sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MARIA ANTONIETA, VITIMA DA REVOLUÇÃO

 



Os reis não são julgados, neste mundo, nem pelos seus súditos, nem pelos seus tribunais, nem tampouco pelos historiadores, mas pela História. Por tudo o que fazem ou são, os reis têm seu lugar no julgamento da História e nunca ficam sem uma sentença correta oriunda da própria ordem dos fatos de suas vidas. As palavras ditas a respeito de Maria Antonieta por um grande pensador católico brasileiro podem ser aplicadas muito bem a respeito de outra rainha, Maria Stuart:

"Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína" 

Quando enfrentou o calvário do fim de sua vida, Maria Antonieta demonstrou coerência com sua alta nobreza e dignidade, já antevisto a partir de 20 de julho de 1792. Naquele dia houve o famoso assalto às Tulherias, onde o rei, a rainha e o delfim, ameaçados, insultados, seus aposentos revolvidos, saqueados, sofreram terrível drama, quando às vezes uma faca ou um pique ameaçou o peito da rainha ou mesmo um feroz punho fechado prestes a esbofeteá-la. Enquanto assassinos rondam o palácio, a resistência cifra-se a poucos amigos dispostos a fazerem de seus corpos uma muralha para proteger a família real. Não houve medo, covardia, nem tampouco sinais de fraqueza e desespero. 

Após cenas tão dramáticas seguiram-se, dias depois, a derrubada do trono, a chacina da guarda suíça que lhes dava proteção, tempestuosas reuniões na Assembléia Legislativa para decidir seus destinos e finalmente o encarceramento no Templo. A 20 de janeiro de 1793, a rainha perde o seu rei e esposo; a 3 de julho do mesmo ano arrancam-lhe o filho de seus braços para entregá-lo ao sapateiro remendão Simon. Aos poucos os familiares que com ela dividiam a prisão foram sendo executados. 

A todo este martírio, Maria Antonieta sofria porém com resignação, grandeza de alma e elevação de espírito, que foram demonstrados em todos os lances que se seguiram até sua morte. No simulacro de julgamento a que foi submetida demonstrou tal equilíbrio emocional e intrepidez que motivou a suspensão abrupta do júri faccioso, pois arrancava aplausos da platéia, e que platéia! Finalmente, ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. 

Preparou-se convenientemente para o sacrifício. Recusou um padre "convencional", como eram chamados os clérigos que haviam jurado a república e abjurado da Fé católica, pois fora assistida anteriormente por um sacerdote fiel. Foi a execução mais esperada em Paris. 

Abaixo, os principais relatos sobre o martírio de Maria Antonieta: 

Primeira prisão - em seu próprio palácio 

A 20 de junho de 1792, começou o assalto contra as Tulherias. É conhecida esta cena, reprodução agravada das jornadas de outubro do ano anterior. O rei, a rainha, o delfim, com o barrete vermelho que lhes haviam posto à força, ameaçados, insultados, escarnecidos durante um dia inteiro por uma plebe assanhada, ébria de fúria, seus aposentos revolvidos, saqueados, a corja humana só se retirando depois da intervenção de Pètion, o prefeito da Comuna. 

Dez vezes, cem vezes, no decurso dessas horas trágicas, uma faca ou um pique ameaçara o peito da rainha impassível, cercada de seus filhos. Um punho chegara a adiantar-se raivosamente em sua direção no gesto de bater, mas o seu admirável sangue-frio impusera àquela súcia imunda o respeito pelo menos à sua vida, e mesmo quando ela dissera com indizível melancolia: "Que vos fiz eu? Eu era feliz quando me queríeis bem...", uma comoção, como se fora de piedade, perpassara por aqueles corações, abalando-os durante um instante no seu ódio selvagem. 

