sexta-feira, 6 de março de 2020

COMO DEVE SER A DISCIPLINA NUM SEMINÁRIO






BENTO XVI RESPONDENDO A PERGUNTAS DE SEMINARISTAS - II


CLAUDIO FABBRI, Diocese de Roma do II ano (2º ano de Filosofia)

2. Santo Padre, como se desenvolvia a sua vida no período da formação para o sacerdócio e que interesses cultivava? Considerando a experiência feita, quais são os pontos fundamentais da formação para o sacerdócio? Em particular, Maria, que lugar ocupa nela?
Penso que a nossa vida, no nosso seminário de Freising, se desenvolvia num modo muito semelhante ao vosso, mesmo se não conheço exatamente o vosso horário quotidiano. Iniciava-se, parece-me, às 6.30h ou 7h, com uma meditação de meia hora, durante a qual cada um em silêncio falava com o Senhor, procurava dispor o ânimo para a Sagrada Liturgia. Depois seguia-se a Santa Missa, o pequeno almoço e, durante a manhã, as lições.
À tarde, eram realizados seminários, tempos de estudo, e depois ainda a oração comum. À noite, os chamados "puncta", isto é, o diretor espiritual ou o reitor do seminário, nas diversas noites, falavam sobre como ajudar-nos a encontrar o caminho da meditação, não nos dando uma meditação já feita, mas elementos que podiam ajudar cada um a personalizar as Palavras do Senhor que seriam objeto da nossa meditação.
Este era o percurso para cada dia; depois naturalmente tinham as grandes festas com uma bela liturgia, música... Mas, parece-me, e talvez volte sobre este aspecto no final, é muito importante ter uma disciplina que nos precede e não ter cada dia, de novo, que inventar o que fazer, como viver; há uma regra, uma disciplina que me aguarda e me ajuda a viver o dia de modo organizado.
Agora, em relação às minhas preferências, naturalmente seguia com atenção, na medida do possível, as lições. Inicialmente, nos dois primeiros anos a filosofia, fascinou-me, desde o início sobretudo a figura de Santo Agostinho e depois também a corrente agostiniana da Idade Média: São Boaventura, os grandes franciscanos, a figura de São Francisco de Assis.
Fascinava-me sobretudo a grande humanidade de Santo Agostinho, que não teve a possibilidade simplesmente de se identificar com a Igreja porque era catecúmeno desde o início, mas teve que lutar espiritualmente para encontrar pouco a pouco o acesso à Palavra de Deus, à vida com Deus, chegando ao grande sim à sua Igreja.
Este caminho tão humano, no qual também hoje podemos ver como se começa a entrar em contato com Deus, como todas as resistências da nossa natureza devam ser tomadas a sério e depois devam também ser canalizadas para chegar ao grande sim ao Senhor. Desta forma, fui conquistado pela sua teologia muito pessoal, desenvolvida sobretudo na pregação. Isto é importante, porque inicialmente Agostinho desejava viver uma vida meramente contemplativa, escrever outros livros de filosofia... mas o Senhor não quis, fez dele um sacerdote e um bispo e, assim, o resto da sua vida, da sua obra, desenvolveu-se substancialmente no diálogo com um povo muito simples. Ele teve que encontrar sempre pessoalmente, por um lado, o significado da Escritura e, por outro, ter em consideração a capacidade do povo, do seu contexto vital, e alcançar um cristianismo realista e ao mesmo tempo muito profundo.
Depois, para mim era naturalmente muito importante a exegese: tivemos dois exegetas um pouco liberais, mas contudo grandes exegetas, também realmente crentes, que nos fascinaram. Posso dizer que, realmente, a Sagrada Escritura era a alma do nosso estudo teológico: vivemos a Sagrada Escritura e aprendemos a amá-la, a falar com ela. Depois, já falei da Petrologia, do encontro com os Padres. Também o nosso professor de dogmática era então muito famoso, tinha alimentado a sua dogmática com os Padres e com a Liturgia. Um aspecto muito central para nós era a formação litúrgica: naquele tempo ainda não havia cátedras de Liturgia, mas o nosso professor de Pastoral deu-nos grandes cursos de liturgia e ele, na época, era também Reitor do seminário e assim, liturgia vivida e celebrada e liturgia ensinada e refletida caminhavam juntas.
Eram estes, juntamente com a Sagrada Escritura, os pontos principais da nossa formação teológica. Por isto estou sempre grato ao Senhor, porque juntos são realmente o centro de uma vida sacerdotal.
Outro interesse era a literatura: era obrigatório ler Dostoievski, era a moda do momento, depois tinham os grandes franceses: Claudel, Mauriac, Bernanos, mas também a literatura alemã; havia ainda uma edição alemã de Manzoni: na época eu não falava italiano. Desta maneira também formámos, neste sentido, o nosso horizonte humano. A música era também um grande amor, assim como a beleza da natureza da nossa terra. Com estas preferências, com estas realidades, num caminho nem sempre fácil, fui progredindo. O Senhor ajudou-me a chegar ao sim do sacerdócio, um sim que me acompanhou todos os dias da minha vida.

