terça-feira, 10 de março de 2026

SÓ UM EXORCISMO UNIVERSAL PODE DESTRUIR A REVOLUÇÃO

 





 

No livro de Plínio Corrêa de Oliveira, “Revolução e Contra-Revolução” está contido todo o desenvolvimento da luta dos filhos das trevas contra a Igreja e a Civilização Cristã nos últimos 5 séculos. Um dos santos que mais entendeu esta temática foi o Beato Palau, descrevendo, denunciando e combatendo a Revolução em toda a sua essência, inclusive manifestando que um dos principais fatores de propulsão da Revolução são o orgulho e a sensualidade.

Segundo o Beato Francisco Palau Y Quer, essa Revolução é a que realiza os anúncios das Sagradas Escrituras relativos à apostasia dos últimos tempos. A análise racional, tranquila e vigorosa dos acontecimentos sociopolíticos contemporâneos o confirmava nesta sua convicção. A Revolução leva a uma catástrofe que o Beato Palau queria evitar. No século XIX a humanidade imergia de modo displicente e veloz na anarquia, impelida pelas tendências desordenadas que alimentam a Revolução, especialmente o orgulho e a sensualidade. Por isso, o Beato Palau concluiu que a dinâmica revolucionária impulsiona o mundo de modo implacável ao caos e ao desaparecimento da ordem social.

 

O que falta para uma intervenção divina

 “Carta de um Diretor” é um texto de autoria do Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais especialmente ligados à situação da Igreja.

A Certa altura ele faz a seguinte indagação:

“...-aquele Pastor tão bom que somente para salvar uma alma desceria, se fosse necessário, segunda vez  do céu e padeceria morte tão cruel como a primeira para tirá-la das unhas do lobo infernal – e sendo o povo espanhol[1] sua grei escolhida, olha sem embargo sem abrir a boca e com indiferença, segundo parece, como uma horda de lobos furiosos se tem lançado sobre ela, a despedaçam a seu prazer e lhe chupam seu sangue? Por que nada faz em defesa de suas ovelhas? Por que mais bem parece que há protegido os projetos dos ímpios?”[2]

Lamenta o beato que os inimigos da Igreja lhe tiram até os últimos recursos, obstruindo todos os meios de salvação, cercando-a com pedras lavradas (Lm 3, 9), havendo necessidade de uma intervenção divina a fim de se eliminar a ação deles. O mistério que se apresenta é exatamente isso: por que não há uma intervenção divina? O que espera a Divina Providência para agir? São Luís Grignion de Montfort já exprimia essa angústia – ó Deus, por que pareceis dormir? Dessa forma o Beato Palau tenta explicar o mistério:

“Como, pois, pode se conceber que assim o permita, que assim o sofra, que não saia em sua defesa? Oh segredo impenetrável! Oh profundo mistério! A fé nos ensina que não falta a Jesus Cristo nem o poder nem o querer. As chagas de seu corpo, especialmente a do costado, pelas quais derramou pela Igreja todo seu sangue, são outras tantas línguas que publicam em altas vozes o imenso amor em que está abrasado seu coração; e tantos passos como deu para a salvação dos homens nos asseguram que da veemência do desejo que lhe anima pela saúde de sua ovelhas.  E, sem embargo da eficácia de seu poder e querer nos salvar, como é que permite que sejamos vítimas do monstro da impiedade? Como nos entrega ao capricho das seitas ímpias? Como não acalma a tempestade, quando só lhe custa ordená-lo? (Mc 4, 39) Por que permite que triunfe a besta feroz da impiedade e abandona à sua voracidade umas almas que tanto ama?”

Após falar de que se trata de um mistério que ele tenta entender, acrescenta:

“Jesus pode salvar a nossa pátria[3] do monstro da impiedade que pretende arrebatar-lhe o tesouro inestimável da Fé. O quer e não o faz, porque não há quem o peça devidamente, isto é, com as condições que exige a verdadeira oração. Não se alarme você, nem precipite seu juízo antes de ouvir as razões em que fundo minha resposta. Você se lembrará que, navegando uma vez Jesus Cristo com seus discípulos pelo lago de Genezaré e dormindo o Senhor sobre a popa do barco, levantou-se espantosa tormenta, na qual a pouca fé dos Apóstolos acreditou que iram naufragar. Durou a tempestade e o perigo enquanto não acudiram a Jesus.  Porém logo que, cheios de confiança, lhe disseram: “Domina, salva nos, perimus. Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25), levantou-se o Senhor, ordenou aos ventos e ao mar, e nesse mesmo momento reinou a mais completa calma e tranquilidade”.

