Comentários de Plínio Corrêa de Oliveira sobre o olhar da Santíssima Virgem Maria:
"Buscando explicitar para mim mesmo o que tanto me atrai em Nossa Senhora, encontrei uma figura tão simples como mais não se pode conceber, e que exprime bem o meu pensamento. Com a ressalva de que o exemplo talvez não se verifique inteiramente exato no que concerne à Geometria (da qual possuo sumários conhecimentos...), imaginemos um poliedro regular. Analisando-se uma de suas faces, é possível intuir como são as outras, com suas características e dimensões.
Assim é Nossa Senhora. Em virtude de sua perfeição
super-eminente, possui Ela em grau igualmente incomensurável todas as
qualidades de que seja capaz uma criatura humana. E, portanto, ao considerarmos
uma delas, podemos perceber o valor e a magnitude das demais. Contemplando, digamos, o teor da
virtude da Caridade em Maria, nos será dado discernir a riqueza de sua Fé e de
sua Esperança. O mesmo sucede com as suas virtudes cardeais e com todos os
excelsos predicados de que A enriqueceu a Santíssima Trindade.
Atraído
pela inesgotável compaixão de Nossa Senhora
Contudo, o que primeiramente mais me tocou em Nossa
Senhora não foi tanto a virginal, régia e insondável santidade d’Ela, mas a
compaixão com que essa santidade olhava para quem não é santo, atendendo com
pena, com desejo de dar, com uma misericórdia cujo tamanho era o das outras
qualidades. Quer dizer, inesgotável, clementíssima, pacientíssima, pronta a
ajudar a qualquer momento, de modo inimaginável, sem nunca um suspiro de
cansaço, de extenuação, de agastamento.
Sempre disposta, não só a repetir-se a Si própria,
mas a superar-se a Si própria. De maneira que, dispensada tal
misericórdia, e sendo ela mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por
assim dizer, nossos abismos de ingratidão vão atraindo a luz para o fundo. E
quanto mais fugimos d’Ela, mais as suas graças se prolongam e se iluminam em
nossa direção.
Um olhar
que comunica calma para a vida inteira
Eu mesmo experimentei essa maternal compaixão
quando, na infância, pela primeira vez atinei com a imagem de Nossa Senhora
Auxiliadora, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Naquela hora, não tive
nenhuma visão, nenhum êxtase, nenhuma revelação. Mas, pela ação da graça,
senti-me tocado como se a imagem me olhasse.
Se fosse possível comparar o miosótis com o sol, eu diria que esse olhar de Nossa
Senhora operou em mim um efeito análogo ao do olhar de Nosso Senhor para São
Pedro, durante a Paixão. O Príncipe dos Apóstolos O renegou, o galo cantou, e
Jesus olhou para o discípulo infiel. Nesse instante, São Pedro se sentiu tomado
por inteiro. E ele, que havia visto tudo quanto os Evangelhos narram — ou como
testemunha direta, ou tendo recebido uma repercussão imediata dos
acontecimentos — foi objeto de uma graça ímpar, que reavivou em sua alma, de
modo intenso e esplendoroso, tudo o que ele conheceu da infinita bondade de
Nosso Senhor. E essa lembrança venceu a ingratidão dele. Por isso, diz a
Escritura: “Et
flevit amare — E chorou
amargamente.”
Daí vem a grande contrição de São Pedro, que
constitui um dos mais belos fatos da história dos Santos. Também eu, no momento
daquela graça diante da imagem de Nossa Senhora, tive conhecimento como que
pessoal da indizível misericórdia d’Ela, de sua inexcedível bondade a me
envolver todo, de maneira tal que, quisesse eu fugir ou renegar, Ela me pegaria
afetuosamente e diria: “Meu filho, volte de novo, aqui estou...”
Como resultado desse celestial favor, tornei-me
calmo para o resto de minha vida. Porque, seja o que for e como for, uma vez
que nós, homens, estamos envolvidos por essa misericórdia, podemos descansar.
No fundo, aquele que não é brutalmente insensível com Nossa Senhora, e para Ela
se volta, d’Ela acaba recebendo sempre proteção e socorro em suas dificuldades.
E precisamente uma das coisas que mais me
enlevaram, e que, dentro da indefinição de minha mentalidade de menino,
entretanto ficou-me bem clara, foi o fato de que aquela solicitude materna não
representava um privilégio para mim, mas é a atitude d’Ela para com todos os
homens.
Nossa Senhora poderia condescender em tratar alguém
como um privilegiado, porém não foi disso que eu tive cognição. Antes,
compreendi o contrário: “Veja que você é um Zé da rua, e Ela trata da mesma
forma a todos os Zés da rua. Para qualquer um, para todos os homens que
existiram, existem e existirão, para todos os pecadores que transitam pelas
cidades, que enchem as casas, os ônibus e os automóveis, Ela é exatamente
assim.”
Volto a dizer que fiquei calmo para a vida inteira.