Em agosto do mesmo ano escreveu ela a Ferson: "Os assassinos rondam continuamente o palácio. A resistência que se pode opor cifra-se em algumas pessoas resolvidas a fazerem de seus corpos uma muralha para a família real e no regimento de guardas suíços. Há muito tempo que os facciosos já não se dão ao trabalho de ocultar o plano de aniquilar a família real. Se não vier auxílio, só a Providência poderá salvar o rei e sua família"; 

Queda do trono - prisão no Templo 

De 9 para 10 de agosto, nas Tulherias, a família real passou a noite em claro, na expectativa do que estava para acontecer. Cada um, em torno do rei, munira-se de uma arma para se defender: faca, espada, garrucha... 

Por volta das três horas da madrugada, tocou o rebate. Os defensores do rei tinham tomado todas as disposições para resistir à investida pelo maior tempo possível, vendendo caro a vida. Maria Antonieta falava a uns e a outros, a todos fortalecendo com a sua indômita energia. 

Ao aproximar-se a manhã, o procurador geral, síndico Roederer, veio aconselhar a família real a colocar-se debaixo da proteção da Assembléia Legislativa. 

É - disse ele - a única coisa que o povo respeita neste momento. A rainha, a princípio, recusou indignada. 

- Então o senhor sugere que procuremos refúgio entre os nossos mais cruéis perseguidores! Nunca! Nunca! Prefiro que me preguem nestas paredes a consentir em deixá-las! 

- Senhora - insistiu Roederer - devo repetir, a resistência é impossível. Quer que o rei e seus filhos sejam trucidados? Mais um minuto, mais um segundo talvez, e já não responderei pelos dias do rei, de Vossa Majestade e de seus filhos! 

- De meus filhos! - murmurou a rainha abalada - Não! Eu não os entregarei à lâmina dos assassinos! 

E resolveu seguir Roederer. 

O rei caminhava na frente, ereto e com atitude decidida. A rainha, em pranto, vinha em seguida, apoiada no braço do Conde de La Rochefoucauld. O delfim era levado no ombro de um granadeiro. Madame Lamballe e Madame Elisabeth seguiam-nos. 

O aparecimento da família real foi na Assembléia acolhido com uma saraivada de insultos, de ameaças e de vociferações. Talvez os mais furiosos trucidassem o rei como já tinham trucidado, nessa mesma manhã, o jornalista Suleau et Vigier. 

Roederer, porém, parlamentou e acabou obtendo que os deixassem passar. O rei, como indiferente ao perigo, e com uma impassibilidade admirável ou desconcertante, dizia, contemplando pensativo os castanheiros das Tulherias, já amarelados e murchos: 

- Que cedo as folhas estão caindo este ano! 

A Assembléia Legislativa colocou a família real "sob a proteção da lei", e localizou-a na tribuna do logógrafo (chamava-se assim, nessa época, o estenógrafo). Era um compartimento muito exíguo. No seu interior era impossível ficar de pé e o calor sufocava. Foi aí que, durante dezessete horas, os soberanos decaídos tiveram de ficar. 

Entretanto, a Assembléia Legislativa continuava reunida no meio de uma desordem e de uma anarquia inenarráveis, cortadas por trágicos incidentes. 

Foi assim que, cerca das dez horas, um considerável bando de facínoras em mangas de camisa, cobertos de suor e de sangue, irrompem na sala. Vinha trazer à Assembléia a "oferenda de sua pilhagem". 

Perto das sete horas da noite na tribuna onde estava o rei, guardavam-na apenas alguns miseráveis, que estavam bêbados. Perto do rei estava a rainha, cujas lágrimas e cuja transpiração lhe tinham molhado inteiramente o fichu e o lenço. Tinha no regaço o delfim, que dormia, e repousava a cabeça nos joelhos de Mme. De Tourzel. Mme. Elisabeth, a princesa de Lamballe e Madame Royale, filha do rei, estavam no fundo da tribuna. 

Que quadro! 

Fora, as ruas estavam inteiramente iluminadas, cheias de mortos, de agonizantes e de ébrios dormindo na vizinhança daqueles. No pátio da residência real, uma enorme fogueira consumia os móveis do palácio e os cadáveres. Alguns amantes de sangue humano corriam ainda por baixo das grandes árvores das Tulherias, armados de espingardas, em busca de suíços ou de aristocratas. 

