quinta-feira, 18 de junho de 2026

A GUERRA DOS "SAPOS"

 


O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, por várias oportunidades, tanto em artigos de jornais quanto no livro sobre as elites publicado nos Estados Unidos, discorreu sobre um tipo de burguês da era moderna que ele cognominou de “sapo”, e de “saparia” ao conjunto deles. Que “tipo” de burguês é esse? Dr. Plinio não foi o primeiro a dar essa denominação a grupos sociais de nossa sociedade, um dos pioneiros foi o poeta Manuel Bandeira que denominou de “sapos” aos adeptos do modernismo, e isso o fez numa famosa poesia com o título de “Os Sapos”.

O que se vê hoje nessa guerra sem fim que foi deflagrada nas elites políticas brasileiras nada mais é do que uma “guerra de sapos”, onde se destaca a corrupção galopante entre eles. Vejam abaixo o que diz dr. Plinio sobre a "saparia"

 A “SAPARIA”

(Texto traduzido do Apêndice à edição norte-americana do livro “Nobreza e Elites Análogas nas Alocuções de Pio XII”, de Plinio Corrêa de Oliveira)

2. ELITES INAUTÊNTICAS

Qualquer estudo sobre as elites, nos Estados Unidos, depara-se com um problema, que é o das elites inautênticas. As elites do país são o resultado de um processo de refinamento na sociedade, e representam, em certo sentido, o que o país tem de melhor e mais elevado. Porém, é inegável que numerosas pessoas de elite têm mentalidade francamente revolucionária, e que certos grupos de elite são os paladinos das transformações de caráter liberal e socialista em vários campos. Também é inegável que tais pessoas e grupos assumem, com freqüência, atitudes de simpatia frente ao comunismo internacional.

Uma elite inautêntica pode possuir o patrimônio relevante ou a notoriedade pública, inerentes às elites autênticas, sem no entanto possuí-los há tempo suficiente para que deles resultem os predicados característicos das elites autênticas. Ou sejam, a largueza de horizontes, a excelência de tipo humano e de trato e a delicadeza de sentimentos que as distinguem.

Pode até acontecer que numa elite inautêntica exista um passado suficientemente longo para lhe proporcionar todos os predicados de uma elite autêntica e tradicional. Mas que esse grupo, movido por preconceitos ideológicos ou outros fatores, tenha preferido manifestar — ao lado de maneiras distintas, educação esmerada, e até hábitos aristocráticos — uma ideologia revolucionária e uma mentalidade democrática liberal, tendente a promover um Estado paternalista, em detrimento dos corpos sociais intermediários.

As elites inautênticas constituem verdadeiros corpos estranhos na tradicional contextura social de um país. E podem até formar, a respeito dos verdadeiros direitos e interesses do mesmo, uma noção tão anti-natural que chegue ao ponto de colaborar largamente com os adversários mais radicais e mais declarados desse país.

Ao fazer uma defesa genérica das elites, portanto, poder-se-ia perguntar se os autores da presente obra não estariam, ainda que implicitamente, favorecendo a ação demolidora destas elites liberais.

a. A "saparia"

- O termo "sapo", com a conceituação que é desenvolvida no presente item, foi lançado em artigo do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, publicado no diário "Folha de São Paulo", em 25-6-69.

Antes de tudo, parece necessário deixar bem claro que — ao tratar da questão das elites nos Estados Unidos — os autores as distinguem das elites artificiais ou inautênticas. Estas se apresentam sem ligações naturais com as melhores tradições deste país e os mais profundos anseios do povo norte-americano, chegando mesmo a contrariar essas tradições e esses anseios.

Dado que a distinção entre uma elite tradicional autêntica e tais elites espúrias nem sempre está presente com a devida nitidez no espírito de incontáveis pessoas, parece indispensável incluir o presente item explicativo.

