quinta-feira, 8 de maio de 2025

O PAPADO E A QUEDA DO "COMUNISMO DE ESTADO"

 


Várias agências midiáticas divulgaram notícias e comentários onde a tônica foi a de que o Papa João Paulo II havia, finalmente, derrubado o comunismo, dando a entender que não havia mais comunismo na terra. No entanto, a maioria destes comentários não levavam em consideração que restavam ainda alguns países dominados pelo “comunismo de Estado”, como China, Coréia do Norte e Cuba. De outro lado, nada se dizia sobre o “comunismo difuso” na sociedade, que eram as leis notadamente marxistas aprovadas em vários países ocidentais, ditos capitalistas, além de costumes materialistas na população que levavam ao mesmo comunismo no dia a dia de cada um.  Quando Nossa Senhora disse, em Fátima, “a Rússia espalhará seus erros pelo mundo” referiu-se explicitamente aos costumes, muitos deles impostos por leis. Do mesmo modo, nunca houve uma apuração sobre as responsabilidades para que fossem punidos aqueles que implantaram tanta miséria e desgraça naqueles países, pelo menos a criação de tribunais como fizeram com os nazistas. Pelo contrário, os comunistas que deixavam o poder foram premiados: segundo se comentou nos jornais da época, os elementos que faziam parte do comando central do PC dos países onde “caía” o comunismo, assumiram gratuitamente a posse das empresas e riquezas que antes estavam em poder do Estado, e alguns burocratas foram até premiados com empregos nas maiores bolsas de valores europeias (milhares deles).

O fato do Papa ter tido papel fundamental na condução da opinião pública não é novidade, e todos já o sabiam, por experiências anteriores. Em 1942, por exemplo, quando os nazistas perderam o apoio momentâneo da Itália, resolveram invadi-la. Mas, quando o comandante militar nazista, ao ocupar Roma chegou às portas do Vaticano, parou. Entrou em contato com Hitler e pediu autorização para invadir o Vaticano e aprisionar o Papa Pio XII, coisa muito fácil já que a Igreja não possui forças militares à altura para uma guerra moderna. Que fez Hitler? Com medo da reação da opinião católica mundial, inclusive dos alemães, determinou que não mexesse com o Papa, que deixasse o Vaticano para depois. Quer dizer, o único Estado organizado não nazista europeu a não ser invadido (ou pelo menos tentado invadir, como a Inglaterra)  foi o Vaticano, e justamente não o fez com medo da opinião pública.

Com o passar do tempo a influência do Papado no mundo só tem crescido. Basta ver a importância que se dá à simples eleição de um Papa. Não somente os católicos, mas ateus, hereges e adeptos de todas as outras religiões, até mesmo muçulmanos, interessam-se curiosamente sobre o desenrolar e o desfecho de tal eleição. O mesmo interesse também é intenso no caso da morte de um Papa, como ocorreu no enterro de João Paulo II ao atrair multidões ao Vaticano, considerado o maior da História.

 

A queda do comunismo na Polônia, obra do Papa na visão da mídia

Somente após a morte de João Paulo II alguns veículos de comunicação deram destaque à sua ação na Polônia que acabou por derrubar o regime da ditadura política comunista que lá se instalara desde a década de 40. Um deles foi da agência e site UOL, pertencente ao grupo da “Folha de São Paulo”, que divulgou o fato debaixo da seguinte manchete: “02/04/2005 - João Paulo II, o papa que contribuiu para a queda do comunismo”.

Esta maneira de ver, exposta na notícia acima, era comum à maioria dos órgãos de imprensa. Quase dez anos depois, em 2014, era ainda esta a visão midiática sobre a ação do Papa.

 

A Polônia do período de comunismo de estado

Esse período veio logo após a segunda guerra mundial. A imposição ao povo de um regime, pela via da traição, da força bruta, de forma imperada, sem que fosse consultada a opinião nacional. Após o predomínio do comunismo de Estado, falido e sem apoio popular, surgiu o Papado, com João Paulo II, para livrar o povo dele. Sabendo que há dois tipos de comunismo, o chamado “comunismo de Estado” (imposto pela ditadura do proletariado ou outra qualquer) e o “comunismo difuso” (a influência do marxismo nas leis e nos costumes sociais), renunciou aquele seu império em benefício deste último, é verdade. Mas, para que o comunismo de Estado ruísse completamente, nada teria sido conseguido se não fosse o poder de influência que o Papado tem na opinião pública.

Vejamos como os fatos ocorreram.

A Conferência de Yalta – foi após tal conferência que a Rússia se apossou da Polônia ao expulsar de lá os alemães. Embora no referido tratado nada tenha sido assinado em torno disso, a realidade mostra que houve algum acordo secreto sobre o assunto, haja vista que a Rússia comunista dominou pacificamente todo o leste da Europa, implantando o seu regime em diversos países.

Com o prolongamento da guerra, a propaganda de esquerda procurou enfatizar em todo o mundo o papel anti-nazi de Estaline e da Rússia soviética, para apresentá-la como a "libertadora" da Europa Oriental. Plínio Corrêa de Oliveira observava que, enquanto os Aliados se debatiam no atoleiro italiano, a URSS ampliava a frente do Leste, aumentando a sua influência na Europa Central. Os nazis defendiam palmo a palmo a frente italiana, abandonando aos russos províncias inteiras na Europa Oriental. O nazismo "está a cometer a suprema traição de entregar a Europa lentamente aos bolchevistas".

