“Carta de um Diretor” é um texto de autoria do
Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais
especialmente ligados à situação da Igreja. Publicou-a numa obra sob o título
de “Luta da alma com Deus”. O Beato compara a situação da Igreja com a passagem
do Evangelho em que a tempestade rugia em volta do barco onde estava Jesus com
seus Apóstolos, enquanto Jesus Cristo parecia dormir, necessitando que pedissem
socorro senão morreriam. Estamos vivendo uma época em que a Igreja está
naufragando e precisamos pedir a intervenção divina para que nos socorra. “A
Igreja caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode salvá-la”,
conclui ele.
Numa série de conferências feitas em 1957 para
seus filhos espirituais, comentando o livro “A Oração, o Grande Meio da Salvação”, de Santo Afonso Maria de
Ligório, o Sr. Dr. Plínio Corrêa de Oliveira define um grave problema que
entrava a vida espiritual dos cristãos, que ele chamava de “encalhe
espiritual”. Quer dizer, está definindo uma situação em que a pessoa se atola,
encalha, fica empacado no mesmo lugar, ou até decaindo, por causa de fatores
que o impedem de progredir e de se santificar.
E aponta como única solução a oração, conforme ensina Santo Afonso neste
seu livro.
Transcrevemos a seguir todo o texto de Dr. Plínio que aborda a questão acima:
Importante
princípio de Santo Afonso
“Eu gostaria de focalizar mais alguns aspectos da oração, muito
bem tratados por Santo Afonso, porque se baseia em ótimas citações, e ele mesmo
é uma grande autoridade cujas palavras merecem ser mencionadas.
Trata-se de saber, fundamentalmente, e de forma racional, como a
oração pode nos conduzir ao resultado desejado. Com que fundamento? Baseados em
que razão nos podemos servir da oração para chegar a obter a graça pedida?
Eu queria desenvolver aqui um princípio dado por Santo Afonso de
Ligório. Eu me lembro de já ter aludido a esse princípio, mas acho-o tão
importante que é necessário fazer novamente uma insistência a respeito desse
assunto.
O princípio é o seguinte: para as dificuldades comuns da vida
espiritual, a graça comum, dada a todas as pessoas, é suficiente. Mas para as
dificuldades extraordinárias, não basta. São necessárias, também, as graças
extraordinárias.
Um mito “neo-semipelagiano”
A pessoa, em via de regra, obtém pedindo. É por meio da oração que
se conseguem vencer as grandes dificuldades da vida espiritual. Devemos, no
entanto, afastar de nosso caminho um mito: a vontade humana é suficientemente
forte, só por suas forças, para fazer todo o necessário para se santificar.
Ninguém aqui entenderia esse mito tomado num sentido inteiramente
literal, pois acabaria dando, em última análise, no pelagianismo. Isto é, a
desnecessidade da graça para a salvação. Mas, há um modo diferente, uma espécie
de neo-semipelagianismo – se pudéssemos dize assim – o qual, aliás, não tem
nada de comum doutrinariamente com o pelagianismo. Mas acaba numa atitude
psicológica ligeiramente parecida com a desse erro. Poderíamos enunciá-la da
seguinte maneira:
Deus me dá sempre as graças suficientes para a minha salvação . Se
Ele mas dá, ainda que eu não peça, não vejo por que é preciso pedir mais. Se a
graça é suficiente, eu topo a parada e correspondo. Quanto ao resto, eu toco o
barco e está acabado.
Esse estado de espírito esteve radicado, por ignorância, durante
muito tempo em minha cabeça. Para mim, o problema se punha assim: é ou não
é verdade que Deus dá a todos os homens
a graça suficiente para se salvarem? É. Se Ele dá as graças suficientes, mesmo
não as pedindo, não compreendo por que eu devo pedir. Se eu sou generoso,
correspondo, tiro proveito. Ele dá sem eu pedir. Eu não compreendo o papel
representado pelo ato de pedir diante disso.
Entretanto, o erro está nesse ponto. As dificuldades maiores da
vida espiritual, não as vencerei a não ser pedindo. A graça suficiente, para
isso não me basta.
Para se obter graças extraordinárias é preciso
rezar
A graça comum me serve para as ocasiões comuns da vida, mas para
as grandes dificuldades precisa de graças extraordinárias. Isto Santo Afonso
tira de São Tomás de Aquino e de outros santos.[1]
Eu fico, então, colocado diante de
um panorama novo. Para as dificuldades grandes de minha vida espiritual eu
preciso de graças especiais, mas preciso rezar para obter.
As grandes dificuldades da vida espiritual
Agora, põe-se o problema: quais são as grandes dificuldades da
vida espiritual?
