(Revista Dr. Plínio, n. 126, setembro de 2008)
À maneira de uma gota de orvalho que parece
conter todo o Sol quando sobre ela incide um raio de sua luz, assim é a alma
humilde: eleva-se a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente indizíveis,
torna-se pura e combativa, e se faz escrava de Maria Santíssima louvando-A no
mistério da Encarnação.
Em seu Tratado
da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de
Montfort comenta:
{Os
escravos de Maria] terão uma especial devoção ao grande mistério da Encarnação
do Verbo, celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio dessa devoção,
uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo para honrar e imitar a
dependência inefável que Deus Filho quis ter de Maria, para a glória de Deus
Pai e para nossa salvação. Essa dependência se manifesta particularmente neste
mistério em que Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria,
onde depende d’Ela para todas as coisas.[1]
Durante sua gestação, o
Divino Menino dependia em tudo de sua Santa Mãe
Nosso Senhor Jesus Cristo quis ser Escravo de
Nossa Senhora porque, a partir do momento em que Ela aceitou a proposta do Anjo
de dar à luz o Messias, o Espírito Santo atuou em seu interior e o Homem-Deus
foi concebido. De maneira que, imediatamente depois do convite, Ela tornou-Se a
Mãe de Deus.
Nosso Senhor Jesus Cristo passou no claustro
santíssimo e puríssimo da Virgem Maria todas as fases da gestação. E
continuamente o organismo d’Ela ia fornecendo o necessário para o
desenvolvimento da criança mil vezes abençoada, do Menino Divino que estava ali
Se formando para a salvação dos homens.
De maneira que se tem dito muito bem: Caro Christi, caro Mariae.[2] Porque,
no matrimônio comum, os filhos são produtos do pai e da mãe, mas no casamento
virginal de Maria, Nosso Senhor não era filho natural de São José, que possuía
um direito paterno ao fruto das entranhas de sua Esposa, mas não era o pai
consanguíneo do Menino Jesus. Ela, entretanto, era a Mãe carnal d’Ele.
Excelsa santidade a que
foi elevada a Esposa do Espírito Santo
Mas não podemos deixar de considerar que, sendo
Nossa Senhora verdadeira Mãe de Deus, a partir do momento em que o Espírito
Santo tornou-Se Esposo d’Ela, Ele teve também sobre a alma d’Ela direitos que
sobrepunham aos de São José; e São José, por sua vez, devoto ardentíssimo do
Divino Espírito Santo e cheio do Espírito Santo, ajudava-A, por sua vez, a
conhecer o que o Espírito Santo queria para a plena execução da vontade d’Ele.
Assim, Nossa Senhora Se tornou Sua Esposa e
começou a receber d’Ele orientações, diretrizes, atos de amor, consolações,
“flashes” – se podemos empregar a
palavra – de uma sublimidade insondável, referentes ao relacionamento de
Nosso Senhor com Ela, formando com o Padre Eterno um convívio altíssimo, no
qual Nossa Senhora era, a um título muito especial, Filha do Padre Eterno; a um
título único, Mãe do Verbo Encarnado; e Esposa do Divino Espírito Santo. Tudo
isso veio para Ela em virtude da Encanação.
No momento em que a Santíssimo Virgem concebeu
o Verbo Encarnado, houve, por assim dizer, uma promoção assombrosa, na qual Ela
inteira foi elevada a uma condição superior à de todos os Anjos e Santos. E de
tal maneira superior que, se a santidade pudesse ser objeto de uma operação
matemática – ela é algo puramente espiritual -, mas se somássemos a santidade
havida em todos os Santos desde o início da Criação até o fim do mundo e
comparássemos com Nossa Senhora, Ela seria incomparavelmente mais santa do que
toda essa montanha altíssima dos Santos de todos os tempos que o Espírito Santo
foi suscitando na História.
Nós não temos ideia de qual foi e qual é a
santidade de Maria. Moisés, quando pediu para ver a Deus, ouviu esta resposta:
“Não podereis ver minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a
viver” (Ex 33, 20). Eu me pergunto, às vezes: se nos fosse dado ver nesta vida
terrena Nossa Senhora face a face, com todo o esplendor d’Ela, será que não
morreríamos também?