Causa-me muita pena ver alguém, sobretudo um jovem, nervoso e com problemas.
“Por que não lhe ser comunicado um olhar como o que recebi de Nossa Senhora?” —
penso eu. “Ele ficaria calmo até o fim dos seus dias.” Medindo a profundidade
dessa clemência sem limites, vêm-me ao espírito aquelas palavras que a
Santíssima Virgem, no Magnificat, diz do Padre Eterno: “Et misericórdia ejus a progenie in
progenies timentibus eum”.
Ou seja, a misericórdia divina se estende de
geração em geração a todos os que O temem. A tal propósito, sempre pensei: “É
bem verdade, e isto se dá por meio d’Ela. Maria é a misericórdia inesgotável,
que não se extingue, que se multiplica solícita, bondosa, que toma nossa
dimensão, que se faz até menor do que nós para nos pegar, de pena de nós.”
Pureza,
fortaleza e sabedoria
Na dimensão dessa misericórdia, e nela contida, vem
a ideia da virginalidade. Nossa Senhora é pura, de um grau de pureza do qual
não se tem noção. Conhecida a misericórdia, se conhece a pureza. É novamente a
figura do poliedro. Todas as purezas que se possam imaginar não chegam nem de
longe aos pés da pureza d’Ela, que é feita não só de ausência de qualquer
pendor para o mal, mas de um impulso de alma direta e exclusivamente para Deus,
sem compromisso com mais nada e ninguém. É um ímpeto inteiro, de uma força, de
uma integridade, de um desejo de Absoluto como também não se pode medir. Está
na dimensão da misericórdia.
Supérfluo dizer que, nessa concepção de pureza,
entra também o sentido de castidade, perto da qual a neve seria um carvão.
Essa pureza, no meu modo de entender, traz consigo
a ideia da fortaleza. E fortaleza aqui não significa apenas algo que nada
quebra. É diferente. Nada tem comparação possível com essa fortaleza. O que
Ela, na sua pureza, decidiu, o resto do mundo se flecte e se liquida, e o
universo inteiro é zero, pela força da vontade de Nossa Senhora. Quando Ela
decide, é uma resolução que torna impossível a resistência de quem e do que
quer que seja. É uma soberania e um domínio de igual dimensão da misericórdia e
da virginalidade, uma envergadura para a qual não há palavras humanas. Todas as
armas modernas são pobres e inofensivos brinquedos em comparação com um ato de
vontade d’Ela.
Por sua vez, essa misericórdia, essa pureza e essa
fortaleza trazem uma ideia da sabedoria da Fidelíssima Esposa do Espírito
Santo.
Ela conhece tudo, e as inter-relações de todas as
coisas, com acuidade tão superior que Ela penetra até as entranhas de todo ser,
vê como é cada qual e discerne a ordem de Deus no universo, tão grande, tão
inabarcável! Diante de sua sabedoria lúcida, adamantina, na qual não cabe
nenhuma dúvida, compreendemos mais uma vez qual é a imensidade da pureza e da
fortaleza da Virgem Santíssima.
Essas são as virtudes marianas que mais me chamam a
atenção quando me lembro daquele olhar da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora,
na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
“Meu filho,
eu te quero” — “Minha Mãe, eu sou vosso”
Alguém poderá me dizer: “Mas, Dr. Plinio, o senhor
contemplou esse olhar como um menino de onze ou doze anos. E depois, nunca mais
houve algo assim?”
Respondo que, para mim, essa graça foi tão
excepcional que permaneceu como um sol a iluminar toda a minha existência. É
como se tivesse acontecido ontem. Como se, naquele momento, Ela me houvesse
dito: “Meu filho, eu te quero”, e ouvisse de mim: “Minha Mãe, eu sou vosso”.
Poderão, ainda, perguntar-me: “E nesse
relacionamento do senhor com Nossa Senhora, onde se encontra Nosso Senhor Jesus
Cristo?”
Eu respondo: em tudo!
É a ideia desenvolvida por São Luís Grignion de
Montfort no seu célebre “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”.
Nossa Senhora é o claustro, o oratório, o tabernáculo sagrado onde está Nosso
Senhor Jesus Cristo, e quanto mais estivermos próximos d’Ela, tanto mais
estaremos próximos d’Ele.
Minha devoção a Ele passa por Ela, e, por isso,
nunca alguém me vê proferir uma palavra de adoração a Nosso Senhor, sem que
logo depois eu não fale de sua Mãe Santíssima. É sistemático.
Outros poderão todavia observar: “Muitas vezes o
senhor se refere a Ela sem mencioná-Lo.”
É isso mesmo. Porque, sendo Jesus infinitamente
maior do que Nossa Senhora, está Ele contido de modo implícito em toda
referência que eu faça a Ela. A recíproca, porém, não se verifica. Razão pela
qual procedo dessa forma e, se Ela me ajudar — queiram ou não queiram, agrade
ou não agrade — assim procederei até morrer".[1]

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