Todo o mundo tem a impressão de serem essas grandes dificuldades
as ocasiões de grandes tentações. Por exemplo, uma pessoa tentadíssima está
atravessando uma crise e precisa rezar. Depois, quando passam as crises, a
pessoa não tem grande dificuldades de vida espiritual, e, portanto, não precisa
rezar de um modo especial. Isso é falso.
As grandes dificuldades na vida
espiritual consistem em vencer os grandes defeitos. Os assuntos de vida espiritual são
personalíssimos, variam de indivíduo para indivíduo. Algo custoso para mim,
para outros será uma bagatela, e vice-versa. Todos nós temos algumas imensas
dificuldades dentro da vida espiritual para vencer. E isto vai assim até o fim.
Vai até o momento da morte!
Primeiro para vencê-las, e depois para sustentar a vitória, o que
é quase tão difícil quanto vencer. Às vezes se é mais tentado a perder uma
vitória adquirida do que, propriamente, em conseguir alcançá-la.
Por exemplo, há santos que conseguem emendar-se de uma vida má e
guardar a castidade durante anos. Mas, depois, são mais tentados em matéria de
pureza do que quando eram ruins. Sofrem mais para conservar a castidade
recuperada. Nós vamos ter essa luta, em alguns assuntos prodigiosamente
difíceis, a vinda inteira. E para isso as graças comuns não bastam, são
necessárias graças extraordinárias, que é preciso pedir.
O pedido deve ser proporcionado ao perigo
Pedir! É necessário acentuar este ponto. Pedir com uma insistência
proporcionada ao tamanho do perigo corrido. Se eu corro grande risco, se estou
sendo muito tentado, se estou num período de muita tentação, não tenho o
direito não pedir proporcionadamente ao risco corrido. Se na minha vida
espiritual eu encontro no meu caminho não um dragão, mas uma pedra, muitas
vezes é mais difícil de tocar do que um dragão.
Uma pedra! Certa pessoa me disse numa ocasião, não conseguir
examinar-se inteiramente, nunca! Não sabe o que acontece dentro de si. Isso não
é um dragão, mas é uma pedra parada no meio do caminho.
Pois bem, isso é um obstáculo. Se eu não rezo proporcionadamente à
gravidade dele, segundo Santo Afonso de Ligório eu cometo um pecado do tamanho
representado por aquele obstáculo.
Se eu, por exemplo, sou muito tentado contra a pureza, é uma
temeridade não rezar o necessário para me manter. Constitui um pecado
proporcionado à gravidade do risco espiritual corrido. Pode até chegar a ser
pecado mortal.
Os anjos pecaram porque não rezaram
Santo Afonso de Ligório, citando São Tomás de Aquino, faz uma
afirmação que me impressionou muito. Os anjos pecaram, não tiveram forças para
resistir, porque na hora da tentação não pediram auxílio a Deus.
O mesmo aconteceu a Adão e Eva no Paraíso. Em vez de eles rezarem
na hora da tentação,, firam ali saracoteando com a serpente. Resultado, caíram.
Nunca me passou isso pela cabeça... Na pormenorizada descrição do
pecado de Adão dada pela Bíblia, nem ele nem Eva rezaram. Não tiveram sequer um
momento de oração. E teria cabimento que eles tivessem rezado.[2]
Se Adão e Eva tivessem rezado, desde aquela ocasião, teriam
conseguido vencer essa tentação. Como não rezaram, pecaram.
A oração, uma prática facultativa?
O homem não pode, sem pecado de temeridade, deixar de rezar, na
proporção necessária, pela liberação de seus problemas.
De acordo com o conceito comum, é pecado não ir à Missa ao
domingo, e o resto é facultativo. Também não seria pecado rezar de manhã e à
noite. Porém, a oração não se apresenta para nós como algo facultativo.
Isto explica por que razão um certo senso de piedade nos leva a
considerar algumas práticas do Grupo[3]
tão obrigatórias como, por exemplo, rezar o rosário todos os dias. Para nós é
uma dessas obrigações de virar e romper. Aconteça o que acontecer, dê no que
der, diga o que disser, doente, agonizante, seja como for, Rosário diário. Qual
a razão disso? Afinal de contas alguém poderia dizer: isso é ridículo! Mas, o
Grupo acaba tendo mais severidade para com o Rosário, que não é obrigatório, do
que em relação a outros pontos, em última análise, mais importantes. Por
exemplo, mais vitórias sobre certas manifestações de egoísmo. O egoísmo, afinal
de contas, constitui um mal sobre o qual poderia haver vitórias.
Ceder ao egoísmo pode ser pecado. Mas, podemos procurar todos os
teólogos do mundo, e nenhum dirá ser pecado não rezar o Rosário. É evidente!
Contudo, tomando-se em consideração determinadas almas, em determinadas
circunstâncias de vida espiritual, em determinadas situações, teriam elas o
direito de não rezar aquele Rosário?
