sábado, 31 de janeiro de 2026

OS FALSOS DEVOTOS E AS FALSAS DEVOÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM

 


Os devotos críticos

“Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narradas por autores dignos de fé...” (tóp. 93 do Tratado da Verdadeira Devoção á Santíssima Virgem).

É uma atitude que encontramos com frequência. Os livros de piedade contam milagres de Nossa Senhora. Santo Afonso nas “Glórias de Maria”, por exemplo. Há quem observe que as demonstrações teológicas de Santo Afonso são aceitáveis; naqueles milagres pode-se piedosamente crer, mas se pode também duvidar.

E verdade que, em princípio, se os pode negar sem pecado;  mas não é tão indiferente crer neles ou não. Aqueles casos são francamente verossímeis; não podem ser negados sem uma razão positiva de dúvida. Não há pois razão para duvidar, com satisfação, estuante de alegria, dos milagres relatados por Santo Afonso.

Em Aparecida do Norte se dá o mesmo. Há um sem número de milagres – ou que ocorrem como sendo milagres – feitos por Nossa Senhora. Ao se propor certa vez a instalação de um bureau de constatação médica para autenticar aquelas curas, alguém disse sorrindo: “O senhor preza realmente Nossa Senhora Aparecida? Se se colocar esse bureau de constatação médica aqui, cessará a auréola de Aparecida. Tudo não é senão crendice do povo!”

Se Nossa Senhora é capaz de praticar milagres, não é possível que haja vários cujo caráter miraculoso se possa demonstrar no meio das pretendidas curas? Se Ela é Rainha do Céu e da Terra e Mãe de Deus, é perfeitamente possível. Não é então da glória d’Ela que sejam analisados? É bem evidente que sim.

Outra manifestação de devoção crítica é um certo respeito humano ao culto das imagens de Nossa Senhora. Vai-se às igrejas, reza-se diante do Santíssimo Sacramento, mas, parar a fim de fazê-lo diante de uma imagem de Nossa Senhora, isto não. Veem esta manifestação de piedade como uma devoção subsidiária. O homem simples, do povo, que tem a “fé do carvoeiro”, este se ajoelha para rezar, mas o homem culto contenta-se com a presença real, que é, para ele, a única coisa verdadeira. Imagens são para ele muletas da fé, para os que não têm espírito de religião desenvolvido. É um estado de alma que faz parte do criticismo religioso, que diminui o âmbito da devoção à Nossa Senhora.

 

Os devotos escrupulosos

“Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desagradar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-Lo se A exaltarem demais. Não podem suportar que se  repitam à Santissima Virgem aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicas, e como se os que rezassem à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio d’Ela. Não querem que se fale frequentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a Ela”  (tóp. 94).

Encontramos em nossos dias uma forma curiosa de devotos escrupulosos.  Muito poucas são as pessoas que, nos meios católicos, sustentam esta falsa tese nos termos que São Luís Grignion a apresenta. No entanto, a devoção a Nossa Senhora, em nossos dias, muito raramente é tão grande como a teologia recomenda. Entre os próprios católicos, e mesmo entre os mais fervorosos, não se tem para com Ela a devoção que seria de se desejar. A causa é a falsa idéia de que o culto a Deus sofre certa restrição com o  culto a Santíssima Virgem. “Não convém – dizem eles – levar tão longe o culto a Nossa Senhora”.

Devotos exteriores

São Luís Grignion chama devotos exteriores aos que se contentam com uma devoção meramente exterior a Nossa Senhora.

“...que recitarão às pressas uma enfiada de terços...” (tóp. 96).

Não raro vemos pessoas assim rezando o rosário em uma velocidade assustadora.

“...e ouvirão sem atenção uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar a vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção...” (tóp. 96).

Conhecemos muitas pessoas assim. Frequentemente são senhoras, mães de família. Sabem que o marido é ateu, que o filho não pratica a religião, que a filha poderá acabar vivendo com um divorciado; para elas nada tem grande importância. Vão às procissões, cantam, seguram um lírio de pano, fazem umas promessas a Nossa Senhora, compram-lhe objetos para Seu altar, e pouco se incomodam com a salvação do restante da família. São almas para quem a devoção a Nossa Senhora consiste tão somente em práticas exteriores. Não compreendem que estas devoções só têm valor na medida em que se correspondem às disposições internas, de nada adiantando se foram somente externas. 

Os devotos presunçosos

“Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc...” (tóp. 97).

Sempre me lembro destas palavras quando entro em certas igrejas e vejo vitrais de Nossa Senhora com a inscrição “ofertas de fulano”. Ora, quantas vezes sabemos quem é o Sr. Fulano, qual a sua vida, que contraste há entre este pio donativo e a realidade que ali se oculta.  Este homem, não raro já está certo de ter ganho o céu por ter doado um vitral para Nossa Senhora. Quanta temeridade e presunção aí não se esconde! E quão grande é o número dos presunçosos!

Devotos inconstantes

Os devotos inconstantes (tóp. 101) são bem mais raros. Entre os caboclos se os encontra. Rezam à Santíssima Virgem e, uma vez obtida a graça desejada, cessam de vez a devoção. Outros vão além: não obtido o favor zangam-se, susceptibilizam-se e até blasfemam.

Certa ouvi uma pessoa pedir a alguém de sua família que, para que tivesse menos azar, não mais rezasse por ela. É o devoto inconstante: blasfemou por não conseguir o desejado. Sucedeu-lhe uma desgraça maior, e voltou a pedir orações: “reze mais, pois está grave a situação!”

Os devotos hipócritas

“Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem Fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são” (tóp. 102).

Os devotos hipócritas também não são raros. Têm esta devoção para que outros tenham a impressão de que são mesmo devotos. (Tóps. 103 a 110).

