cada um e disse: 

— "Olha, eu vou morrer. Então, vim aqui para agradecer as gentilezas, para dizer que eu vou rezar no céu". 

— "Oh, não diga. Mas Padre Anchieta vai morrer, está bom, então recomende a Nossa Senhora tal coisa assim" 

É assim, Ao pé da letra é assim... 

— "Recomende a Nossa Senhora, quando estiver no céu, e veja com minha padroeira tal coisa assim". 

— "Não tem dúvida, eu faço".

... coisa e tal, se abraçam e se despedem. Depois, vão se ver só na hora do enterro ou no juízo final...

Era a época da cortesia, em que as pessoas até para morrer, morriam com polidez, com elegância. Pois, quando se trata de sair da terra — a gente fazendo uma visita para despedir porque vai viajar —, por que não vai fazer uma visita para despedir quando vai morrer, quando essa é a grande viagem? E depois é preciso dar um bom conselho para um, para outro, por justiça, se deve um agradecimento. Então, a gente vai fazer o agradecimento. Para outro é porque a gente estima e quer rever mais uma vez antes de morrer.

E então o rei e ele se reviram. O rei chorou, abraçaram-se, depois cada um seguiu o seu destino. E naturalmente o Beato Nuno Álvares morreu e no céu rezou pelo rei. É a época da elegância. Os senhores vejam a elegância das maneiras, a polidez das maneiras como se interpenetrava com a piedade e dava à piedade uma excelência própria, porque foi um costume de alta elegância que foi embebido de piedade, e dava à piedade uma beleza especial essa forma de separação antes de morrer, com essa nobreza, com essa tranqüilidade e com esses olhos postos no céu.

Uma civilização igualitária não poderia de nenhum modo ver desenvolver-se um costume dessa forma. Lembra-me uma outra despedida tão diferente dessa, mas para os senhores verem como são as coisas.

Os senhores todos ouviram falar do grande Felipe II, Rei da Espanha, e ouviram falar também do Duque de Alba. Seja como for, o Duque de Alba, a horas tantas ou quantas, entra em agonia e manda chamar várias vezes Felipe II - porque ele nunca mandaria chamar o rei, a não ser para morrer.

Mas a morte tem uma majestade própria, da qual nós nos ocupávamos outro dia, e que é uma majestade inconfundível. Às portas da morte, alguém que seja o Duque de Alba pode mandar chamar o rei. Ele manda chamar o rei várias vezes, mas o rei não vai. Quando afinal o rei aparece, o Duque de Alba está nas últimas. Entra no quarto do Duque de Alba, o duque o olha e diz: - "Agora é tarde". Vira-se para a parede e não dá confiança ao rei.

São esses tais cristãos atrevimentos que são paralelos com esses profundos efeitos dessas profundas reverências, e que dão aos senhores a idéia quase inebriante da harmonia desses grandes respeitos e dessas grandes independências que caracterizam o cavalheiro antigo. Ninguém mais humilde do que ele na hora de ser humilde; ninguém de mais altaneiro do que ele na hora de ser altaneiro.

E aí os senhores têm uma visão dos esplendores da Civilização Cristã, a propósito da vida do Beato Nuno Álvares.

(Plínio Corrêa de Oliveira – Conferência sobre o então Beato, já canonizado, Nuno de Santana Maria -  5 de novembro de 1966)

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