domingo, 23 de março de 2025

Bilionários se preparam para o fim da civilização

 


A pandemia do coronavírus disparou a oferta e demanda de 'bunkers' projetados para enfrentar o apocalipse, com os endinheirados gurus do Vale do Silício como principais instigadores.

 

 

—Alô?

—Até que enfim, senhor DeMarest. Escute-me bem. O senhor precisa estar no aeródromo de Saint-Rémy em 16 minutos.

—Como? O quê? E que horas são?

—8h34. Estamos tentando entrar em contato com o senhor e sua esposa há três horas para evacuá-los.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”. Por e-mail, Vicino confirma ao EL PAÍS o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

Chamada de survivalismo, esta corrente deixou para trás os arquétipos de fanáticos religiosos ou eremitas excêntricos para se deslocar para os escritórios mais poderosos de Vale do Silício ou de Wall Street. CEOs de empresas de tecnologia e investidores decidiram se preparar ativamente para uma hecatombe do sistema, talvez alentados pelas recentes imagens de brigas em supermercados por rolos de papel higiênico antes da quarentena. O cofundador do LinkedIn, Reid Hoffman, disse à The New Yorker que estima que 50% dos bilionários de Vale do Silício já tenham um bunker ou esconderijo preparado ao redor do mundo para o caso de o apocalipse acontecer e afirmou que “comprar uma casa na Nova Zelândia é algo como ‘piscar os olhos’, não é preciso dizer mais nada”.

Vicino confirma que o público interessado na Vivos tem cada vez mais capacidade econômica e nos últimos meses avaliou a construção de um resort com apartamentos subterrâneos de luxo em Marbella. Esse complexo será composto por residências de cerca de 200 metros quadrados e terá um sistema de filtragem de ar, piscina, academia e até um cinema para assistir Mad Max ou Filhos da esperança enquanto o mundo cai em pedaços. Atualmente têm centenas de refúgios em lugares como a Alemanha ou Dakota do Sul, Estado em que construíram uma comunidade do tamanho de Manhattan. “Muitos Governos do mundo têm enormes bunkers militarizados para seus oficiais e suas elites, mas não para o resto de nós. Eles não têm nenhum plano para salvá-lo se a extinção começar. A Vivos tem!”, clama. O preço de cada unidade, sem equipar nem mobiliar, ronda os 30.000 euros (cerca de 184.000 reais), mais outros mil por ano a título de aluguel.

Imagem do episódio ‘O aeródromo’ da série ‘O colapso’. FOTO: FILMINTHE VIVOS GROUP

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

THE VIVOS GROUP

A bíblia do radicalismo libertário, que o próprio Thiel qualificou como o livro que mais o influenciou em sua carreira, chama-se O indivíduo soberano: Como sobreviver e prosperar durante o colapso do Estado de Bem-Estar. Publicada em 1997 e escrito por James Dale Davidson e William Rees-Mogg, a obra já aponta a Nova Zelândia como refúgio perfeito para observar o fim da civilização como a conhecemos. Segundo os autores, a Internet e a consolidação das criptomoedas porão fim neste milênio nos “criminosos Estados-nação” e uma “elite cognitiva” se elevará acima da “fraude democrática”. Sem Governos nem impostos, é claro. Em declarações à Vanity Fair, um amigo próximo do guru reconhece o desejo deste de “comprar seu próprio país” e afirma ter oferecido até cem bilhões de dólares para torná-lo realidade. Sam Altman, outro bilionário de Vale do Silício, confirmou que ele e Thiel “tinham preparado um plano para fugir ao país” em caso de um colapso mundial.

THE VIVOS GROUP

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.

Piscina comunitária da rede de 'bunkers' da Vivos.THE VIVOS GROUP

Segundo o site Finder, até 20% dos norte-americanos fizeram alguma forma de provisão pensando no fim do mundo. Vicino nega que a maioria de seus clientes pertença à elite. “São pessoas bem-educadas e informadas, de classe baixa, média ou alta, que têm a responsabilidade de proteger suas famílias durante estes tempos potencialmente catastróficos”, deixando claro que seu objetivo é oferecer esconderijos acessíveis a todos. O tempo de construção desses majestosos planos B pode variar de três a doze meses, dependendo da localização e do tamanho, e contam com pelo menos um ano de autonomia energética sem precisar sair à superfície. Esperemos que jamais se tornem o plano A.