Devotos interesseiros

São Luís Grignion chama de devoto interesseiro (tóp. 103) aquele que pede a Nossa Senhora graças sobretudo de caráter temporal, ou que somente reza à Santíssima Virgem não por amor, mas, para conseguir favores, somente desejando vantagens pessoais.

Dá-nos uma impressão constrangedora ver, nos lugares de peregrinação de Nossa Senhora, velas e ex-votos de pessoas que apenas pediram, com um furor insistente, graças temporais, o mais das vezes curas de doenças. Graças espirituais, raríssimas vezes são pedidas. A pureza, a fé, o desapego, quem os pede? Não; apenas a cura de uma ferida, de uma moléstia incurável. E depois coloca-se o ex-voto.

A apetência pelos bens espirituais é insignificante. O amor desinteressado a Nossa Senhora, quase nenhum.

Como vemos, encontraremos em São Luís Grignion uma análise aguda dos defeitos da piedade de seu tempo, e um desejo de corrigi-los inteligentemente. Não se trata de uma devoção inculcada apenas por rotina, às cegas, mas por alguém que conhecia profundamente o ambiente no qual agia. E sua ação tinha sempre, por isso, um cunho eminentemente contra-revolucionário.

A seguir, São Luís Grignion passa a dar as verdadeiras características da devoção a Nossa Senhora: é interior, terna, santa, constante e desinteressada (tóps. 105 a 110). São predicados muito conhecidos por nossos leitores que não requerem comentários.

(Extraído de apostila divulgada pelo próprio Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em 1967, constando conferências do mesmo feitas a seu iniciante grupo de seguidores em 1951 comentando o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort).

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MARIA, A OBRA-PRIMA POR EXCELÊNCIA DO ALTÍSSIMO

 


No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez uma série de conferências a seus filhos espirituais sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, de autoria de São Luís Grignion de Montfort. Posteriormente, em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado em forma de circulares internas do seu Grupo (na época chamado de “Grupo do Catolicismo”) e reunidos numa apostila mimeografada. Extraímos destes textos os comentários a seguir sobre as excelências das qualidades de Nossa Senhora.[1]

 Excelências das faculdades da alma de Nossa Senhora

 Tóp. 5 – “Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo”.

 Ao olharmos uma noite de céu estrelado, em lugar de considerarmos apenas as grandezas de Deus – pensamento aliás muito louvável – sabemos contemplar também Maria Santíssima, incomparavelmente maior e mais formosa do que cada um dos astros que estão no céu e de todos eles no seu conjunto? Porque, sendo Ela a obra prima da Criação, toda a beleza, toda a grandeza, toda a excelência que Deus pôs no firmamento é pequena em relação à que o Criador pôs n’Ela, este céu não é senão uma imagem, uma figura da grandeza de Nossa Senhora. Apesar de ser mera criatura, tudo quanto n’Ela há excede muito em perfeição todas essas belezas criadas, e isto de um modo inexprimível.

A sua inteligência incomparável.  Quando nos deparamos com um homem muito inteligente, costumamos ter o salutar pensamento de que ele, comparado a Nossa Senhora, é mais ignorante que o mais primário analfabeto comparado ao maior dos sábios? São Tomás de Aquino, comparado a Ela, era um ignorante, tal a plenitude e a perfeição de Seu conhecimento. Sua inteligência não tem somente toda a perfeição de uma inteligência humana à qual nada há que acrescentar, mas possui ainda o conhecimento de todas as coisas que à mais alta das criaturas é dado conhecer. Quando rezamos a Ela, temos sempre presente esta excelência que lhe é própria, a de ter uma inteligência incomparável?  Aquilo que no mundo pode haver de mais inteligente, comparado à Nossa Senhora, é zero, é cisco, é nada. Toda a inteligência possível a uma criatura tão excelsa, alargada pela plenitude das graças do Espírito Santo, Ela a tem. É algo, portanto, excelente e sumamente inconcebível. Assim como há dados misteriosos da natureza que escapa totalmente a nosso conhecimento – não sabemos, por exemplo, quantos grãos de areia existem em todas as praias da Terra – assim também não temos termo algum de comparação para compreendermos a riqueza da inteligência de Nossa Senhora. É algo que está fora do nosso alcance, imaginar não nos é possível.  Pois bem, esta é uma verdade que deve estar sempre muito presente no cabedal dos conhecimentos que d’Ela possuímos.

A sua Vontade Heroica.  Passemos às perfeições de Nossa Senhora no que se refere à Sua vontade.

Tomemos alguns fatos de heroica e sobrenatural força de vontade. São Lourenço, por exemplo, que colocado sobre uma grelha, suporta heroicamente o fogo até que, ao cabo de algum tempo, exclama: “Podem virar do outro lado, pois deste já estou assado”, outro santo houve que, amarrado a uma mesa, foi tentado de todas as formas por uma mulher; e não tendo mais como resistir à tentação, mordeu a própria língua, cuspindo-a fora a fim de evitar o consentimento[2], são fatos que demonstram um verdadeiro e admirável heroísmo. Mas nada são, no entanto, comparados ao heroísmo de Nossa Senhora, que lhes supera sem qualquer proporção. Não passam de um grão de areia comparado ao globo terrestre.

Sim, o sofrimento que Ela teve consentindo na Paixão de Nosso Senhor, desejando até o último instante sua consumação plena, como Ela o desejou, e tudo sofrendo com Ele, é algo que não pode ser comparado a nada de humano, nem sequer ser expresso em linguagem desta terra. Perto de sua com-Paixão os exemplos dados tornam-se insignificantes.