Exemplo de Santo Afonso: “Se eu deixar passar
um dia sem rezar o Rosário, comprometo a minha salvação eterna”
É famoso o caso de Santo Afonso de Ligório, ocorrido nos últimos
anos de sua existência aqui na Terra. Estava ele muito doente, paralítico e,
além disso, ficou com o pescoço torto. Ele, que fora um homem de estilo,
sumamente inteligente.
Para se distrair um pouco, era levado por um irmão, num carrinho,
através do convento, e juntos iam rezando o Rosário. Às vezes os dois perdiam o
pé e não sabiam o se tinham rezado o Rosário ou não. Então, tinham que começar
tudo de novo. O irmão, que evidentemente não era Santo Afonso, entrou com o
conselho de bom senso. Por que Santo Afonso não deixava de rezar o Rosário
naquele dia? Porque afinal já tinham rezado, certamente, os três terços...
Resposta de Santo Afonso:
- Irmão, o que é que o senhor está me aconselhando? O senhor não
sabe que se eu deixar passar um dia sem rezar o rosário eu comprometo minha
salvação eterna?
Todo mundo pensa que é um dito: “Nosso pai Santo Afonso, não podia
deixar...”
Não é isso, não. É completamente diferente. Ele, conhecedor de sua
vida espiritual e tendo verdadeira piedade, sentia, sabia e perceber, ser o
Rosário uma devoção que, de fato, condicionava a salvação e, portanto, era
preciso rezar direito.
Esta obrigação de rezar proporcionalmente às nossas tentações, ou
às nossas necessidades espirituais, acaba se impondo, sob pena de pecado.
Naturalmente, é preciso dar os descontos e não geometrizar. É preciso tomar em
consideração as fraquezas e uma série de circunstâncias.
O capitão sitiado
A esse respeito, Santo Afonso cita um pensamento de São
Boaventura, muito interessante; Imaginem um capitão que está sitiado numa praça
forte. Ele tem ao seu alcance a possibilidade de pedir o auxílio ao rei, logo
que ele seja cercado. E ele pode estar certo de recebê-lo, porque o rei sempre
ouve o chamado e tem meios de fazer chegar as tropas ao ponto atacado. Esse
capitão luta para vencer o inimigo, sem pedir o auxílio do rei. Resultado, ele
cai, e a posição dele é dominada pelo
inimigo. Poder-se-ia perguntar: o rei não considerará um traidor esse
capitão?
Eu acho o argumento muito bom.
Ora, o mesmo se dá conosco, em relação a Nosso Senhor. Se nós podemos
pedir auxílio, obtendo certamente tudo quanto quisermos, teremos nós o direito
de não pedir esse auxílio, sem traição? E de não pedir com tanta insistência
quanto é necessária para sermos socorridos? O argumento é muito concludente,
faz-me sentir muito bem o problema ao vivo.
Mais vale rezar do que meditar
Ele tira daí uma conclusão curiosa. Mais vale a pena rezar do que
meditar. Isso não quer dizer, absolutamente, que se tenha o direito de rezar
muito e deixar a meditação. Ela é indispensável na vida espiritual. Mas, quer
dizer outra coisa. O desleixo na meditação é menos grave que o desleixo na
oração. Eu fiquei um pouco espantado quando encontrei isso, mas é perfeitamente
racional.
A meditação nos mostra os defeitos, bem como as virtudes que devemos
adquirir, e os meios a conjugar para alcançá-las. Mas, a meditação não nos dá,
de “per se”, aquilo que a oração dá, que é a vontade de alcançar essas
virtudes. A meditação nos mostra a necessidade da oração. Mas, verdadeiramente,
o eixo da vida espiritual, mais ainda que na meditação, está na oração.
E são quatro os textos de Santo Afonso de Ligório neste sentido.
“Algumas almas devotas empregam muito tempo em ler e meditar, mas
poucos se ocupam de súplica. Não resta dúvida que a leitura e a meditação das
verdades eternas seja coisa de muita utilidade; mas muito mais útil diz Santo
Agostinho, é o suplicar, nas leituras e nas meditações ficamos conhecendo as
nossas obrigações, mas na oração obtemos a graça de cumpri-las”.
A formulação está esplêndida!
A seguir o trecho de Santo Agostinho:
“...Melhor é orar do que ler; na leitura conhecemos o que devemos
fazer, nas oração recebemos o que pedimos”
(In Ps 75)
Volto agora a Santo Afonso:
“De que serve conhecer a obrigação de fazer e depois não o fazer;
de que serve senão para tornar-nos mais culpados perante Deus? (...) O fruto
maior da oração mental é de nos fazer pedir a Deus as graças de que precisamos
para a perseverança e a salvação eterna”.