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-08-03/bilionarios-se-preparam-para-o-fim-da-civilizacao.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR2xmf-ymlFZDYYzpSY6oaHcZD6S4OKBSgpgjDufEs_MDc0zlXJFS9jQUJs#Echobox=1596481466

 

 

quinta-feira, 13 de março de 2025

A SUBLIMIDADE DA PUREZA

 


“Eu me reporto às minhas recordações de meu tempo de infância, tão vivas para mim – e cada vez mais vivas à medida em que passa o tempo, porque cada vez mais elas se mostram para mim como contendo ensinamentos que eram sementes que a vida foi consolidando, e à qual foram dando força e explicação extraordinárias –, quando eu me reporto àquelas recordações do tempo de infância, eu me lembro de meu primeiro choque com a impureza, e o contraste que se estabeleceu, no meu espírito, entre a pureza e a impureza.

Há algo de sublime na pureza, que me parece exceder tudo quanto da pureza se possa dizer. A palavra «imaculado», a palavra «limpo», a palavra «puro», a palavra «alvo», que outras palavras o vocabulário humano possa ter, nenhuma dessas palavras exprime inteiramente qualquer coisa de inconfundível que existe na pureza, mas que nós sabemos que encontraremos no Céu, quando os nossos olhares se detiverem extasiados na Virgem Maria.

Por outro lado, algo de horroroso, de cavernoso, de tenebroso, algo de execrando na impureza, uma desordem fundamental, uma sordície fundamental, algo de recusável por definição, de rejeitável e de inteiramente rejeitável. E o mesmo se pode dizer do igualitarismo que combate tudo quanto é qualidade, tudo quanto é categoria, tudo quanto é classe, tudo quanto é sublime. O igualitarismo quer que todas as coisas sejam chulas, que nenhuma delas tenha distinção, nem elevação, nem beleza. O trivial, o comum, o ordinário, o deformado, o desarranjado, o cacofônico: eis o falso paraíso do igualitarismo.

E então, nesse contraste entre a pureza, com todas as suas glórias, e o asco da impureza; no confronto entre a humildade e o igualitarismo, eu sentia vibrar em minha alma todo um universo feito de qualidades, um universo que afirma o ser sobre o não ser, afirma a ordem sobre a desordem, afirma a categoria sobre o que não tem categoria e, embevecido, considera uma série de categorias que vão se quintessenciando umas às outras, subindo, galgando continuamente até ao mais alto, até um ápice que é a categoria das categorias, a perfeição das perfeições, a classe das classes, a distinção das distinções, o contrário absoluto daquilo que, se em termos filosóficos se pudesse corretamente chamar, seria o mal absoluto, e que é uma forma majestosa, grandiosa, régia, uma forma que eleva, mas ao mesmo tempo tão suave, tão amena, tão acolhedora, tão desejosa de conter tudo em seus braços, tão cheia de atração, que nem se sabe bem direito dizer o que é.

Como explicar o que há nesse universo, nessa concepção que é a luz de minha vida, desde que eu sou menino? Nessa concepção que me fez perceber aquela verdade que é a única verdade, em função da qual todas as verdades são verdades, e todas as verdades seriam erro se ela não existisse”.

 (Trecho de discurso pronunciado por ocasião do 60° aniversário de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, 13.12.1968, a sócios e cooperadores da TFP).

sábado, 1 de março de 2025

QUAL DEVE SER O VERDADEIRO ESPÍRITO CRÍTICO DO CATÓLICO

 





A palavra “crítica” surgiu entre os filósofos antigos e destinava-se a criar uma discussão contrária aos princípios enunciados por algum expositor e permitir que ele comprove sua tese contestando os argumentos contrários. A partir do passar dos anos, porém, a palavra “crítica” passou a ter sentido o mais diverso possível, muitas vezes significando apenas a censura e condenação das ideias contrárias. Criticar hoje pode ser até crime.

