Os
devotos críticos
“Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos,
espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima
Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples
tributa de boa fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não
agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias
narradas por autores dignos de fé...” (tóp. 93 do Tratado da Verdadeira Devoção
á Santíssima Virgem).
É uma atitude que
encontramos com frequência. Os livros de piedade contam milagres de Nossa
Senhora. Santo Afonso nas “Glórias de Maria”, por exemplo. Há quem observe que
as demonstrações teológicas de Santo Afonso são aceitáveis; naqueles milagres
pode-se piedosamente crer, mas se pode também duvidar.
E verdade que, em
princípio, se os pode negar sem pecado;
mas não é tão indiferente crer neles ou não. Aqueles casos são
francamente verossímeis; não podem ser negados sem uma razão positiva de
dúvida. Não há pois razão para duvidar, com satisfação, estuante de alegria,
dos milagres relatados por Santo Afonso.
Em Aparecida do Norte
se dá o mesmo. Há um sem número de milagres – ou que ocorrem como sendo
milagres – feitos por Nossa Senhora. Ao se propor certa vez a instalação de um
bureau de constatação médica para autenticar aquelas curas, alguém disse
sorrindo: “O senhor preza realmente Nossa Senhora Aparecida? Se se colocar esse
bureau de constatação médica aqui, cessará a auréola de Aparecida. Tudo não é
senão crendice do povo!”
Se Nossa Senhora é
capaz de praticar milagres, não é possível que haja vários cujo caráter
miraculoso se possa demonstrar no meio das pretendidas curas? Se Ela é Rainha
do Céu e da Terra e Mãe de Deus, é perfeitamente possível. Não é então da
glória d’Ela que sejam analisados? É bem evidente que sim.
Outra manifestação de
devoção crítica é um certo respeito humano ao culto das imagens de Nossa
Senhora. Vai-se às igrejas, reza-se diante do Santíssimo Sacramento, mas, parar
a fim de fazê-lo diante de uma imagem de Nossa Senhora, isto não. Veem esta
manifestação de piedade como uma devoção subsidiária. O homem simples, do povo,
que tem a “fé do carvoeiro”, este se ajoelha para rezar, mas o homem culto contenta-se
com a presença real, que é, para ele, a única coisa verdadeira. Imagens são
para ele muletas da fé, para os que não têm espírito de religião desenvolvido.
É um estado de alma que faz parte do criticismo religioso, que diminui o âmbito
da devoção à Nossa Senhora.
Os
devotos escrupulosos
“Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desagradar
o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-Lo se A exaltarem demais. Não podem suportar
que se repitam à Santissima Virgem
aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem
desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar
do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicas, e como se os que rezassem
à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio d’Ela. Não querem que
se fale frequentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a
Ela” (tóp. 94).
Encontramos em nossos dias uma forma curiosa de devotos escrupulosos. Muito poucas são as pessoas que, nos meios católicos, sustentam esta falsa tese nos termos que São Luís Grignion a apresenta. No entanto, a devoção a Nossa Senhora, em nossos dias, muito raramente é tão grande como a teologia recomenda. Entre os próprios católicos, e mesmo entre os mais fervorosos, não se tem para com Ela a devoção que seria de se desejar. A causa é a falsa idéia de que o culto a Deus sofre certa restrição com o culto a Santíssima Virgem. “Não convém – dizem eles – levar tão longe o culto a Nossa Senhora”.
Devotos
exteriores
São Luís Grignion chama
devotos exteriores aos que se contentam com uma devoção meramente exterior a
Nossa Senhora.
“...que recitarão às pressas uma enfiada de terços...”
(tóp. 96).
Não raro vemos pessoas
assim rezando o rosário em uma velocidade assustadora.
“...e ouvirão sem atenção uma infinidade de missas,
acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem
emendar a vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem
Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção...” (tóp. 96).
Conhecemos muitas pessoas assim. Frequentemente são senhoras, mães de família. Sabem que o marido é ateu, que o filho não pratica a religião, que a filha poderá acabar vivendo com um divorciado; para elas nada tem grande importância. Vão às procissões, cantam, seguram um lírio de pano, fazem umas promessas a Nossa Senhora, compram-lhe objetos para Seu altar, e pouco se incomodam com a salvação do restante da família. São almas para quem a devoção a Nossa Senhora consiste tão somente em práticas exteriores. Não compreendem que estas devoções só têm valor na medida em que se correspondem às disposições internas, de nada adiantando se foram somente externas.
Os
devotos presunçosos
“Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas
paixões, ou amantes do mundo que, sob o belo nome de cristãos e devotos da
Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou
embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça,
etc...” (tóp. 97).
Sempre me lembro destas palavras quando entro em certas igrejas e vejo vitrais de Nossa Senhora com a inscrição “ofertas de fulano”. Ora, quantas vezes sabemos quem é o Sr. Fulano, qual a sua vida, que contraste há entre este pio donativo e a realidade que ali se oculta. Este homem, não raro já está certo de ter ganho o céu por ter doado um vitral para Nossa Senhora. Quanta temeridade e presunção aí não se esconde! E quão grande é o número dos presunçosos!
Devotos
inconstantes
Os devotos inconstantes
(tóp. 101) são bem mais raros. Entre os caboclos se os encontra. Rezam à
Santíssima Virgem e, uma vez obtida a graça desejada, cessam de vez a devoção.
Outros vão além: não obtido o favor zangam-se, susceptibilizam-se e até
blasfemam.
Certa ouvi uma pessoa pedir a alguém de sua família que, para que tivesse menos azar, não mais rezasse por ela. É o devoto inconstante: blasfemou por não conseguir o desejado. Sucedeu-lhe uma desgraça maior, e voltou a pedir orações: “reze mais, pois está grave a situação!”
Os
devotos hipócritas
“Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos
hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem
Fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são” (tóp. 102).
Os devotos hipócritas
também não são raros. Têm esta devoção para que outros tenham a impressão de
que são mesmo devotos. (Tóps.
Devotos
interesseiros
São Luís Grignion chama
de devoto interesseiro (tóp. 103) aquele que pede a Nossa Senhora graças
sobretudo de caráter temporal, ou que somente reza à Santíssima Virgem não por
amor, mas, para conseguir favores, somente desejando vantagens pessoais.
Dá-nos uma impressão
constrangedora ver, nos lugares de peregrinação de Nossa Senhora, velas e
ex-votos de pessoas que apenas pediram, com um furor insistente, graças
temporais, o mais das vezes curas de doenças. Graças espirituais, raríssimas
vezes são pedidas. A pureza, a fé, o desapego, quem os pede? Não; apenas a cura
de uma ferida, de uma moléstia incurável. E depois coloca-se o ex-voto.
A apetência pelos bens
espirituais é insignificante. O amor desinteressado a Nossa Senhora, quase
nenhum.
Como vemos,
encontraremos em São Luís Grignion uma análise aguda dos defeitos da piedade de
seu tempo, e um desejo de corrigi-los inteligentemente. Não se trata de uma
devoção inculcada apenas por rotina, às cegas, mas por alguém que conhecia
profundamente o ambiente no qual agia. E sua ação tinha sempre, por isso, um
cunho eminentemente contra-revolucionário.
A seguir, São Luís
Grignion passa a dar as verdadeiras características da devoção a Nossa Senhora:
é interior, terna, santa, constante e desinteressada (tóps.
(Extraído de apostila
divulgada pelo próprio Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em 1967, constando
conferências do mesmo feitas a seu iniciante grupo de seguidores em 1951 comentando
o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion
de Montfort).

Nenhum comentário:
Postar um comentário