sábado, 16 de julho de 2022

O OLHAR DE JESUS NO JUÍZO FINAL

 


Podemos imaginar como o olhar de Nosso Senhor refletiu o Seu bondoso Coração enquanto viveu entre os homens. Já antes de nascer, os místicos dizem que Ele se privou da luz de seus olhos no seio virginal de Maria Santíssima como um verdadeiro martírio, prevendo já os piores momentos que iria passar ao final de Sua vida. Ao nascer, derramou todo seu inocente olhar dentro dos olhos de Sua Mãe Santíssima, com a qual teve colóquios e olhares amorosos durante toda a vida terrena.

Em Sua Paixão e Morte, os olhares de Nosso Senhor Jesus Cristo percorriam a multidão à procura de um olhar e um coração piedosos que tivessem compaixão d’Ele. Procurava aquele contato amoroso que teve com Santa Madalena, de Coração a coração através do simples gesto do olhar, a fim de atrair as almas para Si. Até que os ímpios lhe vendaram os olhos para que não tocasse tão bondosamente os olhares das pessoas que estavam ali e as convertesse. Ao ter seu corpo deitado no santo sepulcro taparam seus olhos com duas moedas, a forma como é visto hoje no Santo Sudário de Turim. Quis assim ficar impedido de exercer seu juízo sobre os homens naquele momento para exercê-lo em sua plenitude no Juízo Final.

Finalmente, no Juízo Final teremos o último olhar de Jesus Cristo, que será terrível para os ímpios e cheio de bondade para os justos. Refletirá nesse momento tanto o Coração cheio de bondade e misericórdia quanto de Justiça. Naquele momento ninguém terá poder suficiente para lhe colocar uma venda como o fizeram na sua Paixão.

Santa Catarina de Siena diz como será aquele olhar final:

 

Aos olhos do condenado, sem embargo, ele aparecerá com aquele olhar terrível e tenebroso, que tem o mesmo condenado em si mesmo”.

 

Completa Santa Catarina dizendo que isso não quer dizer que Jesus Cristo, a Bondade suma e infinita, tenha um “olhar temível e tenebroso”, mas sim que será esta a forma com que o condenado O verá por “ter o mesmo olhar dentro de si mesmo”...

Santa Teresa de Jesus manifesta também grande temor daquele olhar terrível:

“Nunca tive tanto medo dos tormentos do inferno que não fosse menos que nada em comparação do que tinha quando me lembrava que os condenados haviam de ver irados estes olhos tão formosos e mansos e benignos do Senhor...”[1]



[1] Obras Completas de Santa Teresa de Jesus – Carmelo do Porto, Portugal – pág. 801


sexta-feira, 15 de julho de 2022

A CARIDADE E SEU VERDADEIRO SENTIDO

 


                                                    
                                                          (O décimo conselho seria: ler o livro de Maria de los Dolores del Pozo, La Voz de una Madre")


A VOZ DE UMA MÃE - O Livro “La voz de una Madre” foi escrito por uma viúva católica em finais do século XIX. Trata-se de texto dirigido ao seu filho único, cheio de conselhos, e publicado por recomendação de seus diretores espirituais. Santo Antonio Maria Claret o recomenda em uma de suas obras. Publicamos a seguir o texto do capítulo que fala sobre a Caridade:

 Capítulo XIII

“Entregar-se todo para todos em aras da Caridade, é entregar-se todo para Deus

Posto que Deus, em sua infinita bondade, não deixa de te dar, não podes deixar de dar a teus irmãos, e não somente dinheiro, porque isso seria muito pouco, mas o amor e o sacrifício de teu coração, na medida em que sua necessidade o exija.

O primeiro que nos vem ao encontro nesta vida é nosso próximo, com defeitos e caracteres distintos. Saber respeitar seu caráter e suportar seus defeitos é o primeiro sacrifício que a caridade exige, nestes termos: Sofre com paciência as fraquezas de teus próximos.