Como deve ser o verdadeiro espirito crítico do católico em relação ao mundo em que vive?

Reproduzimos a seguir um artigo publicado por Dr. Plínio no jornal “Catolicismo” em que o mesmo explicita melhor essa questão: 

PALMATÓRIAS DO MUNDO? OU PALMATÓRIAS DO MAL?

 Plinio Corrêa de Oliveira           

 Sr. Redator:

Há católicos que julgam de sua obrigação manter-se em uma atitude de sistemática análise e comentário em relação a tudo o que se encontra nos diversos ambientes em que eles se movem.

Esta obrigação, eles julgam dever cumpri-la não só no quarto, em momento de meditação, mas em toda ocasião, e até na rua, onde se está geralmente para passeio ou trabalho. Se passa um bonde, analisam-lhe a forma, a cor, dizem se acham que sua velocidade é excessiva ou se é inferior à normal. Se passa um jovem, examinam se está vestido com extravagância ou compostura. Se passa uma jovem, têm imediatamente a atenção chamada para a observância do 6º Mandamento, e assim por diante. Nada lhes escapa. E até seu espírito se manifesta surpreendentemente destro em relacionar tudo com a moral. O bonde serve de exemplo. Se anda com velocidade exagerada, é expressão da mania de velocidade que o Papa acaba de condenar. Se anda com excessiva lentidão, é a modorra do Brasil inteiro que veem aflorar na indolência do motorneiro. E, assim por diante, não há o que não analisem, não classifiquem e não julguem.

Esta atitude que descrevo enquanto assumida por indivíduo, também pode ser de famílias ou de associações e de jornais. De jornais... sobretudo de um jornal: o "Catolicismo". Tudo quanto ele publica parece ser direta ou indiretamente calculado para pôr o leitor nesta atitude de sobreaviso sistemático. Basta pensar na secção "Ambientes, Costumes, Civilizações", que se me afigura feita para mostrar que na simples forma de uma cabeça de alfinete se pode refletir todo um firmamento de convicções artísticas, filosóficas ou até teológicas.

Confesso que tudo isto me causa não pequena estranheza. A meu ver, a naturalidade deve ser uma qualidade fundamental de toda mente equilibrada, e a fortiori do católico. Ora, o ponto de partida de toda naturalidade, aquilo que lhe é como que um pressuposto comezinho, é uma certa desprevenção de espírito, por onde nossa atenção caminha sem preocupações policiais, por todos os campos onde naturalmente venha a pousar, detendo-se sobre as coisas simplesmente como elas se apresentam espontaneamente à vista, vendo num bonde apenas um bonde, e numa cabeça de alfinete apenas uma cabeça de alfinete. Assim, fazer incursões pelas mais altas regiões da metafísica ou da teologia para julgar da forma de um chapéu, da velocidade de um veículo e do vôo de uma mosca, parece-me estreito, bizantino, antipático e, por assim dizer, torcicoloso.

Eu não diria tudo, se ficasse só nisto. Contra esse hábito de dividir longitudinalmente em quatro um fio de cabelo, para ver se nele se esconde uma heresia, tenho outra objeção a fazer. E é que ele conduz a um proselitismo incômodo e irritante. Como o comum dos homens não se preocupa com tais problemas quando vê moscas, bondes ou cabeças de alfinetes, o resultado está em que é necessário a todo momento fazê-los reparar nos monstros que nestes objetos, ou outros congêneres, se ocultam. Daí a toda hora o desejo de alertar o próximo. E de lhe perturbar o sossego. – Cuidado com isto. E mais com aquilo. Quando estiver, por exemplo, atravessando uma rua, cuidado com as mil influências ideológicas e morais que se desprendem dos veículos e transeuntes. Assim, é preciso cortar uma rua de intenso movimento, com a preocupação de evitar não só os atropelamentos físicos mas também os espirituais. E de tanto cuidado, para premunir o espírito contra uma agressão representada pelas linhas marcianas do automóvel que vem num sentido, cai-se debaixo das rodas de um ônibus que vem em sentido oposto.