Os estudos sociológicos citados mostram que existem elites tradicionais nos Estados Unidos, constituídas a partir de antecedentes históricos próprios a cada lugar. Essas elites têm ainda hoje uma influência social marcante sobre o conjunto da sociedade norte-americana, especialmente nas suas capilaridades.

Porém, muitas vezes os postos diretivos do Estado, das altas finanças, das grandes empresas, da mídia, das fundações e dos órgãos culturais, são ocupados por pessoas que não pertencem a elites autênticas, mas constituem uma espécie de contra-elite que faz ostentação de princípios, de idéias e de um estilo de vida em dissonância com o modo geral de pensar e de agir da maioria da população.

Estas elites inautênticas, longe de representarem a nação, nela constituem quase um corpo estranho, aparecendo aos olhos do público de modo muito mais visível — e, sob certos aspectos, mais brilhante — que as elites tradicionais. Elas ocupam muito maior espaço nos órgãos de publicidade e ofuscam o realce que as verdadeiras elites deveriam ter.

Assim, formou-se na mente de numerosos norte-americanos a idéia de que elite é só isto, podendo daí advir em muitos uma injustificada antipatia às elites in genere, em vez de uma não raras vezes explicável antipatia dirigida apenas contra as falsas elites.

Para simbolizar o perfil moral e psicológico do tipo humano de tais elites inautênticas — existentes nos Estados Unidos, como em quase todo o Ocidente — tomou curso no linguajar corrente das TFPs a palavra "sapo", e ao conjunto dos sapos a denominação coletiva de "saparia".

Em geral, o "sapo" nasceu da Revolução Industrial. Ou seja, ele é o fruto — artificial, sob certos pontos de vista — de uma economia de base industrial que gerou fortunas excessivamente grandes, sem proporção com a massa geral dos patrimônios individuais do país. Estas fortunas podem ser de natureza industrial, financeira, e mesmo artística ou esportiva, como no caso de certas personalidades do cinema, da televisão e dos esportes.

Há um tal desequilíbrio entre os "sapos" e os outros níveis econômicos da população, que eles parecem viver numa espécie de estratosfera em relação ao restante do corpo social, levando uma vida econômica e socialmente desproporcionada às suas origens e ao seu nível cultural.

Pode haver também um tipo de "sapo", igualmente rico, descendente de famílias tradicionais, de aparência aristocrática, mas que usa de sua posição e de seu prestígio social para favorecer a implantação de reformas de caráter liberal e igualitário.

b. Caráter malfazejo da "saparia"

Nessas condições, o "sapo" — a expressão pode ser forte demais — é quase um câncer no corpo social. Longe de ser o coroamento de uma hierarquia harmônica de elites, a "saparia" dá ensejo ao estabelecimento no país da própria estrutura de poder, de influência e de prestígio dela, sem imbricação com os demais níveis de elites. O peso dessa estrutura anti-natural acaba por prejudicar seriamente aquilo que deveria ser uma sadia e equilibrada vida política, econômica, social e cultural da nação. Mesmo que, individualmente, os membros desta contra-elite possam não ter essa intenção, o próprio dinamismo do sistema por eles dirigido acaba conduzindo a este fim.

Assim como o último degrau da escada deve ter proporção com os degraus anteriores, a elite verdadeira deve ter proporção com os outros elementos do corpo social. Uma escada em que o último degrau fosse exageradamente mais alto que os outros, tornaria a escada inutilizável.

Nas sociedades modernas e industriais, este último degrau exageradamente alto teve sua origem, muitas vezes, em fortunas desmedidas, acompanhadas de um poder, de uma influência e de uma cobertura publicitária igualmente desmedidas. Os possuidores de tais fortunas, sejam eles indivíduos ou empresas, famílias novas ou antigas, têm haveres e interesses em muitas regiões do país e em diversas partes do mundo, escapando assim aos limites naturais e sadios da propriedade privada, e constituindo quase estados dentro do Estado.