Em Fevereiro de 1945, encontraram-se em Yalta Estaline, Roosevelt e Churchill. Invadido em duas frentes, o Terceiro Reich capitulou entre 7 e 8 de Maio, e Hitler suicidou-se no bunker de Berlim. Também o Japão, com as suas forças exaustas, após o lançamento, em Agosto, das duas bombas atómicas americanas sobre Hiroshima e Nagasaki, aceitou a capitulação.

Por insistência de Josef Stalin, a Conferência de Yalta sancionou a formação de um novo governo polonês provisório e pró-comunista em Moscou, que ignorou o governo polonês no exílio em Londres, um movimento que enfureceu muitos poloneses que consideraram isto uma traição por parte dos Aliados. Em 1944, Stalin havia feito garantias a Churchill e Roosevelt de que ele iria manter a soberania da Polônia e permitir eleições democráticas; no entanto, após alcançar a vitória em 1945, as autoridades soviéticas de ocupação organizaram uma eleição que constitui nada mais do que uma farsa e foi usada para reivindicar a "legitimidade" da hegemonia soviética sobre os assuntos poloneses. A União Soviética instituiu um novo governo comunista na Polônia, análogo a maior parte dos governos do resto do Bloco de Leste. Como em toda a Europa comunista a ocupação soviética da Polônia enfrentou uma resistência armada desde o seu início, que continuou na década de 1950. Apesar das objeções generalizadas, o novo governo polaco aceitou a anexação soviética das regiões orientais do pré-guerra da Polônia (em particular as cidades de Wilno e Lwów) e concordou com a guarnições permanentes de unidades do Exército Vermelho no território polonês. O alinhamento militar no âmbito do Pacto de Varsóvia durante a Guerra Fria surgiu como um resultado direto dessa mudança na cultura política polonesa e no cenário europeu veio a caracterizar a integração de pleno direito da Polônia na fraternidade das nações comunistas.

A República Popular da Polônia (em polacoPolska Rzeczpospolita Ludowa) foi oficialmente proclamada em 1952. Em 1956, após a morte de Bolesław Bierut, o regime de Władysław Gomułka tornou-se temporariamente mais liberal, libertando muitas pessoas da prisão e expandindo algumas liberdades civis. Uma situação semelhante se repetiu nos anos 1970 sob o governo de Edward Gierek, mas na maior parte do tempo houve perseguição contra grupos de oposição anticomunistas. Apesar disso, a Polônia era na época considerado um dos Estados menos opressivas do bloco soviético.

 

 

O papel de João Paulo II na derrubada do comunismo na Polônia

Em junho de 1979 João Paulo II faz sua primeira viagem apostólica à Polônia, seu país natal.

Relatório enviado ao Politburo pelo Conselho para Assuntos Religiosos da União Soviética dizia: "Os camaradas poloneses caracterizam João Paulo II como mais reacionário em assuntos da igreja e mais perigoso no nível ideológico que seus predecessores. Quando cardeal, distinguiu-se por sua posição anticomunista".

Antes da viagem, o governo comunista, militar e ditatorial, ameaçou até prender o Papa se pisasse o solo polonês. O Papa enfrentou todas as ameaças e fez a viagem. Era tal a multidão que o recebeu que o governo polonês não teve coragem de tomar nenhuma medida de coação ou prisão como ameaçara. Pouco tempo depois, em 1989, o regime caía sob o impacto das reformas da “Perestroika” de Gorbachev na ex URSS, mas, evidentemente, como consequência de um sadio movimento de opinião pública contra o comunismo, o qual teve grande impulso com a ida do Papa ao país.

João Paulo II ainda realizou mais 7 viagens à Polônia, fortalecendo a reação católica daquele povo contra o regime comunista. É claro que todas estas viagens foram de caráter apostólico e religioso. No entanto, após essas viagens do Papa surgiram, assim, os movimentos independentes dos trabalhadores a partir de 1980 que levaram à formação do sindicato independente, como o "Solidariedade" que, com o tempo, tornou-se uma força política. Em 1989, venceu as eleições parlamentares. Lech Wałęsa, um candidato do Solidariedade, venceu as eleições presidenciais em 1990. O movimento Solidariedade prenunciou o colapso do comunismo na Europa Oriental.

 Segunda viagem – 1983 - João Paulo II fez a sua segunda viagem apostólica à Polónia de 16 a 23 de Junho de 1983. A visita teve lugar durante a lei marcial no país e esteve ligada à preparação do Jubileu do 600º aniversário da presença da Imagem Jasna Gora. Apesar da falta de consentimento por parte das autoridades estatais, as autoridades eclesiásticas decidiram convidar o Papa e realizar a visita em Junho de 1983. Durante a sua estadia, o Papa encontrou-se com multidões de polacos e beatificou três figuras estreitamente associadas à Igreja Católica Romana na Polónia. O lema da viagem era "Paz para vós, Polónia, a minha pátria".

A terceira viagem – 1987 - De 8 a 14 de Junho de 1987, com o lema "Ele amou-os até ao fim". Esta peregrinação estava ligada ao Segundo Congresso Eucarístico Nacional que então se realizava. Durante esta peregrinação, o Papa visitou muitas cidades, encontrando-se com diferentes grupos de pessoas, desde o clero até aos fiéis comuns. Os seus discursos centraram-se principalmente em temas relacionados com a fé e o amor. O Papa João Paulo II utilizou a viagem como uma oportunidade para realçar a importância da Eucaristia e o seu papel na vida de um cristão. Durante a sua estadia, o Papa beatificou a Beata Karolina Kózkówna, que é considerada um modelo de piedade e obediência a Deus. Esta viagem foi um evento importante para a Igreja na Polónia, pois contribuiu para o desenvolvimento da fé e espiritualidade e para o fortalecimento da posição da Igreja no país.