(VISITA AO PONTIFÍCIO SEMINÁRIO MAIOR ROMANO
POR OCASIÃO DA FESTA DE NOSSA SENHORA DA CONFIANÇA - ENCONTRO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
COM OS SEMINARISTAS -
Sábado 17 de Fevereiro de 2007)

quinta-feira, 5 de março de 2020

COMO FALAR COM DEUS?







BENTO XVI RESPONDENDO A PERGUNTAS DE SEMINARISTAS - I


Pergunta de GREGOR PAOLO STANO, Diocese de Oria do I ano (1º ano de Filosofia)
1. Santidade, o nosso é o primeiro dos dois anos dedicados ao discernimento, durante o qual estamos empenhados a perscrutar profundamente a nossa pessoa. É um exercício cansativo, para nós, porque a linguagem de Deus é especial e só quem está atento a pode colher entre as mil vozes que ressoam dentro de nós. Portanto, pedimos-lhe que nos ajude a compreender como fala Deus concretamente e que vestígios deixa com o seu pronunciar-se em segredo.

Como primeira palavra, um obrigado ao Monsenhor Reitor pelo seu discurso. Já sinto curiosidade em conhecer aquele texto que escrevereis e assim também de aprender. Não tenho a certeza de ser capaz de esclarecer os pontos essenciais da vida do seminário, mas digo quanto posso.
Agora, esta primeira questão: como podemos discernir a voz de Deus entre as mil vozes que ouvimos todos os dias neste nosso mundo. Diria: Deus fala conosco de modos muito diferentes. Fala através de outras pessoas, através de amigos, dos pais, do pároco, dos sacerdotes. Aqui, os sacerdotes aos quais estais confiados, que vos guiam. Fala por meio dos acontecimentos da nossa vida, nos quais podemos discernir um gesto de Deus; fala também através da natureza, da criação, e fala, naturalmente e sobretudo, na Sua Palavra, na Sagrada Escritura, lida na comunhão da Igreja e pessoalmente em diálogo com Deus.
É importante ler a Sagrada Escritura, por um lado de modo muito pessoal, e realmente, como diz São Paulo, não como palavra de um homem ou como um documento do passado, como lemos Homero, Virgílio, mas como uma Palavra de Deus que é sempre atual e fala comigo. Aprender a ouvir um texto, historicamente do passado, a Palavra viva de Deus, ou seja, entrar em oração, e assim fazer da leitura da Sagrada Escritura um diálogo com Deus.
Santo Agostinho nas suas homilias diz com frequência: Bati várias vezes à porta desta Palavra, até que pude compreender o que o próprio Deus me dizia; por um lado, esta leitura muito pessoal, este diálogo pessoal com Deus, no qual procuro o que o Senhor me diz, e juntamente com esta leitura pessoal é muito importante a leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o Povo de Deus, é a Igreja.