As Tulherias era uma prisão demasiado suntuosa, que Luís XVI não devia tornar a ver. Foi para o Convento dos Cistercienses que Suas Majestades foram passar a noite do dia 10 para 11 de agosto, enquanto esperavam que se decidisse a sua sorte. Medonha noite em que, por várias vezes, a grade esteve a ponto de ser arrombada por sediciosos ávidos de carnificina e de sangue, os quais preten-diam acrescentar as cabeças do rei e da rainha às que levavam na ponta dos piques. 

Exceto o delfim, ninguém pôde dormir. Ouviu-se distintamente até as três horas da madrugada o rumor da Assembléia sempre em sessão, os gritos, os aplausos, o alarido das galerias. 

A detenção provisória no Convento durou quatro dias, de 10 a 13 de agosto. A Assembléia hesitava quanto ao lugar onde transferir o rei. Falou-se sucessivamente no Luxemburgo, no arcebispado, ou no palácio do ministério da justiça, à praça Vendôme. A Comuna, porém, interveio, opondo-se. Não se tratava de procurar um palácio para o rei, mas uma prisão. Escolheram o Templo. 

O Templo 

O lugar chamado Templo, para onde Capeto e sua família foram levados e encerrados a 16 de agosto de 1792, é um edifício sem vista, situado em Paris, na rua e perto do boulevard do mesmo nome. No meio de um jardim, eleva-se uma torre muito alta, muito sólida e flanqueada por quatro torreões. As muralhas da torre grande têm sete pés de espessura, o que dá aos vãos das janelas o aspecto de pequenos compartimentos. 

Só se recebia luz de cima, e não era possível ver nada a não ser o que se chama céu. As portas de carvalho maciço, munidas de sólidas fechaduras, de enormes ferrolhos, contribuíam ainda mais para a impressão de cárcere dada pela torre. 

Essa fortaleza de aspecto severo e áspero que Maria Antonieta sempre encarara com horror, numa espécie de pressentimento, interessando-se que a mandassem arrasar, era antiqüíssima e fora edificada por ordem dos Templários. Foi na larga torre central que os prisioneiros foram encerrados, sob a guarda permanente de comissários da Comuna e de soldados da guarda municipal. 

A 3 de setembro, a quadrilha de chacinadores veio para debaixo das janelas da torre reclamar em altos brados Maria Antonieta. Eram os ferozes degoladores que, nesse dia, visitando as prisões, assassinaram tantas mulheres, padres e nobres. 

Acabavam de matar, com selvageria inaudita,a desventurada Princesa de Lamballe. Tinham-lhe literalmente desmembrado e estripado. Levavam na ponta dos piques a sua cabeça e o seu coração, e arrastavam-lhe o cadáver mutilado. 

Tinham o diabólico propósito de obrigar a rainha a aparecer e beijar a cabeça ensangüentada de sua desgraçada amiga, que lhe apresentavam na ponta de um pique. Com grande custo, Danjon, que estava de guarda, conseguiu contê-los parcialmente. A rainha, porém, aproximou-se da janela e, por uma dolorosa intuição, compreendeu. 

Entreviu, adivinhou sua infeliz amiga na cabeça mutilada que balançava diante da janela na ponta de um pique. Não diz uma palavra, não lança um grito, mas, ferida em cheio no coração, fica de pé, muda de horror, os olhos fixos arregalados de espanto e dor. 

Morte de Luís XVI 

A 20 de janeiro (de 1793), Garet, ministro da Justiça, veio notificar Luís XVI de sua condenação à morte. O rei teve permissão de tornar a ver pela última vez a mulher e os filhos. Essa entrevista suprema foi particularmente comovente e deixou nos que a presenciaram uma lembrança indelével. Quando foram levados à presença do rei, a rainha e os filhos se lançaram aos seus pés, sem dizer uma palavra, e não se percebeu a princípio senão os longos soluços de toda a família estreitamente abraçada. 

A noite dessa véspera de cadafalso, a rainha passou na cama toda vestida, tremendo de dor e de frio. Não tornou a ver o marido no dia seguinte, como esperava. Aguardava-o ainda quando compreendeu, pelo clamor da multidão e pelo burburinho da rua chegando até ela, que o "filho de São Luís subira ao céu". 