Quem não conta entre seus familiares ou pessoas que o rodeiam, com as quais às vezes lhes é forçoso tratar continuamente, um desses sujeitos insuportáveis que, por muito que se estude uma forma de fazê-los satisfeitos, jamais se consegue; que sempre estão pondo de relevo nossos defeitos, mas que nunca fazem menção de nenhuma boa qualidade que tenhamos? O suportá-los com paciência um dia e outro dia e o não pô-las em ridículo a cada momento é um sacrifício notável e uma grande obra de caridade.

Quando alguém nos injuria e sabemos que com uma só palavra que pronunciemos podemos humilhá-lo e envergonhá-lo ante todos, descobrindo sua má intenção e grande miséria, é um ato de caridade recomendabilíssimo o dominar-nos, o dizer tão somente o necessário, para não nos deixar em tão má situação.

Temos também obrigação de fazer caridade com nosso talento, se Deus nos deu, usando-o para o ignorante e proporcionando-lhe idéias dignas de um cavaleiro cristão. Esta obra de caridade, em sociedade, apresenta-se com frequência ocasião de praticá-la. O evitar quando alguém diga alguma bobagem e compreendemos que cai em ridículo, aquele que se apodera de sua ignorância e a ponha em relevo com desapiedada burla, o sair ao encontro com mil indústrias, que nunca faltam à pessoa de bom trato para dar outro sentido à conversação, quando se trate de humilhar ou desacreditar alguém, isto é uma obra de caridade muito necessária de praticar-se quando há pessoas prontas que usam toda a travessura de sua imaginação em ver, como um microscópio, os defeitos dos demais, para por-se em evidência e burlar-se deles. O talento nestes indivíduos é como a beleza numa mulher leviana, um mal muito grande para ela e pior para os que a rodeiam.

Muitos crêem que quando uma pessoa é toda boa encontra só o bem nos demais, porque sua bondade não sabe ver nada mau, e tal não existe, porque não é possível ser ágil e tonto ao mesmo tempo; por boa que seja uma pessoa, se tem talento vê muito claro os defeitos dos demais, mas tem caridade para compadecê-los e para desculpá-los no possível.

Caridade é, em sociedade, quando se encontra uma pessoa antipática que ninguém faz caso, que parece que todos fogem dela sem lhe dar um instante de conversação, sobretudo se compreendemos que o isolamento tem por causa a pobreza, ou que não está elegante; pois o mundo é miserável até esse ponto. Queixam-se todos, mas os homens em particular, do luxo das mulheres, que é sua ruína, e, sem embargo, se uma delas apresenta-se numa reunião decentemente vestida, mas muito modesta e simples, isto basta para que aquela noite ninguém faça caso nem se ocupe em favorece-la, que digo, favorece-la! Até evitam no possível em lhe dar as atenções devidas.

Desejo que, filho meu, não sejas néscio, encomendo-te muitíssimo; quando uma pessoa vale, faça-a muito caso e tenha-a muito respeito, o mesmo estando só ou acompanhada, estando elegante ou pobremente vestida, se é rica ou indigente e, sobretudo, se os demais a louvam ou a desprezam, porque em agir assim não é caridade mais que justiça, e o obrar de outra maneira é uma grandíssima miséria que demonstra cabeça vazia e um coração muito ignóbil.

Caridade é, nesses dias em que o mundo se dedica por completo às diversões, como carnaval, etc., dedicar uma lembrança a essas famílias que estão de luto e que o ruído do mundo aumenta sua tristeza. Justo é deixar o passeio e o teatro para ir visita-las, procurando distraí-las um instante de seu sofrimento e proporcionando-lhe assim o consolo de que vejam que nem todos os amigos se esquecem de que elas choram enquanto os demais riem, e se estas famílias são pobres muito mais, porque seguramente a gente do mundo cuidará menos de consolá-las.

Caridade é quando temos multidão de assuntos particulares que nos pede pressa despachar e naqueles momentos chega alguém a nos contar largas histórias de seus sofrimentos, ao vê-lo aflito dominar nossa impaciência e ouvi-lo com afabilidade e doçura, procurando esquecer nossos problemas para ocupar-nos dos seus por violento que nos seja.