Ora, pergunto, isto é cabível? E foi para que os homens vivessem metidos num tal formigueiro de preocupações, que Deus lhes deu este belo sol rutilante, este firmamento azul, esta linda natureza clara, lógica, sólida, amiga, em que eles se movem?

Francamente, não.

Não quero entrar em discussões com o Sr. Sei que os elementos imbuídos deste estado de espírito são esgrimistas temíveis, manejando o gládio da dialética com toda a espécie de citações dos Papas e de São Tomás. Não os quero acompanhar nesta esgrima fatigante, para a qual meu espírito não tem o menor pendor. Limito-me a manter o problema nos termos simples, claros, de uma clareza despretensiosa e quase diria caseira, em que o pus. É para viver neste dédalo de preocupações miúdas, incessantes, enervantes, que Deus colocou o homem no mundo? Não o creio. E, assim, a posição do tipo "Ambientes, Costumes, Civilizações" me parece totalmente falsa. Ela transforma a vida numa luta constante, em que uns poucos infelizes ficam na obrigação de dar com a palmatória em tudo e em todos, para se manterem fiéis aos princípios.

Ora, eu pretendo manter minha fidelidade aos princípios sem ser palmatória do mundo...

Um constante leitor      

Prezado leitor:

Deus é certamente o Deus dos simples. Não porém dos simplórios. Por isto mesmo, colocou-nos Ele num universo belo, claro, lógico, amigo, admirável pela simplicidade de suas grandes linhas harmoniosas; mas ao mesmo tempo dispôs, por detrás destes aspectos tão simples e graciosos, todo um insondável sistema de leis físicas ou biológicas em cuja consideração a mente se abisma. A inteligência humana, quando ágil, lúcida e equilibrada, ora repousa agradavelmente na contemplação dos aspectos aparentes, ora imerge, seduzida e entusiasmada, na análise de todas as maravilhas que esses aspectos encobrem, e na alternação entre preocupação e repouso, na passagem do fundo para a superfície, e vice-versa, realiza o plano de Deus, Criador infinitamente sábio e bom, tanto dos aspectos aparentes quando das realidades profundas do universo. E que dispôs que de umas e de outras tirasse o homem seu proveito.

Este princípio, prezado leitor, o Sr. o admite sem dúvida quanto ao universo material... Pois, do contrário, sua argumentação seria a glorificação do atraso e da ignorância. O que diria o Sr., com efeito, se um analfabeto lhe viesse falar contra os cientistas que, olhando para um aprazível panorama, longe de se contentarem com apreciar despreocupadamente a formosura da natureza, se perdessem em ponderações sobre a composição geológica do terreno, refletissem sobre os mil mistérios da vida vegetal e animal, e por fim se detivessem na análise de todo o microfirmamento de energias, equilíbrio e beleza que cabe em um grão de areia que um deles tivesse retirado com o dedo, da ponta do sapato, e considerassem os mistérios riquíssimos da vida microbiana que na superfície do grão de areia pode existir? Com o entusiasmo que sem dúvida tem pelas ciências, o Sr. teria redarguido a esse analfabeto que esses cientistas são admiráveis, precisamente porque sabem ir além das aparências acessíveis ao olho nu e à inteligência medíocre ou indolente. Sua indignação sagrada teria feito aflorar a seus lábios, numa desordem eloquente, os exemplos de pequenas realidades que, analisadas por gênios, revelaram leis naturais estupendas e utilíssimas ao homem. Por certo, o Sr. se teria lembrado das historietas ou das legendas pitorescas de Galileu que, vendo balançar uma lamparina, daí deduziu seu sistema; e de Newton que, vendo cair uma maçã ao solo, tomou este fato comezinho como ponto de partida para o estudo da gravidade. O Sr. teria terminado dizendo que não estaríamos na era atômica se os homens tivessem julgado ridículo estudar o que existe, não no grão de areia ou na cabeça de alfinete, mas no átomo, que é tão menor...

