Todo ser humano
é dotado naturalmente daquilo que se chama “senso comum”, isto é, o ato de
saber o verdadeiro sentido das coisas. Tem também o “dom do
discernimento”, pelo qual entende e analisa as coisas mais profundas, às vezes
não perceptíveis pelo “senso comum”. Além disso, por causa da nossa Fé temos também o “sensus
fidelium”, mais profundo, até, do que o “dom do discernimento”. assim definido
pela Igreja: “
“O “SENSUS FIDELIUM” – Sentido dos fiéis – está
relacionado com “uma espécie de instinto espiritual”, dado aos batizados, “que
permite ao fiel julgar espontaneamente se um ensinamento particular ou
determinada prática está ou não em conformidade com o Evangelho e com a Fé
apostólica. Ele está intrinsecamente ligado à própria virtude da fé, decorre da
fé e é uma propriedade dela. É comparado a um instinto porque não é o resultado
de uma deliberação racional, mas uma forma de conhecimento espontâneo e
natural, um tipo de percepção” [1]
No documento
da “Comissão Teológica Internacional” (CTI) denominada “O Sensus Fidei na Vida da Igreja”, o termo é utilizado tanto no
singular “Sensus fidei”, quanto no plural, “Sensus fidelium”, mas tem o mesmo
significado, querendo dizer “sentido do fiel” ou “sentido dos fiéis”: “Como resultado, os fiéis têm um instinto para a
verdade do Evangelho, o que lhes permite reconhecer quais são a doutrina e
prática cristãs autênticas e a elas aderir. Esse instinto sobrenatural, que tem
uma ligação intrínseca com o dom da fé recebido na comunhão da Igreja, é
chamado de “sensus fidei”, e permite aos cristãos
cumprir a sua vocação profética”.
Na explicitação do segundo significado,
dando ao Corpo Místico da Igreja a ideia de que possui um “sentido”, a
definição é necessária, haja vista que instinto é algo próprio a cada pessoa e
não à coletividade em geral. Nesse sentido, o documento fala de “realidades”,
isto é, de algo constatado que precisa ser definido. Quando fala do instinto
individual ele se refere ao mesmo como “aptidão
pessoal que tem um crente, no seio da comunhão da Igreja, para discernir a
verdade da fé”. Essa aptidão é a mesma que o discernimento dos espíritos,
mas vista com mais profundidade por se referir à fé e ser comparada a um
instinto. Quanto ao “instinto” coletivo, próprio ao Corpo Místico de Cristo, o
documento chama de “sensus fidei fidelium”: “Neste presente documento, usamos o termo sensus fidei fidelis para se referir à
capacidade pessoal do crente de fazer um discernimento justo em matéria de fé,
e o de sensus fidei fidelium para se referir
ao instinto de fé da própria Igreja. Dependendo do contexto, sensus fidei irá referir-se a um
ou a outro sentido, e, para o segundo significado, será utilizado também o
termo de sensus fidelium”
Há doutrinas
pregadas pela Hierarquia que para serem cridas pelos fieis necessita que o “sensus
fidelium” os instrua interiormente sobre o juízo a fazer sobre elas,
aceitando-as ou não. O que houve com os hereges do passado, como Lutero, é que o
público que os seguiu era exatamente aquele que não aceitou a doutrina da
Hierarquia, principalmente vinda do Papa. Com o passar dos anos, como este
público nunca teve a assistência do Espírito Santo foi aos poucos deixando de
crer naquelas doutrinas, a ponto de abandonar a falsa igreja então criada. Hoje
é o que se observa entre os chamados “evangélicos”, especialmente os
Anglicanos, os quais, ao longo dos anos, vão deixando gradativamente suas
crenças. Ou se tornam ateus ou, atendendo ao seu “sensus fidelium”, se convertem
para a Igreja Católica.
O chamado “pentecostalismo”
foi uma dessas heresias, pela qual o Divino Espírito Santo continua agindo da
mesma forma que atuou no dia de Pentecostes, isto é, descendo daquele mesmo
modo sobre as pessoas que creem nessa doutrina. A Igreja ensina o contrário: o
Divino Espírito Santo desceu daquela forma apenas uma vez, pois a partir
daquele momento começou a atuar diretamente nos membros do Corpo de Cristo de
uma forma natural, de uma forma mais interior e mística, através dos
Sacramentos e outros dons divinos criados na sua Igreja. Isto não quer dizer
que, numa situação crítica do Corpo Místico de Cristo, Ele não volte a agir
novamente daquela forma, mas não de uma forma sistemática e sempre, mas uma
única vez mais, apenas a fim de corrigir desvios doutrinários momentâneos, etc.
Essa doutrina
do “pentecostalismo”, hoje, assemelha-se um tanto com o panteísmo, pois ensina
que há imanência divina com aqueles que creem em Deus, fazendo com que sua divindade
desça constantemente sobre as pessoas e, como que, se encarne nelas. Ora, como
já dissemos, o Divino Espírito Santo só desceu uma vez da forma extraordinária
como o fez no Pentecostes. A partir daquele momento, o normal é que Ele atue
nas pessoas através da Hierarquia, do clero, dos Sacramentos, enfim, através do
Corpo Místico de Cristo, como o fez com São Paulo, São Lucas e tantos outros
que não estavam presentes no dia do Pentecostes, mas foram do mesmo modo possuídos
do Espírito Santo.
No entanto,
verifica-se que ensinaram aos católicos, especialmente depois do Vaticano II, que
o “pentecostalismo” continua acontecendo
entre nós. Tentaram fazer crer aos fieis que os progressistas, reformadores da
Igreja, eram possuídos do Espírito Santo, mas, a massa da população nunca
acreditou nessa versão, fazendo com que atue em seu interior o “sensus fidelium”,
dando crença apenas às doutrinas provenientes da autoridade competente e afim
com os princípios tradicionais da Igreja.
A partir do
último pontificado surgiu a ideia da “sinodalidade”, querendo dar a impressão
de que os bispos, somente eles, são possuídos do Espírito Santo e, portanto,
também do “sensus fidei”. Assim, deve-se acreditar piamente em tudo o que eles ensinam,
porque de boa procedência, sem que o mesmo “sensus” seja ouvido dentre os fieis
comuns. Isso não quer dizer que esta ideia tenha predominado, mas apenas que ela
está presente entre eles. Nem é verdadeira essa ideia, nem a contrária que
afirma que somente o povo fiel está possuído do “sensus fidei”, pois está
definido acima que esse sentido, esse dom é dado à toda Igreja em seu conjunto,
simples fieis e pastores, sacerdotes e bispos. Muitas vezes as pessoas
confundem isso com a opinião pública, mas não se trata de ver o que acredita a
maioria, ou a opinião dominante. Opinião pública é o consenso de uma sociedade
sobre determinada matéria, mas não existe apenas uma opinião dominante e majoritária,
existem várias correntes de opinião. Do mesmo modo, nem sempre a opinião dominante
é a certa. No início do cristianismo a opinião dominante era a da idolatria, mas
estava errada, e somente séculos depois esse erro coletivo foi corrigido.
Sejam majoritárias ou não na Igreja, as doutrinas que devem ser acreditadas pelos fieis serão aquelas que o “sensus fidelium” de todos, inclusive da Hierarquia, aponte como provindas do Espírito Santo sem sombra de dúvidas. E para que isso ocorra, o próprio Divino Espírito Santo inspira aos cristãos a forma de analisar e definir tais doutrinas.
[1]
COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL,
El “sensus fidelium” en la vida de la Iglesia, n. 49, Madrid, BAC, p. 49-50.

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