Caridade é, e das maiores, quando topamos com um caráter violento e dominante, que está sempre pronto a estourar e cometer grandes faltas, o estar disposto a sofrê-lo e calar sempre, para não ser causa que se exaspere e ofenda a Deus, fazendo mal ao mesmo tempo à sua alma.

Caridade é, quando uma pessoa nos dá motivos de sobra para odiá-la pelo mal que nos vem fazendo, o perdoá-la e pedir a Deus que a perdoe e a ilumine; o não falar a todas horas dela e do prejuízo que nos vem causando, e o tratá-la quando nos encontramos com ela, se não com doçura ao menos com cortesia.

Caridade é estudar os gênios das pessoas que nos rodeiam a fim de ter paz com todas e evitar assim cenas desagradáveis, das quais sempre resulta o ofender a Deus, que é o que sempre devemos evitar.

Numa palavra, filho meu, caridade é chorar com o que chora, gozar com o que goza e dedicar quantos dons de Deus recebemos para seu santo serviço e o serviço de nossos irmãos, buscando sempre os meios de proporcionar consolo em suas penas e remédio em suas necessidades com o mesmo afã com que buscamos remédio para nós mesmos. Esta é a única maneira de poder cumprir o grande mandamento de “Amar ao próximo como a nós mesmos”, a cujo cumprimento vai vinculado, como vimos, a salvação de nossa alma, que consiste em fazer que Deus nos ame nesta vida, para que depois possamos nós amá-lo eternamente na outra.

Bendita seja a caridade! É uma forte cadeia de dulcíssimo amor que,atando-nos com os pobres nesta vida e confundindo-nos com eles, fará que, cobertos com seus rogos e sofrimentos, possamos entrar no reino dos Céus, com o que teremos recebido deles o cento por um na terra, pelo gozo que nos proporciona o consolá-los, e depois a eles lhes deveremos, como nos foi oferecida, a vida eterna!

(traduzido de “La Voz de una Madre”, de Maria de los Dolores delPozo y de Mata, Estabelecimento tipográfico de J. Famades, Calle de Lauria, 82 – Barcelona – 1895)

 


quarta-feira, 13 de julho de 2022

A MULHER É A GLÓRIA DO HOMEM

 



 


A primeira referência bíblica do opróbrio que pesava sobre a mulher está no Gênesis: "Multiplicarei os teus trabalhos, e (especialmente os de) teus partos. Darás à luz com dor os filhos, e estarás sob o poder do marido, e ele te dominará" (Gn 3, 16). Se a partir do pecado original, como castigo, Deus colocou a mulher "sob o poder do marido", isso significa que antes inexistia tal dominação, mas o casal vivia em estado de graças e na mais completa inocência.  Se ela foi criada, Deus visava com isso o bem da própria mulher, cujo pecado havia sido maior e a tornava objeto mais fácil das tentações.  Esta máxima bíblica, estabelecendo uma contundente desigualdade entre o casal humano (pois Deus estabeleceu que a mulher obedecesse ao homem como cabeça do casal) é o motivo principal da revolta do movimento feminista, odiando toda e qualquer desigualdade, mesmo legítima e posta por Deus, e querendo impor uma igualdade sonhada e quimérica, como o são todas as igualdades.

A respeito da Virgem Maria, por exemplo, é importante que se veja o que o Anjo disse sobre Ela: “Bendita entre todas as mulheres”. Segundo São Bernardo isto quer dizer: Bendita sobre todas e mais que todas as mulheres, posto que tu foste Virgem, Mãe e Mãe de Deus. Não há como não se referir a este fato lendo o que diz o Gênesis sobre o opróbrio que caiu sobre a mulher.  Pois o fato de ser "bendita entre todas as mulheres" significa que sendo Virgem antes e depois do parto a Mãe de Deus estava livre daquele opróbrio, pois Ela haveria de ter um filho naquela condição. O que não ocorre com as demais mulheres. Há n’Ela, portanto, uma singular e grandiosa desigualdade, que a distingue de todas as mulheres que existiram e que existirão até o fim do mundo.