Se o objetante lhe tivesse afirmado que havia risco para um médico, de cair sob as rodas de um automóvel, se ele atravessasse uma rua pensando nos inconvenientes dos gases tóxicos e por isto suspendendo ligeiramente a respiração para não inalar a fumaça de um ônibus, o Sr. teria cortado a discussão, retrucando que só conversa com gente séria. E isto porque o Sr. sabe perfeitamente que o próprio de um homem culto está em poder fazer equilibradamente ações comuns, vendo nelas não apenas o que qualquer um vê, senão mais do que isto, e considerando com um mesmo olhar lúcido, os aspectos superficiais e profundos das coisas. Assim, um geógrafo, para guiar bem seu automóvel numa estrada, não está proibido de ver com olhos de técnico o panorama, e um artista pode estar num trem olhando a beleza da paisagem, sem por isto se jogar pela janela do vagão.

Tudo isto é tão banal que, enfarado, o Sr. deixaria de lado seu mofino e analfabeto interlocutor, e cuidaria de outra coisa.

Mas se tudo isto é tão banal, e se tudo isto o Sr. o sabe tão bem, porque não se lembrou de transpor estas considerações para o mundo das coisas espirituais?

É bem certo que este, por ser mais nobre que o da matéria, tem uma riqueza muito maior. E que num corpo pequeno como uma cabeça de alfinete – um cristal, por exemplo – o artista pode, tanto ou mais que o cientista, encontrar campo para considerações fecundas.

É certo, ainda, que o moralista pode descobrir em tudo uma significação moral importante, e que é para ele uma excelência o ser capaz de o fazer em tudo.

Então, se o Sr. acha ridículo imaginar um médico que atravessa a rua desvairado por reflexões técnicas, pois sabe que essa caricatura não corresponde à realidade, porque se compraz em pintar com estas cores ridículas o moralista?

Na verdade, caro leitor, ser o Sr. se maravilha vendo um cientista esmiuçar as coisas da matéria, e se enerva com um pensador que esmiúça as coisas do espírito, reconheça que é porque o Sr. tem compreensão para com as primeiras, sente por elas afinidade e simpatia, enquanto é infenso às outras, que não compreende porque nelas se perde como num dédalo.

Em uma palavra, o Sr. é filho ideológico do materialismo, embora provavelmente creia na espiritualidade da alma.

Por aí se vê como é difícil a alguém resistir às mil influências sub-reptícias, não só dos erros moderados e velados, mas até do mais crasso dos erros, que é o materialismo.

E o moralista que, dotado de um fino discernimento, aponta os sintomas dessas infiltrações ideológicas impalpáveis e ativas, deve parecer ao Sr. um amigo e não um carrasco. Pelo menos se realmente o Sr. preza a sua alma e tem o propósito de a manter livre de todo mal.

E mais uma vez o paralelo entre as coisas da alma e do corpo se impõe. Um médico de apurado senso clínico, que desvendasse todos os sintomas iniciais dos males que acometem seus doentes, não poderia ser visto por estes como inimigo. Só as crianças é que veem os médicos com prevenção, porque não gostam de remédios amargos.

Não gostar do moralista porque ele faz bem à alma mas nem sempre é cômodo, não é mostrar-se infantil?

Que se procure alertar os católicos contra as mil influências nefastas a que estão expostos hoje em dia, e especialmente contra as influências mais despercebidas, mais indiretas, mais sinuosas, nada melhor.

Por certo, isto não degenerará em psicose nem em mania, senão quando se tratar de maníacos e de psicóticos tão frequentes nesta era de almas "coca-cola", de uma simplicidade simplória...

Mas um espírito equilibrado sempre saberá praticar equilibradamente a virtude, e não será a virtude que o desequilibrará.

Que virtude? No caso, especialmente a da circunspeção, isto é, a de saber, do alto, olhar, ver, discernir em torno de si. Virtude de que nos deram exemplo todos os Santos, e que a Igreja preza tão alto que por assim dizer com ela identificou a missão do Bispo: episkopos, - de epi, sobre e spokein, inspecionar – é aquele que, de cima e com vigilância, olha em torno de si.

Vivemos em uma época que, sob muitíssimos aspectos, é para o neopaganismo o que para a Religião Católica foi o século XIII. Tudo hoje está embebido de neopaganismo, ele nos entra até pelos poros. Pio XII disse que em nossos dias a simples perseverança no estado de graça exige de inúmeras pessoas uma virtude heroica.

