Nós temos no dia 24, amanhã, a festa da
Natividade de São João Batista. E a respeito dele temos que desenvolver alguns
dados biográficos fornecidos por Dom Guéranger:
“São João
recebeu a graça de uma felicidade incomparável, provavelmente já no seio de sua
mãe, com a visita da Santíssima Virgem a Santa Isabel.
Assim
sendo, talvez o primeiro que tenha falado da divina e virginal maternidade, não
separando nunca o Filho de sua Mãe, ao mesmo tempo que adorou Jesus, honrou
Maria acima de todas as criaturas. “Bendita sois vós entre as mulheres e
bendito é o fruto de vosso ventre”. É a afirmação unânime da eleição que,
pronunciando Isabel essas palavras, nada mais fez do que ser porta-voz de seu
filho. O início da vocação de João como testemunho da Luz primaria (...) e ela
dá a primeira expressão de admiração e louvor que a anima. Anjo ele mesmo, como
o chamavam os profetas, retoma (...) à Soberana do céu e da terra.
Assim, já
se vê de perto o papel de Maria na santificação dos eleitos. O grito de sua
alma eleva-o à santidade ao primeiro som da voz da Virgem. Foi por ele que, com
grande pressa, após a Anunciação, Ela atravessou as montanhas. Mas reserva
ainda a João outros favores. Até então silenciosa, entoa diante dessa criança
seu canto sublime. E dá ao Batista a plena compreensão do mistério inefável. Como
santificou o precursor de seu Filho, a Mãe de Deus (...) primeira lição
incomparável do filho de Isabel. Mas três meses ainda continua essa educação
maravilhosa. E com isso, melhor (..?..) que será essa criança? A Dispensadora
das graças guardou para João a primeira efusão dessa torrente de graça da qual
Ela se tornara o divino reservatório.
O caudal
que escapa dessa cidade santa não será suspenso no correr dos tempos, levando a
cada alma os seus eflúvios, mas em toda a sua força inicial ainda não dirigida,
encontra João em primeiro lugar. Quem poderia medir essa corrente? Os seus
efeitos? A Santa Igreja não o diz. Mas de onde virá a fonte que causa o
misterioso crescimento de João sob o olhar atônito dos anjos? Tendo em vista a
fraqueza desse corpo de criança, ante a grande maturidade de sua alma e da
misteriosa natividade do precursor. É grande o homem que Isabel deu ao mundo”.
Esse comentário de D. Guéranger é cheio de
vistas magníficas. Ele se estriba no fato de que São João Batista, ainda no
ventre materno, era dotado de toda lucidez. Porque sem ser concebido sem pecado
original - ao menos nada indica que tenha sido - foi isento dessa culpa logo
depois de concebido, razão pela qual tinha inteligência, tinha compreensão das
coisas que se passavam, e estava em oração no ventre de Santa Isabel quando
Nossa Senhora chegou.
Então, a primeira coisa que D. Guéranger ressalta bem é que Nossa Senhora não foi a Santa Isabel apenas para ajudá-la, mas que o motivo primeiro da visita era ajudá-la para que gerasse perfeitamente
aquele menino que Ela sabia ser o precursor prometido pela Escrituras. O menino passou três meses vendo constantemente Nossa Senhora ajudar Santa Isabel. Ele ouvia a voz de Nossa Senhora; durante esses três meses ele compreendeu Nossa Senhora.
Os senhores podem compreender o que são dois ou
três meses em companhia de Nossa Senhora! Ele mostra muito bem que aquele que
os profetas chamaram de Anjo era uma criatura de tal maneira excelsa que estava
acima de todos os homens. Nosso Senhor dele dizia, mais ou menos, não me lembro
bem a frase, que de homem não havia nascido ninguém maior do que João Batista.
Então, essa criatura, logo no despertar de sua vida, foi acordada para o conhecimento do mundo pela voz de Nossa Senhora. Ele ouviu Santa Isabel cantar a grandeza de Nossa Senhora e ouviu Nossa Senhora entoar o Magnificat. Ouviu esse hino, essa canção tão bem estruturada, tão nobre, ao mesmo tempo tão racional, tão bem pensada. Ele ouviu e compreendeu todos os sentidos que o Magnificat tem, depois o canto da voz de Nossa Senhora e tudo o mais, tudo concorreu para elevar a alma dele.
