quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O OLHAR DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO NA EXPULSÃO DOS VENDILHÕES DO TEMPLO

 




 

É indiscutível que Nosso Senhor Jesus Cristo era dotado de uma Bondade imensa, divina, por ser Deus além de Homem. A propósito dessa Bondade que atraía e causava fascínio, comenta o padre Berthe: “Todos reconheceram ao homem de semblante grave, de olhos penetrantes, de longa cabeleira a flutuar sobre os ombros, de fisionomia meiga e subtriste, que inspirava, mesmo às crianças, respeito e afeição”. E mais adiante: “E ao mesmo tempo que aos ouvidos lhes ressoava aquela voz forte e meiga, não podiam os ouvintes deixar de contemplar o semblante celestial do profeta. E do seu rosto viam irradiar uma bondade sobre-humana que a todos lhes cativava e roubava os corações”.[1]

Procu­rou Ele conquistar o coração das pessoas. E uma vez fez um teste perguntando: o que dizem por aí do Filho do Homem?

 

Nosso Senhor nos ensina como enfrentar o entrechoque de opiniões

Depois que passou 40 dias no deserto jejuando, haver vencido o demônio e sido batizado por São João, Nosso Senhor fez o milagre das Bodas de Caná e, após percorrer toda a Palestina pregando e fazendo muitos milagres, dirigiu-se a Jerusalém preparado para enfrentar a opinião dominante e a seita judaica que mandava na Cidade Santa.  Que fez Ele? Procurou convivência pacífica com as correntes dominantes? Fez pactos, alianças? Nada disto! Dirigiu-se ao Templo, onde devia apresentar-se como o Messias tão esperado e já anunciado. Lá encontrou, no entanto, uma situação constrangedora. Os comentários são, novamente, do padre Berthe: “Graças à cumplicidade dos sacerdotes, certos costumes abusivos e verdadeiramente sacrílegos tinham convertido esse átrio num verdadeiro mercado. Aí vendiam vinho, azeite, sal, pombas, cordeiros, e todos os objetos exigidos para os sacrifícios. Os cambistas, instalados aos seus balcões, serviam aos estrangeiros moeda judaica; já que só ela corria no Templo. Conversavam e altercavam neste lugar santo como numa praça pública”. [2]

Todos sabem o que Ele fez.  Aceso de santa ira, chicoteou e expulsou os vendilhões do Templo. Talvez fosse para este momento que Nosso Senhor vinha mais se preparando, pois aí Ele enfrentou o teste mais duro com a opinião pública, antes de Sua Paixão e Morte na cruz. Não era conhecido ainda como Profeta pelo povo de Jerusalém; não tinha, portanto, autoridade popular para tal ato. A Autoridade que possuía era d’Ele mesmo, por ser Deus. No entanto Ele o fez como homem, embora arrojadamente. Que ocorreu? O povo aplaudiu calorosamente, pois todos sabiam que se devia respeitar o Templo e ninguém ousou contestar ou enfrentar Jesus Cristo nesta hora. Sua ação  foi, pois, um ato de conquista de simpatia da opinião pública. O entrechoque foi sentido apenas pelos fariseus, sacerdotes e doutores que se perguntavam entre si com que direito vinha aquele audacioso Galileu mandar no Templo e condenar os usos autorizados pelo Sinédrio. E que Templo era aquele, dominado por gnósticos!

Para se ter uma idéia de como andavam as coisas no Templo de Jerusalém, vejamos como o descrevia William Thomas Walsh:

“...Num mercado, justamente ali dentro, ou bem à mão, podiam comprar pombos, cabritos ou cordeiros para o sacrifício, se antes já não o houvessem feito, mas tinham de pagar também uma pequena taxa de inspeção.

“Alguns dos peregrinos pobres e dos galileus reclamavam contra os preços. Na verdade, os bufarinheiros do templo tratavam por vezes de elevá-los desaforadamente. Certa vez, por exemplo, cobravam um denário de ouro romano por um casal de pombos, até que um membro da família de Hillei interveio e forçou-os a baixar o preço de novo para ¼ de um denário de prata. Caridade predileta dos judeus ricos era pagar o sacrifício dos pobres. Certa ocasião, quando os cúpidos comerciantes tinham deixado o pátio do Templo quase sem animais, Rabi Baba Bem Buta burlou-os, trazendo 3 mil carneiros, quebrando assim o mercado, de modo que os plebeus pudessem cumprir suas obrigações”.[3]

Mais adiante, William Thomas Walsh descreve o episódio do Templo como ele imagina que teria ocorrido conforme seus estudos:

“No dia seguinte, ainda cheio de grandiosas esperanças, estava Simão Pedro com o Senhor, junto à Porta Especiosa, observando as multidões de graves peregrinos que se apressavam em atravessar o Pátio dos Gentios para oferecer seus sacrifícios. Um levava duas pombas numa gaiola, outro um cordeiro, outro um cabrito, enquanto outros ainda compravam aves ou animais no bazar, ao longo de um dos maciços muros, ou levavam-nos para serem inspecionados e dados por bons. Uma multidão esperava em fila diante de algumas mesinhas postas sobre o chão de mármore polido por cambistas itinerantes. O tinido das moedas ressoava acima do chilrear dos pássaros, do balir dos carneiros, do mugir do gado e do murmúrio das vozes humanas.

“Contemplando tudo isso num relance, Jesus apanhou algumas cordas que jaziam ao lado dos engradados dos pombos, reuniu-as destramente em forma de chicote e passou por diante do atônito Simão, com uma serena e terrível determinação, dirigindo-se para as mesas e bazares. Algo n’Ele fez que até mesmo os guardas do Templo se afastassem apressadamente para os lados. Um poeta cristão, de descendência judaica, um homem de não pequena visão interior[4]  afirma que, mesmo encolerizado, Seu rosto jamais se contorceu ou avermelhou, como o dos outros homens, porque não era paixão, mas justiça impessoal divina que O acionava.  Aos vendedores dos pombos disse Ele concisamente: “Tirai daqui isto e não façais da casa de Meu Pai casa de negócio!” Mas quando chegou aos bois e aos carneiros, descarregou-lhes nas costas o chicote de cordas, assestando-lhes grandes e vibrantes açoites com seus poderosos ombros e braços, até que eles semearem o pânico em todas as direções, entre os aterrorizados  espectadores e mercadores. Os cambistas ficaram sentados, paralisados de medo, à medida que Ele ia batendo de mesa em mesa. Moedas de todas as nações e siclos de prata do santuário tiniam sobre os blocos de mármore e rolavam sob os pés da multidão que fugia desatinada.

“Simão Pedro não havia esperado nada de semelhante. Mas observava tudo com certa altivez crescente. Quem, senão o Messias ousaria agir tão atrevidamente em tal lugar? Quem, senão Ele, poderia dizer naquele tom de real certeza: “A casa de Meu Pai?”  [5]

Na Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, há o seguinte comentário de São Jerônimo sobre o episódio de expulsão dos vendilhões do Templo: E sobre a frase: ‘Expulsou todos os que ali estavam vendendo e comprando’, comenta o mesmo Jerônimo: ‘Dentre todos os milagres que Cristo fez, este me parece o mais admirável: que um só homem, naquela época ainda desprezível, tenha podido, a golpes de um simples chicote, expulsar tão numerosa multidão. É que de seus olhos se irradiava como que um fogo celestial e em sua face brilhava a majestade da divindade’ (S. T. III, q. 44, a. 3, Ad I).