Esta Escritura não era uma coisa particular de grandes escritores mesmo se o Senhor tem sempre necessidade da pessoa, da sua resposta pessoal mas cresceu com pessoas que estavam comprometidas no caminho do Povo de Deus e assim as suas palavras são expressão deste caminho, desta reciprocidade da chamada de Deus e da resposta humana.
Portanto, o sujeito vive hoje como viveu naquele tempo, por isso a Escritura não pertence ao passado, porque o seu sujeito, o Povo de Deus inspirado pelo próprio Deus, é sempre o mesmo, e portanto a Palavra é sempre viva no sujeito vivo. Então é importante ler a Sagrada Escritura e ouvir a Sagrada Escritura na comunhão da Igreja, isto é, com todas as grandes testemunhas desta Palavra, começando pelos primeiros Padres até aos Santos de hoje, até ao Magistério de hoje.
Sobretudo, é uma palavra que se torna vital e viva na Liturgia, portanto diria que a Liturgia é o lugar privilegiado onde cada um de nós entra no "nós" dos filhos de Deus em diálogo com Deus. É importante: o Pai Nosso começa com as palavras "Pai Nosso"; só se eu estiver inserido no "nós" deste "Nosso", posso encontrar o Pai; só dentro deste "nós", que é o sujeito da oração do Pai Nosso, ouvimos bem a Palavra de Deus. Portanto, isto parece-me muito importante: a Liturgia é o lugar privilegiado onde a Palavra é viva, está presente, aliás, onde a Palavra, o Logos, o Senhor, fala conosco e se entrega nas nossas mãos; se nos colocarmos na escuta do Senhor nesta grande comunhão da Igreja de todos os tempos, encontramo-lo.
Ele abre-nos a porta aos poucos. Portanto diria que este é o ponto no qual se concentram os outros: somos pessoalmente dirigidos pelo Senhor no nosso caminho e, ao mesmo tempo, vivemos no grande "nós" da Igreja, onde a Palavra de Deus é viva.
Depois, associam-se outros pontos, os do ouvir os amigos, os sacerdotes que nos guiam, a voz viva da Igreja de hoje, ouvindo assim também as vozes dos acontecimentos deste tempo e da criação, que se tornam decifráveis neste contexto profundo.
Portanto, em resumo diria que Deus fala de muitos modos conosco. É importante, por um lado, estar no "nós" da Igreja, no "nós" vivido na Liturgia. É importante personalizar este "nós" em mim mesmo, é importante estar atentos às outras vozes do Senhor, deixar-se guiar também por pessoas que têm experiência de Deus, por assim dizer, e nos ajudam neste caminho, para que este "nós" se torne o meu "nós", e eu, um que pertence realmente a este "nós". Assim cresce o discernimento e cresce a amizade pessoal com Deus, a capacidade de compreender, nas mil vozes de hoje, a voz de Deus, que está presente sempre e fala conosco.

(VISITA AO PONTIFÍCIO SEMINÁRIO MAIOR ROMANO POR OCASIÃO DA FESTA DE NOSSA SENHORA DA CONFIANÇA - ENCONTRO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI
COM OS SEMINARISTAS -
Sábado 17 de Fevereiro de 2007)