Pela amplitude que tomam, estas contra-elites acabam gerando em seus membros uma mentalidade característica, que leva ao ceticismo geral no terreno doutrinário, com desprezo por tudo quanto representa idéias, maneiras e tradições de uma Civilização Cristã. Leva também a uma exclusiva valorização do poder e do status que a super-fortuna confere, como meio para exercer uma ação a seu modo tirânica sobre o país.

Este conjunto de super-fortunas supra-nacionais, sejam elas individuais ou societárias, forma no cume da vida econômica do país uma trans-elite, que mais se assemelha a uma "nomenklatura".

c. Os "sapos" e o comunismo

Ao observar como foi o comportamento desta "saparia" nos países capitalistas ocidentais, em relação ao mundo comunista, constata-se um fato perplexitante: Longe de estar na liderança de uma ampla ação contra o comunismo internacional — como sua condição pareceria exigir — os membros da "saparia" se mostraram concessivos frente a ele, sempre prontos a negociar, a abrir-lhe os cofres do crédito ocidental, a aplainar-lhe o caminho em tudo que fosse possível.

Esta atitude foi uma das características mais chocantes de tal contra-elite. Pois ela freqüentemente se dispôs a salvar de seu fracasso um regime que sempre fez questão de se apresentar como o pior inimigo do capitalismo. Foi o caso, por exemplo, de titulares de grandes patrimônios, que destinaram à Rússia comunista, até mesmo nos períodos de tensão daquele país com nossa pátria, recursos econômicos indispensáveis para a sobrevivência daquele regime.

Embora a explicação mais profunda deste fato seja bastante complexa, e até enigmática, para ser exposta em poucas linhas, é certo que um dos fatores que mais pesou para essa atitude foi a semelhança entre o papel desta "saparia" nos regimes capitalistas ocidentais e a "nomenklatura" nos Estados comunistas. Realmente o super-poder do Estado comunista, dotado de uma capacidade de ingerência em todos os campos da vida humana, tem muito de parecido com o super-poder de que esta contra-elite goza em países do Ocidente. Assim sendo, a nomenklatura é uma imagem da "saparia" dentro do regime comunista.

Não é de surpreender, portanto, que entre duas "elites", tão afins sob certos aspectos, as barreiras ideológicas se transponham com facilidade, e que a "saparia" capitalista ocidental mostre simpatia para com sua congênere — que é ao mesmo tempo sua antítese — do capitalismo de Estado.

-  Domhoff aponta os fatores que levaram a uma weltanschauung comum entre a saparia norte-americana e a nomenklatura soviética: "O internacionalismo, a aceitação do governo centralizador e do Estado previdenciário, são três características do pensamento atual no mundo dos grandes negócios. Isto levou os ultra-conservadores a comparar o país [Estados Unidos] dominado pelas grandes empresas à situação vigente na Rússia soviética. Existe, afinal, uma semelhança apreciável. O grande homem de negócios da atualidade não tem uma concepção religiosa do mundo.... Sua concepção é laica e baseada em sua educação liberal e cientificista". (G.W. Domhoff, The Governing Class in America, The Higher Circles, p. 295)

d. O "jet set"

Também como exemplo expressivo de elite inautêntica, cumpre distinguir o que a linguagem moderna designa com o nome de jet set.

A expressão jet set indica os mais ricos — de todos os tipos — que vivem gastando e se divertindo. O jet set pode incluir uma princesa real, um croupier, um jockey famoso, uma estrela de cinema, etc. As pessoas mais díspares entre si figuram no jet set, desde que tenham dinheiro em quantidade que lhes permita gastá-lo a mancheias.

O que caracteriza o jet set é a posse de dinheiro com a vontade de gastar e de aparecer aos olhos do público. Poder-se-ia quase fazer a tal propósito uma equação matemática: dinheiro + vontade de gastar + vontade de aparecer = jet set.