Ela não é uma grande santa apenas por ser Mãe de Deus. É bem verdade que este é o título essencial de Sua Santidade, a razão pela qual recebeu todas as graças.  Mas é preciso notar ainda que Ela correspondeu à graça e se tornou uma grande santa pela perfeição insondável de sua correspondência, perto da qual toda a generosidade de todos os santos nada é. Santo Anselmo no-lo exprime lapidarmente: “Aquilo que todos os Santos podem conVosco, Vós o podeis só, e sem nenhum deles. Se Vós guardais o silêncio,  ninguém rogará por mim, ninguém me ajudará, mas falai, e todos rogarão por mim, todos se apressarão a me socorrer”[3]. Isto porque Ela é a Mãe de Deus, Medianeira de todas as graças, e Sua virtude transcende numa proporção inconcebível à de todos os demais santos. Destas afirmações nem uma vírgula se poderá tirar. E é preciso reconhecermos que não temos disto uma noção digna; ficamos, em geral, em figuras de retórica – “Tu, a mais Bela”, “a mais Formosa” – que, embora verdadeiras, é mister sejam aprofundadas.

A sua sensibilidade harmoniosa.  Falamos da inteligência e da vontade de Nossa Senhora. Falemos de Sua sensibilidade.

Nada há de mais desregrado no homem do que a sensibilidade: efeito do pecado original. Sentimos, por exemplo, inclinações para muitas coisas que moralmente não poderíamos querer. Consequentemente, precisamos manter uma luta acesa entre a tendência que temos para o bem e nossa inclinação para o mal.

Em Nossa Senhora, concebida sem pecado original, não havia esses desequilíbrios. Sua sensibilidade, de uma delicadeza e de uma força perfeitas em todas as suas vibrações e em todos os seus movimentos, era inteiramente ajustada a tudo quanto a razão e a vontade podiam desejar. Era um ser todo de harmonia, no qual não havia nenhuma das incontáveis misérias provocadas em nós pelo pecado original. Ela foi imaculada desde o primeiro instante de Seu ser.

 As perfeições de Maria Santíssima ultrapassam a capacidade humana de conhecimento

 Retornemos ao tóp. 5:

 

“Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio Ele reservou para Si”.

Que belíssima noção! Maria Santíssima é tão grande que São Luís Grignion, que não é senão um seu pequeno menestrel, já é, ele mesmo, quase inesgotável quando fala d’Ela. Ele afirma ser Nossa Senhora tão enorme, tão colossal – e o que são estes adjetivos, que de longe Ela transcende? – que só Deus A conhece em toda a extensão das Suas perfeições. Nós não podemos sequer disto ter uma pálida idéia. Há n’Ela belezas, há culminâncias, há encantos, há perfeições, há excelências que escapam e sempre escaparão completamente ao nosso olhar, e que são somente por Deus contempladas. Imaginemos estes universos, estas constelações imensas de estrelas que o homem não conhece e possivelmente jamais conhecerá e cujas belezas ficam reservadas à exclusiva contemplação de Deus: assim é Maria Santíssima. Há n’Ela coisas que nunca homem conhecerá, reservadas que são ao conhecimento exclusivo de Deus Nosso Senhor. N’Ela há esta nota de incognoscibilidade: paramos extasiados a Seus pés, compreendendo, após ter compreendido muito, que o mais que se compreendeu, é que quase nada compreendemos. Estamos sempre no Seu pórtico, um pórtico para nós demasiadamente grande, tal a Sua excelência.

 Continuemos o tóp. 5:

 

“Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-La e ocultá-La durante a vida para Lhe favorecer a humildade, tratando-A de mulher – “mulier” (Jo 2,4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em Seu coração A estimasse e amasse mais que a todos os anjos e homens”.

 

São Luís Grignion desenvolveu neste parágrafo a ideia de que, durante a vida, também Nosso Senhor A manteve ignorada; apenas Ele a conhecia.

 “Maria é a fonte selada (Cânt 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele pode penetrar”.

 

É o retorno à ideia de Nossa Senhora como criatura reservada ao conhecimento de Deus.

 “Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins”.

 Sabemos que os anjos da guarda ocupam os graus inferiores na hierarquia celeste. E, tendo certa vez aparecido a uma santa o seu anjo da guarda, ela ajoelhou-se, pensando estar na presença do Altíssimo! A grandeza dos anjos é tal que, no Antigo Testamento, em várias aparições, os homens julgavam que fossem o próprio Deus. E no céu há miríades de anjos! Em que assombro ficaríamos se os víssemos a todos e ao mesmo tempo!

Nossa Senhora, contudo, está acima de todos eles reunidos. Assim, diante de Sua insondável alma, nós nos deparamos novamente com termos imperfeitos de comparação que o melhor que podemos dizer é que são totalmente insuficientes.

“...e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio”.

 Existe, pois, uma categoria de criaturas privilegiadas que podem penetrar no conhecimento de Nossa Senhora.  Estas criaturas privilegiadas, São Luís Grignion no-lo explica, são aquelas a quem Deus dá, por liberalidade, o dom que o comum das pessoas não têm, de conhecerem e praticarem a devoção à Nossa Senhora de modo especial por ele ensinado. E os “apóstolos dos últimos tempos”, de que ele nos fala, terão este dom; por isso, serão terríveis no combate ao mal e eficacíssimos na defesa do bem. Serão almas elevadíssimas, que terão a graça de penetrar neste umbral da devoção à Nossa Senhora.

 

Outras qualidades de Maria Santíssima

 

Tóp. 6 – “Digo com os Santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão”[4].

 O paraíso terrestre era de encantos, de delícias, de perfeições. São Luís Grignion diz que Nosso Senhor estava no ventre puríssimo de Maria Santíssima com a excelência e a perfeição com que Adão estava no paraíso. Nossa Senhora, durante a concepção, era o paraíso do novo Adão, Jesus Cristo.

Quando, na comunhão, recebemos este mesmo Jesus Cristo, acostumado que está a tais paraísos, perguntamo-nos o que Ele achará da nossa hospitalidade? Oferecemos-Lhe ao menos, a Ele que condescende em descer à nossa choupana, modestíssimo luxo de uma casa limpa?

 “...no qual Este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis...”

