No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez uma série de conferências a seus filhos espirituais sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, de autoria de São Luís Grignion de Montfort. Posteriormente, em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado em forma de circulares internas do seu Grupo (na época chamado de “Grupo do Catolicismo”) e reunidos numa apostila mimeografada. Extraímos destes textos os comentários a seguir sobre as excelências das qualidades de Nossa Senhora.[1]
A sua inteligência incomparável. Quando nos deparamos com um homem muito
inteligente, costumamos ter o salutar pensamento de que ele, comparado a Nossa
Senhora, é mais ignorante que o mais primário analfabeto comparado ao maior dos
sábios? São Tomás de Aquino, comparado a Ela, era um ignorante, tal a plenitude
e a perfeição de Seu conhecimento. Sua inteligência não tem somente toda a
perfeição de uma inteligência humana à qual nada há que acrescentar, mas possui
ainda o conhecimento de todas as coisas que à mais alta das criaturas é dado
conhecer. Quando rezamos a Ela, temos sempre presente esta excelência que lhe é
própria, a de ter uma inteligência incomparável? Aquilo que no mundo pode haver de mais
inteligente, comparado à Nossa Senhora, é zero, é cisco, é nada. Toda a
inteligência possível a uma criatura tão excelsa, alargada pela plenitude das
graças do Espírito Santo, Ela a tem. É algo, portanto, excelente e sumamente
inconcebível. Assim como há dados misteriosos da natureza que escapa totalmente
a nosso conhecimento – não sabemos, por exemplo, quantos grãos de areia existem
em todas as praias da Terra – assim também não temos termo algum de comparação
para compreendermos a riqueza da inteligência de Nossa Senhora. É algo que está
fora do nosso alcance, imaginar não nos é possível. Pois bem, esta é uma verdade que deve estar
sempre muito presente no cabedal dos conhecimentos que d’Ela possuímos.
A sua Vontade Heroica.
Passemos às perfeições de Nossa Senhora no que se refere à Sua vontade.
Tomemos alguns fatos de heroica e sobrenatural
força de vontade. São Lourenço, por exemplo, que colocado sobre uma grelha,
suporta heroicamente o fogo até que, ao cabo de algum tempo, exclama: “Podem
virar do outro lado, pois deste já estou assado”, outro santo houve que,
amarrado a uma mesa, foi tentado de todas as formas por uma mulher; e não tendo
mais como resistir à tentação, mordeu a própria língua, cuspindo-a fora a fim
de evitar o consentimento[2], são
fatos que demonstram um verdadeiro e admirável heroísmo. Mas nada são, no
entanto, comparados ao heroísmo de Nossa Senhora, que lhes supera sem qualquer
proporção. Não passam de um grão de areia comparado ao globo terrestre.
Sim, o sofrimento que Ela teve consentindo na
Paixão de Nosso Senhor, desejando até o último instante sua consumação plena,
como Ela o desejou, e tudo sofrendo com Ele, é algo que não pode ser comparado
a nada de humano, nem sequer ser expresso em linguagem desta terra. Perto de
sua com-Paixão os exemplos dados tornam-se insignificantes.
Ela não é uma grande santa apenas por ser Mãe de
Deus. É bem verdade que este é o título essencial de Sua Santidade, a razão
pela qual recebeu todas as graças. Mas é
preciso notar ainda que Ela correspondeu à graça e se tornou uma grande santa
pela perfeição insondável de sua correspondência, perto da qual toda a
generosidade de todos os santos nada é. Santo Anselmo no-lo exprime
lapidarmente: “Aquilo que todos os Santos
podem conVosco, Vós o podeis só, e sem nenhum deles. Se Vós guardais o
silêncio, ninguém rogará por mim,
ninguém me ajudará, mas falai, e todos rogarão por mim, todos se apressarão a
me socorrer”[3].
Isto porque Ela é a Mãe de Deus, Medianeira de todas as graças, e Sua
virtude transcende numa proporção inconcebível à de todos os demais santos.
Destas afirmações nem uma vírgula se poderá tirar. E é preciso reconhecermos
que não temos disto uma noção digna; ficamos, em geral, em figuras de retórica
– “Tu, a mais Bela”, “a mais Formosa” – que, embora verdadeiras, é mister sejam
aprofundadas.
A sua sensibilidade harmoniosa.