As mulheres, no Antigo Testamento, estavam submetidas a uma destas três situações: de opróbrio, de pecado ou de suplício. A de opróbrio afetava às que não tinham filhos; neste caso havia estado, por exemplo, Raquel, que a ela havia se referido quando disse: “O Senhor me livrou do opróbrio em que me achava”. A de pecado alcançava às que concebiam: esse é o sentido das palavras do Salmo 50: “Olha que em maldade fui formado e em pecado concebeu minha mãe”. A de suplício recaia sobre as parturientes, as quais, como se adverte no Gênesis, “parirão com dor”.

No entanto, a Sagrada Escritura não se refere à mulher apenas com a idéia de opróbrio, pecado e sofrimento. A importância da mulher é dada na Escritura enquanto corresponde às graças divinas. Assim, lá se refere à mulher como vitoriosa, vencendo o demônio em forma de serpente, quando diz: “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás ciladas ao seu calcanhar” (Gên 3, 15). A referência à "mulher" é para que Deus seja glorificado nela através da vitória sobre o pecado, assim como ela também foi a principal causadora.

São Paulo, em suas epístolas, refere-se à situação da mulher em algumas oportunidades, como esta: “a mulher é a glória do homem. De fato, o homem não foi feito da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas sim a mulher por causa do homem (I Cor 11, 3-15). Argumento muito simples e coerente: há na família uma hierarquia posta por Deus, tanto conforme a natureza a fez como também por causa das conseqüências do pecado original, pela qual o homem é a cabeça, é o chefe e regedor de todos, inclusive da mulher, pois foi esta criada, conforme São Paulo, “por causa do homem”.

Por causa disso, pela boa ordem das coisas "A mulher aprenda, em silêncio, com toda a sujeição. Não permito à mulher que ensine, nem que tenha domínio sobre o homem, mas esteja em silêncio, porque Adão foi formado primeiro, e depois, Eva. Adão não foi seduzido, mas a mulher (é que, sendo) seduzida, prevaricou. Contudo, salvar-se-á pela educação dos filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santidade, unidas á modéstia" (I Tim 2, 9-15). Quando diz “mulher não ensine” está se referindo à pregação da liturgia ou homilia, pois isso sempre foi reservado aos sacerdotes até os dias atuais.

Em outro lugar, lembra ele daqueles que fizeram votos de virgindade: Quem está sem mulher, está cuidando das coisas que são do Senhor, como há de agradar a Deus... E a mulher solteira e virgem cuida das coisas que são do Senhor, para ser santa de corpo e de espírito"  (I Cor 7, 32-34).

O apostolado das mulheres nas missões de São Paulo

No entanto, São Paulo teve várias mulheres que colaboraram com ele em suas pregações. Não era diferente das palavras como o Apóstolo considerava a presença feminina em seu apostolado. Eis um relato de um respeitado biógrafo:

“Quem haveria de pensar que o Evangelho faria sua entrada na Europa tão calada e ocultamente? Não solenemente como no Areópago ante os filósofos, não dramaticamente como em Chipre ante o homem de Estado, mas em forma de idílio como uma manhã de verão fresca pelo rocio ou como uma deliciosa aurora no Oriente. Estes suaves e contudo vigorosos tons de sentimento introduziu a mulher no Evangelho já no tempo de Jesus. E em Filipos continua ecoando. Quando o Evangelho veio para a Europa, chegou primeiramente para as mulheres, porque os homens não estavam presentes, como também entre os samaritanos foi uma mulher a que Jesus iniciou no mistério do reino de Deus. As mulheres foram as últimas ao pé da cruz, na sepultura, assim as primeiras junto ao sepulcro vazio. Nas tristes histórias de hipocrisias, ódios, perseguições, injúrias, deserções e covardes fugas não encontramos no Evangelho mulher alguma. Os homens, como mensageiros da fé,e missionários e defensores dos interesses religiosos estão, na verdade, mais na luz do reverbero; porém, onde estaria a Europa cristã sem a mulher cristã em casa como mãe, esposa, irmã, como auxiliadora virginal-maternal da miséria de todas as classes? São Paulo teve para este lado da feminilidade uma profunda compreensão e foi o primeiro em empregar a mulher ativamente na missão. Ele aprecia a mulher dotada de gênio, como Priscila que instrui ao douto Apolo. Em qualquer de suas cartas dispensa saudações e reconhecimento para as mulheres. Reconhece os serviços de Cloe em Corinto, de Febe em Cencreas, a quem confia sua carta aos romanos, e o ser pequena mulher a mãe de Rufo que foi também para ele uma mãe. Quando escreve ao rico comerciante Filemon não esquece de saudar sua esposa Apfia. Aprecia especialmente o trabalho da mulher de família e a educação dos filhos, pela qual a mulher adquire o céu; aprecia as filhas virgens de Filipe de Cesarea, dotadas de profecia; seu cuidado se dirige também às boas viúvas, que se destacavam no campo da caridade e por isso eram mantidas pela comunidade (I Tim 5, 3-16). Como profundo conhecedor do gênero humano tem uma olhada para todos os bons lados do caráter feminino. As nobres mulheres de Filipos como santas figuras estão às portas da Europa, como se quisessem recordar a todas suas irmãs desta parte do mundo que as mulheres da Europa têm na Igreja cristã um santo destino, de ser sacerdotisas, às quais se confiou em primeiro lugar o sagrado fogo que fez feliz e grande a nossa parte do mundo.

