sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MARIA, A OBRA-PRIMA POR EXCELÊNCIA DO ALTÍSSIMO

 


No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez uma série de conferências a seus filhos espirituais sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, de autoria de São Luís Grignion de Montfort. Posteriormente, em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado em forma de circulares internas do seu Grupo (na época chamado de “Grupo do Catolicismo”) e reunidos numa apostila mimeografada. Extraímos destes textos os comentários a seguir sobre as excelências das qualidades de Nossa Senhora.[1]

 Excelências das faculdades da alma de Nossa Senhora

 Tóp. 5 – “Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo”.

 Ao olharmos uma noite de céu estrelado, em lugar de considerarmos apenas as grandezas de Deus – pensamento aliás muito louvável – sabemos contemplar também Maria Santíssima, incomparavelmente maior e mais formosa do que cada um dos astros que estão no céu e de todos eles no seu conjunto? Porque, sendo Ela a obra prima da Criação, toda a beleza, toda a grandeza, toda a excelência que Deus pôs no firmamento é pequena em relação à que o Criador pôs n’Ela, este céu não é senão uma imagem, uma figura da grandeza de Nossa Senhora. Apesar de ser mera criatura, tudo quanto n’Ela há excede muito em perfeição todas essas belezas criadas, e isto de um modo inexprimível.

A sua inteligência incomparável.  Quando nos deparamos com um homem muito inteligente, costumamos ter o salutar pensamento de que ele, comparado a Nossa Senhora, é mais ignorante que o mais primário analfabeto comparado ao maior dos sábios? São Tomás de Aquino, comparado a Ela, era um ignorante, tal a plenitude e a perfeição de Seu conhecimento. Sua inteligência não tem somente toda a perfeição de uma inteligência humana à qual nada há que acrescentar, mas possui ainda o conhecimento de todas as coisas que à mais alta das criaturas é dado conhecer. Quando rezamos a Ela, temos sempre presente esta excelência que lhe é própria, a de ter uma inteligência incomparável?  Aquilo que no mundo pode haver de mais inteligente, comparado à Nossa Senhora, é zero, é cisco, é nada. Toda a inteligência possível a uma criatura tão excelsa, alargada pela plenitude das graças do Espírito Santo, Ela a tem. É algo, portanto, excelente e sumamente inconcebível. Assim como há dados misteriosos da natureza que escapa totalmente a nosso conhecimento – não sabemos, por exemplo, quantos grãos de areia existem em todas as praias da Terra – assim também não temos termo algum de comparação para compreendermos a riqueza da inteligência de Nossa Senhora. É algo que está fora do nosso alcance, imaginar não nos é possível.  Pois bem, esta é uma verdade que deve estar sempre muito presente no cabedal dos conhecimentos que d’Ela possuímos.

A sua Vontade Heroica.  Passemos às perfeições de Nossa Senhora no que se refere à Sua vontade.

Tomemos alguns fatos de heroica e sobrenatural força de vontade. São Lourenço, por exemplo, que colocado sobre uma grelha, suporta heroicamente o fogo até que, ao cabo de algum tempo, exclama: “Podem virar do outro lado, pois deste já estou assado”, outro santo houve que, amarrado a uma mesa, foi tentado de todas as formas por uma mulher; e não tendo mais como resistir à tentação, mordeu a própria língua, cuspindo-a fora a fim de evitar o consentimento[2], são fatos que demonstram um verdadeiro e admirável heroísmo. Mas nada são, no entanto, comparados ao heroísmo de Nossa Senhora, que lhes supera sem qualquer proporção. Não passam de um grão de areia comparado ao globo terrestre.

Sim, o sofrimento que Ela teve consentindo na Paixão de Nosso Senhor, desejando até o último instante sua consumação plena, como Ela o desejou, e tudo sofrendo com Ele, é algo que não pode ser comparado a nada de humano, nem sequer ser expresso em linguagem desta terra. Perto de sua com-Paixão os exemplos dados tornam-se insignificantes.