Como estava o olhar de Jesus Cristo naquele instante? Ninguém teve a ousadia de confrontar ou mesmo vislumbrar de longe aquele olhar cheio de santa ira. Nenhum comentário sobre o assunto foi feito pelos evangelistas ou por algum cronista ou historiador. No entanto, tal olhar foi apenas o sucessor da primeira mirada quando presenciou as cenas absurdas que estavam ocorrendo dentro do templo.

 



[1] “Jesus Christo, Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo” – Estabelecimentos Benziger & Co. S.A., Einsiedeln, Suíça 1925)

[2] “Jesus Christo, Sua Vida, Sua Paixão, Seu Triunfo” – Estabelecimentos Benziger & Co. S.A., Einsiedeln, Suíça 1925)

[3] O Apóstolo São Pedro”, pp. 28

[4] Trata-se de Fray Luís de Leon, em “Los Nombres de Cristo”

[5] “O Apóstolo São Pedro”, pp. 60/61


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O MARAVILHAMENTO, UMA GRAÇA QUE PODE CONVERTER E DESENCALHAR AS ALMAS

 




              

Nota-se hoje um grande encalhe espiritual por causa da decadência moral da sociedade, impedindo até que as pessoas correspondam às graças divinas. Talvez o desencalhe social em grande escala, que provocaria o “grand retour” (grande retorno de todos ao grêmio da Santa Igreja), possa surgir da prática que os Contra-Revolucionários possam ter do maravilhamento, do fascínio e do esplendor.

             O fascínio atrai, irresistivelmente, como que arrasta as pessoas em determinada direção. Mas o primeiro passo para isto é causar maravilhamento.  Um centurião romano, São Pacômio, voltava da guerra e teve que acampar com seus soldados próximos a uma localidade de cristãos. Tal foi o seu maravilhamento vendo o procedimento dos cristãos que pediu para ser um deles, tornando-se depois não só cristão, mas, mártir e santo.

São Francisco de Sales diz que esta graça externa, que nós chamamos de maravilhamento, é um impulso ou comoção provocado por Deus nos corações das pessoas para excitá-los ao bem. E desta forma “como um vento sagrado, nos impele para a atmosfera do santo amor, move a vontade, e pela impressão de um certo gozo celeste (pode ser um flash?), enternece-a, dilatando e desenvolvendo a inclinação natural que ela tem para o bem, de forma que esta mesma inclinação lhe sirva de meio para prender o nosso espírito; e tudo isto, como já disse, se faz “em nós e sem nós”, porque é a graça divina que nos precede desta maneira” (1).

 O fascínio maravilha e arrasta

Por quê? Porque o fascínio tem o condão de fazer caminhar, de atrair em direção dos fascinadores, fazendo com que os outros desejem ser semelhantes a eles.  Quando nasce o desejo vem depois a vontade e os passos seguintes em direção da conversão. São vários passos, mas aí tudo passa a depender da própria pessoa. Primeiro, desejar ser igual aos contra-revolucionários; depois, desejar ser um deles e caminhar juntos na mesma Causa.

O fascínio faz-nos ter um comprazimento interior em contemplar espelhado em outrem o bem que amamos, uma espécie de gozo interior, uma alegria, um entusiasmo por ver aquele bem sendo posto em prática. 

É como se alguém estivesse dormindo e sonhasse com algo de fantástico e maravilhoso. Acorda e vê que aquele algo existe e está bem na sua frente. Mas para desfrutá-lo tem que sair de sua modorra sonolenta, levantar-se e ir em busca do bem que encontrou. Mas se achar alguém que lhe ajude a levantar-se pegando em sua mão, sua vontade será mais fortalecida e mais decidida.

Vejamos como São Francisco de Sales nos conta o exemplo da conversão de São Pacômio:

“S. Pacômio, quando era ainda soldado muito jovem, e sem conhecimento de Deus, alistado sob a bandeira do exército que Constâncio levantara contra o tirano Maxêncio, veio com o regimento a que pertencia aquartelar-se perto duma pequena cidade, não muito distante de Tebas, onde não somente ele, mas todo o exército se achou em extrema penúria de víveres.

“Tendo isto chegado ao conhecimento dos habitantes da pequena cidade, que por um feliz acaso eram fiéis a Jesus Cristo, e por conseqüência amigos e caritativos para com o próximo, imediatamente forneceram aos soldados tudo o que precisavam, mas com tanta solicitude, urbanidade e desvelo, que Pacômio, transportado de admiração, perguntou que nação era aquela, tão benévola, afável e generosa. Disseram-lhe que eram Cristãos, e inquirindo novamente sobre a lei e maneira de viver deles, soube que acreditavam em Jesus Cristo, Filho único de Deus, e que faziam bem a toda sorte de pessoas, com a firme esperança de receber uma ampla recompensa no Céu. Ah! Teotimo, o pobre Pacômio, apesar de sua boa índole, dormia ainda nesse tempo no leito da infidelidade; e eis que de repente, Deus bate à porta do seu coração, e pelo bom exemplo daqueles cristãos, como por uma doce voz, chama-o, acorda-o, e dá-lhe a primeira impressão do calor vital do seu amor.  Apenas ouviu falar, como acabo de dizer, da amantíssima lei do Salvador, cheio duma nova luz e consolação, retirou-se à parte, e refletindo algum tempo em si mesmo, levantou as mãos ao céu, e com um profundo suspiro, exclamou:  “Ó Senhor Deus, que fizestes o céu e a terra, se vos dignardes lançar os vossos olhos sobre a minha baixeza, e sobre a minha aflição, para me dardes o conhecimento da vossa Divindade, prometo servir-vos, e obedecer toda a minha vida aos vossos mandamentos”. Depois desta súplica e promessa, o amor do verdadeiro bem e da piedade tomou um tal aumento nele, que nunca mais cessou de praticar mil e mil exercícios de virtude”

Mais adiante São Francisco de Sales comenta: “Por certo aquele transporte de admiração que ele teve, outra coisa não foi, senão o seu acordar, pelo qual Deus tocou, como o sol toca a terra, com um raio de luz, que o encheu dum grande sentimento de gozo espiritual”...(2) 

Quer dizer, São Pacômio fascinado, maravilhou-se; maravilhado encheu-se de entusiasmo, isto é, de Deus, da graça divina; cheio de entusiasmo, converteu-se; convertido, tornou-se santo.

Dr. Plínio comenta que há hoje um encalhe espiritual em toda a sociedade que impede as pessoas de se converterem e de praticar as virtudes cristãs. O mesmo ocorria com os povos pagãos daqueles tempos, que, ao verem o modo de vida dos cristãos, maravilhavam-se e, fascinados, se convertiam, desencalhando suas almas para a prática do bem e o amor a Deus.

 Esplendor e fascínio   

E para que a Contra-Revolução cumpra fidedignamente o seu papel devemos nos apresentar com todo esplendor. Só assim poderemos fascinar os revolucionários, a ponto de torná-los contra-revolucionários. A propósito deste apostolado do esplendor, Dr. Plínio deu os seguintes princípios numa “palavrinha” aos equatorianos e uruguaios, em 31-01-92, e comentada pelo Sr. João Clá em 26-05-2003 (que ainda não era sacerdote). É preciso notar que quando Dr. Plínio se refere à TFP ele está, “ipso facto”, referindo-se a ele mesmo ou a uma Família de Almas, pois a Entidade era apenas o resultado da doutrina dele, da ação dele, do apostolado dele refletido nessa Família, e assim os dois como que se confundiam sob a mesma denominação :

“Qual é a doutrina da TFP?