 Nosso Senhor, durante a Sua vida em Maria Santíssima – e esta é uma belíssima idéia que São Luís Grignion desenvolverá mais tarde – quando Ela era o tabernáculo no qual Ele habitava, já aí operou maravilhas. São Luís Grignion compôs inclusive uma oração dirigida a Nosso Senhor enquanto vivendo em Maria Santíssima: “O Iesu, vivens in Maria...”

 “...É o grande, o divino mundo de Deus[5], onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus[6], em que Ele escondeu, como em Seu seio, Seu Filho único, e n’Ele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! Que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo Ela mesma, como obrigada, apesar de Sua humildade profunda: “Fecit mihi magna qui potens est” (Lc 1, 49).

 O sentido inteiro deste canto do “Magnificat” só o compreenderemos se considerarmos quem é Nossa Senhora. Realmente, é preciso lembrar-nos do poder de Deus, para compreender que Ele possa ter operado essas maravilhas que n’Ela operou.

 

“...O mundo desconhece estas coisas porque é inapto e indigno”.

 

São Luís Grignion referiu-se a uma raça (no sentido teológico e não biológico) misteriosa a quem Deus concede o favor único de poder penetrar nos umbrais desta devoção. Ele nos fala agora de uma raça má, e que, por sua maldade, por sua impureza, por sua indignidade, detesta tudo isto. É o reverso da medalha.

 Devoção à Nossa Senhora: característica da santidade

 

Tóp. 7 – “Os Santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes – eles o confessam – que ao tomá-La como tema de suas palavras e de seus escritos”.

 

Este trecho evidencia-nos uma verdade muito importante. Não se deve pensar que a devoção à Nossa Senhora é um estilo de santidade inaugurado por São Luís Grignion ou levado por ele ao último grau de intensidade. A devoção especialíssima e intensíssima  à Nossa Senhora é característica de todos os santos. E, embora não se possa dizer que todos a tenham levado ao ponto a que levou São Luis Grignion, estudando a vida de piedade de qualquer deles notamos sempre uma devoção ardentíssima a Ela, que é a dominante logo abaixo do culto a Deus Nosso Senhor.

Essa devoção, contudo, se reveste em cada um de aspectos particulares. É raro, neste sentido, encontrar algum santo que não tenha encontrado um aspecto novo de piedade em relação à Nossa Senhora. E não há um só que não conheça dever à intercessão d’Ela, não só o seu progresso espiritual, mas até mesmo a sua perseverança. Todos passaram por duras provas espirituais, das quais se viram livres por uma intervenção especial d’Ela.

São Francisco de Sales, por exemplo, teve, em sua juventude, uma terrível crise, relativa ao problema de sua predestinação; estudando o assunto ficou como que tragado pelo abismo do problema e foi duramente assediado pelo demônio, que lhe insuflava que a predestinação não era para ele. Isto lhe causou uma tremenda depressão. Começou a emagrecer, a perder a saúde, nada havia que lhe restituísse a paz à alma. Certo dia, rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora, pedia-Lhe que, ainda que tivesse que ir para o inferno, mesmo assim, lhe fosse dado não ofender a Deus na terra – pois o que o apavorava do inferno não era o tormento, mas a ideia de ofender eternamente a Deus – e recitava “Memorare o Piissima Virgo Maria...” que estava escrito embaixo da imagem. E – ele mesmo no-lo conta – logo após o término da oração, restabeleceu-se em sua alma uma paz admirável; viu então, claramente, todo o jogo do demônio de que estava sendo vítima, e recuperou aquela serenidade que viria a ser a nota dominante de toda a sua vida espiritual.

Encontramos, assim, na vida de todos os santos, esta constante de uma particular devoção à Nossa Senhora. Ela é, pois, uma característica segura da verdadeira piedade, e devemos absolutamente duvidar da santidade de alguém que não a possua.

Seria sofisma dizer: algo que é especial para todos não o será, por isso, para ninguém. Uma mãe que tenha muitos filhos, tem, para com cada um carinho especial; e cada filho ama a própria mãe de um modo particular. Assim, devemos, cada qual, amar à Nossa Senhora de maneira inteiramente própria, especial e inconfundível. Ela, por sua vez, terá para conosco um carinho, que não será um carinho genérico, de quem dissesse: “toda aquela gente, eu a amo”, mas um carinho todo particular, que pousará sobre cada um de nós, individualmente considerados, como se só nós existíssemos na face da terra.

 Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante

 

“...E depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos Seus méritos, que Ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de Sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que Ela exerce sobre o próprio Deus”.

 

Por ser este Seu poder tão grande, que se exerce até sobre o próprio Deus, os teólogos têm-Na chamado de “onipotência suplicante”.  Parece haver, à própria vista, uma contradição nos termos, pois quem suplica nada pode. Ela, porém, é de fato a onipotência suplicante porque Sua súplica pode tudo sobre Aquele que é onipotente. Desta maneira, Ela pode, praticamente, absolutamente tudo.

Todo o exposto nesta Introdução não nos deve ficar como tiradas piedosas e ocas. É preciso que fique compreensível, razoável, como tudo que brota da razão com base na Fé. Devemos encontrar nisto substancioso alimento, deve servir-nos de combustível, e não apenas de incenso.

Estas afirmações não devem ficar no vácuo, é preciso sabermos aplicá-las concretamente em nossa vida espiritual nas dificuldades, nos problemas, nas lutas. É preciso lembrarmo-nos de que Nossa Senhora é a onipotência suplicante e termos n’Ela uma confiança ilimitada. Mas nem sempre a temos tão arraigada no espírito quanto desejaríamos.