Convívio com Nossa
Senhora, convite à perfeita obediência
É verdade que a Virgem Maria tem aparecido a
vários Santos. No entanto, Ela provavelmente encobre algo de sua santidade para
esses não morrerem, ou confere graças muito especiais para aquele instante, a
fim de eles puderem aguentar vê-La.[3]
Santa Catarina Labouré, religiosa francesa do
século passado que divulgou a Medalha Milagrosa, conta as aparições da Mãe de
Deus assim: ela estava dormindo e, quando acordou, apareceu-lhe um menino que
ela percebeu ser o Menino Divino, que disse para ela ir com Ele até a capela,
porque sua Mãe a esperava lá. Ela mais do que depressa se alinhou e foi para a
capela.
Havia muitas dependências entre a capela e a
cela onde ela dormia e, ao longo de todo o caminho, todas as luzes estavam
acesas como se tratasse de uma grande festa.
E mais: quando ela chegou à capela, encontrou
Nossa Senhora no presbitério, sentada numa cadeira de madeira que até hoje se
oscula, se pode venerar. A Santa acercou-se d’Ela e, segundo consta, conversou
com Ela tendo os cotovelos apoiados nos joelhos de Nossa Senhora.
O que deve ter restado em sua alma a vida
inteira por aquilo que viu! A conclusão que tiro daí é que Nossa Senhora,
falando com Santa Catarina Labouré, comunicou-lhe uma grandeza de alma e também
uma obediência pelas quais, cada vez que a Santa era engrandecida nas
sucessivas visões, ficava mais obediente.
Por que razão? Porque ela ia compreendendo cada
vez mais a santidade inefável de Nossa Senhora e, portanto, cada vez admirando
mais. E lhe ficava mais claro o absurdo que haveria em desobedecer à Mãe de
Deus e àquele universo de santidade existente em seu Imaculado Coração.
A essência do espírito
contrarrevolucionário
E, por causa disso, o crescimento na santidade,
que deveria na aparência gerar uma espécie de sensação quase de igualdade,
suscitava pelo contrário uma situação de inferioridade deliciosamente
experimentada, vivida na exclamação: “Que paraíso é obedecer!”
A essência do espírito contrarrevolucionário é
isto: admirar tanto o poder no qual existe a autoridade para mandar em nome de
Deus; em venerar e adorar tanto a Deus que manda por meio daquele poder, que
quanto mais obedecemos, mais nossa alma se enche de graças. E, pelo crescimento
na obediência, ela se eleva a uma altura e a uma harmonia verdadeiramente
indizíveis.
Se alguém quer ser grande, procure ser pequeno.
E peça a Nossa Senhora a graça de conhecer, intuir e avaliar a santidade d’Ela
tanto quanto seja possível à fraqueza humana. Os que avaliarem crescerão
enormemente em santidade e assim crescerão em humildade, porque não há
santidade sem humildade. E se crescerem em humildade, quanto mais tiverem que
obedecer, mais encantados ficarão.
Desse modo, para a alma humilde que gosta de
obedecer, de admirar e de fazer-se pequena, o ideal nesta Terra é fazer-se
escrava de Nossa Senhora. Mas no sentido de considerar-se, aos pés d’Ela,
literalmente, como um “vermezinho e miserável pecador”, como diz São Luís
Grignion. Porque pecados o homem os comete, embora insignificantes e
minúsculos, ainda quanto se trata de um grande Santo; e, portanto, qualquer ser
humano é um miserável pecador, um vermezinho da terra... Deus o esmaga quando
quiser, tira-lhe a vida quando entende, dá-lhe a saúde ou a doença conforme Lhe
apraz. Nós estamos na completa dependência de Deus para tudo quanto Ele queira.
Mas que felicidade para nós pensar: é verdade,
somos tão pequenos perto d’Ele que quanto mais reconhecemos nossa pequenez,
mais nos unimos a Ele e mais Ele nos coloca em seu Sagrado Coração.
União com a Santa
Igreja, militância no Céu
É amando cada vez mais a Nosso Senhor Jesus
Cristo em Nossa Senhora, amando a ambos na Santa Igreja que nossas almas vão
progredindo e tomando uma dimensão de compreensão cada vez mais profunda de
como é a Igreja.