Viver nesta época com uma desprevenção absoluta, no culto da irreflexão e da espontaneidade ( eufemismo para designar o descontrole ), é ou não é entregar-se a essa mil influências?

E alertar alguém, com amenidade, com lucidez, com afetuosa insistência, sobre a necessidade dessa habitual vigilância, é ou não é apostolado?

Palmatória do mundo? Fórmula vaga e infeliz. Palmatória do erro, palmatória do mal, para o bem do próximo, porque não?

Em resumo, caro leitor, aqui está nossa justificação. Que acontecerá no dia em que o mal não tiver palmatórias no mundo? O que já em larguíssima medida ocorre em torno de nós. Solto, triunfante, insolente, ele perseguirá pelo silêncio, pelo ostracismo, pelo escárnio, mais tarde pelo ferro e pelo fogo, todos os bons.

Para chegar a este resultado, o que o mal mais deseja é não ter palmatórias.

Quer o Sr. arcar com a responsabilidade de reduzir à inação as palmatórias do erro e do vício, para que o mundo inteiro fique sujeito à palmatória do demônio?

Outrora, quando alguém atacava o mal com vigor, denodo, insistência, chamavam-no, não de palmatória, mas de martelo, o que é muito mais forte. Mas o apelido era uma honra. Carlos Martelo foi amado em toda a Cristandade por ter sido o martelo da França sobre a cerviz dos maometanos. E Santo Antônio de Pádua, porque abatia sobre os cátaros os golpes terríveis de sua dialética, era aclamado por todos os católicos como martelo dos hereges.

Hoje as coisas mudaram, e quem maneja, já não o rude martelo de outrora, mas a inofensiva palmatória, sente levantar-se contra si um clamor até em meios católicos.

Quando numa cidade sitiada há uma corrente que geme a cada tiro que se dispara contra o sitiante, o que se pode esperar?

É bem o caso de aplicar aqui, ligeiramente modificadas, as palavras de Voltaire: Deus me livre de tais amigos, mais ainda do que de meus próprios inimigos...

O Redator                   

Ambas estas cartas foram escritas pela mesma mão.

Procuram elas condensar os vários aspectos do debate da superficialidade, da moleza e da tibieza, com o zelo, a coerência e a santa intransigência; do entreguismo do gênero "terceira força", com a vontade de lutar. Dos troianos que amam Tróia, com os que sorriem ao cavalo de madeira...

 

(Jornal “Catolicismo” Nº 92 – Agosto de 1958)

 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

ENTREVISTA DE DR. PLÍNIO SOBRE O CARNAVAL

 DR. PLÍNIO COMENTANDO SOBRE OS MALEFÍCIOS DO CARNAVAL

Transcrevemos a seguir as respostas dadas pelo Dr. Plinio Correa de Oliveira a um repórter sobre o Carnaval. 

P. Sr. Plinio, como um leigo católico vê o Carnaval, que é uma festa pagã?

R.  O Carnaval tem uma razão de ser na alma popular. Podem-se distinguir dois aspectos dessa razão de ser: de um lado é o desejo do maravilhoso que leva muitas pessoas a adotar fantasias magníficas que parecem tiradas das páginas das mil e uma noites, ou a reproduzir em todo seu fausto personagens históricos de grande envergadura. Grande parte do povo se entusiasma com tais mostras de aparato que elevam o espírito acima da vulgaridade pardacenta do cotidiano.

Esta aspiração do maravilhoso, profundamente digna de respeito ao meu ver, é de tal maneira inextirpável da alma humana que o próprio comunismo – o qual é bem exatamente o contrário do maravilhoso – se serviu da exibição do que havia de mais feérico no velho cerimonial czarista, para empolgar e atrair recentemente o público parisiense. Quando Bolshoi exibiu há pouco, em teatro da capital francesa, “Ivan, O Terrível”, um desfile do “czar” com todo esplendor de sua corte arrancou gritos de entusiasmo no público. Não era o comunismo que este aplaudia, era o esplendor da velha tradição moscovita.