Imaginemos, por exemplo, que Deus apareça à nossa mãe terrena e lhe dê a possibilidade de nos fazer todo o bem que quiser; ficaríamos, evidentemente, radiantes, pois tudo conseguiríamos facilmente. Ora, Nosa Senhora nos ama imensamente mais do que todas as mães terrenas reunidas amariam seu filho único; por isso deveríamos ficar muito mais contentes em saber que Ela, no Céu, olha para nós, do que com a ideia de uma proteção eficacíssima de nossa mãe terrena.



[1] Possuo até hoje referida apostila, guardada como documento particular.

[2] Trata-se de um dos mártires da Tebaida, cuja festa se celebra no dia 27 de julho.

[3] Orat. Or 46, Ad S.V.M, P.L. CVLIII, c. 943-944

[4] São Leão Magno, in “Serm. De Annuntiatione”.

[5] São Bernardo

[6] Ricardo de São Lourenço, “De Laud. Virg., lib. IV.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Doutor Plinio comentando sobre a conversão de São Paulo

 




Saulo era natural de Tarso, na Cilícia, Província da tribo de Benjamim, e por privilégio concedido pelos imperadores de Roma à cidade de Tarso, Saulo, embora judeu, tinha cidadania romana.

Dotado de talento extraordinário, possuía também bons e nobres sentimentos, aliados a uma força de vontade inquebrantável.

Ao tempo em que Jesus pregava o Evangelho na Palestina, Saulo estudava, sob a direção do sábio Gamaliel, as ciências dos Santos Livros. Seu talento, zelo e aplicação chamaram sobre ele as vistas dos fariseus.

O coração do jovem Saulo enfureceu-se com o crescimento rápido da doutrina de Jesus de Nazaré e o aumento espantoso do número dos discípulos do Crucificado fizeram com que sua alma se incendiasse de ódio contra os seguidores de Jesus, que ele considerava traidores da causa da pátria. E Saulo procura como prejudicar o desenvolvimento da Igreja nascente. Incitado pelo ódio farisaico, Saulo foi ao Sumo Sacerdote e pediu cartas para a sinagoga de Damasco, com plenos poderes de trazer prisioneiros a Jerusalém todos os partidários de Jesus.

Em caminho, já perto de Damasco, um violento reluzir de luz celeste prostra-o por terra e Saulo ouve uma voz queixosa: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E o perseguidor pergunta: “Senhor, quem sois vós? Responde a voz misteriosa: “Eu sou Jesus, a quem persegues”. Saulo, amedrontado, fala: ”Senhor, que quereis que faça?” – “Levanta-te, entra na cidade e lá se dirá o que tens a fazer”.

Os homens de Saulo nada viam, mas ouviam a voz de Jesus. Saulo levantou-se e verificou que estava cego. Guiaram-no a Damasco, onde passou três dias sem comer nem beber. Ora, havia em Damasco um discípulo de Jesus chamado Ananias. Este teve uma visão em que o Senhor lhe ordenava: “Levanta-te, procura na casa de Judas um homem de Tarso, chamado Saulo. Neste momento ele ora”. Saulo nesse mesmo momento viu certo homem chamado Ananias entrar e impor-lhe as mãos para que recobrasse a vista. Mas Ananias respondeu: “Senhor, tendo ouvido falar muito desse homem e do mal que fez aos santos em Jerusalém. Aqui mesmo traz plenos poderes dos Príncipes dos Sacerdotes para meter em ferros todos que invocam vosso santo nome”. Mas o Senhor lhe ordenou que fosse a Saulo, e revelou-lhe o que o perseguidor haveria de tornar-se para a Igreja: um dos sustentáculos da Religião nascente, o apóstolo que pregaria o Evangelho a todas as nações.

Dessa queda miraculosa, levantou-se Paulo convertido para ir, no seu ardor de homem genial e forte, levar à toda a humanidade o lume da fé, a doutrina de Cristo Jesus.

São Paulo, compreendendo e vivendo integralmente a vida de um apóstolo, em uma de suas epístolas, usou de uma frase que bem define o que é a vida do defensor da fé, do católico consciente de sua missão sobre a terra: “Bonum certamen certavi – Combati o bom combate”. Porque a vida do católico é uma luta sem tréguas nem acomodações.

Luiz Veuillot teve uma frase feliz. Disse que se São Paulo viesse de novo à terra tornar-se-ia jornalista. Sim, São Paulo tornar-se-ia jornalista. Mas jornalista intransigente pela verdade. Ou, em outras palavras, suas epístolas tornar-se-iam artigos intransigentes na defesa de todas as verdades e fulminantes na condenação de todos os erros. Não é difícil imaginar que artigos santa e impetuosamente veementes escreveria aquele mesmo São Paulo que certa vez escreveu numa de suas epístolas: “Irei a vós de chicote em punho” (I Cor. 4, 21).

Quem tão bem soube manejar o chicote e lutar com santo ardor, que a espada passou a ser o seu símbolo, escreveria hoje artigos de jornais reputados por certos leitores de epiderme sensível tanto ou mais agressivos e cortantes que os do LEGIONÁRIO.

(Plínio Corrêa de Oliveira, "Legionário" N. 322, .22 de janeiro de 1939)

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

PORTUGAL E ESPANHA TRAZIAM MAIS RIQUEZAS PARA AS COLÔNIAS DO QUE DAQUI AS LEVAVAM

 


Há algumas calúnias pregadas contra nossos colonizadores, dentre as quais a de que aqui vieram roubar nossas riquezas e de que mandavam pra cá somente bandidos e fugitivos da justiça.

Para desmentir parte desta calúnia nada mais do que um texto insuspeito, escrito por um holandês que participou da invasão da Bahia em 1624, portanto, protestante, herege e inimigo dos católicos. 

O “Relato da Conquista da Cidade do Salvador enviado para a Holanda” foi escrito por Johann Gregor Altenburg em 1628, portanto, logo depois da invasão holandesa. Dele extraímos o tópico abaixo, muito ilustrativo da riqueza que havia em Salvador na época, a qual não foi produzida aqui mas toda trazida de Portugal e Espanha (na época o Brasil estava sob domínio espanhol), fazendo de nossa capital, juntamente com Quito, uma das cidades mais ricas das Américas.  Lembremos que aqui não havia nem ouro nem prata. O ouro só foi descoberto no século XVIII e a prata muito tempo depois, e pouca. 

