quinta-feira, 22 de outubro de 2026

MORTE DE SANTO ODILON


(Comentários de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a morte de Santo Odilon, monge beneditino na abadia de Cluny. Foi o quarto abade de Cluny. A Igreja lhe deve o mérito da instituição da Festa de Todos os Santos. Ele viveu de 962 a 1049. Sua festa ocorre a 11 de maio).:

É para nós uma alegria ver que o grande Santo Odilon, que está na raiz de todos os esplendores da Idade Média, pertencia a essa gloriosa família de almas, da qual nós desejamos ser continuadores, embora apagados. 

“Na hora das Vésperas, os irmãos levaram seu leito diante do altar de Nossa Senhora...” 

Isso é quando ele estava doente para morrer. 

“Ele encontrou ainda um resto de forças para entoar os Salmos. A emoção e a tristeza acabrunhavam os monges beneditinos. Eles erram na salmódia, mas imediatamente o Abade retifica o erro e prossegue o canto. 

“Fica um momento a sós, em oração, após o Ofício. Depois, é reconduzido novamente à enfermaria. Ele se preocupa do que fazem os irmãos porque era sábado: receava que a hora em que eles costumavam lavar os pés fosse deixada para uma hora muito avançada, pois a noite já caía”. 

A Regra marcava um hora para cada ato do dia.  

Síntese de sua vida 

”Ele descansou um instante. Quando voltou a si, estava sem forças. 

Ajudaram-no a se pôr sentado sobre sua cama, mas subitamente a sua cabeça se inclinou. 

“Imediatamente todos se aproximaram dele, e deitaram-no no chão sobre o cilício e a cinza, acendendo velas.” 

(Prof. Furquim: esse era o modo de morrer de todos os cluniacenses) 

De todos os cluniancenses, é? Vejam que beleza! 

“Com o tumulto que os monges fizeram ao se dar conta de que o Abade morria, este vendo que eles davam livre curso ao seu pesar, acordou e ainda fez sinal de silêncio, e perguntou onde estava. 

‘Senhor, vós repousais sobre a cinza e o cilício’ disseram-lhe. Ao que ele respondeu: ‘Graças a Deus!’ 

“Em seguida, perguntou se todos estavam ali. Todos o assistem. 

Pronunciou palavras ininteligíveis; alternativamente calava-se e falava. Deitou um olhar terrível rumo ao Oriente...” 

Onde estavam os inimigos da Fé Católica, os sarracenos. 

“Fixou seus olhos sobre a cruz. Sua face parecia sorrir. E enquanto seus lábios proferiam em voz baixa as palavras de uma última oração, sem nenhum abalo de seu corpo, sem manifestar a menor perturbação na harmonia de seu ser, com seus olhos fechados, adormeceu na paz. Era a primeira Vigília do primeiro Domingo de janeiro.” 

Os Srs. vêem que não podia uma morte ser mais impressionante e mais bonita! Aí é que a gente compreende que morrer é nascer. Porque isso não é propriamente morrer; isso é nascer para uma outra vida! 

Noção do dever que o acompanhou até o fim de seus dias 

O que é muito bonito e impressiona especialmente aí é como a noção do dever que esse santo tinha, e que o acompanhou em todos os atos de sua vida e até na hora da morte! 

Os Srs. o considerem sendo conduzido já muito doente, junto a um altar de Nossa Senhora. Junto a esse altar ele ainda participa da salmódia, mas com tanto senso do que dever que os monges, perturbados ao ver que o Abade  estava morrendo, erram. Entretanto o Abade tem de tal maneira o senso da Regra, o senso da ordem, que não se perturba e os corrige. 

Quer dizer, ele que era o moribundo, estava mais “compos sui”, mais senhor de si do que todos os outros. E caminhava de encontro à morte com um passo que tinha uma nobre e natural firmeza. Ele estava como todos os dias, embora estivesse morrendo, embora os seus filhos já não aguentassem mais. 

Mais ainda: ele presenciava naturalmente um vaivém muito grande e achava natural que seus discípulos quisessem estar consigo à última hora... porém a preocupação da Regra não o abandonava. E então perguntou: vós não estais adiando a hora em que devem lavar os pés? 

Na Idade Média, as estradas eram muito poeirentas e ascircunstâncias pediam cuidados assíduos nesse sentido. E havia no Ordo quotidiano do mosteiro uma ocasião para isso. Era sábado e devia ser feito isso. Então, perguntou se eles não iam atrasar com essa obrigação, porque os atos da Regra não podiam ser atrasados. 

Depois quando ele percebe que o processo de agonia estava indo mais adiante, pergunta se todos estavam presentes para assistir a morte. Porque é, com certeza, uma disposição da Regra. Todo o mosteiro deve estar presente para assistir a morte do Abade.

(Plínio Corrêa de Olivieira - Santo do Dia, 13 de outubro de 1972 - Comentários sobre a obra do Pe. Jardet, "Saint Odilon, abbé de Cluny – Sa vie, son temps, ses oeuvres", Imprimerie Emmanuel Vite, Lyon, 1898).

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