Ela não é uma grande santa apenas por ser Mãe de Deus. É bem verdade que este é o título essencial de Sua Santidade, a razão pela qual recebeu todas as graças.  Mas é preciso notar ainda que Ela correspondeu à graça e se tornou uma grande santa pela perfeição insondável de sua correspondência, perto da qual toda a generosidade de todos os santos nada é. Santo Anselmo no-lo exprime lapidarmente: “Aquilo que todos os Santos podem conVosco, Vós o podeis só, e sem nenhum deles. Se Vós guardais o silêncio,  ninguém rogará por mim, ninguém me ajudará, mas falai, e todos rogarão por mim, todos se apressarão a me socorrer”[3]. Isto porque Ela é a Mãe de Deus, Medianeira de todas as graças, e Sua virtude transcende numa proporção inconcebível à de todos os demais santos. Destas afirmações nem uma vírgula se poderá tirar. E é preciso reconhecermos que não temos disto uma noção digna; ficamos, em geral, em figuras de retórica – “Tu, a mais Bela”, “a mais Formosa” – que, embora verdadeiras, é mister sejam aprofundadas.

A sua sensibilidade harmoniosa.  Falamos da inteligência e da vontade de Nossa Senhora. Falemos de Sua sensibilidade.

Nada há de mais desregrado no homem do que a sensibilidade: efeito do pecado original. Sentimos, por exemplo, inclinações para muitas coisas que moralmente não poderíamos querer. Consequentemente, precisamos manter uma luta acesa entre a tendência que temos para o bem e nossa inclinação para o mal.

Em Nossa Senhora, concebida sem pecado original, não havia esses desequilíbrios. Sua sensibilidade, de uma delicadeza e de uma força perfeitas em todas as suas vibrações e em todos os seus movimentos, era inteiramente ajustada a tudo quanto a razão e a vontade podiam desejar. Era um ser todo de harmonia, no qual não havia nenhuma das incontáveis misérias provocadas em nós pelo pecado original. Ela foi imaculada desde o primeiro instante de Seu ser.

 As perfeições de Maria Santíssima ultrapassam a capacidade humana de conhecimento

 Retornemos ao tóp. 5:

 

“Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio Ele reservou para Si”.

Que belíssima noção! Maria Santíssima é tão grande que São Luís Grignion, que não é senão um seu pequeno menestrel, já é, ele mesmo, quase inesgotável quando fala d’Ela. Ele afirma ser Nossa Senhora tão enorme, tão colossal – e o que são estes adjetivos, que de longe Ela transcende? – que só Deus A conhece em toda a extensão das Suas perfeições. Nós não podemos sequer disto ter uma pálida idéia. Há n’Ela belezas, há culminâncias, há encantos, há perfeições, há excelências que escapam e sempre escaparão completamente ao nosso olhar, e que são somente por Deus contempladas. Imaginemos estes universos, estas constelações imensas de estrelas que o homem não conhece e possivelmente jamais conhecerá e cujas belezas ficam reservadas à exclusiva contemplação de Deus: assim é Maria Santíssima. Há n’Ela coisas que nunca homem conhecerá, reservadas que são ao conhecimento exclusivo de Deus Nosso Senhor. N’Ela há esta nota de incognoscibilidade: paramos extasiados a Seus pés, compreendendo, após ter compreendido muito, que o mais que se compreendeu, é que quase nada compreendemos. Estamos sempre no Seu pórtico, um pórtico para nós demasiadamente grande, tal a Sua excelência.

 Continuemos o tóp. 5:

 

“Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-La e ocultá-La durante a vida para Lhe favorecer a humildade, tratando-A de mulher – “mulier” (Jo 2,4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em Seu coração A estimasse e amasse mais que a todos os anjos e homens”.

 

São Luís Grignion desenvolveu neste parágrafo a ideia de que, durante a vida, também Nosso Senhor A manteve ignorada; apenas Ele a conhecia.

 “Maria é a fonte selada (Cânt 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele pode penetrar”.

 

É o retorno à ideia de Nossa Senhora como criatura reservada ao conhecimento de Deus.

 “Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins”.

 Sabemos que os anjos da guarda ocupam os graus inferiores na hierarquia celeste. E, tendo certa vez aparecido a uma santa o seu anjo da guarda, ela ajoelhou-se, pensando estar na presença do Altíssimo! A grandeza dos anjos é tal que, no Antigo Testamento, em várias aparições, os homens julgavam que fossem o próprio Deus. E no céu há miríades de anjos! Em que assombro ficaríamos se os víssemos a todos e ao mesmo tempo!