terça-feira, 3 de março de 2020

BENTO XVI FALA SOBRE A NECESSIDADE DE REPARAÇÃO DOS SACRILÉGIOS MEDIANTE A ADORAÇÃO EUCARÍSTICA






O Padre Alberto Pacini, Reitor da Basílica de Santa Anastácia, falou da adoração eucarística perpétua de modo particular da possibilidade de organizar sessões noturnas e pediu ao Papa que explicasse o sentido e o valor da reparação eucarística diante dos roubos sacrílegos e das seitas satânicas.
Já não falemos em geral da adoração eucarística, que está realmente imbuída nos nossos corações e penetra no coração do povo. O senhor formulou esta pergunta específica, sobre a reparação eucarística. É um tema que se tornou difícil. Lembro-me, quando era jovem, que na festa do Sagrado Coração se rezava com uma bonita prece de Leão XIII e depois com uma de Pio XI, em que a reparação ocupava um lugar particular, precisamente em relação já naquela época aos atos sacrílegos que deviam ser reparados.
Parece-me que devemos ir até ao fundo, chegar ao próprio Senhor, que ofereceu a reparação pelo pecado do mundo, e procurar reparar: digamos, estabelecer o equilíbrio entre o plus do mal e o plus do bem. Deste modo, na balança do mundo não devemos deixar este grande plus negativo, mas dar um peso pelo menos equivalente ao bem. Esta ideia fundamental alicerça-se no que foi realizado por Cristo. Daquilo que posso compreender, este é o sentido do sacrifício eucarístico.
Contra este grande peso do mal, que existe no mundo e que abala o mundo, o Senhor põe outro peso maior, o do amor infinito que entra neste mundo. Este é o ponto importante: Deus é sempre o bem absoluto, mas este bem absoluto entra precisamente no jogo da história; aqui, Cristo torna-se presente e sofre o mal até ao fundo, criando assim um contrapeso de valor absoluto. O plus do mal, que existe sempre, se virmos apenas empiricamente as proporções, é ultrapassado pelo imenso plus do bem, do sofrimento do Filho de Deus.
Neste sentido existe a reparação, que é necessária. Parece-me que hoje é um pouco difícil compreender estas coisas. Se virmos o peso do mal no mundo, que cresce de maneira permanente, e que parece prevalecer de forma absoluta na história, até poderia como diz Santo Agostinho numa meditação desesperar. Mas vemos que há um plus ainda maior no facto de que o próprio Deus entrou na história, se fez partícipe da história e sofreu até ao fundo. Este é o sentido da reparação.
Este plus do Senhor é para nós uma exortação a pormo-nos ao seu lado, a entrar neste grande plus do amor e a torná-lo presente, mesmo com a nossa debilidade. Sabemos que também para nós havia a necessidade deste plus, porque inclusive na nossa vida existe o mal. Todos nós vivemos graças ao plus do Senhor. Mas Ele oferece-nos este dom a fim de que, como diz a Carta aos Colossenses, possamos associar-nos a esta sua abundância e, digamos, fazer aumentar ainda mais esta abundância concretamente no nosso momento histórico.
Parece-me que a teologia deveria fazer mais, para compreender melhor ainda esta realidade da reparação. Na história havia também ideias erradas. Nestes dias li os discursos teológicos de São Gregório de Nazianzo, que num certo momento fala sobre este aspecto, e pergunta: por quem ofereceu o Senhor o seu sangue? Ele diz: o Pai não queria o sangue do Filho, o Pai não é cruel, não é necessário atribuir isto à vontade do Pai; mas a história queria-o, desejavam-no as necessidades e os desequilíbrios da história; devia-se entrar nestes desequilíbrios e aqui recriar o verdadeiro equilíbrio. Isto é mesmo muito iluminador. Mas parece-me que ainda não dispomos suficientemente da linguagem para fazer compreender este facto a nós e, em seguida, também aos outros. Não se deve oferecer a um Deus cruel o sangue de Deus. Mas o próprio Deus, com o seu amor, deve entrar nos sofrimentos da história para criar não apenas um equilíbrio, mas um plus de amor, que é mais forte do que a abundância do mal existente. O Senhor convida-nos para isto.
Parece-me uma realidade tipicamente católica. Lutero diz: nada podemos acrescentar. E isto é verdade. E depois continua: portanto, as nossas obras nada contam. E isto não é verdade. Porque a generosidade do Senhor se manifesta precisamente no facto de que nos convida a entrar e dá valor inclusive ao nosso estar com Ele. Devemos aprender melhor tudo isto e sentir também a grandeza, a generosidade do Senhor e a grandeza da nossa vocação. O Senhor quer associar-nos a este seu grande plus. Se começarmos a compreendê-lo, sentir-nos-emos felizes se o Senhor nos convidar para isto. Teremos a grande alegria de ser levados a sério pelo amor do Senhor.

(ENCONTRO DE BENTO XVI COM OS PÁROCOS E O CLERO DA DIOCESE DE ROMA NO INÍCIO DA QUARESMA
Sala das Bênçãos - Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007 )