Ao lado deste veio “maravilhoso”, o carnaval apresenta também um aspecto de comicidade, em que o bom humor popular procura expandir-se saindo algum tanto da monotonia da vida comum. Também isto é – dentro das devidas medidas – compreensível.

Contudo, haveria tola ingenuidade em imaginar que esses aspectos preponderam no carnaval de hoje.

A agressão sexual desfechada contra o Ocidente por certa propaganda penetrou profundamente nos folguedos carnavalescos, dando-lhes uma nota de sensualidade pagã a qual como católico não posso deixar de verberar energicamente.


P. O carnaval é uma festa orgíaca?

R. O carnaval como ele se passa hoje tem pouco ou nada a ver com o de há 30 anos atrás.

Em outros termos, havia outrora ao par de um carnaval depravado, um carnaval familiar que se desenrolava em um ambiente de recato e compostura, muito difícil de encontrar hoje. O mais das vezes o carnaval de hoje, desenfreando a sensualidade, cria uma atmosfera destrutiva da instituição da família e contrária a verdadeira tradição brasileira.


P. O carnaval brasileiro não é uma festa tradicional? Por que então a TFP não defende a sua realização?

R. O carnaval se exprime pelo gosto e pelo esplendor de muitas fantasias nos desfiles de rua. Infelizmente, entretanto o aspecto orgíaco se vai tornando sempre mais marcante tanto no carnaval dito de salão como no de rua.


P. O pessoal da TFP está proibido de pular o carnaval?

R. Os estatutos não me conferem, nem seria cabível, que conferissem poderes para uma proibição desse gênero. Entretanto seria uma incoerência com os princípios da sociedade que eles se associassem a festejos geralmente tão opostos aos objetivos da TFP.


P. Acha que eles observam esta coerência?

R. Trata-se de rapazes admiráveis precisamente por sua coerência. Desinteressadamente e com risco de vida afrontam eles cansaço, sol, chuva e bombas em nossas campanhas. Não tenho, portanto, o direito de imaginar que eles procedam sem coerência em relação ao carnaval ou qualquer outra circunstância.

A TFP é uma sociedade cívica que tem por fim valorizar três pilares da ordem natural e da civilização cristã no Brasil: Tradição, Família e Propriedade. A sociedade entende esses valores de ordem natural segundo nossa tradição cristã sempre as entendeu. Os seus membros se empenham em levar a todas as suas consequências a fidelidade a esses valores.

Assim estão persuadidos de prestar uma contribuição valiosa para a grandeza e o progresso do Brasil, pois, coerentes com o ensinamento de Pio XII, consideram o progresso como o desabrochar normal da tradição, e não a negação violenta e completa desta última. Qualquer aspecto da TFP facilmente pode ser explicado por quem procure situar-se na perspectiva de uma plena coerência com a tradição, família e propriedade.


P. O que o Senhor faz nos quatro dias de carnaval?

R. Durante o carnaval fico pondo em dia serviços atrasados e, se sobra algum tempo, eu rezo ou descanso. Nunca pulei o carnaval; assistia quando era moço nos salões junto com a família ou na rua.


 

("Folha de São Paulo", 8 de fevereiro de 1970)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A DEVOÇÃO AOS SANTOS ANJOS VEM DESDE O ANTIGO TESTAMENTO


 



A devoção aos Santos Anjos

O Papa Clemente X, aprovando a devoção aos Santos Anjos, instituiu o dia 02 de outubro como o da festa dos Santos Anjos da Guarda. Durante muito tempo só havia a festa dos Arcanjos, que é no dia 29 de setembro. A devoção aos Santos Anjos da Guarda começou a se propagar, principalmente, a partir de 1411 quando a cidade de Valência, na Espanha, criou um ofício próprio em honra do Anjo da Guarda da cidade. Outras cidades foram imitando o exemplo de Valência. Portugal tinha desde 1513 uma festa em honra dos Anjos da Guarda, fixada em 1o. de março. Na França, o dia 8 de maio já era consagrado a São Miguel há séculos, dia em que o Arcanjo apareceu no Monte Gargano. Os outros arcanjos chegaram a ter suas festas: 24 de março, São Gabriel; e 24 de outubro, São Rafael.