A própria oração mental tem como fruto maior a deliberação d rezar.
Isto é muito interessante, até para o modo de fazermos os Exercícios
Espirituais.
Primeira resolução da meditação: pedir
Deflui disto uma conclusão. Nós habitualmente chegamos às tais
resoluções decisivas da meditação: “Eu vou fazer tal coisa”. Mas, devemos
colocar sempre, em primeiro lugar, a resolução de pedir. Isto é perfeitamente
coerente com essa doutrina.
Outro trecho interessante é o seguinte:
“Principalmente por isso, a oração mental é moralmente necessária
para a alma conservar-se na graça de Deus, porque, se a pessoa não se recolhe
durante a meditação para pedir os auxílios necessários à perseverança, não o
fará em outro tempo; pois que sem a meditação não se pensa em pedi-los e nem se
pensa na necessidade que há de pedi-los. Ao contrário, quem todos os dias faz a
sua meditação, bem conhecerá as necessidades da alma, os perigos em que se
acha, a necessidade que tem de pedir e assim pedirá e obterá as graças que
então o farão perseverar e alcançar a salvação. Falando de si, dizia o padre
Ségneri que, a princípio, na meditação ele mais se ocupava em fazer afetos do
que súplicas; mas, conhecendo depois a necessidade e a imensa utilidade das
súplicas, daí por diante, nas muitas meditações que fazia, se aplicava a fazer
súplicas. (...)”
“Refere o padre Rodrigues que os antigos padres, os nossos
primeiros mestres espirituais, consultaram entre si para ver qual o exercício
mais útil e necessário para a salvação eterna, e resolveram que era repetir
amiúde a breve oração de Davi: “Deus in adjutorium meum intende” – Senhor,
vinde em meu socorro”.
Era essa a oração recitada por Luiz XIV quando se viu perdido na
hora da morte: “Deus in adjutorium meum intende”. Encontrou ele a oração dos
bons autores espirituais.
“Para se chegar à perfeição, dizia São Bernardo, é necessária a
meditação e a petição; com a meditação vemos o que nos falta; com a petição
recebemos o que nos é necessário: subamos pela meditação e petição; aquela
mostra o que falta; esta faz que nada falte”.
A boa harmonia estabelecida entre uma e outra!
Necessidade de relembrar estas verdades
Eu gostaria de terminar com o seguinte:
Para se ter uma vida de oração perfeita é preciso preparar-se, e
não permitir que essas verdades se embacem no nosso espírito. Eu tenho receio
de que tudo quanto foi dito até aqui, termina esta série de exposições, também
acabe sendo esquecido.
É preciso ficar algo como elemento adquirido para a compreensão da
importância da oração para a vida inteira. Eu tenho a impressão de ser muito
oportuno aqui aquele conselho que está alhures no Novo Testamento: antes da
oração devemos preparar a alma.
É preciso lembrar e meditar com frequência o que foi dito,
ressuscitando isso no espírito, para que os canais da oração fiquem
completamente desobstruídos.
Além de pura teologia, adquirimos sobre a oração uma série de
pequenas impressões, vindas das relações com Deus. As orações frustradas, as
orações onde se tinha a impressão de que devíamos ser atendidos e não fomos, as
orações onde tudo foi para trás, a aridez na oração, uma certa sensação de
estar Deus distante, tudo isso acaba por entrar na nossa alma, transformando o
que foi dito em letra morta.
Em teoria, não se nega ser isso verdade, mas, na ordem prática,
não se age em consequência. E o resultado é que, naturalmente, a vida de oração
fica muito prejudicada.
Poderíamos fazer o seguinte:
Consagrar uma vez por semana, ou a cada 15 dias, ou uma vez por
mês, conforme a vida espiritual de cada um, um tempo necessário para rememorar
tudo quanto diz respeito à oração. Vendo quais são os “nós” existentes no
momento, e tratando de desencalhá-los. Só quando isso estiver bem regulado a
oração produzirá frutos.
“Nós” provocados por certas impressões
Quantas vezes há na vida de oração “nós” assim:
Por exemplo, alguém antes de vir para a reunião, passando a pé em
frente à Igreja do Coração de Maria, olha para a estrada, acha a igreja
convidativa, e não estando ainda na hora da reunião, resolve entrar. Uma vez
dentro, ajoelha-se para rezar, e não tem mais impressão nenhuma. Aquilo foi uma
frustração, uma espécie de consolação que sentiu do lado de fora, mas dentro da
igreja não sente. Zero! Há impressões de piedade como esta que acabam pesando
na vida espiritual.
E assim, há uma série de outras impressões do mesmo porte, na vida
espiritual.