Pediu em seguida vestidos pretos, que lhe foram concedidos, e ficou muito tempo abismada na sua dor". Conta-se que teria dito, após ouvir o clamor denunciando o guilhotinamento do rei: "Viva o rei!" e abraçou o delfim. 

Separação do delfim 

A 3 de julho de 1793, guardas municipais apresentaram-se para notificar a Maria Antonieta o decreto que acabava de ser assinado pela Junta de Salvação Pública: 

- A Junta resolve que o filho de Capeto será separado de sua mãe! 

- Matem-me antes! - exclamou ela, num arranco de todo o seu ser em revolta. 

E durante mais de uma hora, fazendo de seu corpo muralha, diante da cama em que dormia o delfim, lutou como uma leoa que defende as crias, com a energia do desespero. Mas, por fim, teve de ceder á força, e o pequeno delfim foi arrebatado á sua ternura para ser confiado à custódia aviltante do sapateiro remendão Simon. 

Ela conhecera o calvário de rainha, o calvário da amiga, o calvário da esposa, ela tudo suportara! Mas foi o calvário de mãe, o mais atroz, o mais desumano de todos, o que acabou de a aniquilar.  

Sabemos como o desgraçado delfim, trabalhado pelo infame Hébert, martirizado, embrutecido pelo álcool e pelo vício, ameaçado com a guilhotina se não obedecesse, aterrorizado a tal ponto que algumas vezes o viram desmaiar de medo, sofrendo com as conversas ignóbeis dos carcereiros a pior corrupção moral, acabou renegando os seus e repetindo docilmente diante dos carrascos, transformados em juízes de sua mãe, as revoltantes acusações que tinham cometido a ignomínia de lhe inculcar. 

Esta atrocidade, cuja infâmia se nos afigura inacreditável se os documentos mais fidedignos não a atestassem, dá a medida dos meios empregados pelos revolucionários para abater Maria Antonieta. 

Finalmente, o delfim foi assassinado a 8 de junho de 1794. 

Enquanto definha na prisão, enxurrada de calúnias O jornal do covarde Hébert, o ignóbil "Le Père Duchesne",é que se assinalava entre todos pelo seu encarniçamento e pelas suas célebres "grandes cóleras". Em todos os seus números, invectivava "Madame Veto". Cobria-a de epítetos os mais variados. Era a "loba austríaca", a "onça sedenta de sangue", a "megera sanguinária", a "ninhada de mochos do Templo", a "besta fera", a "viúva Capeto", a "patifa". 

Atribuiu-lhe, no decurso de diálogos imaginários que teria sustentado com ela, as palavras mais insolentes com relação ao povo, as intenções mais criminosas contra a França, os mais revoltantes projetos de chacina contra os patriotas. 

Enquanto isso, Maria Antonieta definhava no Templo... Não é mais que a sombra de si própria. Durante horas inteiras, fica à espreita a fim de entrever o delfim, de longe, por alguns breves segundos, quando sobe para o seu compartimento, escoltada pelo seu carcereiro. Acompanha com angústia e dor, na fisionomia do filho querido, o progresso dos estigmas do vício com que o corrompem. 

E, na rua, os panfletos, as canções, as gravuras, os jornais, os discursos, continuam a atiçar contra ela a opinião desvairada. É a "pantera austríaca" apon-tada á execração da nação até sua mais remota posteridade. É o seu retrato, emoldurado por um lampião, com esta legenda gratuita: "A Médicis do século XVIII, a hedionda Messalina cuja boca fedorenta e infecta esconde uma língua cruel, que se confessa eternamente sedenta de sangue francês". 

A caminho da morte 

A 1 de agosto, Maria Antonieta foi transferida do Templo para a Conciergerie. Era a última escala para o cadafalso. A maior parte dos que lá estavam devam deixar qualquer esperança. Mas isso pouco importava àquele coração crucificado em todas as suas afeições mais caras, e para a qual a esperança não estava mais neste mundo! 