A quarta viagem – 1991 - Estava ligada ao lema "Dar graças a Deus, não extinguir o espírito". Esta peregrinação visava fortalecer a fé e a espiritualidade num país que acabava de sofrer uma transformação política e que tinha rompido com o ateísmo imposto pelo governo. Como tal, a sua visita foi também uma expressão de gratidão a Deus pelos dons e graças que a Polónia tinha recebido. A peregrinação durou entre os dias 1 e 9 de Junho. João Paulo II visitou muitas cidades durante esse período, inclusive: Koszalin, Przemyśl, Włocławek, Kielce e Lubaczów.

A quinta viagem – 1995 - Foi uma breve visita à diocese de Bielsko-Żywiec, que teve lugar no dia vinte e dois de Maio e que fez parte da sua viagem à República Checa. O Papa visitou então cidades na Voivodia Silesiana, incluindo Skoczów e Bielsko-Biała. Esta peregrinação foi a única viagem não oficial de João Paulo II à Polónia organizada pelo

A sexta viagem – 1997 – foi uma peregrinação, que durou de 31 de Maio a 10 de Junho, ligada ao 46º Congresso Eucarístico Internacional, realizado sob o tema "Eucaristia e Liberdade". Nessa altura, o Papa também participou na celebração europeia do milénio da morte de Santo Adalbert em Gniezno, na qual os presidentes de sete países da Europa Central e Oriental participaram para além dele. O Papa polaco também participou nas celebrações do seiscentenário da Faculdade de Teologia da Universidade Jagielloniana.

A sétima viagem – 1999 - de 5 a 17 de Junho e foi a mais longa peregrinação papal na Polónia. Entre os acontecimentos mais significativos durante a estadia do Papa estava a sua visita ao Sejm, no dia 11 de Junho. Em ligação com a visita de João Paulo II, foi posteriormente colocada uma placa comemorativa no salão principal do Sejm. Para além de Varsóvia, o Papa conseguiu então visitar Sosnowiec, Toruń e Gdańsk, entre outros.

A oitava e última viagem – 2002 - teve lugar de 16 a 17 agosto e foi dedicada principalmente à consagração do complexo sagrado em Cracóvia-Łagienniki, que é o lugar de descanso das cinzas da santa da Igreja Católica, freira Faustyna Kowalska.

  


terça-feira, 6 de maio de 2025

NA OBEDIÊNCIA SE ENCONTRA A FINA PONTA DO EXERCÍCIO DA LIBERDADE

 





Se é verdade que a liberdade para mim consiste em que os bons movimentos que brotam de mim, ora pela ação da natureza, ora pela ação da graça, cheguem a seu termo normal, como esses movimentos são sempre de acordo com os Mandamentos, acontece que, quando obedeço aos Mandamentos, exerço minha liberdade. Nesta perspectiva, a plenitude da liberdade é idêntica a obedecer.

Entretanto, na minha liberdade vejo que sou concebido no pecado original. E que eu conheço o suficiente a respeito do bem para saber que é mais amplo do que minha mentalidade pode abarcar, de maneira que algo eu vejo e algo não vejo. Logo, eu devo me apoiar em quem vê. Assim, minha liberdade consiste em procurar quem vê e pedir-lhe que me leve, que me esclareça para eu andar.

Conformando meu modo de ver ao daquele que me explica, que me persuade e que eu vejo que vê mais do que eu e que, portanto, devo seguir, embora eu não compreenda, eu obedeço. Mas, no fundo, exerço minha liberdade, porque sigo aquele caminho que devo querer seguir e que há de levar a bom termo os bons movimentos de minha alma.

Por fim, há um terceiro modo de liberdade. Quando vários querem fazer uma obra, está na natureza das coisas que haja um que mande, porque do contrário a obra não se faz.  Isso era assim mesmo antes do pecado original e é um ponto aceito pelos teólogos unanimemente. Se Adão e Eva não tivessem pecado, teria havido governo, teria havido estados, teria havido nações, teria havido uma organização incomparavelmente mais perfeita do que a atual, mas com uma autoridade.

Por que eu, obedecendo à autoridade, que eventualmente pode até ver menos do que eu, mas que é autoridade, exerço minha liberdade? É porque se eu quero que as coisas estejam em ordem, eu hei de compreender que há de haver uma autoridade que possivelmente veja menos do que eu, mas que mande. E eu farei o que a autoridade manda.

De maneira que continuamente, segundo a Doutrina Católica, o exercício da obediência é o exercício da fina ponta da liberdade. E a dignidade do homem não consiste, como diz a Revolução, em não obedecer, mas em obedecer a quem se deve.

(Extraído da Revista “Dr. Plínio”, edição de março de 2025, pág. 17; conferência de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira sobre a sagrada escravidão a Nossa Senhora)

Em outra oportunidade, a liberdade quando é vista num direito, Dr. Plínio defende que esse direito é de fazer o bem. Não tem sentido, portanto, certo ‘direito” de ter liberdade de fazer tudo o que desejar, inclusive o mal.

 

“O DIREITO DE FAZER O BEM”



Plínio Corrêa de Oliveira

É o momento de dizer uma palavra sobre a livre iniciativa.
Tanto se fala, em nossos dias, da liberdade individual, consequência natural da condição de ente dotado de alma e corpo, de inteligência, vontade e sensibilidade, como é o homem.

Infelizmente, contudo, o zelo por essa liberdade se aplica cada vez mais em restringir o poder do Estado na repressão da imoralidade, do vício e do crime. Vivemos, por exemplo, na era da anarquia penitenciária, do que fatos ocorridos recentemente no Brasil dão exemplos consternadores.