Mas tampouco devemos esquecer àqueles nobres varões, como Epafrodito, a quem São Paulo chama seu “companheiro de armas, co-militante e colaborador”, que visita o Apóstolo preso em Roma e lhe traz presentes. Também Clemente e Sicigo (se realmente esta última palavra é um nobre mesmo) e muitos outros.estão ao lado daquelas mulheres, e em verdade com tal constância que São Paulo sabe estar escritos seus nomes no livro da vida (Fil. 4, 3)[1]



[1] San Pablo – Heraldo de Cristo” – de Josef Holzner – Editorial Herder, Barcelona, 1956 – págs. 180/185


terça-feira, 12 de julho de 2022

MARIA SANTÍSSIMA, MÃE DO CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 


A conclusão da Encíclica de Pio XII sobre o Corpo Místico de Cristo pode ser rezada como se fosse uma oração:

 

 “106. Realize, veneráveis irmãos, estes nossos paternos votos, que sem dúvida são também os vossos, e alcance-nos a todos verdadeiro amor para com a Igreja, a Virgem Mãe de Deus, cuja alma santíssima foi mais repleta do divino Espírito de Jesus Cristo que todas quantas saíram das mãos de Deus, e que "em nome de toda a natureza humana" deu o seu consentimento para que se efetuasse o "matrimônio espiritual entre o Filho de Deus e a natureza humana". Ela foi que com parto admirável, porque fonte de toda a vida celestial, nos deu Cristo Senhor nosso, já no seu seio virginal ornado da dignidade de cabeça da Igreja; e recém-nascido o apresentou aos primeiros dentre os judeus e gentios que o foram adorar qual Profeta, Rei e Sacerdote. Foi ela que com seus rogos maternos "em Caná da Galiléia" moveu o seu Unigênito a operar o admirável prodígio, pelo qual "creram nele os seus discípulos" (Jo 2,11). Foi ela, a Imaculada, isenta de toda a mancha original ou atual, e sempre intimamente unida com seu Filho, que, como outra Eva, juntamente com o holocausto dos seus direitos maternos e do seu materno amor, o ofereceu no Gólgota ao Eterno Pai por todos os filhos de Adão, manchados pela sua queda miseranda; de modo que a que era fisicamente Mãe da nossa divina cabeça foi, com novo título de dor e de glória, feita espiritualmente mãe de todos os seus membros. Foi ela que com suas eficacíssimas orações obteve que o Espírito do divino Redentor, dado já na cruz, fosse depois em dia de Pentecostes conferido com aqueles dons prodigiosos à Igreja recém-nascida. Ela finalmente, suportando com ânimo forte e confiante imensas dores, verdadeira Rainha dos mártires, mais que todos os fiéis, "completou o que falta à paixão de Cristo... pelo seu corpo que é a Igreja" (Cl 1,24), e assistiu o corpo místico de Cristo, nascido do Coração rasgado do Salvador, com o mesmo amor e solicitude materna com que amamentou e acalentou no berço o menino Deus.