“Assim, na Espanha se encontra a navezinha de Pedro tão agitada pela fúria dos ventos de falsas doutrinas, e pelas ondas de todas as paixões humanas, que as águas vão já entrando nela e põem todos os fieis em iminente perigo de fundir-se no cisma. Jesus está como então dormindo ou se porta ao menos com sua Igreja como se efetivamente dormisse. Pode ordenar aos furacões do erro e às ondas das paixões que se acalmem. Quer fazê-lo... O que está, pois, esperando? Aguarda, por acaso, que choque contra algum obstáculo, que exploda e se desmanche? Por que, pois, não o faz? Que falta? O que falta é que os discípulos vão Lhe despertar, e que lhe digam: “Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4, 38)”

A imagem nos leva a outra consideração. Jesus Cristo é a Cabeça do Corpo Místico de Cristo, mas, em certas ocasiões, necessita que alerte sobre o seu Corpo (composto pelos demais homens que Lhe seguem), a fim de tome certas iniciativas, inclusive esta de pedir à Cabeça que “acorde” e aja defendendo todo o restante de seu próprio Corpo, já que nela está todo o poder de alimentá-lo. Quem está dormindo, então: a divina providência ou a parte humana de seu Corpo Místico?

Segue o Padre Palau:

“Espera a que os sacerdotes, animados da fé dos discípulos, subam as grades do santuário, e sem parar até que tenham logrado Lhe despertar, deem gritos aos seus ouvidos, dizendo-lhe como o Profeta Joel: “Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo”. E como os Apóstolos: “Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25). Espera que a Igreja lhe dê gritos, dizendo: “Levantai, por que dormis, Senhor? Livra-nos pela glória do vosso nome”. Espera que lhe peçamos esta graça devidamente.  Quem me desse o poder escrever esta grande verdade com caracteres tão avultados que os pudessem ler e entender tantas almas como em Espanha acreditam possuir o espírito de oração: a Igreja na Espanha caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode salvá-la. Sim, só a oração pode salvar do naufrágio a igreja espanhola”.[4]

 

O poder da oração

“Deus em sua providência tem disposto não remediar nossos males nem nos conceder suas graças senão mediante a oração, e que pela oração de uns  sejam salvos outros.”

Após explicar que foram as orações que fizeram vir o Redentor, acresce que as orações deste mesmo Redentor quis depender das dos seus seguidores, membros de seu Corpo Místico, mesmo após sua morte redentora:

“Porém também o é, e o supõem com bastante claridade os livros santos, que para que a oração de Jesus Cristo e os frutos de sua redenção se apliquem a alguma nação ou povo, para que haja quem o ilumine com a pregação do Evangelho e lhe administre os Sacramentos, é indispensável haver alguns ou muitos que com gemidos e súplicas, com orações e sacrifícios tenham conquistado antes aquele povo e  o tenham reconciliado com Deus”.

Ele diz: para que “os frutos sua redenção se apliquem a alguma nação ou povo”, quer dizer, não se trata de aplicar tais frutos aos indivíduos, mas às nações. É preciso que os pecados sociais, praticados coletivamente nas nações, sejam denunciados e reparados. E para que isso ocorra é necessário que os membros do Corpo Místico de Cristo, alma de tais povos, rezem e se ofereçam como vítimas expiatórias de tais pecados. Somente assim, unidas às de Jesus Cristo, tais expiações obterão êxito.

 

Importância do Santíssimo Sacramento nas orações

Agora vem o reverso da medalha. É primordial que nossas orações sejam feitas em torno do Santíssimo Sacramento, a fim de que as mesmas obtenham êxito: “A hóstia santa que neles [nos altares] apresentamos todos os dias ao Pai, acompanhada de nossas súplicas, não é só para renovar a memória da vida, paixão e morte de Jesus Cristo, senão também para obrigar com ela ao Deus das bondades a que se digne aplicar a redenção de seu Filho à nação, província, cidade, aldeia ou àquela ou aquelas pessoas por quem se celebra ou se ouve a Santa Missa. Nela é propriamente onde se negocia com o Pai a Redenção, ou seja, conversão das nações[5]. Antes que a redenção se aplicasse ao mundo ou, o que é o mesmo, antes que o estandarte da cruz fosse criado nas nações, dispôs o Pai que seu Unigênito, feito carne, negociasse isto com Ele com “súplicas contínuas, com fortes clamores e com lágrimas”  (Hb 5, 7), com angústias de morte e com o derramamento de todo seu sangue, especialmente no altar e na cruz, que levantou por cima do Calvário.”

