No livro de Plínio Corrêa de Oliveira, “Revolução e
Contra-Revolução” está contido todo o desenvolvimento da luta dos filhos das
trevas contra a Igreja e a Civilização Cristã nos últimos 5 séculos. Um dos
santos que mais entendeu esta temática foi o Beato Palau, descrevendo,
denunciando e combatendo a Revolução em toda a sua essência, inclusive
manifestando que um dos principais fatores de propulsão da Revolução são o
orgulho e a sensualidade.
Segundo o Beato Francisco Palau Y Quer, essa
Revolução é a que realiza os anúncios das Sagradas Escrituras relativos à apostasia
dos últimos tempos. A análise racional, tranquila e vigorosa dos acontecimentos
sociopolíticos contemporâneos o confirmava nesta sua convicção. A Revolução
leva a uma catástrofe que o Beato Palau queria evitar. No século XIX a
humanidade imergia de modo displicente e veloz na anarquia, impelida pelas
tendências desordenadas que alimentam a Revolução, especialmente o orgulho e a
sensualidade. Por isso, o Beato Palau concluiu que a dinâmica revolucionária
impulsiona o mundo de modo implacável ao caos e ao desaparecimento da ordem
social.
O que falta para uma intervenção divina
“Carta de um Diretor” é um texto de autoria do
Beato Palau onde o mesmo dá conselhos a uma pessoa sobre problemas espirituais
especialmente ligados à situação da Igreja.
A Certa altura ele faz a seguinte indagação:
“...-aquele
Pastor tão bom que somente para salvar uma alma desceria, se fosse necessário,
segunda vez do céu e padeceria morte tão
cruel como a primeira para tirá-la das unhas do lobo infernal – e sendo o povo
espanhol[1]
sua grei escolhida, olha sem embargo sem abrir a boca e com indiferença,
segundo parece, como uma horda de lobos furiosos se tem lançado sobre ela, a
despedaçam a seu prazer e lhe chupam seu sangue? Por que nada faz em defesa de
suas ovelhas? Por que mais bem parece que há protegido os projetos dos ímpios?”[2]
Lamenta o beato que os inimigos da Igreja lhe
tiram até os últimos recursos, obstruindo todos os meios de salvação,
cercando-a com pedras lavradas (Lm 3, 9), havendo necessidade de uma
intervenção divina a fim de se eliminar a ação deles. O mistério que se
apresenta é exatamente isso: por que não há uma intervenção divina? O que
espera a Divina Providência para agir? São Luís Grignion de Montfort já exprimia
essa angústia – ó Deus, por que pareceis dormir? Dessa forma o Beato Palau
tenta explicar o mistério:
“Como,
pois, pode se conceber que assim o permita, que assim o sofra, que não saia em sua
defesa? Oh segredo impenetrável! Oh profundo mistério! A fé nos ensina que não
falta a Jesus Cristo nem o poder nem o querer. As chagas de seu corpo,
especialmente a do costado, pelas quais derramou pela Igreja todo seu sangue,
são outras tantas línguas que publicam em altas vozes o imenso amor em que está
abrasado seu coração; e tantos passos como deu para a salvação dos homens nos
asseguram que da veemência do desejo que lhe anima pela saúde de sua
ovelhas. E, sem embargo da eficácia de
seu poder e querer nos salvar, como é que permite que sejamos vítimas do
monstro da impiedade? Como nos entrega ao capricho das seitas ímpias? Como não
acalma a tempestade, quando só lhe custa ordená-lo? (Mc 4, 39) Por que permite
que triunfe a besta feroz da impiedade e abandona à sua voracidade umas almas
que tanto ama?”
Após falar de que se trata de um mistério que
ele tenta entender, acrescenta:
“Jesus
pode salvar a nossa pátria[3]
do monstro da impiedade que pretende arrebatar-lhe o tesouro inestimável da Fé.
O quer e não o faz, porque não há quem o peça devidamente, isto é, com as
condições que exige a verdadeira oração. Não se alarme você, nem precipite seu
juízo antes de ouvir as razões em que fundo minha resposta. Você se lembrará
que, navegando uma vez Jesus Cristo com seus discípulos pelo lago de Genezaré e
dormindo o Senhor sobre a popa do barco, levantou-se espantosa tormenta, na
qual a pouca fé dos Apóstolos acreditou que iram naufragar. Durou a tempestade
e o perigo enquanto não acudiram a Jesus.