Outro exemplo. Estamos muito consolados, entramos na igreja para
comungar, comungamos... Puft! Acabou tudo. Tudo isso acaba por nos dar a
impressão que Deus desmente a teologia e não faz conosco um jogo leal, um jogo
teológico. Resultado, ficamos com uma espécie de “sente dó” da teologia, não
querendo dar importância a Deus.
Desconfiança em relação a Deus
Por mais absurdo que seja, isso acaba pesando na vida espiritual e
temos desconfianças. De fato, quando não renovamos constantemente aqueles
princípios na vida de piedade, ela acaba não sendo comandada por eles, mas por
outras impressões do tipo dos que acima descrevemos.
Então, a pessoa pensa: “Afinal de contas, por culpa minha, as
orações que eu faço não merecem ser atendidas, e agora estou no buraco. Por que
razão vou continuar a rezar? Porque Ele se zanga se eu não rezar. Mas, assim
mesmo, eu não saio de dentro da entalada. Resultado, para mim, a oração é o
pagamento daquele imposto. Eu vou lá todo o dia, pepé, pepé, pepé, o meu
rosário leva 25 minutos, rezo aquilo, mas as nossas relações estão rompidas.
“Dependia de mim fazer um pacto, que por minha culpa eu não faço.
Deus está no nicho d’Ele vendo se eu faço ou não. Ele continua a pingar aquela
graça, mas eu não correspondo. Então nós não temos mais o que nos dizer.
“Estamos brigados?! Não!
“Nós estamos como marido e mulher que ainda moram debaixo do mesmo
teto, mas perderam o assunto, só conversam coisas formais. Não temos mais o que
conversar um com o outro”.
Quantos vivem com Deus assim, reduzidos ao regime das
formalidades. Se alguém lhes disser:
- Subscreva a seguinte tese: Deus não ouve a oração do pecador.
Ele diz:
- Não, Ele ouve!
-Então, por que não ouve a sua?
- Ah! Não! A minha é “poca”. Deus não a ouve exatamente porque sou
pecador...
O ponto onde se é mais tentado
Quer dizer, ele admite funcionar para si um sistema que, ele
próprio, acha não vigorar para ninguém no mundo. Ele não tem um pingo de
confiança. Uma espécie de areia péssima entrou na engrenagem da sua vida
espiritual e fez com que ele, na prática, não tenha uma vida de piedade filial
em relação a Nosso Senhor. Eu não conheço ponto onde a pessoa seja mais tentada
do que esse, da oração. E sem percebê-lo.
Eu me lembro de inúmeras tentações destas, que em tempos passados
entraram na minha cabeça.
As comunhões do Sr. Dr. Plínio
Quando comecei a comungar todos os dias, eu me deparei com o
seguinte problema: eu gosto de vir receber a Nosso Senhor. Porém, seria
razoável que eu pensasse n’Ele e não em mim. Eu me perguntava a mim mesmo:
- Será que Nosso Senhor gosta de visitar a minha alma? Terá Ele
razões para gostar de mim?
E eu ficava, naquele momento, sem saber como obter a resposta,
pois Nosso Senhor vinha a mim de qualquer maneira, bastava eu me aproximar e o
padre dar a comunhão.
Eu não estou em estado de pecado mortal. Portanto, desgostos que
Lhe causem náusea, horror, Ele não tem. Mas, francamente, graça Ele não deve
encontrar nenhuma, e deve achar muito sem saboronas essas visitas a uma pessoa
“poca” como eu. Ele deve vir mais ou menos como um prelado, que toma uma
atitude racional ao receber uma audiência cacete: é cortês, dá a mão a beijar,
conversa um pouquinho...
E a minha atitude qual era? Apesar disto, eu comungava pois ainda
era melhor, mas, em última análise, o resultado era um gelo de parte a parte.
Esta é uma ideia acretinada, na qual nenhum homem equilibrado
pensa conscientemente. Mas, estava no meu subconsciente, e precisei desencavar
essa ideia para explicitá-la.
Eu creio não ter sido injusto dizer que há muito subconsciente
povoado por essas ideias...
Cada um de nós é a ovelha perdida
Diferente seria alguém ir comungar pensando o seguinte: “Eu
pequei, não é verdade? Como Nosso Senhor vai me receber?”
Com alegria, porque sou a ovelha perdida, e Ele tem prazer em me receber.
Ele dará uma festa e me acolherá mais uma vez com alegria, como acolheu ao
filho pródigo. Sou pior do que o filho pródigo, pois abandonei inúmeras vezes a
casa paterna. Eu sou um vira-lata, que várias vezes volta para a casa à maneira
de cachorro sem dono.
Cada vez que nós comungamos bem, essa alegria se renova em Deus.
Quantas falsas impressões se estabelecem, atrapalhando a nossa
vida de piedade?
É preciso desencavá-las de nossa vida de piedade para que esta
produza bons frutos.