segunda-feira, 2 de março de 2020

HISTÓRIA DA DEVOÇÃO A SÃO JOSÉ










A devoção a São José tem crescido muito ao longo da história da Igreja. Ela foi se espalhando e enraizando aos poucos na tradição do povo católico em todo o mundo. Encontramos vestígios de reflexão teológica sobre São Jose desde os primeiros séculos do cristianismo, tanto nos Padres orientais como ocidentais. Estão entre os Padres orientais que falam de São José os seguintes: no segundo século Santo Inácio de Antioquia, S. Justino, Santo Irineu; no terceiro século, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Santo Hipólito de Roma, Orígenes, Julio África; no século IV, Eusébio de Cesaréia, Santo Efrém, São Basílio, São Cirilo de Alexandria. E entre os Padres do Ocidente Santo Ambrósio, São Jerônimo, Santo Agostinho, São Pedro Crisólogo e outros.
Ao longo dos séculos, a reflexão sobre o Santo Guardião é limitada aos escritos dos Padres da Igreja. Mas no início do século XII, junto com maior conhecimento teológico dentro da Igreja, veio também maior doutrina sobre São José, especialmente com os santos Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino e Boaventura.
Nos primeiros séculos, a teologia sobre São José é reduzida, principalmente logo após o nascimento de Jesus, como ocorria também sobre a virgindade de Maria,
A devoção a São José ocorre no sentido pleno entre os séculos XII e XV, liderada pelo aumento da adoração à humanidade de Cristo e a devoção à Santíssima Virgem, e foi puxada especialmente por São Bernardo de Claraval no século
XII, São Francisco de Assis, século XIII, e muitos outros autores. Entre os autores das ordens mendicantes estão: São Boaventura e seus discípulos Pedro João Olivi, Ubetino de Casal e, posteriormente, Bernardino de Sena, Bernardino da Feltre, Bernardino de Bustis; pelos franciscanos, e do lado da Dominicanos Santo Alberto Magno, São Tomás, entre muitos outros. Também encontramos nesta época o Papa Sisto IV, que incluiu a Festa de São José no calendário romano até o ano de 1479.
No entanto, é a partir dos séculos XV e XV quando se começam a produzir um trabalho inteiramente dedicado a São José, bem como um aprofundamento das reflexões sobre o papel do Santo Guardião na Igreja. Nessa época também aumenta significativamente a sua devoção. Os séculos seguintes até nossos dias são mais desenvolvidas e floresceu, com a devoção a São José, em aumento constante.
Um grande exemplo da devoção a São José temos na vida de Santa Teresa D’Ávila, a qual colocava toda fundação sua aos cuidados do Santo Guardião. Santa Teresa colocou todos os seus 15 ou mais conventos fundados sob a proteção de São José, ao qual tinha uma grande e afetuosa devoção.
Em 08 de dezembro de 1870 o Papa Pio IX proclamou São José como Patrono da Igreja Universal, depois de uma longa campanha lançada para o efeito pelo povo católico a partir de meados deste século. Foi aí que se designou sua festa para o dia   19 de março.
Em 15 agosto de 1889 Leão XIII publica a encíclica Quamquam Plurien, onde o Papa mostra as razões pelas quais São José deve ser padroeiro especial da Igreja
 No início do século XX, o teólogo Cardeal Alessio Maria Lépicier compõe a pedido do Papa São Pio X, a Ladainha de São José.
Em 1950 o Papa Pio XII promulga o dia 01 de maio como a festa de São José Operário, e coloca todos os trabalhadores sob seu patrocínio universal. Em 19 de março de 1961, o Papa João XXIII o proclamou patrono do Concílio Vaticano II.
Outro marco importante é a Exortação Apostólica Redemptoris Custos do Papa João Paulo II, promulgada em 15 de agosto de 1989, Solenidade da Assunção de Maria, cem anos de Plurien Quamquam.
Na América Latina, é igualmente rica a história da devoção a São Jose. Cerca de 1555 era a devoção tão difundida, que foi proclamado Patrono da Nova Espanha..
A devoção a São José também é mostrada nas manifestações artísticas da chamada arte colonial, como no fato de que muitas cidades da América Latina levam seu nome, como San Jose, capital da Costa Rica e San Jose, na Califórnia. Como muitas igrejas, abadias, universidades e escolas ostentam o nome e a proteção de São José
O Congresso Constituinte de 1828 no Peru proclamou São José como padroeiro do Peru, confirmado pelo Papa Pio XII em 1957 a pedido da Assembléia Episcopal desse ano.