Porém logo que, cheios de confiança, lhe disseram: “Domina, salva nos,
perimus. Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25), levantou-se o Senhor,
ordenou aos ventos e ao mar, e nesse mesmo momento reinou a mais completa calma
e tranquilidade”.
“Assim,
na Espanha se encontra a navezinha de Pedro tão agitada pela fúria dos ventos
de falsas doutrinas, e pelas ondas de todas as paixões humanas, que as águas
vão já entrando nela e põem todos os fieis em iminente perigo de fundir-se no
cisma. Jesus está como então dormindo ou se porta ao menos com sua Igreja como
se efetivamente dormisse. Pode ordenar aos furacões do erro e às ondas das
paixões que se acalmem. Quer fazê-lo... O que está, pois, esperando? Aguarda,
por acaso, que choque contra algum obstáculo, que exploda e se desmanche? Por
que, pois, não o faz? Que falta? O que falta é que os discípulos vão Lhe
despertar, e que lhe digam: “Mestre, não te importa que pereçamos? (Mc 4, 38)”
A imagem nos leva a outra consideração. Jesus
Cristo é a Cabeça do Corpo Místico de Cristo, mas, em certas ocasiões,
necessita que alerte sobre o seu Corpo (composto pelos demais homens que Lhe
seguem), a fim de tome certas iniciativas, inclusive esta de pedir à Cabeça que
“acorde” e aja defendendo todo o restante de seu próprio Corpo, já que nela
está todo o poder de alimentá-lo. Quem está dormindo, então: a divina providência
ou a parte humana de seu Corpo Místico?
Segue o Padre Palau:
“Espera a
que os sacerdotes, animados da fé dos discípulos, subam as grades do santuário,
e sem parar até que tenham logrado Lhe despertar, deem gritos aos seus ouvidos,
dizendo-lhe como o Profeta Joel: “Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo”. E
como os Apóstolos: “Senhor, salvai-nos, que perecemos” (Mt 8, 25). Espera que a
Igreja lhe dê gritos, dizendo: “Levantai, por que dormis, Senhor? Livra-nos
pela glória do vosso nome”. Espera que lhe peçamos esta graça devidamente. Quem me desse o poder escrever esta grande
verdade com caracteres tão avultados que os pudessem ler e entender tantas
almas como em Espanha acreditam possuir o espírito de oração: a Igreja na
Espanha caminha precipitadamente para seu extermínio e só a oração pode
salvá-la. Sim, só a oração pode salvar do naufrágio a igreja espanhola”.[4]
O poder da oração
“Deus em
sua providência tem disposto não remediar nossos males nem nos conceder suas
graças senão mediante a oração, e que pela oração de uns sejam salvos outros.”
Após explicar que foram as orações que fizeram
vir o Redentor, acresce que as orações deste mesmo Redentor quis depender das
dos seus seguidores, membros de seu Corpo Místico, mesmo após sua morte redentora:
“Porém
também o é, e o supõem com bastante claridade os livros santos, que para que a
oração de Jesus Cristo e os frutos de sua redenção se apliquem a alguma nação
ou povo, para que haja quem o ilumine com a pregação do Evangelho e lhe
administre os Sacramentos, é indispensável haver alguns ou muitos que com gemidos
e súplicas, com orações e sacrifícios tenham conquistado antes aquele povo
e o tenham reconciliado com Deus”.
Ele diz: para que “os frutos sua redenção se
apliquem a alguma nação ou povo”, quer dizer, não se trata de aplicar tais
frutos aos indivíduos, mas às nações. É preciso que os pecados sociais, praticados
coletivamente nas nações, sejam denunciados e reparados. E para que isso ocorra
é necessário que os membros do Corpo Místico de Cristo, alma de tais povos,
rezem e se ofereçam como vítimas expiatórias de tais pecados. Somente assim,
unidas às de Jesus Cristo, tais expiações obterão êxito.
Importância do
Santíssimo Sacramento nas orações
Agora vem o reverso da medalha. É primordial
que nossas orações sejam feitas em torno do Santíssimo Sacramento, a fim de que
as mesmas obtenham êxito: “A hóstia santa
que neles [nos altares] apresentamos todos os dias ao Pai, acompanhada de
nossas súplicas, não é só para renovar a memória da vida, paixão e morte de
Jesus Cristo, senão também para obrigar com ela ao Deus das bondades a que se
digne aplicar a redenção de seu Filho à nação, província, cidade, aldeia ou àquela
ou aquelas pessoas por quem se celebra ou se ouve a Santa Missa. Nela é
propriamente onde se negocia com o Pai a Redenção, ou seja, conversão das
nações[5].