Uma expressão de Maria Antonieta revela com perfeição o seu estado de alma nesse momento. Foi à uma hora da manhã que a vieram despertar para levá-la para a Conciergerie. Docilmente vestira-se e seguia o guarda. Mas, ao sair do Templo, deu uma violenta cabeçada na porta demasiado baixa. Como cambaleava sob a rudeza da pancada, perguntaram-lhe: "Machucou-se?". 

 - Não - respondeu ela com infinita lassidão - Agora nada mais pode machucar-me! 

Na Conciergerie, viu-se na miséria absoluta. No Templo, tinham-lhe recusado um cobertor e um lençol que ela pedia. Aqui não teve nem mesmo roupa interior para mudar. Restavam-lhe ao todo, dois vestidos: um branco e um preto, ambos mofados pela umidade, caindo aos pedaços. Aqui também, no cubículo sombrio e exíguo, conservam-se dois guardas que fumam cachimbo, jogam cartas e têm conversas próprias do corpo da guarda. 

Ela está irreconhecível; os cabelos brancos, descarnada, macilenta, é apenas a sombra de si mesma. A sua magreza causa lástima a todos os que se aproximam dela. A sua desventura inspira ainda dedicação às vezes anônimas, que são, por isso mesmo, mais comoventes. Negociantes do mercado trazem ao porteiro da prisão "pêssegos e um melão para a sua boa rainha". Assim, o povo, de alma inconsciente e móvel, sem dúvida lamenta na desgraça do momento aquela a quem maldizia no tempo de sua felicidade. 

O “julgamento” 

O julgamento de Maria Antonieta já havia sido decidido muito tempo antes: durante o desfile comemorativo da abertura dos Estados Gerais, em 5 de maio de 1789, ao ver a rainha passar garbosamente, vociferou Mirabeau: “Voilà la victime!” (eis a vítima!). Chegada a hora de seu “julgamento” no tribunal revolucionário, ao saber da pretensão desses singulares magistrados de a julgarem, exclamara num belo impulso de desdém e desprezo: 

- Eles podem ser meus carrascos, mas nunca serão meus juízes. 

É preciso ter estado presente - diz Chaveau-Lagarde, seu advogado - para se ter uma idéia justa do belo caráter que a rainha demonstrou possuir. 

Deixara sem resposta, na primeira investida, a pergunta relativa à posição diante do filho. Haviam lhe feito uma cínica pergunta sobre sua suposta participação na corrupção moral do filho. Um jurado, seguramente inspirado por Hébert que estava presente, insistiu e perguntou por que a rainha não respondera. Então, soberba de indignação, ela teve um grito de revolta que fez toda a sala vibrar. 

"Se não respondi - exclamou - é que a natureza se recusa a responder semelhante inculpação feita a uma mãe: apelo para todas as que porventura se encontram aqui!" 

Esta apóstrofe direta, lançada com vibrante voz de emoção, que fustigou em pleno rosto o bando ignóbil de covardes acusadores, causou tal impressão no público (e, todavia, que público eram os freqüentadores das audiências do Tribunal Revolucionário!) que foi preciso suspender por um instante a sessão. Algumas mulheres desmaiaram e foram retiradas; ouviam-se gritos e aplausos; o presidente ameaçou evacuar a sala. 

Entretanto, tendo recobrado o sangue-frio, a rainha inclinava-se para Chaveau-Lagarde e lhe perguntava: 

- Acha que respondi com demasiada altivez? 

E como o advogado, surpreso, lhe assegurasse o contrário, admirando-se de semelhante pensamento: 

 - É que - explicou ela - ouvi uma mulher do povo dizer á vizinha "Repara como é arrogante!"  (7)

Essa observação da rainha - acrescenta Chaveau-Lagarde - prova que ela ainda "esperava" e mostra também a que ponto estava alerta e atenta aos menores incidentes. 