A doutrina da TFP é a seguinte. Que em matéria de ideologia, doutrinária como nós travamos – nossa luta é uma luta religiosa, no sentido mais amplo da palavra – comporta a diferença no modo de ver a religião.

Mas, depois, todas as conseqüências que isso tem no terreno político, cultural, etc.etc., que são incalculáveis. Em todas essas conseqüências, cada conseqüência é uma trincheira, de dentro da qual nós estamos atirando argumentos sobre o adversário. Esse seria o gráfico da TFP..

  E há o seguinte. No interior de cada homem há um contraste – isso em todas as épocas foi assim – que se define da seguinte maneira:

No interior do revolucionário há um contra-revolucionário que dorme. E no interior do contra-revolucionário há um revolucionário que dorme.

O problema para os revolucionários é acordar em nós o revolucionário. E o problema para nós, contra-revolucionários, é acordar o contra-revolucionário que dorme. Porque quem consiga acordar a outra parte, ganha a batalha. 

Mostrar o esplendor da Contra-Revolução

Então, o que é preciso para nós, mais do que tudo, é sabermos difundir e tornar claro àqueles com quem nós fazemos apostolado, o esplendor – eu intencionalmente não estou falando de beleza, estou falando de esplendor que é um grau superlativo de beleza – o esplendor da Contra-Revolução.

É preciso que ele sinta esse esplendor, que ele compreenda o esplendor, o esplendor da Igreja.  Não a Igreja nos seus aspectos artificiais e adulterados do progressismo, etc., etc. mas a Igreja no seu aspecto clássico, tradicional, magnífico, a Igreja no seu esplendor, a civilização cristã no seu esplendor; os monumentos, os homens, as instituições, os fatos, os gestos que ela despertou, os heroísmos, as dedicações, os martírios, tudo mais que ela suscitou.

Que eles compreendam a beleza e a santidade da austeridade, do sacrifício, da luta, portanto, da castidade. Mais esplendorosa do que a castidade, só há uma coisa, é a Fé.  É evidente isso. E é preciso que nós tenhamos a alma cheia disso e tenhamos fatos concretos, tenhamos figuras, tenhamos fotografias, tenhamos meios de apresentar isso aos outros...

Arautos de um mundo novo que vem

Durante um primeiro período, que corresponde à revolução que o neófito vai tendo, fala-se preponderantemente e não exclusivamente nos horrores de hoje. No outro período se continua a falar dos horrores de hoje, mas se começa a preponderar no falar dos esplendores de outrora, como esplendores de amanhã.

Não sermos apenas os cicerones de um museu do mundo antigo, mas sermos os arautos de um mundo novo que vem, que é o mundo antigo aprimorado e aperfeiçoado pela graça da Santíssima Virgem”. 

 

(1)   – “Tratado do Amor de Deus” – Liv. Apostolado da Imprensa , pp. 104/105

(2)   - op.cit, págs. 104/105

 


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

AS NOVE MANEIRAS DE REZAR DE SÃO DOMINGOS DE GUSMÃO

 




          ”As Nove Maneiras de Oração de São Domingos”
foi escrito por um autor anônimo, provavelmente em Bolonha, em algum momento entre 1260 e 1288. A fonte de sua informação foi a Irmã Cecília do Mosteiro de St. Agnes, em Bolonha (que tinha sido recebida pelo hábito de S. Domingos) e outros que tinham estado em contato com o Fundador Santo. Este documento atesta a venerável eminente santidade do Santo, mostrando algo de sua vida íntima e intenso amor de Deus. Os trabalhos iniciais da obra foram acompanhados por desenhos em miniatura para ilustrar as diferentes posturas que São Domingos teve quando estava em oração.

Santos doutores, como Agostinho, Ambrósio, Gregório, Hilário, Isidoro, João Crisóstomo, João Damasceno, Bernardo e outros autores muito piedosos, tanto gregos como latinos, trataram com grande amplitude da oração, a têm recomendado e descrito; têm dissertado acerca de sua necessidade, utilidade e modo de fazê-la, assim como da preparação e impedimentos para a mesma. Porém o glorioso e venerável doutor Tomás de Aquino e Alberto Magno, da Ordem dos Pregadores, ao longo de suas obras, do mesmo modo que Guilherme no tratado das virtudes, têm exposto com nobreza, santidade, devoção e elegância a maneira de orar na qual a alma se serve dos membros do corpo para lançar-se com maior devoção a Deus. Deste modo, a alma, uma vez que move o corpo é movida por ele, e assim em algumas ocasiões entra em êxtase, como ocorria com São Paulo, outras vezes em arroubamento, como acontecia com o profeta David. Deste modo rezava com freqüência Domingos e algo diremos aqui sobre o particular.

Também os santos do Antigo e do Novo Testamento rezavam desta maneira algumas vezes. Porque tal modo de orar excita alternativamente a devoção, da alma ao corpo, e do corpo à alma. Este modo de oração fazia prorromper em forte pranto a São Domingos e se acendia o fervor de sua boa vontade em tal grau que não conseguia ocultá-lo sem que transluzisse sua devoção através de uma certa expressão corporal. Sua alma em oração se elevava às vezes a formular petições, rogos e ações de graças.

Se aludirá a seguir de seus modos especiais de rezar. Não se faz menção detalhada daqueles outros que tinha, muito devotos e constantes, na celebração da missa e recitação do ofício divino, onde se percebia o momento como se elevava freqüentemente em espírito por cima de si e se mantinha no trato com Deus e os anjos durante a oração das horas canônicas, bem fora no coro ou de viagem.

Primeiro modo de orar

O primeiro modo de orar consiste em humilhar-se ante o altar, como se Cristo representado nele, estivesse ali real e pessoalmente e não apenas simbolicamente. Comportava-se assim em conformidade ao seguinte texto do livro de Judite: “sempre te agradou a súplica dos mansos e humildes” (Jud. 9, 16). Pela humildade obteve a Cananéia quanto desejava (MT 15, 21-18) e o mesmo o filho pródigo (Lc 15, 11-32). Inspirava-se também nestas palavras: “Eu não sou digno que entreis em minha casa (MT 8,8); Senhor, ante ti tenho me humilhado sempre (Salmo 146, 61)”.

E assim, nosso Pai, mantendo o corpo ereto, inclinava a cabeça, olhando humildemente a Cristo o reverenciava com todo seu ser, considerando sua condição de servo e a excelência de Cristo. Ensinava a fazê-lo assim aos frades quando passavam diante do crucifixo, para que Cristo, humilhado por nós até o extremo, nos visse humilhados ante sua majestade. Mandava também soa frades que se humilhassem deste modo ante o mistério da Santíssima Trindade quando se cantasse o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Este modo de orar inclinando profundamente a cabeça, como se mostra na gravura, era o ponto de partida

Segundo modo de orar

São Domingos rezava também, com freqüência, completamente prostrado, rosto em terra. Doía-se em seu interior e se apostrofava a si mesmo, e o fazia às vezes em tom tão alto que em algumas ocasiões o ouviam recitar aquele versículo do Evangelho: “Ó Deus! Tem compaixão deste pecador” (Lc 18, 13). Com piedade e reverência, recordava freqüentemente aquelas palavras de Davi: “Sou eu o que pecou e obrou iniquamente” (Salmo 50, 5). Chorava emitindo fortes gemidos; depois, exclamava: “Não sou digno de contemplar a grandeza do céu, por causa de minha iniqüidade, porque tenho provocado tua ira e tenho obrado mau ante teus olhos”. Do salmo, que começa “com nossos ouvidos”, oh Deus temos ouvido, recitava com vigor e devoção o versículo que diz: “Porque minha alma foi humilhada até o pó, e meu corpo pegado à terra (salmo 43, 26)”; e também: “Pegada ao solo está minha alma, conserva minha vida conforme tua palavra (Salmo 118, 25)”.