107. Ela pois, Mãe santíssima de todos os membros de Cristo,) a cujo Coração Imaculado confiadamente consagramos todos os homens, e que agora em corpo e alma refulge na glória e reina juntamente com seu Filho, nos alcance dele que sem interrupção corram os caudais da graça da excelsa cabeça para todos os membros do corpo místico, e, como nos tempos passados, assim hoje proteja a Igreja com seu poderoso patrocínio e lhe obtenha finalmente a ela e a toda a humana sociedade tempos mais tranqüilos.

108. Confiado nesta celeste esperança, como penhor das graças celestes e atestado da Nossa particular benevolência, a todos e a cada um de vós, veneráveis irmãos, e aos rebanhos a vós confiados, concedemos de todo o coração a bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de junho, festa dos Santos apóstolos Pedro e Paulo, no ano de 1943, V do nosso pontificado.  PIO PP. XII”

 

 

 

 

 

 


 

 

 


quinta-feira, 7 de julho de 2022

PAPEL DO ESTADO NUMA SOCIEDADE ORGÂNICA

 



O tema acima nos veio à mente a propósito das inúmeras medidas, todas de caráter socialista ou socializantes, que os governos europeus vêm tomando nos últimos dias a fim de superar a crise econômica e financeira que lhes assalta até o momento. Essa crise é decorrente de um amontoado de leis que dão ao Estado prerrogativas cada vez mais absorventes de toda a sociedade. Para comprovar que o socialismo está na base desta crise, basta lembrarmos que as principais nações que a sofrem têm forte influência (ou são governadas) por partidos socialistas (No caso, especialmente a Espanha e a Grécia: a primeira, vítima de vários anos de domínio do PS, e a última que é ainda governada por eles). A idéia do “Estado Previdenciário”, muito cara ao PS europeu, está levando aqueles países à falência... O problema da guerra entre a Ucrânia e a Rússia é lembrado como um dos principais fatores do acirramento dessa crise nos últimos dias, mas ela seria menos intensa e maléfica se leis socialistas não vigorassem nos países europeus.

E a mentalidade que domina a Europa está bastante disseminada em todas as outras nações do mundo. É muito comum nos dias atuais a ideia de que o Governo, ou o Estado, deve resolver todos os problemas sociais. Com base nessa premissa, todas, ou quase todas, as constituições modernas elegem o Estado como senhor absoluto das vidas dos cidadãos. Nessas constituições consta a consigna “compete ao Estado”, seguida de atribuições verdadeiramente extrapolativas das funções de um regime político ou de um Estado organizado.  “Compete ao Estado...”, dizem, resolver todos os problemas de saúde, de educação, de trabalho, enfim, tudo o que diz respeito ao bem estar da população. E chega a tal ponto que o programa paradigmático dos políticos modernos consta de metas utópicas e até demagógicas, como alguns deles que pretendem, por exemplo, erradicar a pobreza ou a miséria.

Para que se entenda como esta ideia está enraizada em nossa população, vamos analisar o texto abaixo, extraído de uma obra de Amélia Rodrigues[1].  Trata-se de um fato tirado do conto “Mestra e Mãe”, no qual ela mostra uma personagem como modelo de exemplar professora, uma verdadeira “mãe” nos cuidados com suas pupilas. O debate abaixo surgiu por ocasião da construção da escola do lugarejo imaginado pela escritora, quando a Autora pôs em destaque o choque entre duas mentalidades:  a estatólatra[2] (de um comerciante do lugar),  que julga o Estado como pairando superior a todos os cidadãos, e a da sociedade orgânica (defendida pelo pároco, que representa a voz da Igreja).

O pároco chama-se Padre Martins, e o comerciante Sr. Botelho.

“Quando se fez encomenda de vidraças para as janelas ao Sr. Botelho, que sempre andava em viagens para a capital, saiu-se ele com uma observação: - que deviam fazer economias. Vidraças era luxo inteiramente dispensável.