Ou seja, o primeiro ensinamento desse homem
privilegiado foi um ensinamento de Nossa Senhora. Quando a corrente de
ensinamentos e de graças de Nossa Senhora — diz ele muito bem — estava no seu
primeiro eflúvio para cair sobre a humanidade, o lado mais esplêndido caiu
sobre São João Batista, sobre sua alma, para que ele fosse um anjo e fosse na
frente do Messias, cortando as montanhas e enchendo os vales para preparar os
caminhos do Senhor. Cortando as montanhas, quer dizer, combatendo os vícios;
preenchendo os vales, quer dizer, acabando com os pantanais e buraqueiras da
sensualidade. Em outros termos, fazendo o trabalho da Contra-Revolução para preparar
os caminhos do Senhor.
Ele diz algo a respeito da santidade de São
João Batista, mas o que diz é pouco porque ele teve de compreender que não há
palavras humanas para descrever bem o que essa santidade possa ter sido. Uma
santidade de tal maneira — e de tal maneira máxima a do primeiro momento do
apostolado de Nossa Senhora — que os homens podem entrever, não podem
descrever! Eles podem admirar, mas eles não podem conhecer inteiramente.
Aí está o Batista, o austero, o Batista
terrível! O Batista que vai para o deserto e que vela. E depois sai da solidão
e começa a pregação. O Batista zeloso que prepara as almas judaicas, das quais
haveria de nascer a Igreja Católica. Porque o primeiro reduto de católicos foi
[o] dos judeus e [das] pessoas preparadas pelo apostolado de São João Batista -
mas o Batista juiz, o Batista fiel, o Batista devotado!
Quando Nosso Senhor apareceu, ele disse: “A Ele
compete crescer, a mim compete diminuir; compete-me agora desaparecer: eis o
Cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo! Minha missão está
cumprida. Não há mais nada para eu fazer, porque o Sol da justiça se levantou e
eu não era senão uma ave que cantava o Sol que ia nascer. A partir do momento
em que o Sol nasceu, eu não tenho outra coisa a fazer senão morrer por Ele”.
E aí nós temos a morte, ao mesmo tempo
indignada e enlevada de São João Batista. São João Batista e sua luta contra
Herodes, contra Salomé, mártir da castidade! O homem que sabe enfrentar a
impureza num trono e que sabe perder sua vida para dizer a verdade como ela é.
Ele foi detestado, tirado dessa vida, mas tirado num ato de supremo amor. É
evidente que quando ele morreu estava pensando no Cordeiro de Deus que tinha
visto e no canto do Magnificat que tinha ouvido. Foi nesse enlevo que sua alma
se desprendeu do corpo e que foi esperar Nosso Senhor no Limbo.
Os senhores podem imaginar o que terá sido o
encontro de Nosso Senhor e São João Batista no Limbo, quando a alma do mártir,
tão pura e ainda lavada pelo sangue derramado há pouco, foi de encontro a Ele.
O que terá dito Nosso Senhor a São João Batista que O havia aclamado? E depois,
coroando de glória São João Batista no Céu!
Aí compreendemos toda a devoção dos
ultramontanos a São João Batista. Compreendemos a raiz que isso tem. Esse
profeta virginal passou pela vida dizendo as verdades inteiras, sem ter medo de
ninguém, aterrorizando a impiedade e enlevando e preparando para o Messias as
almas que nós diríamos ultramontanáveis - para falar a linguagem contemporânea
-, essa alma formada diretamente por Nossa Senhora.
E aí então, como através de um espelho, podemos
ver algo das virtudes de Nossa Senhora. Porque ele é fruto da alma de Nossa
Senhora, da formação de Nossa Senhora. Ele é fruto da formação, e pelo fruto se
conhece a árvore. Nossa Senhora, a ter formado um homem que tivesse todo o
agrado d’Ela, teria formado a ele.
Então os senhores compreendem o “raprochement” que se pode fazer entre
isso e os Apóstolos dos Últimos Tempos. Os Apóstolos dos Últimos Tempos,
formados inteiramente pelas exigências de Nossa Senhora, devem ter o perfil
moral de São João Batista: austeros, varonis batalhadores, enlevados,
intransigentes e prontos a darem sua vida inteira por Nossa Senhora.
Que Nossa Senhora nos faça tais! Que possamos ouvir, também nós, a voz d’Ela dentro de nossas almas. Que nós também tomemos a forma de verdadeiros discípulos d’Ela para, contra os hereges
contemporâneos, vivermos aqueles Apóstolos do Últimos Tempos que devemos viver. É o que nós pedimos, de toda alma, a São João Batista e a Nossa Senhora, na festa dele.
(Plínio Corrêa de Oliveira, “Santo do Dia”, 23
de junho de 1967)

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