Parece-me da maior importância esse trabalho mensal de
desencoscorar a oração, e manter os canais dela bem desimpedidos.
Benefícios que tiramos da demora em sermos
atendidos por Deus
Vamos supor que eu peça a Deus o mais alto grau de santificação
que, de acordo com o plano d’Ele eu pudesse atingir, mas não o receba
imediatamente. O que eu posso receber de melhor com essa demora de Deus? Ele me
dá uma possibilidade de praticar certas virtudes, de acordo com a Previdência
d’Ele, que normalmente eu não teria.
Eu recebo, além do que pedi, os frutos específicos da demora.
Quando nós pedimos algo que nos é nocivo e esse pedido não é
atendido, Deus dá algo melhor do que nós pedimos. Mas uma oração fica sem fruto
específico, não fica.
Quando não recebemos o que pedimos é porque não pedimos com uma
insistência conveniente, e uma conveniência convincente. Mas se a oração foi
feita com a insistência e a conveniência necessárias, e for conforme à
Providência d’Ele, será atendida. Há pilhas de citações do Antigo e Novo
Testamento que o confirmam.
Há pessoas que pedem e recebem. Naturalmente, essa eficácia
sensível supõe certas vias da Providência. Ela também pode manter alguns num
regime de eficácia sensível, onde somente ao cabo de toda uma existência, ao
longo de muitos anos pedindo, percebe-se ter sido atendido.
Por que a oração não pode ter a eficácia clara
de um cheque?
Santo Agostinho trata deste assunto de forma impressionante:
Porque nesta vida os bons não são recompensados, e os maus não são
castigados?
Se todo homem bom nesta vida fosse recompensado, os ruins por
maldade andariam bem.
Tomemos o exemplo de uma mulher que se entrega à vida pecaminosa
com o intuito de obter dinheiro. Se ela entregando-se ao pecado fosse pobre,
mas praticando a castidade ficasse rica, ela praticaria a castidade.
Uma mulher entrega-se ao pecado porque encontra nisto um certo
gozo. Mas, se ela sem esse prazer fosse mais feliz, ela não pecaria. Deste modo
não haveria possibilidade, nesta terra, de se praticar desinteressadamente a
virtude.
Isto se dá exatamente com a oração. Se por meio da oração eu
pudesse obter tudo quanto quisesse, acabaria por dispor de um jogo de
circunstâncias em torno de mim, por meio do qual construiria a minha
felicidade.
Por isto, Deus para atender os nossos pedidos, põe à prova a nossa
Fé e o nosso espírito de sacrifício, atendendo-nos de maneiras diferentes: às
vezes dando diretamente, às vezes fazendo-nos passar por longas espera, caso
contrário, acabaríamos caindo no puro interesse pessoal.[4]
A oração tudo vence
Transcrevo os
comentários de Dr. Plínio sobre o papel da oração destacado no livro de um
escritor católico francês do século XIX:“Com
seu atraente e luminoso estilo, Louis Veuillot (*) escreveu o livro “Parfum de
Rome”, onde reúne notas sobre uma de suas viagens à Cidade Eterna, que até 1870
esteve sob o poder temporal do Papado.
Nessa obra lemos o seguinte trecho, muito bonito,
por diversas vezes objeto de meus comentários: "Num quarteirão deserto,
nos muros de uma igreja, Enrico copiou e traduziu para mim as inscrições
seguintes, traçadas a lápis por uma mão firme e exercitada: 'No dia 14 de
setembro eu me encontro com má saúde por minha culpa, pela inquietação e pela
desobediência. A partir deste momento, onze horas da manhã, decidi, com a ajuda
de Deus e de Maria Santíssima, não mais me atormentar e recuperar a verdadeira
paz. São José, rogai por nós. Um mês depois: 14 de outubro. Até este momento
ainda não consegui, ou melhor, não obtive o que escrevi no dia 14 de setembro,
mas agora decidi fazer tudo."
Sabemos que, nos primórdios de nossa vida
espiritual, geralmente sucede isto: tomamos uma decisão e nos convertemos. Após
um mês, fazemos exame de consciência e verificamos que quase nada progredimos.
Então resolvemos cumprir todos os propósitos estabelecidos anteriormente, como
manifestou a pessoa à qual o texto se refere.
"Dia 15 de novembro: renovo tudo aquilo que
prometi, a fim de chegar a executá-lo. Dia 23 de novembro: falhei, mas prometi
a mim mesmo, com toda a alma, de executar. Dia 28 de novembro: decidi ser bom.
Dia 31 de dezembro: quero obedecer sempre, para agradar Maria Santíssima até a
morte. 28 de janeiro: não há mais inquietação, por amor a Maria Santíssima e
renovo hoje aquilo que tinha deliberado no dia 1º de fevereiro. Dia 1º de
março: Não. As inquietações cessaram. Dia 29 de março: Não mais me atormentar,
não mais pecar.