O padre Martins franzia a testa. O Sr. Botelho pareceu-lhe pequeno, do tamanho de um mosquito, com aquela avareza.

- Não é luxo, meu caro amigo. Diga-me o que há de fazer durante as aulas, quando a chuva açoitar? Ou queremos escola ou não a queremos. Se queremos, que seja tão completa quanto nos for possível.  Ou então não façamos nada. Que diria o Sr. de um alfaiate que lhe encurtasse as mangas ao casaco para poupar-lhe um pedaço de pano? Que era idiota, sem dúvida nenhuma. E eu ainda tenho planos. Há de ver, se Deus nos der vida e saúde, como isto irá ficando bonito pouco a pouco.

- Mas o que estamos fazendo já é bastante, é mesmo demasiado para escola de aldeia.

- Escola de aldeia! Ora, valha-nos Deus. Então as crianças da aldeia valem menos que as da cidade? Os sertanejos não têm os mesmos deveres a cumprir, reclama-se menos deles que dos outros? Não. Portanto, as exigências do ensino devem ser igualmente atendidas em todos os lugares, tanto quanto isso for possível. É da mais elementar justiça.

- Sim, quando o governo é quem cuida dele . Aqui o caso é outro. Que o estado faça e deva fazer liberalidades: a iniciativa privada não é obrigada a tanto.

Já não era a primeira vez que o Sr. Botelho se manifestava contra o que chamava – os desperdícios do padre Martins. Este passou a mão pela cabeleira branca, sinal nele de que precisava apelar para a paciência.

- Diante do serviço da pátria, Sr. Botelho, tanta obrigação tem o governo como o cidadão, e quando o cidadão pode mais deve fazer mais. Ainda mesmo – vou mais longe – ainda mesmo que eu saiba que o governo pode e não quer, se estiver ao meu alcance o melhoramento exigido devo fazê-lo, devo tentá-lo, sob pena de não ser patriota. Uma comparação. Se uma mulher desnaturada abandonar o filhinho na estrada, deverá o Sr. deixá-lo morrer lá, porque a mãe, que era a única obrigada a criá-lo, o desampara? Com certeza não. Pois é o mesmo, na minha humilde opinião. Quem nada pode fazer não é obrigado a coisa alguma, mas quem pode, deve contribuir no limite de suas forças para o bem geral, ou então não é digno do nome de cidadão. Será um parasita que só aproveita e nada produz.

- Os particulares pagam impostos para ter escolas e etc., Sr. Cura. Logo, já fizeram o seu dever, produzem, e terão somente que exigir.

- Isto é um sofisma anti-patriótico. A renda do país não chega para prover todas as necessidades do ensino, sabemos disso; e, porque o rico paga um imposto, deve cruzar os braços indiferente, deve passar descuidoso, aqui ou acolá, pelas escolas paupérrimas, desprovidas de tudo, as escolas, os ninhos dos cidadãos futuros, - donde sairia uma geração nova de brasileiros dignos de sua pátria se as elevassem à altura de sua missão, - esperando que o governo faça tudo?... Não, meu amigo, isso não é amar o Brasil! Imagine que cada ricaço protegia a escola de sua freguesia, que se interessava pelo progresso dela, que dotava-a de melhoramentos... Uma coisa belíssima! Daqui a dez anos estaria mudada a face do país.

O Sr. Botelho não ficou convencido. Vão lá convencer a coruja a que adeje de dia pelas cumeadas brilhantes das montanhas! O Sr. Botelho era um egoísta. Só olhava para dentro do bolso. Ele, sua família e acabou-se. Como por vaidade ou para não fazer figura feia tinha dado alguma coisa para a edificação da escola, receava que a despesa fosse longe e que se visse obrigado a desembolsar ainda.

Porém não teve remédio senão aceitar a encomenda das vidraças, com intenção feita de cobrar mais do que lhe custassem. E o Sr. Botelho era um homem bem apessoado, bonito, olhar altivo e seguro, que não tinha cara de velhaco e passava por homem de bem!”