Em alguma ocasião, querendo ensinar aos frades com quanta reverência deviam orar, dizia-lhes: “Os piedosos Reis magos entraram na casa, viram o menino com Maria sua Mãe, e, caindo de joelhos, O adoraram (MT 2, 11)”. É, pois, certo que também nós encontramos o Homem-Deus com Maria, sua escrava; vinde, adoremos, prostremo-nos por terra, choremos ante o Senhor que nos criou (Salmo 94, 6). Exortava também aos jovens, dizendo: “Se não podeis chorar vossos pecados porque não os tens, há muitos pecadores necessitando de misericórdia e caridade. Por eles gemeram os profetas e os apóstolos. Contemplando-os Jesus, chorou amargamente, e o mesmo fazia o santo profeta David, dizendo: “Vindo aos renegados, sentia asco (Salmo 118, 158)”.

Terceiro modo de orar

Motivado São Domingos por tudo quanto procede, se elevava do solo e se disciplinava com uma cadeia de ferro, dizendo: “Tua disciplina me adestrou para o combate” (Salmo 17, 35)”. Esta é a razão pela qual a Ordem inteira estabeleceu que todos os frades, trazendo à memória o exemplo de São Domingos, se disciplinassem com varas sobre suas costas nuas, nos dias de descanso depois das completas. Venerando este exemplo, recitam o salmo que começa: “Misericórdia, Deus meu (Salmo 50)”, ou aquele outro: “Desde o mais profundo clamo a ti, Senhor (Salmo 129)”. A disciplina se toma para expiação das próprias culpas, ou pelas daqueles de cujas esmolas vivem. Em conseqüência, ninguém, por inocente que seja, deve se apartar desde santo exemplo. Tal modo de oração fica refletido na figura seguinte.

 Quarto modo de orar

Depois disto, São Domingos, ante o altar da igreja o una sala capitular, voltava-se para o crucifixo, o olhar com suma atenção, e ajoelhava-se uma e outra vez; fazia muitas genuflexões. Às vezes, após a reza das completas e até á meia noite, ora levantava-se, ora ajoelhava-se, como fazia o apóstolo Santiago, ou o leproso do Evangelho que dizia, de joelhos: “Senhor, se quiserdes, podeis curar-me” (MT 8, 2), ou como Estevão que, ajoelhado, clamava com voz forte: “Não lhes tenha em conta este pecado” (Atos 7,60). O Pai São Domingos tinha uma grande confiança na misericórdia de Deus, tanto em seu favor quanto para o bem de todos os pecadores e em amparo dos frades jovens que enviava a pregar. Em ocasiões não podia conter sua voz e os frades o escutavam dizer: “A ti, Senhor, vos invoco, não sejas surdo à minha voz, não vos cale” (Salmo 27, 1); assim como outras palavras pelo estilo da Sagrada Escritura.

Em outras ocasiões falava para seu interior, sem que ouvisse em absoluto o que dizia, permanecendo absorto de joelhos, às vezes por longo tempo. Havia momentos nos quais parecia que neste modo de orar sua alma penetrava nos céus; logo era visto transbordante de gozo e enxugando-se as lágrimas. Levantava-se nele um grande desejo, como um sedento que se dirigia para a fonte ou peregrino que já estava perto da pátria. Crescia e se fortalecia em seu ânimo; ao levantar-se e ajoelhar-se o fazia com uma grande compostura e agilidade. Estava tão acostumando a ajoelhar-se que, em viagem, nas casas onde se hospedavam, depois do caminhar cansativo e nos caminhos, enquanto dormiam e descansavam os demais, ele voltava para as genuflexões coma arte própria sua e peculiar ministério. Ensinava aos frades à orar desta mesma maneira, mais com o exemplo do que com as palavras.

Quinto modo de orar

Algumas vezes o Pai São Domingos, estando no convento, permanecia em pé, erguido ante o altar, mantinha seu corpo direito sobre os pés, sem apoiar-se nem obter ajuda de coisa alguma. Às vezes tinha as mãos estendidas ante o peito, a modo de livro aberto, e assim se mantinha com muita reverência e devoção, como se lesse ante o Senhor. Na oração se lhe via meditar a palavra de Deus, e como se a relatasse docemente para si mesmo. Servia-lhe de exemplo aquele gesto do Senhor, que se lê no Evangelho segundo São Lucas, a saber: Que entrou Jesus segundo seu costume, quer dizer, no sábado, na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura (Lc 4, 16). E também se disse no salmo: Finéias levantou-se, e orou, e a praga cessou (Salmo 105, 30).

Às vezes juntava as mãos à altura dos olhos, entrelaçando-as fortemente e dando uma com outra, como ungindo-se a si mesmo. Elevava também as mãos até os ombros, tal como faz o sacerdote quando celebra a missa, como se quisesse fixar o ouvido para perceber com mais atenção algo que se lhe diria desde o altar. Se tivesses visto, leitor, a devoção com que rezava em pé, te houvera parecido que contemplavas a um profeta que, com um anjo ou com Deus, ora falava, ora escutava, ora meditava em silêncio sobre o que lhe havia sido revelado. Se quando ia a caminho furtava logo às escondidas algum tempo para rezar, sua mente em contínua vigília, tendia no momento para o céu; logo o ouvirias pronunciar com grande doçura e delicadeza algumas palavras consoladoras, tomadas do cérebro e do mais substancial da Sagrada Escritura; parecia que as havia tirado das fontes do Salvador. Os frades se animavam muito com este exemplo, contemplando ao seu Pai e Mestre; se dispunham com maior devoção a orar, reverente e continuamente. Como estão os olhos da escrava fixos nas mãos de sua senhora, e como estão os olhos dos escravos fixos nas mãos de seus senhores (Salmo 122,2).

 Sexto modo de orar

Às vezes se via também orar ao Pai São Domingos, com as mãos e braços abertos e muito estendidos, a semelhança da cruz, permanecendo direito na medida em que lhe era possível. Orou deste modo quando, por sua oração, Deus ressuscitou o menino chamado Napoleón ; orou na sacristia de São Sixto de Roma, e na igreja durante a celebração da missa, elevando-se do solo, como narrou a devota e santa Sóror Cecília, que se achava presente e o viu, da mesma forma que uma multidão de pessoas; como Elias, quando ressuscitou ao filho da viúva estendendo-se sobre o menino (1 Reis 17, 17-24). De modo semelhante orou quando, junto a Toulouse, livrou os peregrinos ingleses do perigo de afogar-se no rio. Deste modo orou o Senhor enquanto pendia da cruz, quer dizer, com as mãos e braços estendidos, e com grande clamor e lágrimas foi escutado por seu reverencial temor (Hb 5, 7).