Porém, os zelotes[3] da liberdade dão cada vez menos mostras de seu empenho em defender as legítimas liberdades do homem de bem contra essa ação do Estado, ora invasora quase até as raias do totalitarismo, ora omissa quase até as raias da anarquia. Assim, a proibição de uma peça de teatro imoral pode dar ocasião a que se desencadeie contra o Governo um verdadeiro estrondo publicitário. E a eventual atuação da polícia contra piquetes grevistas pode ocasionar algo análogo. Tudo em nome da liberdade.
De maneira que propagar no palco o vício ou o crime seria um “direito humano”. Usar de violência para impedir a colegas que trabalhem honestamente no sustento do lar, também seria um “direito humano”.

Ora, a liberdade do homem consiste essencialmente no direito de fazer o bem.

Por disposição divina, o homem tem necessidades a enfrentar nesta vida, mas ao mesmo tempo é dotado de recursos para prover essas necessidades. Os problemas de cada homem devem ser resolvidos antes de tudo por ele mesmo, isto é, com a utilização de seus dotes de corpo e muito principalmente dos de alma. O direito de utilizar em favor de si mesmo sua própria inteligência, os recursos de sua própria sensibilidade - nisso consiste a livre iniciativa. Negá-la, mutilá-la, criar-lhes entraves usurpatórios, é tratar o homem parcial ou inteiramente como coisa, como objeto inanimado.

Nos casos em que o homem se encontre legitimamente impedido de prover por si as próprias necessidades, é natural que ele recorra à ação supletiva do grupo social que lhe é mais próximo, ou seja, a família.

Quando a ação subsidiária da família se verifica legitimamente insuficiente, pode o homem recorrer a outros grupos menos próximos, como associações profissionais, caritativas, etc.

Na eventualidade de mesmo então não encontrar a ajuda necessária, está o homem no direito de recorrer, também subsidiariamente, à ação do grande grupo que sobrepaira a todos os outros, e na mais alta instância o protege: o Estado.

O princípio de subsidiariedade, assim descrito, situa a livre iniciativa no âmago de um conjunto de círculos concêntricos sucessivamente destinados a ajudá-la.

É ela exatamente o oposto do coletivismo, que se propõe a estancá-la.

Com efeito, o Estado coletivista impede toda iniciativa individual, suprime a família e os demais grupos intermediários entre o indivíduo e o Estado, e enfeixa tudo nas mãos do Poder Público, dotado, para dominar a cada qual, do cetro da propaganda monopolizada, e da terrível chibata da perseguição policial.
Em consequência dos princípios enunciados, o Governo deveria demonstrar ao povo que, de fato, nas condições atuais do Brasil, o direito natural imprescritível do homem ou do bem comum nacional exigem a reforma agrária.

Tal demonstração ela a deveria fazer em duas ordens de ideias:

a) Na linha da justiça, provando que a atual estrutura fundiária do País é injusta;

b) Na linha do bem comum social e econômico, demonstrando que a atual situação fundiária é contrária ao interesse coletivo, porque não produz suficientemente.

Mas para isto seria indispensável que ele exibisse a argumentação doutrinariamente correspondente, bem como estatísticas, pesquisas, análises e relatórios em abundância, para que o povo pudesse formar seu juízo sobre a matéria. Porém, nada disso fez ele.

 (“Última Hora”, 01 de novembro de 1985)

 Veja nossa postagem de sábado, 9 de maio de 2009, mais completa sobre o tema: https://quodlibeta.blogspot.com/2009/05/o-verdadeiro-sentido-das-palavras.html

 

sábado, 3 de maio de 2025

SANTO DO DIA: INSTITUIÇÃO QUE NASCEU DE UM PEDIDO

 




Certo dia em 1963, o Autor estava encarregado do expediente vespertino na sede da Rua Martim Francisco, quando ouviu soar a campainha interna, acionada por Dr. Plínio, o qual trabalhava na sala dos fundos. Entrou, segundo o costume, e ajoelhou-se para servir água, pensando ao mesmo tempo em como poderia formular o seu desejo a respeito das reuniões da noite. Mas, de modo inesperado, o seu pai espiritual lhe disse:

- Então, meu filho. Faça alguma pergunta.

Ele respondeu:

- Dr. Plinio, mais do que uma pergunta, eu queria expor uma situação e fazer ao senhor um pedido.

- Qual é o pedido?

- Às vezes um ou outro de nós tem sido convocado no fim do dia para subir à Sede do Reino de Maria, a fim de tratar com os mais velhos algum assunto de trabalho quando termina a reunião da noite. Nós sabemos que o senhor dá verdadeiras pérolas nessas reuniões, e aproveitamos assim para conversar com eles, procurando ouvir os ecos dos comentários do senhor. Então, eu desejaria pedir licença para fazer todas as noites, oficialmente, o que temos feito de vez em quando: ir à sede da Rua Pará, e ali colher um pouco das migalhas que caem da mesa dos mais antigos. O senhor veria isso com maus olhos, Dr. Plínio?

Num gesto de surpresa, ele se afastou um pouco para trás, olhou fixamente quem lhe falava e disse:

- Ora! O que é isso?  Vocês não são filhos?

- Sim, nós temos o senhor como pai.

- Como é possível que um pai alimente seus filhos com migalhas que caem da mesa? Não pode ser! Isso se faz, quando muito, com os animais, mas não com os filhos. Vamos dar um jeito nisso. Diga-me: vocês têm alguma atividade depois da meia noite?

- Não. A essa hora estamos livres de qualquer obrigação.

- Teriam tempo de subir à Rua Pará todas as noites, quando termina a reunião?

- Sim, claro que temos tempo! Já fazemos justamente isso.