Nas duas últimas datas, a inscrição está rodeada de
um desenho que representa duas palmas formando uma cruz. Devo confessar que
estas declarações, feitas ingenuamente por uma alma provada e enfim vitoriosa,
não me tocaram menos do que se eu as tivesse lido nas catacumbas, das quais
elas parecem ter o perfume..."
O mesmo admirável perfume dos
primeiros martírios
É deveras bonito o comentário de Veuillot, cujo
trecho nos leva a admirar o triunfo da graça. Pois trata-se de uma alma que em
diversas oportunidades firmou boas resoluções, sem lograr mantê-las. Em
seguida, renovava os bons propósitos e tinha novas quedas. Afinal, à força de
rezar – era uma pessoa piedosa, ciente de que sem o auxílio divino, implorado
com perseverança, nada alcançaria – obtém o que tanto almejava. Depois de muito
tempo e de vários insucessos, conquistou a vitória na sua vida espiritual.
Era uma alma perseguida por inquietações (talvez
escrúpulos, ou alguma má inclinação à qual ela dava consentimento) e até
revoltada, porque não obedecia a uma certa autoridade cujas determinações
deveria acatar. Após as recaídas, e à custa de orações, acabou chegando um
determinado momento em que ela pôde dizer-se obediente, pacífica e tranquila.
Então, com o senso artístico peculiar ao italiano, adornou com duas palmas as
datas que representavam a sua vitória.
Considerando que essas notas traduzem uma situação
comum em qualquer trajetória espiritual, somos levados a perguntar porque a
pessoa em questão resolveu gravá-las nos muros de uma igreja. Certamente porque
foi o lugar onde recebeu uma graça particular, e onde, a horas furtivas, vinha
inscrever na pedra do templo a sua confissão a Deus. Essa alma traçou ali seu
diário, por desígnios da Providência, a fim de que fosse copiado e analisado
por Louis Veuillot. E é este comentário do grande literato que nos interessa.
Diz ele que o fato era digno de estar escrito na
parede de uma catacumba romana, pois tem o perfume dela. Ora, isso nos mostra o
caráter perene da Igreja; revela-nos como, nas condições da vida hodierna, é
possível repetir toda a glória do seu remoto passado. Com efeito, uma alma fiel
que luta contra suas próprias misérias e que, apesar das infidelidades, roga constantemente
o socorro de Nossa Senhora, para se ver resgatada de suas faltas e livre do
império delas – essa alma realiza algo tão belo quanto o cristão que enfrentava
no Coliseu, ou em outra arena, os leões e os tormentos do martírio.
Realmente, para quem conhece o valor das coisas
espirituais, a seriedade e o desejo de cumprir o dever, o saber se humilhar
quando se cai, decidir levantar-se de novo e confiar na misericórdia de Maria,
possui um perfume admirável. É o bom odor do sofrimento humano suportado com
fé. No episódio descrito por Veuillot se percebe a alma sofredora que se
dilacerou para conseguir a fidelidade aos seus propósitos. Ela teve uma fé que
move as montanhas, e finalmente alcançou seu objetivo.
Ora, esse torcer e sangrar da alma para cumprir seu
dever é uma forma de imolação que tem o aroma de todos os martírios. Quiçá não
ateste o heroísmo num grau análogo ao daqueles cristãos sacrificados nos circos
romanos. Porém, basta manifestar um certo sentido de heroísmo para exalar algo
do perfume das catacumbas, todo feito do espírito de epopeia dos primitivos
católicos que as frequentavam.
Orar sempre, orar muito, sem desânimo
Cumpre colhermos dessas considerações uma aplicação
para a nossa vida espiritual. E será compreendermos que jamais devemos
desanimar quando não conseguimos cumprir os bons propósitos que fazemos. Ainda
que tenhamos insucessos, é necessário rezar, confiar e orar ainda mais, porque
à força de pedir, o Céu se abrirá para nós. Os que imploram com insistência a
graça de praticar a virtude, por débeis que sejam, pertencem por excelência à
categoria daqueles aos quais Nosso Senhor recomendou: "Batei e
abrir-se-vos-á; pedi e dar-se-vos-á". Quer dizer, é uma glorificação da
prece como meio eficaz para o homem obter aquilo que, pelo seu próprio recurso,
não alcançaria.
Alguém poderá dizer: "As minhas orações valem
pouco".
Eu respondo: então reze muito. Pois se possuo
apenas algumas moedas para adquirir uma joia bastante valiosa, é-me necessário
reunir uma grande quantia para comprá-la. Assim também, se julgo que minhas
orações valem pouco, à força de acumulá-las, seu peso há de crescer. Se
considero meu rosário insuficiente, recitarei dois. E se não tenho tempo para
os dois, direi um rosário e uma Ave-maria. Como quer que seja, rezarei o mais
possível, e essa persistência acabará por me alcançar do Céu a graça desejada.