O beato Francisco d’Estaing, bispo de Rodez, na França, mandou redigir ao franciscano João Colombi um novo ofício, que foi aprovado por Leão X em 1518. Mas somente em 1590 Sisto V concedeu à nação portuguesa um ofício especial para a festa dos Anjos Custódios.

Em setembro de 1608, o Papa Paulo V, a pedido de Fernando II da Áustria, instituiu a festa solene dos Anjos da Guarda, fixando-a no primeiro dia útil depois da festa dos Arcanjos (29 de setembro). Clemente IX, em 1667, colocou-a no primeiro domingo de setembro e acrescentou-lhe a oitava. Finalmente, em 1670, o Papa Clemente X fixou definitivamente a festa para o dia 2 de outubro com rito duplo. Em 1883, Leão XIII elevou-a a rito duplo maior.

Na realidade, a devoção aos Santos Anjos remonta ao Antigo Testamento, época em que os Santos Seres Espirituais apareciam constantemente para falar aos homens em nome de Deus ou para intervir quando se fazia necessário a defesa da honra e glória divinas. Moisés recebeu expressamente de Deus ordens para colocar estátuas de querubins no Propiciatório, que era a tampa da Arca da Aliança: “Farás também dois querubins de ouro batido nas duas extremidades do oráculo. Um querubim esteja dum lado, o outro do outro. Cubram ambos os lados do propiciatório, estendendo as asas e cobrindo o oráculo, e estejam olhando um para o outro com os rostos voltados para o propiciatório, com o qual deve estar coberta a arca” (Ex 25, 19-20). Da forma como Deus o ordenou, Moisés o fez (Ex 37, 7-9). Como Moisés sabia sob que forma deveria representar os Anjos? Certamente, por causas de suas visões onde os mesmos teriam lhe aparecido da forma como desejavam ser vistos na Arca.

Quando Salomão mandou construir o Templo, ordenou que se fizessem figuras de querubins: “Entre as coroas e festões havia leões, bois, querubins, e também nas junturas da parte de cima; debaixo dos leões e dos bois, pendiam como que umas grinaldas de cobre. (III Reis 7, 29). “Lavrou também nas superfícies, que eram de bronze, e nos cantos, querubins, leões, palmas, apresentando como que a figura de homem em pé, e com tal arte que não pareciam gravados, mas sobrepostos ao redor. Deste modo fez dez bases do mesmo molde, da mesma medida, e de escultura semelhante” (III Reis 7, 36-37).

O Templo continha um lugar chamado “a casa do Santo dos Santos”, onde estava a Arca da Aliança, e somente penetrava nela o Sumo Pontífice, enquanto no Santuário podiam entrar todos os sacerdotes. Neste local, Salomão mandou colocar também seus querubins:

Fez também na casa do Santo dos Santos duas estátuas de querubins e cobriu-as de ouro. As asas dos querubins tinham vinte côvados de extensão, de sorte que uma asa tinha cinco côvados e tocava na parede do templo, a outra asa, que tinha também cinco côvados, tocava a asa do primeiro querubim. Da mesma sorte, uma asa do segundo querubim tinha cinco côvados e tocava na parede, e a outra asa deste era de cinco côvados e tocava a asa do primeiro querubim. De maneira que as asas destes dois querubins estavam abertas e tinham vinte côvados de extensão. Eles estavam postos em pé e os seus rostos virados para o templo exterior” (Crônicas 3, 10-13).

Se atentarmos para o fato de que um côvado media entre 45 a 56 centímetros, somente as quatro asas desses dois querubins mediriam somadas mais de 10 metros de largura. Sabendo-se que referidas estátuas eram revestidas de ouro, quanto esplendor não refletiam dentro do Templo!. De outro lado, as estátuas dos querubins foram colocadas de tal forma que ficavam como que protegendo a Arca da Aliança:

Os sacerdotes puseram a arca da aliança do Senhor no seu lugar, isto é, no oráculo do templo, no Santo dos Santos, debaixo das asas dos querubins, de modo que os querubins estendiam as suas asas sobre o lugar em que a arca estava posta e cobriam a mesma arca e seus varais”. (Crônicas 5, 7-8).