- Então, vamos proceder da seguinte forma. Apareçam lá pouco antes desse horário e, à meia-noite em ponto, passem-me um bilhete avisando que chegaram. Terminada a reunião eu mandarei abrir as portas, convidarei vocês a entrarem e farei o comentário de algum texto, por exemplo a respeito do Santo do Dia, para os novos e os antigos, durante uns vinte minutos. Como é evidente, não haverá cadeiras para vocês, e terão de ouvir em pé. E alguém precisaria me preparar quatro ou cinco parágrafos sobre a vida de cada Santo. Você acha que está bem assim?

- Está perfeito! Excelente! Podemos começar hoje à noite?

- Sim, pode ser. Comunique que estão autorizados a comparecer todos aqueles que quiserem.

Assim, naquele mesmo dia, 24 de fevereiro de 1963, foi preparada a resenha sobre o Santo correspondente à data, São Matias Apóstolo, e à noite todos assistiram ao comentário, como prolongamento da Reunião Normal. Estava oficializada a entrada dos mais jovens à Sede do Reino de Maria, e nascia a instituição destinada a perdurar ao longo de toda a vida de Dr. Plínio, surgida de uma súplica atendida com zelo paternal: o Santo do Dia.”[1]

 

Como era um Santo do Dia?

Os felizes beneficiados por essa nova instituição eram, de início, vinte jovens. Eles saíam a pé de sua sede na Rua Aureliano Coutinho, chegavam cedo à Sede do Reino de Maria, quando a reunião ainda estava longe de terminar, e dirigiam-se à porta do último cômodo antes do Auditório da Santa Sabedoria, chamado Sala da Mesa, que ficava fechado até concluir a reunião. Logo formavam fila, à espera de serem chamados. O Autor, entretanto, já comparecia às dez e meia, horário em que começava a Reunião Normal, e ali permanecia pronto para ser dos primeiros a entrar e assim poder assistir ao Santo do Dia num lugar à frente, o mais perto possível de Dr. Plínio, não apenas para ouvir bem suas palavras e acompanhar os temas desenvolvidos, mas, sobretudo, por sentir nessa proximidade com ele uma intensidade maior de graças, de união de almas e de transmissão de seu espírito.

Assim, quando por volta da meia-noite eram abertas as portas que separavam aquele auditório, composto de trinta poltronas, do jardim e da Sala da Lareira, todos eles entravam correndo, cheios de entusiasmo, mas com ordem e disciplina. Os mais ágeis enchiam o corredor central, enquanto outros se apinhavam nas janelas atrás de Dr. Plínio, e os demais ocupavam a sala do lado. Eram levadas as fichas contendo informações sobre o Santo do dia numa pequena pasta de couro, e então começava o comentário, o qual durava 15 ou vinte minutos, chegando às vezes a completar meia hora.

Mais de vinte anos depois, será o próprio Dr. Plínio quem guardará desses momentos uma recordação saudosa: “Eu me lembro bem: quando chegava a meia-noite, abria-se a porta que dava para o jardim e era o estouro dos jovens que entravam. Bem na frente, vibrando com a vitalidade que os senhores todos conhecem e com a fidelidade que nós todos admiramos, o meu querido João Clá entre outros. Enchiam as duas salas. A sala de reuniões, a Sala da Mesa. E começavam a ouvir o Santo do Dia”[2]

Tão numerosos, originais e substanciosos são os ensinamentos proferidos ao longo de três décadas de Santo do Dia, até o ano de 1995, que sua menção mereceria constituir obra à parte, com volumes em número indefinido. Entretanto, a fim de nos introduzirmos por uns instantes no ambiente do Auditório da Santa Sabedoria e participarmos do clima de fervor que se estabelecia nessas ocasiões, nada melhor do que percorrermos algumas das primeiras linhas dessa imensa sequência, na qual a figura de cada Santo ou o objeto de cada festa foram motivos para a manifestação de diversos aspectos da catolicidade e profunda piedade de Dr. Plínio.

A festa da Visitação de Nossa Senhora, por exemplo, deu oportunidade para seus discípulos se beneficiarem com inéditas considerações sobre o Magnificat, nas quais muito haveria para admirar e meditar. “Quem é o poderoso e quem é o humilde? O humilde é o que atribui tudo a Deus, como Ela o fez nesse cântico, isto é, reconhece ser Deus a origem de todo bem e a fonte de todo poder, e que sem o seu concurso nada podemos na ordem sobrenatural, como também na ordem natural. O poderoso de que fala a Santíssima Virgem é quem não reconhece isso e pensa que tem poder independente do concurso divino. Então, ‘Deus depôs os poderosos e elevou os humildes’ é uma tese, seguida de todos os argumentos até o final, e canta muito equilibradamente a grandeza de Deus em sua misericórdia e em sua justiça, e o domínio d’Ele sobre todo o universo. É o hino triunfal da grandeza de Deus!”[3]

Não menos belo e categórico é o conselho dado por ele em outra ocasião, ao comentar a defecção do Apóstolo Pedro na hora dramática da Paixão: “Há soldados que vão à guerra por medo de um riso, para não cair no ridículo. Não há nada que assuste mais os poltrões do que serem ridicularizados. Não sejamos nós como esses poltrões, mas enfrentemos o riso toda vez que se fizer necessário para a causa de Deus”.[4]