Falamos da inteligência e da vontade de Nossa Senhora. Falemos de Sua
sensibilidade.
Nada há de mais desregrado no homem do que a
sensibilidade: efeito do pecado original. Sentimos, por exemplo, inclinações
para muitas coisas que moralmente não poderíamos querer. Consequentemente,
precisamos manter uma luta acesa entre a tendência que temos para o bem e nossa
inclinação para o mal.
“Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e
domínio Ele reservou para Si”.
Que belíssima noção! Maria Santíssima é tão grande que São Luís Grignion, que não é senão um seu pequeno menestrel, já é, ele mesmo, quase inesgotável quando fala d’Ela. Ele afirma ser Nossa Senhora tão enorme, tão colossal – e o que são estes adjetivos, que de longe Ela transcende? – que só Deus A conhece em toda a extensão das Suas perfeições. Nós não podemos sequer disto ter uma pálida idéia. Há n’Ela belezas, há culminâncias, há encantos, há perfeições, há excelências que escapam e sempre escaparão completamente ao nosso olhar, e que são somente por Deus contempladas. Imaginemos estes universos, estas constelações imensas de estrelas que o homem não conhece e possivelmente jamais conhecerá e cujas belezas ficam reservadas à exclusiva contemplação de Deus: assim é Maria Santíssima. Há n’Ela coisas que nunca homem conhecerá, reservadas que são ao conhecimento exclusivo de Deus Nosso Senhor. N’Ela há esta nota de incognoscibilidade: paramos extasiados a Seus pés, compreendendo, após ter compreendido muito, que o mais que se compreendeu, é que quase nada compreendemos. Estamos sempre no Seu pórtico, um pórtico para nós demasiadamente grande, tal a Sua excelência.
“Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-La e ocultá-La
durante a vida para Lhe favorecer a humildade, tratando-A de mulher – “mulier”
(Jo 2,4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em Seu coração A estimasse
e amasse mais que a todos os anjos e homens”.
São Luís Grignion desenvolveu neste parágrafo a ideia
de que, durante a vida, também Nosso Senhor A manteve ignorada; apenas Ele a
conhecia.
É o retorno à ideia de Nossa Senhora como criatura
reservada ao conhecimento de Deus.
Nossa Senhora, contudo, está acima de todos eles
reunidos. Assim, diante de Sua insondável alma, nós nos deparamos novamente com
termos imperfeitos de comparação que o melhor que podemos dizer é que são
totalmente insuficientes.
“...e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio”.
Outras qualidades de Maria
Santíssima
Tóp. 6 – “Digo com os Santos: Maria
Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão”[4].
Quando, na comunhão, recebemos este mesmo Jesus
Cristo, acostumado que está a tais paraísos, perguntamo-nos o que Ele achará da
nossa hospitalidade? Oferecemos-Lhe ao menos, a Ele que condescende em descer à
nossa choupana, modestíssimo luxo de uma casa limpa?
“...O mundo desconhece estas coisas porque é inapto e indigno”.
São Luís Grignion referiu-se a uma raça (no sentido
teológico e não biológico) misteriosa a quem Deus concede o favor único de
poder penetrar nos umbrais desta devoção. Ele nos fala agora de uma raça má, e
que, por sua maldade, por sua impureza, por sua indignidade, detesta tudo isto.
É o reverso da medalha.
Tóp. 7 – “Os Santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e
nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes – eles o confessam – que ao tomá-La
como tema de suas palavras e de seus escritos”.
Este trecho evidencia-nos uma
verdade muito importante. Não se deve pensar que a devoção à Nossa Senhora é um
estilo de santidade inaugurado por São Luís Grignion ou levado por ele ao
último grau de intensidade. A devoção especialíssima e intensíssima à Nossa Senhora é característica de todos os
santos. E, embora não se possa dizer que todos a tenham levado ao ponto a que
levou São Luis Grignion, estudando a vida de piedade de qualquer deles notamos
sempre uma devoção ardentíssima a Ela, que é a dominante logo abaixo do culto a
Deus Nosso Senhor.
Essa devoção, contudo, se reveste
em cada um de aspectos particulares. É raro, neste sentido, encontrar algum
santo que não tenha encontrado um aspecto novo de piedade em relação à Nossa
Senhora. E não há um só que não conheça dever à intercessão d’Ela, não só o seu
progresso espiritual, mas até mesmo a sua perseverança. Todos passaram por
duras provas espirituais, das quais se viram livres por uma intervenção
especial d’Ela.