Mas São Domingos não utilizava este de rezar senão quando, inspirado por Deus, sabia que ia-se operar algo grande e maravilhoso em virtude da oração. Nem proibia aos frades orar assim, nem se lhos aconselhava. Quando ressuscitou aquele menino rezando deste modo, em pé, com os braços e mãos estendidos em forma de cruz, não sabemos o que dizia. É possível que pronunciasse as mesmas palavras do profeta Elias: “Senhor, Deus meu! Que volte, vos rogo, a alma deste menino a entrar nele!” (1 Reis 17, 21). Os presentes observavam este modo de orar, porém os frades e freiras, os senhores e cardeais, e os demais que acompanhavam aquela maneira de orar desacostumada e admirável, não reconheceram as palavras que pronunciou. Depois não lhes foi permitido interrogar acerca de tudo isto ao santo e admirável Domingos, o qual neste ponto se mostrou com todos muito digno de respeito e reverência. Sem embargo, pronunciava com ponderação, gravidade e oportunamente as palavras do Saltério que fazem referência a este modo de orar, dizia atentamente: “Senhor, Deus de minha salvação, de dia vos peço auxílio, de noite grito em vossa presença”; recitava até aquele versículo: “Todo o dia vos estou invocando, Senhor, estendendo as mãos vazias!” (Salmos 87, 2-10). E também: “Escuta, Senhor, minha oração, presta atenção à minha súplica”, etc. até o versículo que diz: “Estendo minhas mãos para vós, etc.. escuta-me em seguida, Senhor”. (Salmos 142, 1-6). Por tudo isso poderá qualquer pessoa devota captar a oração deste Pai, e seu ensinamento ao rezar deste modo, quando queria ser transportado para Deus de modo admirável em virtude da oração, ou melhor, quando sentia desde o mais íntimo de seu ser que Deus o movia com especial força a uma graça singular; a pedi-la para si ou para outro, ilustrado pela doutrina da David, pelo fogo de Elias, pela caridade de Cristo e pela devoção de Deus, como aparece na figura.

 Sétimo modo de orar

Sem embargo, era encontrado com freqüência orando, dirigido completamente para o céu, a modo de uma flecha apontando para cima, que se projeta diretamente ao alto por meio de um arco retesado. Orava com as mãos elevadas sobre sua cabeça, muito levantadas e unidas entre si, ou bem um pouco separadas, como para receber algo do céu. Acredita-se que então se aumentava a graça nele e era arrebatado em espírito. Pedia a Deus para a Ordem que havia fundado os dons do Espírito Santo e agradável deleite na prática das bem-aventuranças. Pedia para si e para os frades manterem-se devotos e alegres na maior e estrita pobreza, no pranto amargo, nas graves perseguições, na fome e nas grandes sedes de justiça, na ânsia de misericórdia, até ser proclamados bem-aventurados; pedia, de igual modo, manterem-se devotos e alegres na guarda dos mandamentos e em cumprimento dos conselhos evangélicos. Parecia que então o Pai São Domingos, arrebatado em espírito, entrava no lugar santo entre os santos, quer dizer, no terceiro céu. Daí que, após esta oração, tanto nas correções como nas dispensas, ou na pregação, comportava-se como um verdadeiro profeta.

Não permanecia por muito o Pai São Domingos neste modo de orar. Voltava para si mesmo como quem chegava de longe, ou como quem vinha peregrinando. Isto podia se observar facilmente em seu aspecto e no modo de se comportar. Sem embargo, quando rezava com claridade, os frades o ouviam pronunciar algumas vezes as palavras do profeta: “Escuta minha voz suplicante quando vos peço auxílio, quando levanto as mãos até vosso santuário” (Salmos 27, 2). E ensinava pela palavra e com seu exemplo santo aos frades a que orassem assim continuamente, dizendo aquela frase do salmo: “Agora bendizei ao Senhor os servos do Senhor”. E também: “Senhor, estou vos chamando, vem depressa, escuta minha voz quando vos chamo”, etc., até as seguintes palavras: “Durante a noite levantai vossas mãos para o santuário” (Salmos 133, 1-2). E também: “E o levantar de minhas mãos [como oferenda da tarde]” (Salmos 140, 1). Porém, para que se entenda melhor quando se tem dito, ilustra-se com a figura seguinte.

 Oitavo modo de orar

 Nosso Pai São Domingos tinha outro modo de orar, formoso, devoto e grato para ele, que praticava após a recitação das horas canônicas, e depois da ação de graças que se faz em comum pelos alimentos recebidos. O mesurado e piedoso Pai, impulsionado pela devoção que lhe havia transmitido a palavra de Deus cantada no coro ou no refeitório, ia-se logo ficar sozinho em algum lugar, na cela ou em outra parte, para ler ou rezar, permanecendo consigo e com Deus. Sentava-se tranqüilamente e, feito o sinal da cruz, abria ante si algum livro; lia e se enchia sua mente de doçura, como se escutasse ao Senhor que lhe falava, em conformidade com o que se diz no salmo: “Vou escutar o que diz o Senhor”, etc (Salmo 84, 9). E, como se detivesse com um acompanhante, aparecia, ora impaciente, a julgar por suas palavras e atitude, ora tranqüilo à escuta, se o via disputar e lutar, rir e chorar, fixar o olhar e baixá-lo, e de novo falar sob golpes dados no peito.

Se algum curioso quisesse observá-lo escondido, o Pai São Domingos se lhe haveria parecido a Moisés, que penetrou no deserto, chegou ao monte de Deus Horeb, contemplou a sarça ardente e rezou com o Senhor e se humilhou a si mesmo (Gen 3, 1-6). Este monte de Deus não é como uma imagem profética de piedoso costume que tinha nosso Pai, de passar facilmente da leitura á oração, da oração á meditação, e da meditação á contemplação?

Ao longo deste leitura feita em solidão, venerava o livro, inclinava-se para ele, e também o beijava, em especial se era o códice do Evangelho, ou se lia palavras que Cristo havia pronunciado com sua boca. Às vezes ocultava o rosto enrolando-se com a capa, ou escondia a face entre as mãos, velando-se um pouco com a capucha; chorava cheio de vergonha e de dor, e também, como se agradecesse a um alto personagem os benefícios recebidos, levantava-se um pouco com toda reverência e inclinava sua cabeça; plenamente refeito e tranqüilo, lia novamente o livro.

 Nono modo de orar

 Observava este modo de orar ao se transportar de uma região a outra, especialmente quando encontrava-se em lugares solitários; passava o tempo meditando, quer dizer, em contemplação. Dizia às vezes a seu companheiro de caminho: “Está escrito no livro de Oséas: A levarei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2, 14). Em ocasiões apartava-se de seu companheiro e adiantava-se, ou então, com mais freqüência, o seguia de longe; assim caminhava só e rezava; acendia-se na meditação, ou dito de outro modo, abrasava-se no fogo. Chegava neste modo de oração a fazer gestos como para afastar de seu rosto fagulhas ou moscas; por isto protegia-se freqüentemente com o sinal da cruz. Pensavam os frades que neste modo de orar havia alcançado o Santo a plenitude de conhecimento da Sagrada Escritura, a inteligência do mais sublime da palavra de Deus, um poder audaz de pregar fervorosamente, e uma secreta familiaridade com o Espírito Santo para conhecer as coisas ocultas.