Eis o excerto:

“NO DIA 11 DE MAIO, RETIRARAM-SE DE TODAS AS IGREJAS E CONVENTOS, AS IMAGENS, NA SUA GRANDE MAIORIA DE PRATA, ENTRE AS QUAIS, DOZE APÓSTOLOS, UMA IMAGEM DE MARIA E OUTROS PERTENCES, QUE TOMOU O ALMIRANTE WILLEKENS SOB SUA GUARDA. AFORA ISSO, ABRIU-SE MÃO DE TODOS OS CONVENTOS E DOS BENS ECLESIÁSTICOS, NOS QUAIS SE FIZERAM IMPORTANTES E MAGNÍFICAS PRESAS, ESPECIALMENTE NO COLÉGIO DOS JESUÍTAS, ONDE FORAM ACHADOS, EM QUARENTA QUARTOS, RIQUÍSSIMOS E VARIADOS UTENSÍLIOS, OBJETOS PRECIOSOS FABRICADOS DE PRATA E OURO, DE SORTE QUE MUITO CAPITÃO,  EM UMA HORA, ARRECADOU 5 A 6.000 FLORINS; TAMBÉM SE FARTARAM OS SOLDADOS RASOS, ARREBANHANDO-SE E COBRINDO-SE DE VELUDOS, SEDAS, PRATA, OURO, COMO GRANDES OFICIAIS. NÃO QUIS, TODAVIA, CONSENTIR O ALMIRANTE NO SAQUE DAS CASAS DOS MORADORES. O QUE, DIFICILMENTE, PÔDE SER EVITADO”.

Em outra parte do mesmo documento o Autor informa que daqui saíram sete navios carregados de riqueza para a Holanda, tudo saqueado dos conventos, das igrejas e da população. Era grande o acervo cultural que portugueses e espanhóis haviam trazido para a colônia. O autor não diz o que foi feito dessas imagens, devem ter sido levadas para a Holanda e transformadas em artefatos para uso pessoal, vendidas ou colocadas em museus, não se sabe. Sedas, veludos e objetos de prato serviram para enriquecer mais ainda suas casas, a maioria já cheia dos saques piratas que faziam em suas guerras de conquista.

(“Relação da Conquista e Perda da Cidade do Salvador pelos Holandeses em 1624-1625 “ – vol. I – Johann Gregor Aldenburgk –Edição da !Brasiliensia Documenta” , págs. 239/240)

Veja nossas postagens anteriores sobre a invasão holandesa no Brasil:

VALENTE RESISTÊNCIA DAS MULHERES AOS INVASORES HOLANDESES

https://quodlibeta.blogspot.com/2016/10/valente-resistencia-das-mulheres.html

QUARTO CENTENÁRIO DA INVASÃO E EXPULSÃO DOS HOLANDESES 

https://quodlibeta.blogspot.com/2025/04/quarto-centenario-da-invasao-e-expulsao.html



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O “SENSUS FIDELIUM”

 



Todo ser humano é dotado naturalmente daquilo que se chama “senso comum”, isto é, o ato de saber o verdadeiro sentido das coisas. Tem também o “dom do discernimento”, pelo qual entende e analisa as coisas mais profundas, às vezes não perceptíveis pelo “senso comum”. Além disso, por causa da nossa Fé temos também o “sensus fidelium”, mais profundo, até, do que o “dom do discernimento”. assim definido pela Igreja: “

“O “SENSUS FIDELIUM” – Sentido dos fiéis – está relacionado com “uma espécie de instinto espiritual”, dado aos batizados, “que permite ao fiel julgar espontaneamente se um ensinamento particular ou determinada prática está ou não em conformidade com o Evangelho e com a Fé apostólica. Ele está intrinsecamente ligado à própria virtude da fé, decorre da fé e é uma propriedade dela. É comparado a um instinto porque não é o resultado de uma deliberação racional, mas uma forma de conhecimento espontâneo e natural, um tipo de percepção” [1]

No documento da “Comissão Teológica Internacional” (CTI) denominada “O Sensus Fidei na Vida da Igreja”, o termo é utilizado tanto no singular “Sensus fidei”, quanto no plural, “Sensus fidelium”, mas tem o mesmo significado, querendo dizer “sentido do fiel” ou “sentido dos fiéis”: “Como resultado, os fiéis têm um instinto para a verdade do Evangelho, o que lhes permite reconhecer quais são a doutrina e prática cristãs autênticas e a elas aderir. Esse instinto sobrenatural, que tem uma ligação intrínseca com o dom da fé recebido na comunhão da Igreja, é chamado de “sensus fidei”, e permite aos cristãos cumprir a sua vocação profética”.

Na explicitação do segundo significado, dando ao Corpo Místico da Igreja a ideia de que possui um “sentido”, a definição é necessária, haja vista que instinto é algo próprio a cada pessoa e não à coletividade em geral. Nesse sentido, o documento fala de “realidades”, isto é, de algo constatado que precisa ser definido. Quando fala do instinto individual ele se refere ao mesmo como “aptidão pessoal que tem um crente, no seio da comunhão da Igreja, para discernir a verdade da fé”. Essa aptidão é a mesma que o discernimento dos espíritos, mas vista com mais profundidade por se referir à fé e ser comparada a um instinto. Quanto ao “instinto” coletivo, próprio ao Corpo Místico de Cristo, o documento chama de “sensus fidei fidelium”: “Neste presente documento, usamos o termo sensus fidei fidelis para se referir à capacidade pessoal do crente de fazer um discernimento justo em matéria de fé, e o de sensus fidei fidelium para se referir ao instinto de fé da própria Igreja. Dependendo do contexto, sensus fidei irá referir-se a um ou a outro sentido, e, para o segundo significado, será utilizado também o termo de sensus fidelium”

