terça-feira, 10 de junho de 2025

PROTAGONISTAS DE MILAGRES EUCARÍSTICOS DO TEMPO DO PADRE CÍCERO

 

  (Museu do Padre Cícero, em Juazeiro    do Norte-CE)


Fala-se muito no padre Cícero e sobre os milagres eucarísticos ocorridos em sua cidade, Juazeiro do Norte(CE), mas quase nada sobre as protagonistas destes milagres, as beatas que o acompanhavam. Vejamos algo sobre o tema.

O texto a seguir foi extraído de reportagem do jornal “Diário do Nordeste” (Fortaleza-CE), divulgado pela internet em 2010:

“Pesquisa revela papel de outras beatas, reunidas em torno de Apostolado fundado por Padre Cícero

Fortaleza. Um padre, uma beata e uma hóstia transmutada em sangue. Tanto na "história oficial" como nas narrativas populares, estes são os protagonistas do fenômeno que transformou uma pequena comunidade em um espaço sagrado e alçou o padre local à categoria de santo, mesmo à margem da Igreja Católica. Mas ao se debruçar no processo episcopal que investigou o chamado "milagre de Juazeiro", encontram-se não apenas os relatos de Maria de Araújo, como também a descrição de "fenômenos extraordinários" experimentados por outras beatas que faziam parte do Apostolado do Sagrado Coração, fundado pelo Padre Cícero um ano antes do episódio da hóstia. As experiências místicas dessas mulheres e a construção, a partir de seus relatos, de Juazeiro como um lugar sagrado são o tema da dissertação da historiadora Edianne dos Santos Nobre, mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Intitulado "O Teatro de Deus: a construção do espaço sagrado de Juazeiro a partir de narrativas femininas (Ceará, 1889-1898)", o trabalho ressalta a participação dessas mulheres no meio social e religioso, bem como o silêncio imposto pela Diocese do Crato ao darem testemunho de suas vivências místicas.

Sagrado feminino. Ao cruzar informações do processo episcopal que investigou o suposto milagre da hóstia e da correspondência dos vários personagens envolvidos no caso, Edianne Nobre percebeu um envolvimento maior e bem mais relevante de outras beatas do que até então se conhecia. Em seus depoimentos, as mulheres descreviam viagens ao Purgatório, Céu e Inferno, aparecimento de hóstias ensanguentadas, estigmas de crucificação em seus corpos, sangramento de crucifixos de metal maciço, relatos de visões, profecias, êxtases e comunhões espirituais.

Foi durante a pesquisa que a historiadora se deparou com relatos até então ausentes do que se sabia sobre o milagre. "Na memória local e na historiografia não havia lugar para as beatas, a não ser para considerá-las fanáticas e histéricas, isto quando apareciam de alguma forma. A beata Maria de Araújo era praticamente a única no cenário e mesmo assim apresentada, ora como coadjuvante do evento, ora como embusteira. Parti do pressuposto de que os milagres que foram narrados no processo episcopal pelas beatas são os eventos fundadores de um dos maiores espaços devocionais do Brasil".

Novas personagens. Na investigação, a historiadora localizou o nome de oito beatas que assumiram ter experiências místicas: Ângela Merícia do Nascimento, Antonia Maria da Conceição, Anna Leopoldina Aguiar de Melo, Jahel Wanderley Cabral, Maria das Dores da Conceição de Jesus, Maria Joanna de Jesus, Maria Leopoldina Ferreira da Soledade e Rachel Sisnando de Lima.

Muitas dessas mulheres viviam em casas de caridade, criadas pelo Padre Ibiapina para abrigar órfãs, viúvas e outras mulheres que não tivessem o amparo masculino. "No final do século XIX, os espaços de atuação social eram bastante limitados para as mulheres. Minha hipótese é que elas se reuniam em torno do Apostolado do Sagrado Coração, criado em 1888 e que congregava mulheres leigas no povoado de Juazeiro do Norte", aponta.

A historiadora explica que, naquele período, havia um esforço da Igreja Católica em promover a romanização dos espaços religiosos, afastando os fiéis de práticas devocionais populares. Instituições como o Apostolado do Sagrado Coração faziam parte das práticas de controle da atividade pastoral. Mas apesar de sua formação romanizada, Padre Cícero defenderá a ocorrência do fenômeno místico, pagando um alto preço.

Ironicamente, a primeira manifestação mística ocorreu após uma vigília do Apostolado do Sagrado Coração, realizada na Igreja de Nossa Senhora das Dores na madrugada da primeira Sexta-Feira da Quaresma de 1889. Foi quando, após receber a comunhão do Padre Cícero, a beata Maria de Araújo foi tomada por uma "veemente dor, unida ao mesmo tempo a uma grande consolação da alma". "O interessante é que a hóstia se transformava em sangue mesmo quando o Padre Cícero não ministrava a comunhão, e isso se repetiu por dois anos". Já em 1889, iniciam-se as primeiras romarias à Juazeiro, porém "o objeto de culto não era o Padre Cícero ou as beatas, e sim o sangue precioso".