Fonte:



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

CARTA DE BENTO XVI AOS CATÓLICOS DA CHINA






NOTA EXPLICATIVA
CARTA DE BENTO XVI AOS CATÓLICOS DA CHINA
(27 de Maio de 2007)
Com a “Carta aos Bispos, aos presbíteros, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos da Igreja católica na República Popular da China”, que leva a data do Domingo de Pentecostes, o Papa Bento XVI deseja manifestar o seu amor e a sua cercania aos católicos que estão na China. O faz, sem dúvida, como Sucessor de Pedro e Pastor Universal da Igreja.
Do texto despontam dois pensamentos fundamentais: de um lado, um profundo afeto por toda a comunidade católica na China e, de outro, uma ardente fidelidade pelos grandes valores da tradição católica no campo eclesiológico; portanto, uma paixão pela caridade e pela verdade. O Papa recorda as grandes linhas eclesiológicas do Concílio Vaticano II e da tradição católica mas, ao mesmo tempo, leva em consideração aspectos particulares da vida da Igreja na China, situando-os numa ampla visão teológica.
A - A Igreja na China nos últimos 50 anos
A comunidade católica na China viveu intensamente estes últimos 50 anos, enfrentando um caminho difícil e doloroso, que não só a marcou profundamente, mas a fez assumir características peculiares que ainda hoje a distinguem.
A comunidade católica sofreu uma primeira perseguição nos anos 50, que viu a expulsão dos Bispos e dos missionários estrangeiros, a prisão de quase todos os eclesiásticos chineses e dos responsáveis pelos vários movimentos de leigos, o fechamento das igrejas e o isolamento dos fiéis. Posteriormente, no fim do anos 50, foram criados organismos estatais como o Departamento para os Assuntos Religiosos e a Associação Patriótica dos Católicos Chineses, com a finalidade de guiar e “controlar” qualquer atividade religiosa. Em 1958 tiveram lugar as primeiras duas ordenações episcopais sem o mandato papal, dando início a uma longa série de gestos que ferem profundamente a comunhão eclesial.
No decênio 1966-1976, a Revolução Cultural, que acontecia em todo o País, envolveu a comunidade católica, atingindo também aqueles Bispos, sacerdotes e fiéis leigos que se tinham demonstrado mais disponíveis com as novas disposições impostas pelas Autoridades do Governo.
Nos anos 80, com as aberturas promovidas por Deng Xiaoping, iniciou um período de tolerância religiosa com certa possibilidade de movimento e de diálogo, que permitiu a reabertura das igrejas, dos seminários e de casas religiosas, e um certo reinício da vida comunitária. As informações, que provinham das comunidades eclesiais, confirmavam que, uma vez mais, o sangue dos mártires era a semente de novos cristãos: a fé tinha permanecido viva nas comunidades, a maioria dos católicos tinha dado um férvido testemunho de fidelidade a Cristo e à Igreja, o interior das famílias se transformou no sulco da transmissão da fé. Porém, o novo clima não deixou de suscitar distintas reações no seio das comunidades católicas.
A este respeito, o Papa lembra que alguns Pastores, “não querendo submeter-se a um controlo indevido, exercido sobre a vida da Igreja, e desejosos de manter uma plena fidelidade ao Sucessor de Pedro e à doutrina católica, viram-se obrigados a fazer-se consagrar clandestinamente” para garantir um serviço pastoral às próprias comunidades (n. 8). De fato, “a clandestinidade” - especifica o Santo Padre - “não pertence à normalidade da vida da Igreja, e a história mostra que Pastores e fiéis a ela recorrem somente no árduo desejo de manter íntegra a própria fé e de não aceitar ingerências de organismos estatais no que se refere à vida íntima da Igreja.” (Ib.).
Outros, preocupados sobretudo pelo bem dos fiéis e visando o futuro, “aceitaram receber a ordenação episcopal sem o mandato pontifício mas, depois, pediram de poder ser acolhidos na comunhão com o Sucessor de Pedro e com os demais Irmãos no episcopado” (ib.) . O Papa, considerando a complexidade da situação e profundamente desejoso de favorecer o restabelecimento da uma plena comunhão, concedeu a muitos deles “o pleno e legítimo exercício da jurisdição episcopal”.