Há doutrinas pregadas pela Hierarquia que para serem cridas pelos fieis necessita que o “sensus fidelium” os instrua interiormente sobre o juízo a fazer sobre elas, aceitando-as ou não. O que houve com os hereges do passado, como Lutero, é que o público que os seguiu era exatamente aquele que não aceitou a doutrina da Hierarquia, principalmente vinda do Papa. Com o passar dos anos, como este público nunca teve a assistência do Espírito Santo foi aos poucos deixando de crer naquelas doutrinas, a ponto de abandonar a falsa igreja então criada. Hoje é o que se observa entre os chamados “evangélicos”, especialmente os Anglicanos, os quais, ao longo dos anos, vão deixando gradativamente suas crenças. Ou se tornam ateus ou, atendendo ao seu “sensus fidelium”, se convertem para a Igreja Católica.

O chamado “pentecostalismo” foi uma dessas heresias, pela qual o Divino Espírito Santo continua agindo da mesma forma que atuou no dia de Pentecostes, isto é, descendo daquele mesmo modo sobre as pessoas que creem nessa doutrina. A Igreja ensina o contrário: o Divino Espírito Santo desceu daquela forma apenas uma vez, pois a partir daquele momento começou a atuar diretamente nos membros do Corpo de Cristo de uma forma natural, de uma forma mais interior e mística, através dos Sacramentos e outros dons divinos criados na sua Igreja. Isto não quer dizer que, numa situação crítica do Corpo Místico de Cristo, Ele não volte a agir novamente daquela forma, mas não de uma forma sistemática e sempre, mas uma única vez mais, apenas a fim de corrigir desvios doutrinários momentâneos, etc.

Essa doutrina do “pentecostalismo”, hoje, assemelha-se um tanto com o panteísmo, pois ensina que há imanência divina com aqueles que creem em Deus, fazendo com que sua divindade desça constantemente sobre as pessoas e, como que, se encarne nelas. Ora, como já dissemos, o Divino Espírito Santo só desceu uma vez da forma extraordinária como o fez no Pentecostes. A partir daquele momento, o normal é que Ele atue nas pessoas através da Hierarquia, do clero, dos Sacramentos, enfim, através do Corpo Místico de Cristo, como o fez com São Paulo, São Lucas e tantos outros que não estavam presentes no dia do Pentecostes, mas foram do mesmo modo possuídos do Espírito Santo.

No entanto, verifica-se que ensinaram aos católicos, especialmente depois do Vaticano II, que o “pentecostalismo”  continua acontecendo entre nós. Tentaram fazer crer aos fieis que os progressistas, reformadores da Igreja, eram possuídos do Espírito Santo, mas, a massa da população nunca acreditou nessa versão, fazendo com que atue em seu interior o “sensus fidelium”, dando crença apenas às doutrinas provenientes da autoridade competente e afim com os princípios tradicionais da Igreja.

A partir do último pontificado surgiu a ideia da “sinodalidade”, querendo dar a impressão de que os bispos, somente eles, são possuídos do Espírito Santo e, portanto, também do “sensus fidei”. Assim, deve-se acreditar piamente em tudo o que eles ensinam, porque de boa procedência, sem que o mesmo “sensus” seja ouvido dentre os fieis comuns. Isso não quer dizer que esta ideia tenha predominado, mas apenas que ela está presente entre eles. Nem é verdadeira essa ideia, nem a contrária que afirma que somente o povo fiel está possuído do “sensus fidei”, pois está definido acima que esse sentido, esse dom é dado à toda Igreja em seu conjunto, simples fieis e pastores, sacerdotes e bispos. Muitas vezes as pessoas confundem isso com a opinião pública, mas não se trata de ver o que acredita a maioria, ou a opinião dominante. Opinião pública é o consenso de uma sociedade sobre determinada matéria, mas não existe apenas uma opinião dominante e majoritária, existem várias correntes de opinião. Do mesmo modo, nem sempre a opinião dominante é a certa. No início do cristianismo a opinião dominante era a da idolatria, mas estava errada, e somente séculos depois esse erro coletivo foi corrigido.

Sejam majoritárias ou não na Igreja, as doutrinas que devem ser acreditadas pelos fieis serão aquelas que o “sensus fidelium” de todos, inclusive da Hierarquia, aponte como provindas do  Espírito Santo sem sombra de dúvidas. E para que isso ocorra, o próprio Divino Espírito Santo inspira aos cristãos a forma de analisar e definir tais doutrinas.



[1] COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, El “sensus fidelium” en la vida de la Iglesia, n. 49, Madrid, BAC, p. 49-50.


domingo, 11 de janeiro de 2026

O BRASIL TEM JEITO?


Essa questão sempre vem à tona: o Brasil tem jeito? Ou vai ficar tudo como está?

Fora o famoso "jeitinho brasileiro", qual a solução para nossos problemas? 

 Estamos presenciando hoje em algumas partes do mundo (como no Irã), algo parecido com  "Primavera árabe", movimento que eclodiu fruto das chamadas "redes sociais", na época em que se falava muito também nos "inconformados" (na Europa) e no "Ocupem Wall Street" (nos Estados Unidos), parecendo fazer parte de uma onda mundial para dar novos rumos á revolução pela anarquia. Até o símbolo deles, uma caveira chamada "Anonymus", nada diz de útil. Sim, porque tais movimentos derrubam governos, combatem algumas  injustiças, etc., mas nada apresentam de positivo, nada constroem, simplesmente deixam tudo na pior. Na Tunísia, por exemplo, já houve 9 golpes de estado após a "Primavera árabe"  conseguir derrubar o ditador de plantão que havia lá. Na Turquia tiraram uma ditadura e veio outra. No Egito, nem se fala. Quase ninguém lembra mais do movimento das redes sociais  que houve nesse país para derrubar o ditador, que caiu, mas logo outro assumiu outra ditadura. Ninguém lembra que aqueles povos árabes, de costumes ainda tribais, não entendem o que é democracia, só sabem conviver com ditadura mesmo. 