Neste campo também se manifesta a ação nociva da mídia, ao assestar os holofotes da propaganda quase exclusivamente sobre o jet set, relegando as elites tradicionais ao ostracismo. Para o jet set a mídia é generosa. Assim, se um membro de uma família tradicional pertence ao jet set, quando houver um casamento nessa família a mídia lhe dará toda publicidade, negligenciando outros membros que se mostrem mais tradicionais.

Na realidade o jet set constitui a caricatura de uma elite autêntica.

Este aspecto caricatural nota-se não só nas pessoas, mas também nas decorações e nos ambientes típicos do jet set, profundamente marcados pelo predomínio do desejo de manifestar riqueza, e não pela distinção ou pelo bom gosto. São ambientes que, ao lado de uma nota de opulência e extravagância, apresentam um luxo que nunca é aristocratizante, mas sim vistoso e demagógico.

3. AS DIFERENTES VIAS PARA AS ELITES AUTÊNTICAS E INAUTÊNTICAS

Quando uma pessoa adquire fortuna por mérito próprio ou por herança, ela tem diante de si dois caminhos: refinar-se a ponto de abrir para si — ou, pelo menos, para seus descendentes — as portas da assimilação às elites tradicionais; ou enveredar pelo caminho da "saparia".

a. O caminho da assimilação às elites tradicionais

No primeiro caso estão as pessoas que, tendo adquirido uma certa fortuna, não se preocupam muito em aumentá-la. Julgam elas que, ao assimilar valores da tradição e da cultura européias, isso já lhes basta para ter um prestígio suficiente em seu meio social. A administração equilibrada de seus bens lhes permite desenvolver um estilo de vida refinado, análogo ao da aristocracia, sem maiores preocupações de ordem financeira.

Segundo esta mentalidade, desde que o patrimônio seja suficiente para manter o status já adquirido, e a pessoa tenha valores culturais correspondentes à sua alta posição, ela se julga realizada em suas aspirações. Seu prestígio vem mais do status de elite do que de sua fortuna.

Tais pessoas tornam-se independentes em relação às máximas de uma sociedade revolucionária, às imposições das altas finanças e aos imperativos de certas modas extravagantes e da propaganda. Passam então por um processo de aperfeiçoamento, que as torna assimiláveis às elites tradicionais. Elas adquirem um feitio de espírito aristocrático, um modo de ser que lhes dá uma superioridade intrínseca que não vem do dinheiro, mas de fatores psicológicos e culturais. Podem então formar parte de uma autêntica elite tradicional, seja ela de âmbito regional ou nacional.

b. As vias da "saparia"

Outras pessoas tomam um rumo oposto, enveredando pela via do pragmatismo revolucionário, menosprezando a tradição e visando acima de tudo a aquisição de fortuna e poder econômico cada vez maiores.

Elas têm como idéia fixa que o dinheiro é a única fonte de prestígio, e querem aumentar seu patrimônio a todo custo. Para isso lançam-se no mundo das finanças internacionais e rompem os laços que as prendiam às tradições de seu lugar de origem. Inteiramente tomadas pela preocupação dos negócios, falta-lhes de todo em todo o espírito ponderado próprio à verdadeira aristocracia.

Uma terceira via é representada por aquelas pessoas ricas que não colocam sua maior preocupação em negócios ou na aquisição de novas riquezas. Embora às vezes oriundas das elites tradicionais, e apresentando um estilo de vida marcado por hábitos aristocráticos, professam idéias liberais e igualitárias, favorecendo o avanço da Revolução em nível nacional e internacional. Neste sentido assemelham-se ao "sapo" descrito no parágrafo anterior.

Porém, mesmo os descendentes de um primitivo "sapo" podem se aristocratizar. Se após algumas gerações, passadas predominantemente na conquista de riqueza, esta apetência se atenua para dar lugar maior às coisas do espírito e da cultura, eles podem ser incorporados às elites aristocráticas, desde que tenham a alma aberta para assimilar seus valores e modos de vida.


Fonte: 

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/2003%20-%20LN_Apendice_americano_Cap_II.htm

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