Analisando com atenção a situação da Igreja na China, Bento XVI sabe que, de fato, a comunidade sofre intimamente por uma situação de fortes contrastes, na qual vê implicados fiéis e Pastores. Porém, ele destaca que esta dolorosa situação não foi provocada por diferentes posições doutrinais, mas pelo fruto do “papel significativo desempenhado por organismos, que se impuseram como principais responsáveis pela vida da comunidade católica” (n. 7). Trata-se de organismos, cujas finalidades declaradas, especialmente a de atuar os princípios de independência, autogoverno e autogestão, não são conciliáveis com a doutrina católica. Esta interferência deu lugar a situações realmente preocupantes. Além disso, os Bispos e os sacerdotes sentiam-se muitos controlados e cerceados no exercício do próprio ofício pastoral.
Nos anos 90, de várias partes e com sempre maior frequência, Bispos e sacerdotes solicitaram à Congregação para a Evangelização dos Povos e à Secretaria de Estado poder receber da Santa Sé indicações concretas de comportamento relativas a certos problemas da vida eclesial na China. Muitos pediam qual seria a atitude que deveriam assumir diante do Governo e dos organismos estatais, prepostos à vida da Igreja. Outros pedidos relacionavam-se a questões estritamente sacramentais, como a possibilidade de concelebrar com Bispos que tinham sido ordenados sem mandato pontifício ou de receber os Sacramentos de sacerdotes, ordenados por aqueles Bispos. Alguns setores da comunidade católica, enfim, achavam-se desorientados diante da legitimação de numerosos Bispos, que tinham sido consagrados ilicitamente.
Além disso, a lei sobre a registração dos lugares de culto e o pedido do Estado de um certificado de pertença à Associação Patriótica suscitaram novas tensões e dúvidas.
Durante aqueles anos o Papa João Paulo II dirigiu várias vezes à Igreja que está na China mensagens e apelos que convidavam todos os católicos à unidade e à reconciliação. As mensagens do Santo Padre foram bem acolhidas, criando um ardente desejo de unidade, mas as tensões com as Autoridades e dentro da comunidade católica infelizmente não diminuíram.
Por sua vez, a Santa Sé deu indicações acerca de vários problemas mas, depois de certo tempo, ao surgirem novas situações sempre mais complexas, era forçoso reconsiderar toda a matéria, com a finalidade de oferecer uma resposta, a mais precisa possível, sobre os pedidos e de proporcionar orientações seguras para a atividade pastoral nos anos vindouros.
B - Iter histórico da Carta Pontifícia
Os numerosos problemas, que parecem incidir mais de perto na vida da Igreja na China durante estes últimos anos, foram ampla e atentamente analisados por uma Comissão especial, constituída por alguns sinólogos e por aqueles que, na Cúria Romana, seguem a situação daquela comunidade. Posteriormente, quando o Papa Bento XVI decidiu convocar, nos dias 19-20 de Janeiro de 2007, uma Reunião da qual participaram vários eclesiásticos inclusive chineses, a sobredita Comissão encarregou-se de preparar um documento destinado a favorecer um amplo debate sobre vários pontos, de recolher indicações práticas dos participantes e de sugerir algumas possíveis orientações teológico-pastorais para a Comunidade católica na China. Sua Santidade, que de bom grado participou na última sessão da Reunião, decidiu, entre outros assuntos, dirigir uma Sua Carta aos Bispos, aos presbíteros, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos.
C - Conteúdo da Carta
«Sem pretender tratar detalhadamente dos complexos problemas por vós bem conhecidos», escreve Bento XVI aos católicos chineses, «com esta Carta quero oferecer-vos algumas orientações relacionadas com a vida da Igreja e com a obra de evangelização na China, para ajudar-vos a descobrir o que Jesus Cristo, Senhor e Mestre, quer de vós» (n. 2). O Papa ressalta alguns princípios fundamentais da eclesiologia católica para iluminar os problemas mais importantes, ciente de que a elucidação de tais princípios poderá ajudar a enfrentar as várias questões e os aspectos mais concretos da vida da comunidade católica.