A sentença 

Os jurados tinham se retirado para deliberar. Logo depois voltaram à sala e deram a conhecer a sua resposta. Por unanimidade, a rainha era declarada culpada e condenada á morte. Ela ouviu o veredicto em atitude calma e sem dar a menor demonstração de temor, revolta ou fraqueza. Desceu sozinha os degraus, atravessou a sala e voltou para a Conciergerie. Eram quatro horas e meia da madrugada. A audiência começara na véspera, às oito horas da manhã. 

Só restavam a Maria Antonieta algumas horas de vida. Ela começou elevando a alma ao céu e implorando a misericórdia divina. No seu livrinho de orações (que se encontra na biblioteca de Châlons-sur-Marne), escreveu estas simples linhas: 

“Aos 18 de outubro 

Meu Deus! Tende compaixão de mim! 

Os meus olhos não têm lágrimas para chorar por vós, meus pobres filhos!” 

A morte de Maria Antonieta 

Oito horas. Há que preparar-se para o sacrifício. Vestir a roupa com que vai morrer. O guarda decide assistir aos mais íntimos dos preparativos. Instala-se no próprio leito da rainha, quando ela troca sua camisola. "Em nome da honra, senhor, permiti que troque a roupa de baixo sem testemunha", protesta. O outro retruca cinicamente: "Eu não poderia consentir nisso; minhas ordens dizem que devo manter o olho sobre todos os vossos movimentos". 

Pela manhã bem cedo encontrara tempo para escrever estas palavras para sua cunhada, Madame Elisabeth: 

“Estou calma como se é quando a consciência nada acusa... Morro na religião católica, apostólica e romana, na de meus pais, na qual fui criada e a qual sempre professei... Peço sinceramente perdão a Deus de todas as faltas que posso ter cometido desde que existo. Espero que em sua bondade Ele quererá receber meus últimos desejos, assim como os que faço há muito tempo para que queira receber minha alma em sua misericórdia e sua bondade. Perdôo a todos meus inimigos o mal que me fizeram”. 

Para ir ao cadafalso, a rainha troca seu vestido de viúva por um vestido branco. Depois envolve-se em seu xale de musselina. Retira da touca de cambraia as fitas pretas, a fim de evitar insultos do populacho. Única marca negra: uma tira de pano no pulso. Vestida, pronta então para tudo, espera agora que venham buscá-la. Primeiro, apresenta-se a ela um padre constitucional, cujo ofício recusa. 

"Mas, senhora, replica o abade, que dirão quando souberem que recusaste o socorro da religião?" "Direis às pessoas que vos perguntarem que a Misericórdia de Deus já se encarregou disso". O indigno sacerdote ainda insiste que ela precisa se armar de coragem, confessando-se com ele. Ao que ela responde: “Coragem, ah! Senhor, há diversos anos dedico-me à aprendizagem dela, não será no momento em que meus males vão terminar que me verão sentir falta da mesma”. A misteriosa réplica explica-se pelo fato de, alguns dias antes, um padre não juramentado ter chegado a cruzar as portas da prisão para levar-lhe a Eucaristia. 

Dez horas. O porta-chaves Larivière vem retirar as vasilhas que se encontram sobre a mesa. Encontra a rainha ajoelhada, rezando. Faltavam 15 dias para que completasse 38 anos e já envelhecera bastante. Seguem-no o escrivão Fabricius e três juízes. Novamente lêem a sentença à condenada; é então que entra o carrasco Sanson. "Como vindes cedo, senhor! exclama. Não poderíeis atrasar?" 

"Não, senhora, tenho ordens de vir", e pede-lhe que estenda as mãos. Como protestasse, pois não amarraram as do marido, o executor agarra brutalmente seus punhos e os amarra às costas. Logo em seguida tira-lhe a touca e lhe corta os cabelos, que mete no bolso. Feita a "toalete", abre-se a porta da cela sobre duas alas de guardas. 

A carreta de Sanson está estacionada a alguns passos do portão da Conciergerie, ladeada por um destacamento armado. Nada de carruagem para a rainha. 

É o carretão comum da guilhotina que a conduzirá a seu suplício. São onze horas quando ela aparece, seguida de Sanson, que segura a corda que lhe liga as mãos. Ela não pode deixar de estremecer á visão do horrível veículo onde é convidada a instalar-se, no seu único banco. 