Em seguida o Beato Palau chama a atenção deste detalhe: antes de plantar a árvore da Religião em algum povo é necessário que seus sacerdotes e governantes, além de todos os fiéis, negociem isso com o Pai, com súplicas, com clamores, com lágrimas e verdadeiro espírito de oração. “Assim como, pois, para plantar de novo a árvore da cruz em algum reino se requer espírito de verdadeira oração nos sacrifícios, assim para que se conserve em toda sua frescura e vigor – mediante as águas salutares dos sacramentos e da  pregação do Evangelho – é também necessário o mesmo espírito nos sacrifícios, segundo o tem disposto a divina Providência”.

 

As orações individuais e as coletivas

Nesse aspecto, precisamos distinguir as orações individuais e as coletivas. As individuais nós a fazemos para suprir nossos problemas pessoais, como é óbvio. É assim que rezamos, por exemplo, o “lembrai-vos” de São Bernardo. Há outras orações, porém, que foram feitas  para se rezar não individualmente, mas em nome de toda a Cristandade, do Corpo Místico de Cristo. É o caso, por exemplo, do nosso Rosário: a Ave-Maria, o Pai Nosso e Salve Rainha são rezadas no plural, em nome da coletividade. O Pai Nosso, inclusive, fala especialmente da vinda do Reino de Deus, que é algo coletivo e não individual. Apenas o Credo se inicia no singular, “creio em Deus Pai”, por querer marcar a Fé em cada indivíduo ser mais importante do que a coletiva.

No caso em que estamos analisando, as orações coletivas têm caráter mais profundo, pois resgatam perante Deus toda a humanidade decaída e não apenas o que reza. O Padre Palau tinha uma noção muito correta a respeito da Revolução universal, e dos males que a mesma causava na Igreja: percebia ele que esse movimento de revolta era proveniente do corpo místico do demônio contra o Corpo Místico de Cristo e que, no seu tempo, já havia conseguido obter sucessos impressionantes, mas que o Beato o via de imediato na Espanha. Posteriormente, tentou ele criar uma Ordem que se dedicasse especialmente ao exorcismo universal dos demônios da Revolução: o Exorcistado. Não se tratava de exorcizar os demônios que costumeiramente possuem corpos humanos, mas daqueles que assumiam corpos, lugares e postos importantes no mundo capazes de fazer a Revolução funcionar. Esteve presente no Concílio Vaticano I, e lá tentou junto aos bispos reunidos criar tal Ordem. No entanto, tal concílio não chegou a ser concluído, pois as tropas de Garibaldi haviam invadido Roma e o Papa, junto com os bispos e cardeais, tiveram que fugir para não morrer.

Talvez se a Ordem do Exorcistado tivesse sido criada não tivesse barrado completamente a Revolução, mas teria lhe causado um grande retrocesso, pois teriam sido exorcizados todos os demônios que no século XIX animavam o espírito revolucionário, ainda hoje imperante no mundo. Seria mais uma forma de oração que cumpriria o que pedia a Divina Providência para se fazer efetiva a destruição da obra iníqua do maligno. No entanto, para que ela tivesse pleno efeito era preciso que fosse posta em prática em toda a Igreja.

 

 

 

 

 



[1] O texto fala do “povo espanhol” mas visa, sobretudo, todo o povo católico em geral.

[2] Extraído de MAESTROS ESPIRITUALES CRISTIANOS - FRANCISCO PALAU ESCRITOS EDICION PREPARADA POR EULOGIO PACHO EDITORIAL MONTE CARMELO B U R G O S - – págs; 31/35

[3] Novamente ele usa termo comparando a Igreja com seu povo na expressão “nossa pátria”.

[4] Mais uma vez o Beato define a situação da Espanha para simbolizar a de toda a Igreja universal.

[5] Mais uma vez ele lembra a redenção coletiva, social, e não apenas individual.


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