Nossa Senhora, contudo, está acima de todos eles reunidos. Assim, diante de Sua insondável alma, nós nos deparamos novamente com termos imperfeitos de comparação que o melhor que podemos dizer é que são totalmente insuficientes.

“...e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio”.

 Existe, pois, uma categoria de criaturas privilegiadas que podem penetrar no conhecimento de Nossa Senhora.  Estas criaturas privilegiadas, São Luís Grignion no-lo explica, são aquelas a quem Deus dá, por liberalidade, o dom que o comum das pessoas não têm, de conhecerem e praticarem a devoção à Nossa Senhora de modo especial por ele ensinado. E os “apóstolos dos últimos tempos”, de que ele nos fala, terão este dom; por isso, serão terríveis no combate ao mal e eficacíssimos na defesa do bem. Serão almas elevadíssimas, que terão a graça de penetrar neste umbral da devoção à Nossa Senhora.

 

Outras qualidades de Maria Santíssima

 

Tóp. 6 – “Digo com os Santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão”[4].

 O paraíso terrestre era de encantos, de delícias, de perfeições. São Luís Grignion diz que Nosso Senhor estava no ventre puríssimo de Maria Santíssima com a excelência e a perfeição com que Adão estava no paraíso. Nossa Senhora, durante a concepção, era o paraíso do novo Adão, Jesus Cristo.

Quando, na comunhão, recebemos este mesmo Jesus Cristo, acostumado que está a tais paraísos, perguntamo-nos o que Ele achará da nossa hospitalidade? Oferecemos-Lhe ao menos, a Ele que condescende em descer à nossa choupana, modestíssimo luxo de uma casa limpa?

 “...no qual Este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis...”

 Nosso Senhor, durante a Sua vida em Maria Santíssima – e esta é uma belíssima idéia que São Luís Grignion desenvolverá mais tarde – quando Ela era o tabernáculo no qual Ele habitava, já aí operou maravilhas. São Luís Grignion compôs inclusive uma oração dirigida a Nosso Senhor enquanto vivendo em Maria Santíssima: “O Iesu, vivens in Maria...”

 “...É o grande, o divino mundo de Deus[5], onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus[6], em que Ele escondeu, como em Seu seio, Seu Filho único, e n’Ele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! Que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo Ela mesma, como obrigada, apesar de Sua humildade profunda: “Fecit mihi magna qui potens est” (Lc 1, 49).

 O sentido inteiro deste canto do “Magnificat” só o compreenderemos se considerarmos quem é Nossa Senhora. Realmente, é preciso lembrar-nos do poder de Deus, para compreender que Ele possa ter operado essas maravilhas que n’Ela operou.

 

“...O mundo desconhece estas coisas porque é inapto e indigno”.

 

São Luís Grignion referiu-se a uma raça (no sentido teológico e não biológico) misteriosa a quem Deus concede o favor único de poder penetrar nos umbrais desta devoção. Ele nos fala agora de uma raça má, e que, por sua maldade, por sua impureza, por sua indignidade, detesta tudo isto. É o reverso da medalha.

 Devoção à Nossa Senhora: característica da santidade

 

Tóp. 7 – “Os Santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes – eles o confessam – que ao tomá-La como tema de suas palavras e de seus escritos”.

 

Este trecho evidencia-nos uma verdade muito importante. Não se deve pensar que a devoção à Nossa Senhora é um estilo de santidade inaugurado por São Luís Grignion ou levado por ele ao último grau de intensidade. A devoção especialíssima e intensíssima  à Nossa Senhora é característica de todos os santos. E, embora não se possa dizer que todos a tenham levado ao ponto a que levou São Luis Grignion, estudando a vida de piedade de qualquer deles notamos sempre uma devoção ardentíssima a Ela, que é a dominante logo abaixo do culto a Deus Nosso Senhor.

Essa devoção, contudo, se reveste em cada um de aspectos particulares. É raro, neste sentido, encontrar algum santo que não tenha encontrado um aspecto novo de piedade em relação à Nossa Senhora. E não há um só que não conheça dever à intercessão d’Ela, não só o seu progresso espiritual, mas até mesmo a sua perseverança. Todos passaram por duras provas espirituais, das quais se viram livres por uma intervenção especial d’Ela.