São Francisco de Sales, por
exemplo, teve, em sua juventude, uma terrível crise, relativa ao problema de
sua predestinação; estudando o assunto ficou como que tragado pelo abismo do
problema e foi duramente assediado pelo demônio, que lhe insuflava que a
predestinação não era para ele. Isto lhe causou uma tremenda depressão. Começou
a emagrecer, a perder a saúde, nada havia que lhe restituísse a paz à alma.
Certo dia, rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora, pedia-Lhe que, ainda
que tivesse que ir para o inferno, mesmo assim, lhe fosse dado não ofender a
Deus na terra – pois o que o apavorava do inferno não era o tormento, mas a ideia
de ofender eternamente a Deus – e recitava “Memorare o Piissima Virgo Maria...”
que estava escrito embaixo da imagem. E – ele mesmo no-lo conta – logo após o
término da oração, restabeleceu-se em sua alma uma paz admirável; viu então,
claramente, todo o jogo do demônio de que estava sendo vítima, e recuperou
aquela serenidade que viria a ser a nota dominante de toda a sua vida
espiritual.
Encontramos, assim, na vida de
todos os santos, esta constante de uma particular devoção à Nossa Senhora. Ela
é, pois, uma característica segura da verdadeira piedade, e devemos
absolutamente duvidar da santidade de alguém que não a possua.
Seria sofisma dizer: algo que é
especial para todos não o será, por isso, para ninguém. Uma mãe que tenha
muitos filhos, tem, para com cada um carinho especial; e cada filho ama a
própria mãe de um modo particular. Assim, devemos, cada qual, amar à Nossa
Senhora de maneira inteiramente própria, especial e inconfundível. Ela, por sua
vez, terá para conosco um carinho, que não será um carinho genérico, de quem
dissesse: “toda aquela gente, eu a amo”, mas um carinho todo particular, que
pousará sobre cada um de nós, individualmente considerados, como se só nós
existíssemos na face da terra.
“...E depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos Seus
méritos, que Ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de Sua
caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda
compreensão a grandeza do poder que Ela exerce sobre o próprio Deus”.
Por ser este Seu poder tão grande, que se exerce
até sobre o próprio Deus, os teólogos têm-Na chamado de “onipotência
suplicante”. Parece haver, à própria
vista, uma contradição nos termos, pois quem suplica nada pode. Ela, porém, é
de fato a onipotência suplicante porque Sua súplica pode tudo sobre Aquele que
é onipotente. Desta maneira, Ela pode, praticamente, absolutamente tudo.
Todo o exposto nesta Introdução não nos deve ficar
como tiradas piedosas e ocas. É preciso que fique compreensível, razoável, como
tudo que brota da razão com base na Fé. Devemos encontrar nisto substancioso
alimento, deve servir-nos de combustível, e não apenas de incenso.
Estas afirmações não devem ficar no vácuo, é
preciso sabermos aplicá-las concretamente em nossa vida espiritual nas
dificuldades, nos problemas, nas lutas. É preciso lembrarmo-nos de que Nossa
Senhora é a onipotência suplicante e termos n’Ela uma confiança ilimitada. Mas
nem sempre a temos tão arraigada no espírito quanto desejaríamos.
Imaginemos, por exemplo, que Deus apareça à nossa mãe terrena e lhe dê a possibilidade de nos fazer todo o bem que quiser; ficaríamos, evidentemente, radiantes, pois tudo conseguiríamos facilmente. Ora, Nosa Senhora nos ama imensamente mais do que todas as mães terrenas reunidas amariam seu filho único; por isso deveríamos ficar muito mais contentes em saber que Ela, no Céu, olha para nós, do que com a ideia de uma proteção eficacíssima de nossa mãe terrena.
[1]
Possuo até hoje referida apostila, guardada como documento particular.
[2]
Trata-se de um dos mártires da Tebaida, cuja festa se celebra no dia 27 de
julho.
[3] Orat. Or 46, Ad S.V.M, P.L. CVLIII,
c. 943-944
[4]
São Leão Magno, in “Serm. De Annuntiatione”.
[5]
São Bernardo
[6]
Ricardo de São Lourenço, “De Laud. Virg., lib. IV.

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