Ao exprimir grande alegria pela fidelidade demonstrada, nestes últimos cinqüenta anos, pelos católicos na China, Bento XVI volta a afirmar o valor inestimável do sofrimento e das perseguições padecidas por causa do Evangelho, dirigindo a todos um fervoroso apelo em prol da unidade e da reconciliação. Ciente do fato de que a plena reconciliação «não poderá acontecer de um dia para o outro», Ele lembra que este caminho é «sustentado pelo exemplo e pela oração de tantas “testemunhas da fé” que sofreram e perdoaram, oferecendo suas vidas pelo futuro da Igreja católica na China» (n. 6).
Neste contexto, continua sendo válida a palavra de Jesus «Duc in altum (Lc 5,4). É uma palavra que «nos convida a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente e abrir-nos com confiança ao futuro». De fato, na China, como no resto do mundo, «a Igreja é chamada a ser testemunha de Cristo, a olhar para frente com esperança e defrontar-se - no anúncio do Evangelho - com os novos desafios que o Povo chinês deve enfrentar» (n. 3). «Também no vosso País», lembra o Papa, «o anúncio de Cristo crucificado e ressuscitado será possível na medida em que com fidelidade ao Evangelho, na comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal, sabereis realizar os sinais do amor e da unidade» (ib.).
Ao enfrentar alguns problemas mais urgentes, apresentados com os pedidos encaminhados à Santa Sé por parte dos Bispos e dos sacerdotes, Bento XVI oferece indicações acerca do reconhecimento de eclesiásticos da comunidade clandestina por parte das Autoridades governativas (cf.n. 8), especialmente quanto à nomeação dos Bispos (n. 9). Além disso, adquirem um significado particular as orientações pastorais que o Santo Padre faz para as comunidades, ressaltando primeiramente a figura e a missão do Bispo na comunidade diocesana: “nada sem o Bispo”. Oferece, também, indicações para a concelebração eucarística e convida a criar os organismos diocesanos, previstos pelas normas canônicas. Não deixa de dar indicações sobre a formação dos presbíteros e a vida da família.
Quanto às relações da comunidade católica com o Estado, com um espírito sereno e de respeito, Bento XVI lembra a doutrina católica que o Concílio Vaticano II voltou a propor. Mais: exprime o sincero desejo de que prossiga o diálogo entre a Santa Sé o Governo chinês, a fim de poder chegar a um acordo sobre a nomeação dos Bispos, ao pleno exercício da fé dos católicos mediante o respeito de uma autêntica liberdade religiosa e à normalização das relações das relações entre a Santa Sé e o Governo de Pequim.
O Papa, enfim, revoga todas as Faculdades e Diretrizes de ordem pastoral, passadas e recentes, que foram concedidas pela Santa Sé para a Igreja na China. As novas circunstâncias da situação geral da Igreja na China e as maiores possibilidades de comunicação já permitem aos católicos de seguir as normas canónicas gerais e, conforme for, de recorrer à Sé Apostólica. Em qualquer caso, os princípios doutrinais, que inspiravam as sobreditas Faculdades e Diretrizes, possuem agora nova aplicação nas diretrizes contidas nesta Carta (cf. n.18).
D - Teor e perspectivas da Carta
Bento XVI, com sentido sobrenatural e com uma linguagem eminentemente pastoral, se dirige a toda a Igreja que está na China. A sua intenção não é a de criar situações de atrito com pessoas e com grupos particulares: ele, mesmo pondo em evidência certas situações críticas, o faz com muita compreensão devido aos aspectos contingentes e pelas pessoas envolvidas, apesar de recordar com extrema clareza os princípios teológicos. O Papa deseja convidar a Igreja a uma mais profunda fidelidade a Jesus Cristo, lembrando a todos os católicos chineses a missão de ser evangelizadores no atual contexto concreto do seu País. O Santo Padre observa com respeito e com profunda simpatia a história antiga e recente do grande Povo chinês e renova, uma vez mais, a disponibilidade para dialogar com as autoridades chinesas, ciente de que a normalização da vida da Igreja na China pressupõe um diálogo franco, aberto e construtivo com as Autoridades. Bento XVI, assim como o seu Predecessor, João Paulo II, está também firmemente convencido de que tal normalização oferecerá uma inigualável contribuição para a paz no mundo, criando assim um marco insubstituível no grande mosaico da convivência pacífica entre os povos.
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