São Francisco de Sales, por exemplo, teve, em sua juventude, uma terrível crise, relativa ao problema de sua predestinação; estudando o assunto ficou como que tragado pelo abismo do problema e foi duramente assediado pelo demônio, que lhe insuflava que a predestinação não era para ele. Isto lhe causou uma tremenda depressão. Começou a emagrecer, a perder a saúde, nada havia que lhe restituísse a paz à alma. Certo dia, rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora, pedia-Lhe que, ainda que tivesse que ir para o inferno, mesmo assim, lhe fosse dado não ofender a Deus na terra – pois o que o apavorava do inferno não era o tormento, mas a ideia de ofender eternamente a Deus – e recitava “Memorare o Piissima Virgo Maria...” que estava escrito embaixo da imagem. E – ele mesmo no-lo conta – logo após o término da oração, restabeleceu-se em sua alma uma paz admirável; viu então, claramente, todo o jogo do demônio de que estava sendo vítima, e recuperou aquela serenidade que viria a ser a nota dominante de toda a sua vida espiritual.

Encontramos, assim, na vida de todos os santos, esta constante de uma particular devoção à Nossa Senhora. Ela é, pois, uma característica segura da verdadeira piedade, e devemos absolutamente duvidar da santidade de alguém que não a possua.

Seria sofisma dizer: algo que é especial para todos não o será, por isso, para ninguém. Uma mãe que tenha muitos filhos, tem, para com cada um carinho especial; e cada filho ama a própria mãe de um modo particular. Assim, devemos, cada qual, amar à Nossa Senhora de maneira inteiramente própria, especial e inconfundível. Ela, por sua vez, terá para conosco um carinho, que não será um carinho genérico, de quem dissesse: “toda aquela gente, eu a amo”, mas um carinho todo particular, que pousará sobre cada um de nós, individualmente considerados, como se só nós existíssemos na face da terra.

 Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante

 

“...E depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos Seus méritos, que Ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de Sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que Ela exerce sobre o próprio Deus”.

 

Por ser este Seu poder tão grande, que se exerce até sobre o próprio Deus, os teólogos têm-Na chamado de “onipotência suplicante”.  Parece haver, à própria vista, uma contradição nos termos, pois quem suplica nada pode. Ela, porém, é de fato a onipotência suplicante porque Sua súplica pode tudo sobre Aquele que é onipotente. Desta maneira, Ela pode, praticamente, absolutamente tudo.

Todo o exposto nesta Introdução não nos deve ficar como tiradas piedosas e ocas. É preciso que fique compreensível, razoável, como tudo que brota da razão com base na Fé. Devemos encontrar nisto substancioso alimento, deve servir-nos de combustível, e não apenas de incenso.

Estas afirmações não devem ficar no vácuo, é preciso sabermos aplicá-las concretamente em nossa vida espiritual nas dificuldades, nos problemas, nas lutas. É preciso lembrarmo-nos de que Nossa Senhora é a onipotência suplicante e termos n’Ela uma confiança ilimitada. Mas nem sempre a temos tão arraigada no espírito quanto desejaríamos.

Imaginemos, por exemplo, que Deus apareça à nossa mãe terrena e lhe dê a possibilidade de nos fazer todo o bem que quiser; ficaríamos, evidentemente, radiantes, pois tudo conseguiríamos facilmente. Ora, Nosa Senhora nos ama imensamente mais do que todas as mães terrenas reunidas amariam seu filho único; por isso deveríamos ficar muito mais contentes em saber que Ela, no Céu, olha para nós, do que com a ideia de uma proteção eficacíssima de nossa mãe terrena.



[1] Possuo até hoje referida apostila, guardada como documento particular.

[2] Trata-se de um dos mártires da Tebaida, cuja festa se celebra no dia 27 de julho.

[3] Orat. Or 46, Ad S.V.M, P.L. CVLIII, c. 943-944

[4] São Leão Magno, in “Serm. De Annuntiatione”.

[5] São Bernardo

[6] Ricardo de São Lourenço, “De Laud. Virg., lib. IV.

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