E o que dizer da ousada afirmação proferida quando lhe pediram para fazer algum comentário sobre a festa de Nossa Senhora Rainha da Paz? “Há uma atitude fundamental de inimizade e de guerra da Rainha da Paz. Ela sozinha esmagou todas as heresias, e por isso as lutas empreendidas pela Igreja em toda a História, contra os hereges, antes de tudo são travadas e vencidas pela Rainha da Paz. Então, que paz é esta? Como Nossa Senhora é a Rainha da Paz, se o espírito d’Ela nos leva à guerra? O que é a paz? É a tranquilidade da ordem. Quando uma alma tem o firme propósito de se manter na ordem, custe o que custar e por maiores que sejam as dificuldades e as angústias a enfrentar, só aí ela tem a paz. Nossa Senhora não perdeu a paz, nem mesmo no Calvário, porque Ela possuía a tranquilidade da ordem em seu espírito, cumprindo o seu dever”.[5]

E a festa de Santo Ambrósio deu a Dr. Plínio ensejo para deixar transparecer o seu ardoroso amor em relação à sagrada hierarquia, ao comentar a famosa cena do grande Bispo de Milão enfrentando o imperador às portas de sua catedral.  “São fatos que se tornam símbolos para os vinte séculos da História Eclesiástica. No momento em que Teodósio ia ingressar, ele encontrou Santo Ambrósio com todo o seu clero do lado de fora, proibindo-o entrar. Teodósio se arrependeu e se humilhou. Essa atitude do poder espiritual em relação ao poder temporal lembra um princípio ao qual nós devemos ser sumamente afeitos: quando as potências humanas não andam bem, sejam elas de que natureza forem e apresentem-se ao título que se apresentarem, por mais que sejam exaltadas e glorificadas na sociedade civil, é missão do clero enfrenta-las, humilhá-las e quebra-las, com vistas à glória de Deus. E por esta forma torna-se claro que, em face da eternidade, elas passam e se reduzem a nada. Afinal de contas, a única coisa que fica sempre, que vale sempre e está acima de tudo, é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja de Deus”.[6]

Assim, os Santos do Dia foram se sucedendo ao longo de toda a década de 1960. Mais tarde, as duas reuniões da noite se fundiram numa única, conservando sempre o título de Santo do Dia, inclusive quando outros temas, não ligados à vida dos Bem-aventurados, fossem nela abordados.[7]



[1] Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP -  “O Dom da Sabedoria na Mente, Vida e Obra de PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA” – Vítima expiatória – vol. IV, pág.31/33 – e 35

[2] Santo do dia de Sábado, 23/2/1980.

[3] Santo do Dia, 2/7/1963

[4] Santo do Dia, 24/6/1964

[5] Santo do dia, 10/7/1964

[6] Santo do Dia, 7/12/1964

[7] Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias, EP -  “O Dom da Sabedoria na Mente, Vida e Obra de PLÍNIO CORRÊA DE OLIVEIRA” – Vítima expiatória – vol. IV, págs.31/39

 


sexta-feira, 2 de maio de 2025

SANTO ATANÁSIO

 





Estive lendo, antes de vir para cá, um resumo biográfico muito condensado da vida de um dos maiores santos da Igreja que foi Santo Atanásio e alguns dos aspectos de sua vida, que eu não conhecia, e me parece bem comentá-los aqui com os senhores.

Os senhores todos sabem que Santo Atanásio (296-373) viveu no tempo do Imperador Constantino e de seus sucessores imediatos. Quer dizer, naquela época em que a Igreja estava saindo das catacumbas e se organizando à luz do dia. Nesta época, ao mesmo tempo que as perseguições promovidas pelos pagãos estavam em declínio, a Igreja sofria de um outro flagelo, certamente pior do que a perseguição dos pagãos: heresias e divisões internas. Uma das maiores heresias de toda a História grassou exatamente no tempo de Santo Atanásio e Constantino, a dos arianosque afirmava que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha uma natureza apenas humana: não era Deus, era um grande homem, um homem extraordinário.

E essa heresia importava na negação completa da religião católica. Reduzir Nosso Senhor Jesus Cristo a um puro homem é negar a religião católica por inteiro.

Os arianos, que eram muito poderosos, espalharam-se rapidamente por todo o Império Romano, que se localizava mais ou menos em torno da bacia do Mediterrâneo e – como eram exímios em toda espécie de intrigas e na organização de toda espécie de difamação – obtiveram influências na corte imperial e arrastaram um tal número de fiéis, inclusive sacerdotes e bispos atrás de si, que Santo Atanásio declarou que um belo dia o mundo inteiro gemeu porque, ao amanhecer, deu-se conta de que era ariano. Quer dizer, de um momento para outro essa heresia grassou por toda parte, e como que todo mundo se tinha tornado ariano.

Nesta luta contra o arianismo, o grande gigante foi Santo Atanásio. Ele era patriarca – ou seja, mais do que um arcebispo – de Alexandria, que era uma das grandes sedes episcopais da antiguidade. Ele foi – não me lembro bem se quatro ou seis vezes – obrigado a sair fugindo da cidade de Alexandria por causa das conspirações dos arianos contra si. Os arianos conseguiram vários decretos imperiais expulsando-o para esta ou aquela parte do império romano, muitas vezes perseguido de morte, e ao longo dessas perseguições e dessa luta tremenda que travou, alguns não são tão conhecidos. Conhece-se a história da querela dele com os arianos no terreno doutrinário, mas menos, por assim dizer, os episódios policialescos de sua luta com os arianos. Mas me parece que na vida de um santo, mesmo esses episódios menores têm muito de edificante e que valeria a pena referir alguns deles aos senhores.

Para os senhores terem ideia de quanto importa muitas vezes a resistência a favor da ortodoxia contra a heresia, basta lhes dizer o seguinte: Santo Atanásio, para fugir aos hereges, passou – num dos lances de sua luta – seis anos no fundo de um poço, sem ver sequer a luz do dia. Não sei se os senhores se dão bem conta do que significa isso… Havia apenas um católico fiel, quando o poço estava abandonado, que lhe jogava o necessário para viver. O poço ao menos água lhe fornecia… e o resto era comida que utilizava.

