sábado, 31 de janeiro de 2026

OS FALSOS DEVOTOS E AS FALSAS DEVOÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM

 


Os devotos críticos

“Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narradas por autores dignos de fé...” (tóp. 93 do Tratado da Verdadeira Devoção á Santíssima Virgem).

É uma atitude que encontramos com frequência. Os livros de piedade contam milagres de Nossa Senhora. Santo Afonso nas “Glórias de Maria”, por exemplo. Há quem observe que as demonstrações teológicas de Santo Afonso são aceitáveis; naqueles milagres pode-se piedosamente crer, mas se pode também duvidar.

E verdade que, em princípio, se os pode negar sem pecado;  mas não é tão indiferente crer neles ou não. Aqueles casos são francamente verossímeis; não podem ser negados sem uma razão positiva de dúvida. Não há pois razão para duvidar, com satisfação, estuante de alegria, dos milagres relatados por Santo Afonso.

Em Aparecida do Norte se dá o mesmo. Há um sem número de milagres – ou que ocorrem como sendo milagres – feitos por Nossa Senhora. Ao se propor certa vez a instalação de um bureau de constatação médica para autenticar aquelas curas, alguém disse sorrindo: “O senhor preza realmente Nossa Senhora Aparecida? Se se colocar esse bureau de constatação médica aqui, cessará a auréola de Aparecida. Tudo não é senão crendice do povo!”

Se Nossa Senhora é capaz de praticar milagres, não é possível que haja vários cujo caráter miraculoso se possa demonstrar no meio das pretendidas curas? Se Ela é Rainha do Céu e da Terra e Mãe de Deus, é perfeitamente possível. Não é então da glória d’Ela que sejam analisados? É bem evidente que sim.

Outra manifestação de devoção crítica é um certo respeito humano ao culto das imagens de Nossa Senhora. Vai-se às igrejas, reza-se diante do Santíssimo Sacramento, mas, parar a fim de fazê-lo diante de uma imagem de Nossa Senhora, isto não. Veem esta manifestação de piedade como uma devoção subsidiária. O homem simples, do povo, que tem a “fé do carvoeiro”, este se ajoelha para rezar, mas o homem culto contenta-se com a presença real, que é, para ele, a única coisa verdadeira. Imagens são para ele muletas da fé, para os que não têm espírito de religião desenvolvido. É um estado de alma que faz parte do criticismo religioso, que diminui o âmbito da devoção à Nossa Senhora.

 

Os devotos escrupulosos

“Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desagradar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-Lo se A exaltarem demais. Não podem suportar que se  repitam à Santissima Virgem aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicas, e como se os que rezassem à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio d’Ela. Não querem que se fale frequentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a Ela”  (tóp. 94).

Encontramos em nossos dias uma forma curiosa de devotos escrupulosos.  Muito poucas são as pessoas que, nos meios católicos, sustentam esta falsa tese nos termos que São Luís Grignion a apresenta. No entanto, a devoção a Nossa Senhora, em nossos dias, muito raramente é tão grande como a teologia recomenda. Entre os próprios católicos, e mesmo entre os mais fervorosos, não se tem para com Ela a devoção que seria de se desejar. A causa é a falsa idéia de que o culto a Deus sofre certa restrição com o  culto a Santíssima Virgem. “Não convém – dizem eles – levar tão longe o culto a Nossa Senhora”.

Devotos exteriores

São Luís Grignion chama devotos exteriores aos que se contentam com uma devoção meramente exterior a Nossa Senhora.

“...que recitarão às pressas uma enfiada de terços...” (tóp. 96).

Não raro vemos pessoas assim rezando o rosário em uma velocidade assustadora.

“...e ouvirão sem atenção uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar a vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção...” (tóp. 96).

Conhecemos muitas pessoas assim. Frequentemente são senhoras, mães de família. Sabem que o marido é ateu, que o filho não pratica a religião, que a filha poderá acabar vivendo com um divorciado; para elas nada tem grande importância. Vão às procissões, cantam, seguram um lírio de pano, fazem umas promessas a Nossa Senhora, compram-lhe objetos para Seu altar, e pouco se incomodam com a salvação do restante da família. São almas para quem a devoção a Nossa Senhora consiste tão somente em práticas exteriores. Não compreendem que estas devoções só têm valor na medida em que se correspondem às disposições internas, de nada adiantando se foram somente externas. 

Os devotos presunçosos

“Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc...” (tóp. 97).

Sempre me lembro destas palavras quando entro em certas igrejas e vejo vitrais de Nossa Senhora com a inscrição “ofertas de fulano”. Ora, quantas vezes sabemos quem é o Sr. Fulano, qual a sua vida, que contraste há entre este pio donativo e a realidade que ali se oculta.  Este homem, não raro já está certo de ter ganho o céu por ter doado um vitral para Nossa Senhora. Quanta temeridade e presunção aí não se esconde! E quão grande é o número dos presunçosos!

Devotos inconstantes

Os devotos inconstantes (tóp. 101) são bem mais raros. Entre os caboclos se os encontra. Rezam à Santíssima Virgem e, uma vez obtida a graça desejada, cessam de vez a devoção. Outros vão além: não obtido o favor zangam-se, susceptibilizam-se e até blasfemam.

Certa ouvi uma pessoa pedir a alguém de sua família que, para que tivesse menos azar, não mais rezasse por ela. É o devoto inconstante: blasfemou por não conseguir o desejado. Sucedeu-lhe uma desgraça maior, e voltou a pedir orações: “reze mais, pois está grave a situação!”

Os devotos hipócritas

“Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem Fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são” (tóp. 102).

Os devotos hipócritas também não são raros. Têm esta devoção para que outros tenham a impressão de que são mesmo devotos. (Tóps. 103 a 110).

Devotos interesseiros

São Luís Grignion chama de devoto interesseiro (tóp. 103) aquele que pede a Nossa Senhora graças sobretudo de caráter temporal, ou que somente reza à Santíssima Virgem não por amor, mas, para conseguir favores, somente desejando vantagens pessoais.

Dá-nos uma impressão constrangedora ver, nos lugares de peregrinação de Nossa Senhora, velas e ex-votos de pessoas que apenas pediram, com um furor insistente, graças temporais, o mais das vezes curas de doenças. Graças espirituais, raríssimas vezes são pedidas. A pureza, a fé, o desapego, quem os pede? Não; apenas a cura de uma ferida, de uma moléstia incurável. E depois coloca-se o ex-voto.

A apetência pelos bens espirituais é insignificante. O amor desinteressado a Nossa Senhora, quase nenhum.

Como vemos, encontraremos em São Luís Grignion uma análise aguda dos defeitos da piedade de seu tempo, e um desejo de corrigi-los inteligentemente. Não se trata de uma devoção inculcada apenas por rotina, às cegas, mas por alguém que conhecia profundamente o ambiente no qual agia. E sua ação tinha sempre, por isso, um cunho eminentemente contra-revolucionário.

A seguir, São Luís Grignion passa a dar as verdadeiras características da devoção a Nossa Senhora: é interior, terna, santa, constante e desinteressada (tóps. 105 a 110). São predicados muito conhecidos por nossos leitores que não requerem comentários.

(Extraído de apostila divulgada pelo próprio Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em 1967, constando conferências do mesmo feitas a seu iniciante grupo de seguidores em 1951 comentando o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort).

 

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