Como se viu acima, a escritora caracterizou bem o homem fanático pela supremacia do Estado sobre o indivíduo, verdadeiro estatólatra. O Sr. Botelho é um comerciante, um homem que só pensa em si, no dinheiro, um sujeito securitário que não quer dar do que é seu para ajudar a comunidade onde vive (a não ser o suficiente para viver) – para ele, seu imposto deve bastar para o Estado resolver tudo, como num passe de mágica! Eis a mentalidade do homem moderno... que está resumida nessa frase do comerciante: “Os particulares pagam impostos para ter escolas e etc., Sr. Cura. Logo, já fizeram o seu dever, produzem, e terão somente que exigir”.

Com base neste pensamento, vamos exigir que o governo não somente construa escolas, mas também hospitais, creches, transportes, estradas, ruas, esgotos sanitários, enfim, tudo aquilo que se exige para vivermos em sociedade. E, com base nesta obrigatoriedade do Estado provir a tudo, cruzemos os braços e esperemos que as providências sejam tomadas! E isso incentiva a esquerda impor seus programas de controle social sobre toda a sociedade, além de leis antinaturais e criminosas como as do aborto e tantas outras lesivas aos interesses sociais, mas alegadas como protetivas da sociedade.

O Princípio de Subsidiariedade

Não é essa a filosofia da verdadeira convivência política e social. O princípio defendido pela Igreja chama-se “Princípio de Subsidiariedade”, pelo qual o governo só deve intervir onde o cidadão, seja por si mesmo ou através de sua família e de suas organizações sociais, não puder realizar. O governo subsidia, auxilia, socorre, é elemento suplementar e organizador da sociedade, e não o único e exclusivo responsável pela solução dos problemas sociais. Foi este erro que gerou o estado socialista, absorvente e que suprimiu as liberdades individuais no decorrer do século passado. É o mesmo erro que está levando a Europa para a bancarrota generalizada, junto à qual irão os Estados Unidos da América e todo o resto do mundo civilizado se não forem tomadas medidas que façam com que o Estado intervenha menos e deixe a sociedade por si mesma solucionar seus problemas.

Este princípio (da subsidiariedade do Estado) foi exposto na Encíclica “Quadragésimo Anno”, do Papa Pio XI (de 15.5.1931), da seguinte forma:

“...assim, como é injusto subtrair aos indivíduos o que eles podem realizar com a própria iniciativa e indústria, para o confiar à coletividade, do mesmo modo passar para uma sociedade maior e mais elevada o que sociedades menores e inferiores podiam conseguir, é uma injustiça, um grave dano e perturbação da boa ordem social. O fim natural da sociedade e da sua ação é coadjuvar os seus membros, e não destruí-los nem absorvê-los.

“...Persuadam-se todos os que governam de quanto mais perfeita ordem hierárquica reinar entre as várias agremiações, segundo este princípio da função “supletiva” dos poderes públicos, tanto maior influência e autoridades terão estes, tanto mais feliz e lisonjeiro será o estado da nação”.

 

A mesma doutrina foi defendida por Pio XII:

“...Sua função [do Estado], sua magnífica função é, pelo contrário, favorecer, auxiliar, promover a íntima coalizão, a cooperação ativa no sentido de uma unidade mais elevada de membros que, ao mesmo tempo que respeitam sua subordinação ao fim do Estado, provêm do melhor modo ao bem de toda a comunidade, precisamente na medida em que conservam e desenvolvem seu caráter particular e natural. Nem o indivíduo, nem a família devem ser absorvidos pelo Estado. Cada um conserva e deve conservar a própria liberdade de movimentos, desde que ela não crie o risco de causar prejuízo ao bem comum.[3]

 



[1] Notável escritora e dedicada educadora católica, nascida a 26 de maio de 1861 na localidade chamada Oliveira dos Campinhos, na época pertencente ao município de Santo Amaro, Bahia, e falecida a 22.8.1926 em Salvador(BA).

[2] “Estatolatria” – neologismo surgido recentemente: veneração, adoração pelo poder do Estado.

[3] Discurso ao Congresso Internacional das Ciências Administrativas. 5.8.1950.