A esse respeito, não posso deixar de mencionar, uma
vez mais, a célebre parábola de Nosso Senhor no Evangelho. É noite, e um homem
já se encontra deitado com seus filhos, para dormir. Em certo momento, o
vizinho lhe bate à porta, rogando-lhe um pedaço de pão.
– Chegaram hóspedes inesperados, e não tenho o que
lhes servir – disse-lhe.
E o primeiro respondeu: – Não posso atendê-lo, pois
estou deitado com todos os meus filhos. O vizinho continuou a bater e a
insistir, até que o dono da casa lhe gritou:
– Não é por amizade, mas para me ver livre da sua
amolação é que vou me levantar e lhe dar o pão.
Com essa parábola Nosso Senhor nos oferece o
seguinte ensinamento:
"Sede assim em vossas orações". É como se
Deus acabasse dizendo a cada um de nós: "Este é muito cacete. Vou
atendê-lo". Tenhamos, pois, a excelsa virtude da caceteação. Saibamos ser
importunos e pedir, pedir e pedir outra vez. No pedido mil e um obteremos mais
do que suplicamos. Ganharemos uma paga imensamente grande. Essa circunstância
se dá de um modo ou de outro na vida de todos os homens, mesmo na daqueles que
se acham adiantados na prática da virtude. Para galgarem um patamar ainda mais
elevado nas vias do bem, é necessário rogar muito. Então peçamos, lembrando-nos
desse diário visto por Louis Veuillot em Roma. A oração acaba vencendo tudo.
Uma palavra final. Se alguém estiver desanimado, desacoroçoado, julgando infrutíferas suas preces porque nada conseguem, dou-lhe este conselho: tome o rosário, reze-o e nunca o abandone. Quando não puder recitá-lo, segure-o na mão e este gesto valerá por uma prece. Se possível, tenha em casa uma lamparina acesa constantemente junto a uma imagem de Nossa Senhora, e diga à Santíssima Virgem: "Minha mãe, sou tão dissipado que não consigo rezar. Mas, quando olhardes para esta lamparina, lembrai-Vos de que eu quereria estar rezando. Ao mesmo este desejo subconsciente me acompanha a vida inteira". Portanto, dirijamo-nos a Maria Santíssima em todas as ocasiões. Certo estou de que, se Ela demorar em nos atender, é porque nos reserva um dom imensamente valioso, muito maior do que podemos imaginar”.[5] (*) Louis Veuillot (1813-1883), jornalista católico francês, que defendeu com brilho a infalibilidade do Papa.
[1]
É verdade, diz S. Agostinho, que o
homem, em sua fraqueza, não pode observar certos preceitos, com a sua
força atual ou com a graça comum a
todos; mas, pode certamente, por meio da oração, obter o auxílio maior do qual
necessita para observá-los: “Deus não manda coisas impossíveis, mas quando
manda exorta a que façamos o que pudermos e a que peçamos o que não pudermos e
nos auxilia para que o possamos”. (De nat et Trento 44, n 50). É célebre esse
texto do Santo, o qual depois foi adotado pelo Concílio de Trento (Sess 6, c
XVII) e declarado dogma de fé. “A lei foi dada para que se procure a graça; a
graça é para que se cumpra a lei” (In Ps
100. S. Tomás diz contra Jansênio: “Portanto, não devemos dizer ser-nos
impossível a castidade ou outro qualquer preceito, porque muito embora não o possamos
guardar por nós mesmos, contudo o podemos mediante o auxílio divino: Deve-se
dizer que o que podemos fazer com o auxílio divino não nos é absolutamente
impossível” (1-2, q. 19, a.4, ad 2).
[2]
Não duvida afirmar o Santo [Agostinho] que Adão caiu por não se haver
recomendado a Deus na hora da tentação. “Adão pecou porque não recorreu ao
divino auxílio”. O mesmo escreveu S.
Gelásio, falando dos anjos rebeldes: “Receberam a graça de Deus em vão, e
porque não oraram não puderam manter-se na justiça/’ (Tr. adv pelag haer)
[3]
No início de seu apostolado o grupo que seguia Dr. Plínio foi chamado “Grupo do
Plínio”, “Grupo do Catolicismo”, ou, internamente, simplesmente de “Grupo”.
[4]
Extraído do opúsculo “Comentários ao livro “A Oração, o Grande Meio da
Salvação”, de Santo Afonso de Ligório – Compilação de seis conferências do ano de 1957 – Plínio Corrêa
de Oliveira – págs. 57/68

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