Antes que a redenção se aplicasse ao mundo ou, o que é o mesmo, antes que o
estandarte da cruz fosse criado nas nações, dispôs o Pai que seu Unigênito,
feito carne, negociasse isto com Ele com “súplicas contínuas, com fortes
clamores e com lágrimas” (Hb 5, 7), com
angústias de morte e com o derramamento de todo seu sangue, especialmente no
altar e na cruz, que levantou por cima do Calvário.”
Em seguida o Beato Palau chama a atenção deste
detalhe: antes de plantar a árvore da Religião em algum povo é necessário que
seus sacerdotes e governantes, além de todos os fiéis, negociem isso com o Pai,
com súplicas, com clamores, com lágrimas e verdadeiro espírito de oração. “Assim como, pois, para plantar de novo a
árvore da cruz em algum reino se requer espírito de verdadeira oração nos
sacrifícios, assim para que se conserve em toda sua frescura e vigor – mediante
as águas salutares dos sacramentos e da
pregação do Evangelho – é também necessário o mesmo espírito nos
sacrifícios, segundo o tem disposto a divina Providência”.
As orações individuais
e as coletivas
Nesse aspecto, precisamos distinguir as orações
individuais e as coletivas. As individuais nós a fazemos para suprir nossos
problemas pessoais, como é óbvio. É assim que rezamos, por exemplo, o “lembrai-vos”
de São Bernardo. Há outras orações, porém, que foram feitas para se rezar não individualmente, mas em
nome de toda a Cristandade, do Corpo Místico de Cristo. É o caso, por exemplo, do
nosso Rosário: a Ave-Maria, o Pai Nosso e Salve Rainha são rezadas no plural,
em nome da coletividade. O Pai Nosso, inclusive, fala especialmente da vinda do
Reino de Deus, que é algo coletivo e não individual. Apenas o Credo se inicia
no singular, “creio em Deus Pai”, por querer marcar a Fé em cada indivíduo ser mais
importante do que a coletiva.
No caso em que estamos analisando, as orações
coletivas têm caráter mais profundo, pois resgatam perante Deus toda a
humanidade decaída e não apenas o que reza. O Padre Palau tinha uma noção muito
correta a respeito da Revolução universal, e dos males que a mesma causava na Igreja:
percebia ele que esse movimento de revolta era proveniente do corpo místico do
demônio contra o Corpo Místico de Cristo e que, no seu tempo, já havia
conseguido obter sucessos impressionantes, mas que o Beato o via de imediato na
Espanha. Posteriormente, tentou ele criar uma Ordem que se dedicasse
especialmente ao exorcismo universal dos demônios da Revolução: o Exorcistado. Não
se tratava de exorcizar os demônios que costumeiramente possuem corpos humanos,
mas daqueles que assumiam corpos, lugares e postos importantes no mundo capazes
de fazer a Revolução funcionar. Esteve presente no Concílio Vaticano I, e lá tentou
junto aos bispos reunidos criar tal Ordem. No entanto, tal concílio não chegou
a ser concluído, pois as tropas de Garibaldi haviam invadido Roma e o Papa,
junto com os bispos e cardeais, tiveram que fugir para não morrer.
Talvez se a Ordem do Exorcistado tivesse sido criada
não tivesse barrado completamente a Revolução, mas teria lhe causado um grande
retrocesso, pois teriam sido exorcizados todos os demônios que no século XIX
animavam o espírito revolucionário, ainda hoje imperante no mundo. Seria mais
uma forma de oração que cumpriria o que pedia a Divina Providência para se
fazer efetiva a destruição da obra iníqua do maligno. No entanto, para que ela
tivesse pleno efeito era preciso que fosse posta em prática em toda a Igreja.
[1] O
texto fala do “povo espanhol” mas visa, sobretudo, todo o povo católico em
geral.
[2]
Extraído de MAESTROS ESPIRITUALES CRISTIANOS - FRANCISCO PALAU ESCRITOS EDICION
PREPARADA POR EULOGIO PACHO EDITORIAL MONTE CARMELO B U R G O S - – págs; 31/35
[3]
Novamente ele usa termo comparando a Igreja com seu povo na expressão “nossa
pátria”.
[4]
Mais uma vez o Beato define a situação da Espanha para simbolizar a de toda a
Igreja universal.
[5]
Mais uma vez ele lembra a redenção coletiva, social, e não apenas individual.

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