Então ele ficava ali lendo, refletindo, louvando ao Criador, rezando, de maneira que Deus, no mais alto dos Céus, recebeu durante seis anos o louvor perfeito que um santo lhe enviava, do fundo de um poço, sempre confiando na Providência, sempre disposto a lutar, sempre inquebrantável no seu propósito. De maneira que, ao cabo de seis anos, a perseguição amainou e seu amigo, do alto do poço, o avisou. Ele então saiu e continuou sua luta contra o arianismo.

Numa outra ocasião a provação foi menor, mas não deixou de ser também impressionante. Ele teve que fugir pelos desertos do Egito e não encontrou outro lugar para se esconder a não ser a sepultura do próprio pai. E passou metido dentro dela durante quatro meses. Lúgubre é para a sensibilidade humana; não o é para a alma de um grande santo, mas em todo caso…De lá ele saiu de novo e conseguiu retomar a luta contra o arianismo, por meio de sermões extraordinários que eram anotados e as cópias eram transmitidas de católicos a católicos, por toda a extensão do Império Romano também.

Numa das ocasiões, foi intimado a comparecer a um grande concílio de bispos arianos na cidade de Tiro. Ele declarou que não comparecia porque eram bispos hereges, e não os reconhecia, portanto, como verdadeiros católicos e não tinha comunhão com aquela gente. Porém recebeu do Imperador Constantino um decreto obrigando-o a comparecer para discutir com os hereges. Aí mudava a situação: não era mais aceitar o concílio como uma assembleia legítima, da qual participaria, mas era ir lutar contra o pseudo concílio, um conciliábulo de hereges.

Santo Atanásio foi e eram cento e tantos bispos, o que para aquela época era muita coisa. E com os hábitos de seriedade e solenidade daquele tempo, ele entra acompanhado de um sacerdote que lhe era fiel, na assembleia de todos os bispos paramentados que o recebem, não lhe destinam lugar para sentar-se, nem nada: ele fica ali em pé. E percebe logo que – como é hábito dos hereges – eles não queriam discutir doutrina, mas vão afirmando uma coisa, outra, outra e depois caluniando e fingindo o contrário…

Os senhores que conhecem o progressismo “católico”, sabem disso perfeitamente: travar uma discussão leal, eles não o fazem! Mas somente reafirmam os mesmos erros e procuram destroçar quem diz o contrário. Está acabado.

Ele percebeu que seria julgado e numa atmosfera de calúnia e de ódio tal que nem se constituía um tribunal regular. Foi um puro vozerio contra sua pessoa. E a primeira coisa que se fez contra Santo Atanásio foi uma coisa extraordinária: uma mulher de má vida se levantou naquele ambiente e disse que ela estava rica de dinheiro, que lhe havia sido dado por Santo Atanásio, que ela presenciara suas fugas, períodos em que ele passava por lugares ignotos, tal e tal outra abominação, e que podia dar provas disso pois ela era testemunha…!

À medida que ela falava, os bispos arianos bramiam que ele precisava ser deposto, ser condenado etc. Com efeito, não há como o herege para se fingir de zelador dos bons costumes quando se trata de perseguir um ortodoxo.

Santo Atanásio, com uma inteligência extraordinária, sutil, não disse nada. Conservou-se sereno e deixou o pessoal vociferar. Apenas soltou um cochicho no ouvido do padre que o acompanhava. Quando o padre pôde cortar a palavra dessa mulher infame, ele lhe disse, fingindo que era Santo Atanásio: “Então você afirma realmente que me conheceu, e afirma que me viu, etc., etc.?”. A tonta pensou que aquele fosse Santo Atanásio, o qual ela nunca tinha visto. Então, declarou ela: “Afirmo”. – “Jura?” – “Juro”. Os senhores veem com que superior inteligência ele decidiu a situação…

Deu-se na assembleia o que se deu aqui com os senhores: os próprios hereges estalaram na gargalhada, porque a farsa ficou de tal maneira evidente, que não era mais possível segurar. E houve assim um movimento que era para dissolver todo mundo, porque a coisa tinha terminado em chanchada.

Então, alguns mais fanáticos dentre os arianos começaram a exclamar: “Não senhor! tem mais essa acusação, e é gravíssima, onde é que se viu?! etc. etc.” É tal a má fé dessa gente, que voltaram para ouvir a segunda acusação. Depois de se constatar que a primeira era uma chanchada, do que valeria a autoridade desses mesmos homens para levantarem outra acusação?

Nessa circunstância, Santo Atanásio foi mais uma vez extraordinariamente servido pela Providência. Levantou-se um bispo herético e tirou de uma caixa uma mão ressequida de um morto. E disse: “Aqui está a mão do bispo – havia uma heresia colateral, meio relacionada com a dos arianos, chamada dos melecianos – aqui está a mão do tal bispo Meleciano, morto por Atanásio em tal ocasião, o que foi um crime nefando! E para provar que realmente foi morto, aqui está a mão desse venerável homem de Deus que se afundou no deserto. Era o mesmo deserto onde estava Atanásio. Quem é que poderia ter cometido esse assassinato senão Atanásio?!”

Santo Atanásio ouviu também com toda a serenidade possível. Entre os assistentes – é uma coisa que só se explica por intervenção divina – estava um homem de cabeça baixa e recoberto com aqueles panos do Oriente. Santo Atanásio foi ao homem e disse: “O bispo tal morreu? Vocês têm certeza?” “Temos”. Ele puxou o pano e disse: “Olhem aqui ele…” Era o próprio!