 

 

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Extraído e traduzido da página oficial da Ordem dos Pregadores:

 

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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

O PAPEL DE SANTA LÍDIA NA PROPAGAÇÃO DO CRISTIANISMO NA EUROPA

 



Os episódios e comentários a seguir foram extraídos de uma biografia de São Paulo, de autoria do alemão Joseh Holzner:

“Lídia, a comerciante de púrpura de Filipo  (Act 16, 11-15)

Foi um grande dia da história do gênero humano, quando São Paulo e seus três companheiros puseram seus pés pela primeira vez ns Macedônia, em solo europeu. Noutros tempos viveu aqui um valente, são e nobre povo, que pela atrevida empresa de um jovem rei não somente foi célebre no mundo, mas também, no pensamento da Providência, já séculos antes havia de preparar ao Evangelho o caminho sobre a terra. Com uma simplicidade e grandeza admiráveis, disse a Sagrada Escritura no início do Livro dos Macabeus: “E sucedeu que depois que Alexandre da Maceônia derrotou Dario, rei dos persas e medos, tomou por assalto todas as fortalezas, vencendo todos os reis da terra e penetrado até nos últimos termos do orbe, emudeceu o mundo diante dele... Depois caiu enfermo e conheceu que havia de morrer”. (I Mac 1, 1-8). Mesmo os maiores homens, chamados Alexandre ou César, são somente preparadores do caminho e criados de Deus. Eles haveriam de abrir os sulcos em que o divino Semeador pudesse espalhar sua semente. Entre todos os povos da antiguidade os macedônios foram os que mais assemelharam-se aos romanos. Desde o ano 167 antes de Cristo os romanos foram senhores do país e o dividiram em quatro distritos de governo, dos quais os mais importantes foram Tessalônica e Filipos.

Ao longe já se via o templo de Diana da pequena cidade marítima de Neápolis (hoje Kawalla), a qual está situada em forma de teatro sobre um saliente rochedo banhado pelo mar. Um círculo, no pavimento da igreja de São Nicolau assinala hoje o lugar onde São Paulo desembarcou.  Junto à pequena cidade, nossos viajantes, ora pela famosa estrada romana Via Egnacia, ora por um caminho escavado na rocha, subiram ao monte costeiro Pangeo até à altura do desfiladeiro, onde se abriu ante seus olhos uma vista admirável até o norte. Viram sob a planície do vale, rico em fruteiras, na qual se levantava defronte, sobre o último prolongamento da montanha, Filipos com sua acrópole. Era uma paisagem cheia da antiga poesia bucólica. Agora estava ali os mensageiros de uma nova liberdade, os arautos de um novo conquistador do mundo, que sem espada havia feito mais pela liberdade do mundo que todos os campeões da liberdade juntos. O imperador Augusto havia elevado Filipos à categoria de colônia militar romana com direito municipal itálico e isenção de tributos. Os veteranos se julgavam romanos genuínos e haviam levado consigo, com suas divindades romanas, Minerva, Diana, Mercúrio e Hércules, a honradez e conduta romanas. Pela estrada militar romana que atravessava toda Macedônia de leste a oeste e à outra parte do Adriático ia por Brindis até Roma, sentiam-se unidos com a capital do mundo e o Júpiter Capitolino. Desta forma, Filipos veio a ser uma cidade provincial típica romana, uma Roma pequena com foro, teatro, acrópole e muralhas fortificadas. Os cidadãos estavam orgulhosos de sua constituição favorável à liberdade e à maneira dos cônsules elegiam cada ano dois prefeitos ou “arcontes”, chamados também pelo povo de “estrategas”. Quando estes iam ao foro para pronunciar sentença, precediam-lhes como em Roma dois litores.

Mas em meio a estes romanos viviam ainda os descendentes dos nativos da Macedônia e Trácia que o rei Filipo havia estabelecido aqui noutro tempo para cavar em busca de ouro no Pangeo. Eram todavia intratáveis. Os homens, ásperos, soberbos e teimosos; as mulheres, livres e ansiosas por independência, falavam retamente sobre política e tinham parte nas eleições e turbulências políticas. Se aqui as mulheres se faziam cristãs, podiam exercer grande influência.  Sobretudo as almas das mulheres, tão sensíveis para o celestial, facilmente se lhes comunicava fervor religioso, porque estavam em parte imbuídas em doutrinas orientais misteriosas com seus hinos sublimes e ideias de imortalidade. São Paulo encontrou aqui, sobretudo entre as mulheres, adeptos entusiastas. Filipos prometia ser um proveitoso campo de missão.

Nos dias seguintes indagaram as perspectivas e pontos de contato para a pregação do Evangelho. Assim chegou o sábado. Viviam poucos judeus em Filipos. Não havia nenhuma sinagoga, porque faltava o número dos escribas requeridos segundo a lei rabínica para formar um tribunal. Mas, se não conseguiram possuir uma sinagoga pelo menos havia de ter um lugar fechado, rodeado de um muro ou cercado de sebe como lugar de oração. Os rabinos sabiam que o povo sem o exercício público de religião logo haviam de cair na indiferença ou no ateísmo. São Lucas teve conhecimento de dito lugar, e conduziu seus compatriotas para a porta da cidade, ao longo do curso do rio Gangas. Ali viram logo o lugar rodeado de uma parede baixa de jardim. Com admiração sua encontraram dentro do cercado somente algumas mulheres, parte judias, parte gentias tementes a Deus, que rezavam suas devoções da manhã. Majestosamente ao fundo o Pangeo alçava seu cume nevado e ao lado o arroio murmurava sua melodia. Estas mulheres não sabiam muito seguramente, mas tinham um vivo interesse religioso; e àquele que tem isso Deus o leva mais adiante. Aqui ante estas mulheres conseguiu São Paulo dar livre curso a seu coração. Poucas vezes terá tido um público tão agradecido. Neste grupo de mulheres causa maravilha ver a uma senhora bem vestida, especialmente interessada no que toca a religião, a qual não era de Filipos, mas uma piedosa pagã vinda de Tiatira, na Lídia. Por isso era chamada de Lídia. Era uma rica comerciante, que, sem dúvida, depois da morte de seu esposo, do qual nada sabemos, continuou na cidade seu negócio com telas de púrpura. Sua pátria, Tiatira, era conhecida desde os tempos de Homero (Ilíada 4, 141) pelo comércio de púrpura. A púrpura era um tecido precioso e o comércio com ele exigia grande capital. Lídia era uma daquelas almas cristãs por natureza, que, logo ao ouvir falar de Jesus, o reconhecem ao ponto como o caminho, a verdade e a vida. É uma representação encantadora saber que a este ato religioso da manhã assistiram também, além de Lídia, Evodia e Sintique, que mais tarde rivalizaram entre si, e às quais São Paulo em sua carta aos filipenses exortou tão afetuosamente à paz. Assim, pois, temos já várias pessoas conhecidas nesta cidade.

Temos de ser muito reconhecidos a São Lucas pela formosa palavra com que introduz a conversação de Lídia, e que nos descobre sua compreensão do coração da mulher e da obra da graça: “O Senhor lhe abriu o coração para que escutasse atentamente as palavras de São Paulo”. Era uma mulher prudente e refletida. Uma hábil mulher de negócios analisa tudo detalhadamente. Mas aqui não há para ela nenhuma demora. Com extraordinária rapidez se resolve receber o batismo. Talvez tenha sido no mesmo dia, na noite de sábado para o domingo, quando São Paulo e seus companheiros com as mulheres recém convertidas desceram o sussurrante Gangas, onde se efetuou a solenidade do batismo. A resoluta comerciante Lídia, com seu jeito enérgico e vigoroso voz de dona de casa, logo também dispôs que todos seus criados recebessem o batismo. Mais ainda, dada sua energia é de suspeitar que não somente em Filipos, mas também em sua terra Tiatira foi uma apóstola de Cristo, e teve parte no louvor que São João no Apocalipse escreve por ordem de Jesus ao anjo da comunidade de Tiatira: “Conheço tuas obras, tua caridade, tua fé, teus serviços e tua paciência” (Apoc 2, 19).

