“Flashes” com a pureza
de Nossa Senhora
Também na infância, outras graças dessa
natureza me foram concedidas, ao contemplar as imagens de Nossa Senhora
Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, e de Nossa Senhora do Bom
Conselho, no Colégio São Luís.
Em ambos os casos não houve milagre, como se as
imagens se movessem e se manifestassem a mim de modo extraordinário. Porém,
elas me foram ocasião de graças sensíveis, à maneira das que recebemos, por
exemplo, diante da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, cuja
maravilhosa expressividade nos faz ter a sensação de que ela muda de fisionomia,
como se quisesse nos dizer algo.
Assim, de modo análogo, junto àquelas imagens
tive uma dupla noção, da realeza e da misericórdia de Nossa Senhora.
Poder-se-ia afirmar tratar-se de realeza da
castidade. Maria Santíssima é a Soberana de todo esse setor do universo chamado
pureza, de tudo capaz de ser considerado casto, com primazia para a alma
humana. Nossa Senhora possui a castidade em grau tão super-eminente, que todas
as purezas abaixo d’Ela não são senão pálida figura da sua virgindade.
E a pureza tem em si algo que é oposto, não
contraditório, com a misericórdia. Porque a castidade é profundamente
exclusiva. A pessoa pura constitui em torno dela uma espécie de halo que se
chama pudor, uma distância de tudo que
não seja casto. Ela é inquebrantável quanto à impureza, mostra-se altaneira em
relação a esta e a afasta para longe.
Donde entre o puro e o impuro se estabelecer uma situação parecida com a
que se poderia imaginar numa cena da Revolução Francesa, entre a Rainha Maria
Antonieta e um daquele ferozes revolucionários. Ela representaria de algum modo
a pureza, a ordem, e ele, a revolta, o partidário de toda feiura, sordície e
más maneiras.
Tal cena exprimiria de maneira tênue a ideia de
que realeza e pureza se casam com toda a intransigência inerente aos conceitos
de ambas. Isto de um lado.
De outro, porém, Nossa Senhora possui
insondável misericórdia, inclusive e principalmente para com o impuro. Embora
faltoso, este continua sendo seu filho, e Ela o considera com seu ilimitado
desvelo de Mãe, com sua incansável bondade, desejando perdoá-lo a todo momento,
reerguê-lo e tirá-lo da charneca.
Ora, a conjugação de todas essas qualidades da
Santíssima Virgem me falou na alma de forma inenarrável. E vi naquelas imagens
d’Ela essas várias expressões. Marcou para minha vida inteira a devoção a Nossa
Senhora, com a ideia de que Ela é um modelo a ser imitado custe o que custar,
um auxílio no qual se deve confiar a todo preço, por pior que seja a situação.
A bem dizer, duas incondicionalidades na vontade de imitar, no propósito de
esperar o perdão e a clemência.
Um muro de horror ao
pecado
A graça de compreender e admirar a realeza da
pureza de Nossa Senhora, cuja noção adquiri através desses flashes, veio trazendo dentro de si um verdadeiro muro de horror
contra a impureza.
Para se entender essa afirmação, imagine-se uma
pérola absolutamente branca. Qualquer grão de poeira que se deposite sobre ela
a deprecia, porque macula em algum ponto aquela alvura, quebra sua
homogeneidade. Assim, a virtude da pureza imaculada, ilibada, traz consigo o
padrão do muro de horror contra a impureza e, por extensão, também contra tudo
quanto é erro e mal. Por exemplo, entre o deplorável defeito da inveja e a
virtude contrária (isto é, a admiração e a alegria pelos dons concedidos a Deus
a outros), há um muro de horror semelhante àquele da relação pureza-impureza.
Essa parede de aversão se repete ao longo de
toda a muralha das virtudes, sobretudo no tocante à principal delas, a Fé, face
ao pecado que a ela se opõe: a heresia.
Por definição, a Fé é tão casta que, muitas
vezes, quando a Escritura se refere a alguém que pecou contra essa virtude,
afirma ter ele caído na impureza. E quando o Antigo Testamento nos apresenta os
judeus praticando atos impuros no alto das montanhas, aludo com isso ao pecado
de apostasia que eles cometiam ao adorar ídolos postos naqueles locais. Ou
seja, entregar-se à idolatria e cometer atos impuros, é pecar contra a Fé.
Em contrapartida, a Santa Igreja, guardiã da
verdadeira Fé, é a Mãe casta, virgem e reta, a santa, a ilibada, que nos leva à
prática da virtude e à repulsa ao vício.
Certo estou, portanto, de que naqueles momentos
dos meus flashes com Ela, Nossa
Senhora me concedeu a graça de edificar em minha alma esse muro de horror ao
pecado. Muro este que todos devemos procurar desenvolver em nosso interior, em
relação a qualquer defeito e pecado que nos afastam do caminho da santidade.
“Flashes” que se
desdobram em princípios
A esse propósito, alguém poderia me indagar:
“Para se criar esse muro de horror, importa ter tido antes um flash?”
O flash produz
necessariamente o muro de horror. Porém, com frequência este último é obtido
através do estudo da boa doutrina, feito de modo sério por uma alma honesta que
deteste o vício e o mal, embora não tenha recebido a graça sensível que
chamamos de flash. Entretanto, a meu
ver, na vida espiritual de uma pessoa é indispensável haver certo número de flashes, a fim de que ela construa de maneira
profunda essa muralha de repulsa ao pecado. E para minha cara “geração nova”, o
flash é uma graça particularmente
valiosa, devido à própria contextura de seu espírito.
Agora, os flashes
devem se desdobrar em princípios, os quais cumprem ser, não analisados como
coisa geométrica, mas amados. Quer dizer, compreendendo uma verdade a partir do
flash, é necessário amá-la e detestar
o erro oposto. Nesse sentido, lembra-me um Salmo que diz: “Amei a justiça e
odiei a iniquidade, por isso Deus me ungiu com seu óleo santo”. Na linguagem da
Escritura, a justiça é o símbolo de todas as virtudes, e a iniquidade
representa o conjunto dos erros. A unção da qual fala o Salmo seria, pois, o flash que torna a alma articulada, leve,
aromatizada, azeitada para a prática do bem.
Trilhando o caminho dos
“flashes”
Para concluir essas considerações, é oportuno
dizer que cada um, com a peculiaridade de seu espírito e a riqueza de sua
personalidade, em relação aos flashes
deve ir apalpando e tateando suas impressões, a fim de procurar seguir um
caminho análogo ao que trilhei. Esforçar-se em lembrar dessas graças recebidas,
explicita as sensações que causaram, de maneira a saber dizer qual foi sua
substância e, posteriormente, estabelecer correlações e princípios.
Assim foi como procedi: recordei meus flashes de menino, explicitei-os, compus
com eles um quadro de impressões de correlações e conceitos: a santidade da
Igreja, a realeza e virgindade de Maria Santíssima, etc.
Naturalmente, cada alma realiza essa operação
num movimento que lhe é próprio. Não pretendo que façam como eu, mas acredito
ser este um bom método para, efetuando as necessárias adaptações, seguir esse
luminoso “caminho dos flashes”.
(Revista “Dr. Plínio”, nº 81, dezembro de 2004, pp. 14/17)

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