Começa a caminhada rumo ao suplício. Ao sair da Conciergerie, multidão compacta mas silenciosa segue com os olhos a condenada. A grande escadaria do Parlamento, as balaustradas, as janelas, os telhados, foi tudo invadido. Paris inteira levantou-se para assistir ao calvário, á execução. O poder mobilizou suas forças, disposto a fazer frente a qualquer eventualidade. Trinta mil homens armados em alerta. Canhões engatilhados nos cruzamentos, nas praças, nas cabeceiras das pontes. 

O cavalo branco avança passo a passo, abre com dificuldade seu caminho entre a multidão. Maria Antonieta, com quem se jurou "fazer beber longamente a morte", guarda uma postura majestosa, por mais decrépita que esteja em conseqüência das provações sofridas. 

À dignidade da condenada, responde a da multidão, que não manifesta, até a rua Saint-Honoré, nenhuma hostilidade para com ela. Mas, nos degraus da igreja Saint-Roch, a Comuna reunira um batalhão de lambedeiras de guilhotina decididas a romper o silêncio e a enlamear a condenada com os insultos mais grosseiros. Nada conseguiram a não ser fazer pequeno barulho... 

A rainha conserva sempre seu sangue-frio, o cortejo desemboca na praça da Revolução. De um lado, o castelo das Tulherias, símbolo de seu poder desmoronado, do outro a guilhotina, símbolo do poder revolucionário. 

Chegando ao destino, se bem que sofresse muito com os ferimentos causados nos pulsos pelas cordas, desce da carreta sem ajuda. Não abandona a nobre postura, o que lança os jornalistas presentes no mais negro furor. Morrerá da mesma maneira, sem gritos nem protestos. Esta atitude digna, própria de uma autêntica rainha, não poderia deixar de causar furor entre os revolucionários, que desejavam vê-la gritar pedir clemência, chorar, espernear, protestar ou até mesmo blasfemar, como eles mesmos o faziam ao sofrerem semelhante suplício. O historiador francês Jean Chalon comenta: “Sua impostação de cabeça, a majestade de seu porte, a elegância e a graça de sua pessoa, tudo nela respirava a grandeza de sua raça, a doçura e a nobreza de sua alma; ela atraía todos os corações”. 

Assim conclui outro escritor francês, Henri Robert: "Sozinha contra todos, inocente pelo seu sexo, sagrada pelo seu título de mãe, uma mulher, já então inofensiva, é imolada numa terra estrangeira por um povo que nada sabe perdoar à juventude, à beleza, à vertigem da adoração. Chamada por esse povo para ocupar um trono, esse povo não lhe dá sequer um túmulo. 

"E, efetivamente, no cemitério de Madeleine, para o qual foi transportado de mistura com outros cadáveres, o corpo decapitado de Maria Antonieta ficou de 16 de outubro até os primeiros dias de novembro esquecido sobre a relva" 

Mais uma vez vejamos o que diz o grande pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira, citado no início: 

"Terminou esta história? Se há uma história que não terminou foi esta. Porque a memória de Luís XVI, como a de Maria Antonieta, continuam vivas. São símbolos que não morrem na recordação nem no coração de muitos... Quer por serem amados como merecem, quer por serem odiados como não merecem. Mas, de algum modo, simbolizam a luta entre o Bem e o Mal, a Revolução e a Contra-Revolução. Eles serão sempre lembrados, com profundo respeito e profunda dor, por todos aqueles que têm uma fagulha de Contra-Revolução na alma. E serão vistos com extremo ódio por todos aqueles que, portadores do espírito de Sata-nás, e odiando todas as desigualdades, odeiam a esse rei (e a essa rainha), cujo grande defeito, entretanto, foi o excesso de mansidão (isto se pode dizer também de Maria Antonieta)".


 (Obras consultadss:

 - Plínio Corrêa de Oliveira - in "Catolicismo", julho de 1989)

- Os Grandes Processos da História - de Henri Robert )

Fichu - termo francês, era um lenço triangular que cobria a cabeça e parte dos ombros das mulheres. 156


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