De maneira a termos, em certos momentos, a
impressão de que nos fizemos um só com a Santa Igreja e que, surgindo um
problema, antes mesmo de saber como ela o resolveria, nós mesmos adivinhamos,
pela estreita união com ela, cujo espírito possuímos inteiramente.
Compreende-se por esta forma que a união
inteira com a Igreja deve ser o nosso último e supremo ideal. E o que eu quero
ter em vista antes de tudo é que, quando eu morrer, subirei para ser um membro
da Igreja gloriosa, mas gloriosa militantemente. E que, no Céu, uma das minhas
alegrias será a de lutar como lutei na Terra.
Nós sabemos pela Teologia, Cornélio a Lápide
diz isso, que os demônios têm certo conhecimento do que se passa no Céu, mas um
conhecimento cheio de ódio, no qual não entra um pingo de admiração, apenas
inveja ou revolta; e eles têm ódios especiais a certas coisas. Por exemplo,
eles veem na vida celeste as almas que eles quiseram perder e levar para o
inferno e, vendo-as naquela felicidade altíssima junto ao trono de Deus, eles
blasfemam, injuriam. E muitas vezes os Bem-aventurados os contestam e com isso
ferem o seu orgulho.
E assim há uma espécie de continuação da
militância no Céu. Imaginem quando nós estivermos cantando as glórias de Deus,
de seus Anjos e Santos por toda a eternidade e, de vez em quando, nomeio de
nosso cântico, pudermos entrar em contenda contra o demônio, ação com a qual se
rejubilam todos os Anjos que lançaram no Inferno aquela canalha. De maneira que
há uma associação maravilhosa de relações.
Pequenos e puros, como
gotas de orvalho
Enfim, neste dia da Anunciação, pensemos nas
glórias da Santíssima Virgem Maria. Filha do Padre Eterno Ela foi sempre; Mãe
do Verbo e Esposa do Espírito Santo tornou-Se com a Encarnação.
Maria subiu com isso a alturas inexcogitáveis,
desde as quais olha e acompanha a vida de cada um de nós. E queira Deus que Ela
perdoe as imperfeições que há no interior de todos nós; que não olhe para elas,
mas apenas para sua misericórdia e que sorria ao Divino Espírito Santo, sorria
a Jesus Cristo Nosso Senhor e ao Padre Eterno, e diga à Santíssima Trindade:
“Vede, tende pena e compaixão deles, ajudai-os a serem inteiramente aquilo para
o qual foram criados, e neste ponto sejam fiéis como verdadeiros escravos,
fazendo inteiramente a minha vontade que é vossa, Trindade Santíssima! E fazei
com que esses escravos fidelíssimos sujeitem ao meu império o demônio rebelde”.
Eis as graças que neste 25 de março compete, a
meu ver, suplicar: rezar a Nossa Senhora para pedir uma tal união com a Santa
Igreja Católica, que sejamos como Ela; não tanto quanto Ela, mas à maneira
d’Ela, como uma gota de orvalho na qual bate um raio de sol é como o Sol.
A gota de orvalho é linda, é pura, ela encanta;
um raio de sol que incide sobre ela fá-la brilhar inteira. Mas o que é a gora
de orvalho em relação ao Sol? A desproporção entre Nossa Senhora e cada um de
nós é muito maior do que a que há entre a gota de orvalho e o Sol.
Peçamos que, à maneira da gota de orvalho,
sejamos humildes e pequenos, mas puros, fortes, e que do entusiasmo de nossa
pureza e de nossa força parta um constante ataque contra os inimigos eternos de
Deus. (Extraído de conferência de 25/3/1995).
[1]
Cf. SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT Traité
de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n. 243, In: Oeuvres Compètes,
Paris; Du Seuil, 1966 – p. 650
[2]
A carne de Cristo é a carne de Maria.
[3]
Narra-se na vida de São Dionísio, o Areopagita, que o mesmo teria dito que ao
ver Nossa Senhora tal era sua beleza que a teria adorado como uma deusa se não
tivesse recebido uma graça especial.

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