Sua segunda ação como cristã foi convidar todos os missionários a deixar seu albergue e alojar-se em sua espaçosa casa de comércio: “Se me tendes por fiel ao Senhor”, disse. Isto estava cordialmente falado. Lídia tinha realmente boas razões: Sua casa era o único lugar adequado para as reuniões de culto da futura comunidade cristã. O que também seu pundonor cristão, sua necessidade material,  sua ambição feminina encontrassem certa satisfação em abrigar a primeira igreja cristã e favorecer os missionários, quem poderia vituperá-la por isso? “Assim nos obrigou!”, acrescenta São Lucas, risonho. Era uma honra para Lídia que São Paulo aceitasse o convite. Ela foi uma coluna para a igreja apostólica, uma amiga maternal do Apóstolo, de todos os mensageiros da fé e da recente comunidade. Quando São Paulo escreve depois : “Vós o sabeis, filipenses meus: quando comecei a pregar o Evangelho entre vós, e depois saí da Macedônia, nenhuma comunidade entrou comigo numa relação do mútuo dar e recebe senão somente a vossa... Também à Tessalônica me haveis enviado mais de uma vez algo para socorrer minha necessidade” (Filipenses 4, 15-16), sem dúvida muitas destas dádivas passaram pelas mãos de Lídia.

Quem haveria de pensar que o Evangelho faria sua entrada na Europa tão calada e ocultamente? Não solenemente como no Areópago ante os filósofos, não dramaticamente como em Chipre ante o homem de Estado, mas em forma de idílio como uma manhã de verão fresca pelo rocio ou como uma deliciosa aurora no Oriente. Estes suaves e contudo vigorosos tons de sentimento introduziu a mulher no Evangelho já no tempo de Jesus. E em Filipos continua ecoando. Quando o Evangelho veio para a Europa, chegou primeiramente para as mulheres, porque os homens não estava presentes, como também entre os samaritanos foi uma mulher a que Jesus iniciou no mistério do reino de Deus. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, na sepultura, assim as primeiras junto ao sepulcro vazio. Nas tristes histórias de hipocrisias, ódios, perseguições, injúrias, deserções e covardes fugas não encontramos no Evangelho mulher alguma. Os homens, como mensageiros da fé,e missionários e defensores dos interesses religiosos estão, na verdade, mais na luz do reverbero; porém, onde estaria a Europa cristã sem a mulher cristã em casa como mãe, esposa, irmã, como auxiliadora virginal-maternal da miséria de todas as classes? São Paulo teve para este lado da feminilidade uma profunda compreensão e foi o primeiro em empregar a mulher ativamente na missão. Ele aprecia a mulher dotada de gênio, como Priscila que instrui ao douto Apolo. Em qualquer de suas cartas dispensa saudações e reconhecimento para as mulheres. Reconhece os serviços de Cloe em Corinto, de Febe em Cencreas, a quem confia sua carta aos romanos, e o ser pequena mulher a mãe Rufo que foi também para ele uma mãe. Quando escreve ao rico comerciante Filemon não esquece de saudar sua esposa Apfia. Aprecia especialmente o trabalho da mulher de família e a educação dos filhos, pela qual a mulher adquire o céu; aprecia as filhas virgens de Filipe de Cesarea, dotadas de profecia; seu cuidado se dirige também às boas viúvas, que se destacavam no campo da caridade e por isso eram mantidas pela comunidade (I Tim 5, 3-16). Como profundo conhecedor do gênero humano tem uma olhada para todos os bons lados do caráter feminino. As nobres mulheres de Filipos como santas figuras estão às portas da Europa, como se quisessem recordar a todas suas irmãs desta parte do mundo que as mulheres da Europa têm na Igreja cristã um santo destino, de ser sacerdotisas, às quais se confiou em primeiro lugar o sagrado fogo que fez feliz e grande a nossa parte do mundo.

Mas tampouco devemos esquecer àqueles nobres varões, como Epafrodito, a quem São Paulo chama seu “companheiro de armas, co-militante e colaborador”, que visita o Apóstolo preso em Roma e lhe traz presentes. Também Clemente e Sicigo (se realmente esta última palavra é um nobre mesmo) e muitos outros.estão ao lado daquelas mulheres, e em verdade com tal constância que São Paulo sabe estar escritos seus nomes no livro da vida (Fil. 4, 3)

Nenhuma comunidade foi tão amada por São Paulo como Filipos. Ela foi em solo europeu seu primeiro amor, “seu gozo e sua coroa” (Fil. 4, 1). “Deus é testemunho de como os amo a todos vós do fundo do coração” (Fil. 1, 8).

 (“San Pablo – Heraldo de Cristo” – de Josef Holzner – Editorial Herder, Barcelona, 1956 – págs. 180/185)

Reportamo-nos à nossa postagem a seguir com maiores detalhes sobre a vida de Santa Lídia:

https://quodlibeta.blogspot.com/2017/08/santa-lidia-e-expansao-do-cristianismo.html

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

OS SANTOS MACABEUS, PREFIGURAS DOS MÁRTIRES CRISTÃOS

 


O maior sofrimento que havia para as mulheres mártires era para aquelas que eram mães. Principalmente se elas tinham seus filhos como cristãos, portanto fortes candidatos ao martírio juntamente com elas. No tempo dos Macabeus, que, embora não houvesse chegado o Cristianismo, o espírito cristão já predominava naquela família, o rei Antíoco determinou que o seu deus, Júpiter Olímpico, fosse também adorado entre os hebreus de Jerusalém. Havia na cidade vários templos e altares consagrados aos deuses pagãos, mandados construir por Antíaco, e a família dos Macabeus era a última resistência dos hebreus contra esta investida idolátrica.

Como se fosse uma prefigura dos mártires cristãos, ocorreu o martírio dos sete irmãos macabeus, assim narrados pela Sagrada Escritura:

"Aconteceu também que, tendo sido presos sete irmãos com sua mãe, o rei os queria obrigar a comer carne de porco contra a lei, atormentando-os para isso com açoites que lhes davam com azorragues e nervos de boi.

Um deles, em nome de todos, falou assim: Que pretendes, que queres saber de nós ? Estamos prontos antes a morrer que violar as leis de nossos pais.  O rei, irritado, mandou pôr ao fogo frigideiras e caldeirões.  Logo que ficaram em brasa, ordenou que se cortasse a língua ao que tinha falado primeiro, e que, arrancado da cabeça o couro cabeludo, lhe cortassem também as extremidades, à vista dos outros seus irmãos e de sua mãe. Depois de estar assim mutilado, mandou que o chegassem ao fogo e o torrassem na frigideira, quando ainda respirava. Enquanto se difundia largamente o vapor da frigideira, os outros (irmãos) exortavam-se mutuamente com sua mãe, a morrerem corajosamente, dizendo: O Senhor Deus vê e consola-se em nós, conforme o declarou Moisés no seu cântico de protesto (contra Israel), por estas palavras: Ele será consolado nos seus servos.

Morto deste modo o primeiro, levaram o segundo ao suplício. Arrancado da cabeça o couro cabeludo, perguntaram-lhe se queria comer (das carnes que lhe apresentavam) antes que ser atormentado em cada um dos membros do seu corpo. Respondendo na língua de seus pais, disse:  Não! Pelo que também esse padeceu os mesmos tormentos que o primeiro. Estando já para dar o último suspiro, disse desta maneira: Tu, ó malvado, fazes-nos perder a vida presente, mas (Deus) o Rei do universo, nos ressuscitará para a vida eterna, a nós  que morremos, por fidelidade ás suas leis.