Ora, gente, vamos transplantar isso pro Brasil. Movimento de redes sociais vai conseguir o quê? Ninguém se iluda, o que vai ficar depois da queda de um governo é apenas o caos. Não nos iludamos com militares ou com políticos metidos a conservador. Pode até ser que alguns deles tenham boas intenções, mas nada conseguirão neste Brasil podre e corrupto até a medula. Não são apenas as nossas elites dirigentes que são desonestas, o cancro da desonestidade está espalhada pela nação como uma AIDS em todo o sangue do corpo social. O  respeito ao direito de propriedade, por exemplo, não existe mais em nosso povo. Um exemplo? Não há um lugar no Brasil em que um caminhão quebre, pode ser até no interior, e não seja logo saqueado pela população que se diz honesta. Não são os bandidos que saqueiam, é o povão. Ofereça um cargo público de mamata a qualquer brasileiro para ver se ele não aceita sem pensar? E sonegação de INSS e FGTS, quem é que não o faz? Se todos agem assim, criticar os políticos é hipocrisia, porque eles são apenas aquilo que o nosso povo também é.

Mas, e o Brasil tem jeito? Tem, mas só Deus pode dar um jeito em nossa atual situação. Confiemos n'Ele, que é nosso Pai, e um dia tudo se resolverá. isso quer dizer que há necessidade de uma intervenção divina. E ela não tarda. Mas, lembremos disso, tudo tem que começar por nossas elites, pois delas depende muito os destinos de nosso povo. Dizem que o poder vem do povo, mas é exercido pela elite política.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MORRE O "BLUFF" DAS MULTIDÕES

 


Vivemos um período no passado recente em que os jornais, revistas e TVs do mundo todo dominavam a opinião pública. Chegaram até a dizer que constituíam um “quarto poder”, tal era seu império sobre o povo. Maculavam honras, perseguiam adversários e até derrubavam governos. Com o advento das redes sociais o poder da mídia foi minguando gradativamente, até chegar a uma condição de quase inexpressividade. É claro que ainda têm certo poder, influenciam pequeno público, mas nunca a massa da população, nunca as multidões como antigamente. Hoje só os segue uma certa elite.

Certo público os consulta apenas para “checar” se tal notícia é verdadeira, pois ainda mantêm aquela máscara de seriedade, de confiança e fidelidade nas notícias e comentários diários. A mídia oficial funciona como se fosse o único foro da verdade. Baseados nessa falsa credibilidade, de serem sérios e fieis, fazem com perfeição “as fake new”, pois fica mais fácil para o público acreditar numa falsa notícia, bem feita,  publicada pela mídia oficial do que nas redes sociais, verdadeira “terra de ninguém”...

Quando a URSS estava a pleno vapor na Rússia, o jornal “Pravda”, de Moscou, publicou uma foto de uma procissão ou peregrinação que os católicos fizeram a Fátima, reunindo aproximadamente 700 mil pessoas. O jornal publicava abaixo da foto a seguinte manchete: “Quando é que vamos reunir multidões como esta?” E o comentário era este: como era fácil aos católicos tradicionais reunir gratuitamente multidões em suas procissões e romarias, enquanto eles, os comunistas, só o faziam oferecendo vantagens ao povo e nunca conseguiam atrair tanta gente.

É claro que com o passar do tempo houve outros tipos de promoções que diziam atrair até multidões maiores, como as do futebol, dos shows musicais e até as passeatas de homossexuais. Algumas com números exagerados e outras próximas da verdade. No entanto, as manifestações populares da esquerda sempre foram de uma minoria, cujos números eram exagerados pela mídia para lhes dar prestígio. Um exemplo aqui na Bahia: quando ACM renunciou ao cargo de senador para não ser cassado, foi recepcionado em Salvador por uma grande multidão; no mesmo dia o seu principal opositor, Jaques Wagner, fez uma manifestação contrária, na qual compareceu poucas centenas de pessoas. Nesse caso a mídia não teve coragem de mentir, mas também não mostrou a monstruosa diferença de público, pois se o fizesse confessaria que os conservadores são a grande maioria da população.

O termo mais moderno hoje é "fake news" para demonstrar a montagem de notícias enganosas. No entanto, prefiro usar o termo "bluff", porque este não é apenas uma mentira mas uma manobra astuciosa para enganar, criar, por exemplo, uma história cheia de engodos. Foi o que a mídia fez durante muitos anos para iludir o público com a ideia de que as multidões seguem as esquerdas. Hoje, os canais de TV e os repórteres dos jornais e revistas não conseguem mais criar tais "bluffs", pois há muita gente nas ruas documentando os fatos com seus celulares.

No último dia 8, houve o chamamento para o público comparecer a uma cerimônia política em Brasília. Lá ocorreu um exemplo do mirrado público da esquerda, quase ninguém compareceu para prestigiar o nosso falso presidente em sua afronta contra os inocentes que estão presos por causa do decantado "golpe" (aqui um "bluff" bem montado, não somente pela mídia, mas por um organizado grupo de esquerda). Mais uma prova eloquente de que a esquerda é uma minoria de elite, cujo público (amorfo, verdadeiros “Maria vai com as outras”) só a segue quando é enganado por engodos. Se estivéssemos nas eras passadas em que o poder de fazer "bluff" da mídia era onipotente, teriam alardeado que uma multidão tinha ido aplaudir o presidente. Hoje, ou se calam ou dizem a verdade, forçosamente, porque se mentirem o público saberá logo.