Então, Santo Atanásio, gracejando, disse o seguinte: “Deus não deu a cada um de nós mais do que as duas mãos. Levante uma mão!” Ele levantou. “Agora, levante a outra”. Ele levantou. Santo Atanásio disse: “Bem, compete a vocês explicarem em que parte do corpo dele se encaixava a outra mão”…

Os senhores pensam que os arianos desarmaram? Não, começaram a gritar atrás dele: “Mágico! Praticou crime de magia! Não pode explicar a não ser por magia que esse homem estivesse aqui presente nesta hora!”

Isso é a psicologia do herege absolutamente. Diante das provas mais capazes de cegar, mais retumbantes de que estão com má fé, não desanimam. Eles encontram outra calúnia, depois outra calúnia e vão sempre para frente. Mas a coisa ficou tão desmoralizada, que acabou.

Outro episódio da vida de Santo Atanásio. Ele, como verdadeiro santo, tinha verdadeiro horror à mentira. Evidentemente, não mentia nunca, nem que fosse para coisa leve. Em determinado momento estava ele andando pelo deserto e apareceram tropas imperiais à sua procura. Alguém lhe perguntou: “Sabes onde está Atanásio?” (não o tinham reconhecido, obviamente) Responde o Santo: “Sei, sim. Ele não está longe daqui”. O pessoal foi à sua procura, enquanto ele se esquivava…

Da parte de um Doutor da Igreja, grande teólogo, herói de grande sisudez, de grande profundidade de espírito, esses traços enriquecem sua fisionomia moral, mostrando a pluralidade e a riqueza de aspectos que tem a alma de um verdadeiro santo. Sobretudo, destroçando um tanto essa ideia meio melada que certas imagens projetam sobre o fiel a respeito do santo. Não me refiro às imagens monstruosas modernas, mas a imagens chamadas sulpicianas, que apresentam o santo com uma carinha muito bem feitinha, sem barba, olhando com um sorrisinho de quem não compreendeu nadaNão é isso de nenhum modo um Doutor da Igreja! Sobretudo um Santo Atanásio, que é um dos maiores santos de toda a História, e que sozinho foi um lutador contra a heresia como talvez a Igreja não tenha tido nem antes nem depois dele.

Agora, para os senhores conhecerem os lados dramáticos de sua vida, menciono apenas um episódio, e com isso encerro.

Constantino, o Grande – que libertou a Igreja – foi enredado, em certo momento, pelas intrigas dos arianos. Aliás, a vida pós conversão de Constantino é um tanto discutida. E tomou, em certo momento, partido decidido por Ario, chamou Santo Atanásio e o expulsou para a Gália. Santo Atanásio lhe disse: “Vós me proibis de voltar para meu trono patriarcal e apoiais o herege. Vós prestareis em breve contas a Deus por isso”. E tomou o caminho do exílio.

Na Gália, foi recebido com todas as atenções e toda a cortesia por Constantino, filho de Constantino, o Grande. E ali ele esteve durante algum tempo, tendo ido depois para Roma, justificar-se perante o Papa que lhe deu toda razão. Assim são os santos: expulsos de um lugar, aproveitam para fazer maravilhas em outros; ninguém consegue tolher a capacidade de ação deles. E esse biógrafo que escreveu essa sua vida afirma que, em Roma, aproveitou e fundou o estado monástico na “Cidade eterna”.

Posteriormente, veio a notícia de que Constantino tinha morrido. E pouco depois chegou a notícia de que Ario também havia passado para a eternidade. Ario tinha sido colocado por Constantino no trono patriarcal de Constantinopla, onde era, portanto, um arcebispo usurpador, não era o patriarca legítimo. No ato de sua posse, Ario organizou a procissão com aquela solenidade que se fazia antigamente para a posse de um bispo. Quando a procissão ia correndo, ele, em determinado momento, sentiu-se mal e, estando perto de instalações sanitárias públicas, desceu do animal em que montava e entrou em ditas instalações, onde morreu do modo mais horrível que possa haver: parece que seu abdômen se rompeu e as vísceras se derramaram pelo chão…

Assim, Santo Atanásio ficou senhor de sua diocese. Mas pouco depois recomeçaram novamente as perseguições e ele levou sua vida, quase até o fim, de perseguição em perseguição.

O povo de Alexandria gostava muito dele e em geral quem o perseguia eram as cúpulas podres. Numa das ocasiões em que voltou àquela cidade e foi reempossado na arquidiocese como legítimo pastor, o povo de Alexandria lhe preparou uma grande recepção. E esta foi tão afetuosa e tão extraordinária, que se transformou em provérbio, em Alexandria e naquelas partes do Egito, a seguinte expressão quando se queria dizer que alguém era muito bem acolhido: “foi recebido como Santo Atanásio”. Ou seja, era o mais alto grau de popularidade, da acolhida respeitosa, cheia de veneração filial e, ao mesmo tempo, cheia de entusiasmo!

Aí os senhores têm um outro aspecto da vida de tantos santos perseguidos: as cúpulas podres organizam contra eles toda espécie de difamação, mas o Espírito Santo sopra onde quer e previne a opinião pública a respeito da realidade das coisas. De maneira que de um modo ou de outro acontece com frequência – não é uma regra absolutamente geral, pois não há regras absolutamente gerais nessa matéria – que o povo vê claro e que justiça a quem os poderosos estão perseguindo.

Essas são as notas mais interessantes que me parecia conveniente dar a respeito do grande Santo Atanásio.

 

(Plínio Corrêa de Oliveira, "Santo do Dia" de 20 de fevereiro de 1971, sábado)