Depois deste, torturaram também o terceiro. Tendo-lhe sido pedida a língua, ele a apresentou logo, assim como estendeu as mãos corajosamente, e disse afoito: Do céu recebi estes membros, mas agora os desprezo pela defesa das suas leis, esperando que ele nos tornará a dar um dia. O próprio rei e os que o acompanhavam admiraram o valor deste jovem, que reputava por nada os tormentos.

Morto este, atormentaram da mesma forma o quarto. Quando ele estava já para expirar, disse: Felizes os que são entregues á morte pelos homens, esperando em Deus que hão de ser por Ele ressuscitados; porém, quanto a ti (ó rei),a tua ressurreição não será para a vida.

Em seguida, pegaram no quinto e atormentaram-no. Mas ele, olhando para o rei disse-lhe: Tu fazes o que queres, porque recebeste o poder entre os homens, ainda que mortal entre eles; todavia não cuides que Deus desamparou a nossa nação;  espera e verás quão grande é o seu poder e como ele te atormentará a ti e a á tua raça.

Após este, levaram (ao suplício)  o sexto, que, quando estava perto de morrer, disse: Não te iludas;  se padecemos isto, é porque o merecemos pelos pecados contra o nosso Deus, pelos quais vêm sobre nós tão espantosos flagelos. Mas não imagines que hás de ficar sem castigo, depois de teres empreendido combater contra Deus".

A Sagrada Escritura detalha o suplício dos sete irmãos, até o sexto, sem fa-lar que a mãe os assistia. Mas é de se imaginar. Se ela estava presente, vendo seus filhos serem martirizados, e da forma mais horrorosa conforme descrita, que sofrimentos indescritíveis não estaria também passando. Cada filho que ia para o sacrifício era uma tremenda dor para seu coração de mãe. Certamente, tanto os maus conselhos das pessoas que a acompanhavam como em seu interior, devem ter surgido várias tentações para ceder; e, cedendo, poderia ganhar talvez não a vida de seus filhos, mas a sua.

Mas a Sagrada Escritura não se esqueceu de mãe tão heróica,  e relata como ela enfrentou tamanho martírio:

"Entretanto a mãe deles, sobremaneira admirável e digna de memória, vendo morrer os seus sete filhos em um só dia, suportou heroicamente a sua morte, pela esperança que tinha no Senhor. Cheia de nobres sentimentos, exortava, na língua de seus pais, a cada um deles em particular, dando firmeza, com ânimo varonil, à sua ternura de mulher. Dizia-lhes: Não sei como fostes formados no meu ventre; não fui eu que vos dei o espírito e a vida, ou que formei os membros do vosso corpo. O Criador do mundo, que formou o homem no seu nascimento e deu origem a todas as coisas, vos tornará a dar o espírito e a vida, por sua misericórdia, em recompensa do quanto agora vos desprezais a vós mesmos, por amor das suas leis".

A estas alturas, o tirano que desta forma martirizava toda uma família, filhos e mãe, estava desesperado porque chegando ao sexto filho nada conseguia. Só restava o filho mais novo e a mãe, ambos agora mais unidos ainda em torno de seus princípios religiosos e mais amparados por Deus.  Que fazer?  Faltava usar de lisonja e fingida amizade. Continuemos o relato pela Sagrada Escritura:

"Ora, Antíaco, considerando-se desprezado e julgando que aquelas palavras (dos mártires)  eram um insulto para ele, como falasse ainda o mais novo, não somente o exortava, mas ainda lhe assegurava com juramento que o faria rico e ditoso, que o teria na classe dos seus amigos e  lhe confiaria altos cargos se abandonasse as leis dos seus pais. Como o jovem de nenhum modo consentisse em tais coisas, o rei chamou a sua mãe, e aconselhou-a a que fizesse àquele jovem recomendações para salvar a vida. Depois de a ter exortado com muitas razões, ela lhe prometeu que procuraria persuadir seu filho. Tendo-se, pois, inclinado para lhe falar, zombando deste cruel tirano, disse-lhe na língua pátria: Meu filho, tem compaixão de mim, que te trouxe nove meses no meu ventre, que te amamentei durante três anos, que te nutri e eduquei até esta idade. Suplico-te, meu filho, que olhes para o céu e para a terra e para todas as coisas que há neles, e que penses bem que Deus os criou do nada, assim como a todos os homens. Não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos, aceita a morte, para que eu te encontre com eles no dia da misericórdia".

As últimas palavras desta mãe revelam bem o grau heróico de virtudes que ela praticava neste momento. Provavelmente ela estava assistida por vários anjos, e sua alma era fortalecida por graças extraordinárias dadas por Deus, pois naturalmente nenhuma pessoa seria capaz de resistir a tantos tormentos e depois desejar a morte de seu último filho, após perder seis, um após outro, pelo mesmo motivo, resistir impavidamente abraçando os princípios religiosos que herdara de seus pais e que julgava em seu interior serem inspirados pelo Deus verdadeiro.  Que outra mãe, em outro período histórico, sendo crente de outra religião, teria assim resistido às investidas contra seus princípios dando a própria vida e a de seus sete filhos? Não, não há registro histórico de caso semelhante.

E continuemos com o relato da Bíblia, com todo o seu sabor sobrenatural:

"Quando ela ainda estava falando, o jovem disse: Que esperais vós de mim? Eu não obedeço ao mandado real, mas às prescrições da lei que foi dada a Moisés a nossos pais. Quanto a ti, autor de todos os males que oprimem os hebreus, às mãos de Deus não escaparás. Quanto a nós, por causa de nossos pecados é que padecemos; e se o Senhor nosso Deus se irou um pouco contra nós para nos castigar e corrigir, tornar-se-á a reconciliar outra vez com os seus servos. Tu, porém, ó malvado e o mais perverso de todos os homens, não te ensoberbeças loucamente erguido em vãs esperanças, quando levantas a mão  contra os servos de Deus, porque ainda não escapaste ao juízo de Deus onipotente, que tudo vê.  Meus irmãos, depois de terem suportado agora uma dor transitória, entraram já na aliança da vida eterna;  tu, porém, tens de sofrer, pelo juízo de Deus, a pena justamente devida á tua soberba. Eu como meus irmãos, entrego o meu corpo e a minha vida em defesa das leis de meus pais, rogando a Deus que, quanto antes, se mostre propício à nossa nação e te constranja, por meio de tormentos e de flagelos, a confessar que ele é o único Deus.  Oxalá que na minha morte e na de meus irmãos se detenha a ira do Todo-Poderoso, que justamente caiu sobre todo o nosso povo. Então o rei, abrasado em ira, embraveceu-se  contra este mais cruelmente que contra os outros, não suportando sofrer ver-se assim escarnecido. Morreu este jovem sem se contaminar, confiando inteiramente no Senhor.  A mãe foi a última a morrer, depois de seus filhos" (II Mac 7, 1-41).

Realmente, é muito melancólico e frio o final do relato tirado da Sagrada Escritura.  De tudo o que sofreu aquela mãe, de todo o seu valor heróico, se diz pouco, a não ser que "foi a última a morrer depois de seus filhos".  Mas é que a simples morte diz pouco sobre o martírio. O epílogo foi a morte, mas o principal estava no sofrimento que ela teve ao ver seus sete filhos serem barbaramente assassinados, de uma forma desumana e cruel, antes dela mesma.

(Reeditamos postagem feita em 25.10.2016:

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/10/santos-macabeus-prefiguras-dos-martires.html)