Devoção. "Inicialmente, o objeto de culto não era o Padre Cícero ou as beatas, e sim o sangue precioso"

Edianne dos Santos Nobre, Historiadora

REPRESSÃO - Almas unitivas, mulheres silenciadas

Fortaleza. O processo episcopal, instaurado pela Diocese do Crato, foi dividido em dois inquéritos. No primeiro, os investigadores se convencem que as beatas eram almas unitivas, ou seja, pessoas que poderiam manifestar milagres por sua pureza e devoção. No entanto, este primeiro inquérito foi rejeitado pelo então bispo do Crato, dom Joaquim José Vieira, que decide formar uma segunda comissão de inquérito.

"O que se percebe é que há uma determinação da Diocese do Crato em provar que os milagres eram um embuste, imbuída pela orientação da Santa Sé de suprimir a prática do catolicismo luso-brasileiro", coloca Edianne Nobre. De acordo com a historiadora, o perfil das beatas era bem variado, mas a maioria era de origem humilde. Dos nomes localizados durante a pesquisa, a mais nova tinha 15 anos e a mais velha, 50 anos. No grupo, apenas duas sabiam ler, e uma delas chegou a escrever um memorial descrevendo as visões e revelações que teve.

Apesar do caráter simples e do respeito à autoridade dos padres, houve momentos em que as beatas tomaram atitudes de transgressão para defender o que testemunharam. "Quando um dos padres da comissão de inquérito ministrou a hóstia para Maria de Araújo e não houve o sangramento, ele logo colocou que estava ali a prova de que era uma fraude. Ao que a beata retrucou que a hóstia não sangrou por ele estar em pecado, porque já pressupunha que aquilo era condenável". A Diocese do Crato logo tomou medidas severas para sufocar as alegações de que houve um milagre em Juazeiro. A ordem era para que as beatas silenciassem sobre tais fenômenos e ficassem recolhidas sob pena de excomunhão, sendo também proibidas de receber visitas. Além do Padre Cícero, outros 40 sacerdotes que acreditavam no milagre foram destituídos de suas ordens. "Só que estes pediram perdão a Dom Joaquim e foram reabilitados. Padre Cícero foi o único que nunca se retratou. Numa das cartas ao bispo do Crato, ele afirma ser obediente à Igreja, mas que não poderia trair a fé dele". Pessoas que declarassem acreditar nos milagres não podiam se confessar ou casar. "Muitos casais iam casar em cidades vizinhas para não terem que negar sua crença", reforça Edianne.

Como a menção ao sangue precioso foi proibida, opera-se uma ressignificação dos milagres que leva à organização de Juazeiro do Norte como cidade, no início do século XX. "Para justificar a devoção e impedir medidas extremadas da Diocese contra as romarias que chegavam a Juazeiro, Padre Cícero justifica o movimento como uma devoção não mais ao sangue precioso, mas à Mãe das Dores, padroeira do povoado. Destituído de ordens, Padre Cícero entra no campo da política e da organização urbana, articulando a transformação de Juazeiro do Norte em cidade, cuja independência do Crato será obtida em 1911".

Karoline Viana - Repórter - Diário do Nordeste – Fortaleza (CE), 18.4.2010

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=769986

 Observação: alguns anos depois o acesso a essa postagem neste site havia sido removido, não permitindo mais a algum estudioso se aprofundar na matéria. Tudo indica que havia uma trama para abafar o caso do padre Cícero. No entanto, uma piedosa senhora que auxilia nos trabalhos catequéticos do Crato me informou que o bispo de lá, Dom Fernando Panico, MSC, (bispo de 2001 a 2016), esteve com câncer em fase adiantada e foi aconselhado a rezar ao padre Cícero para sua cura, ao que o mesmo disse que não acreditava na intercessão dele, mas se fosse curado da doença passaria a acreditar. Rezou e o resultado é que foi curado. Foi assim que resolveu autorizar que se abrissem todos os arquivos secretos sobre os processos contra o padre Cícero, após o que alguns estudiosos andaram publicando muitas coisas ainda escondidas. Também deve-se a ele a iniciativa de abertura do processo diocesano pela beatificação de Benigna Cardoso da Silva, vítima de violência contra a castidade em Santana do Cariri (CE), concretizada em 24.10.2024.

Um jornalista veio de Fortaleza (Alan Neto, se não me engano), leu a documentação e publicou um livro sobre o Padre Cícero, onde esclareceu muitas questões até então obscuras ou controversas. A volta dos debates sobre o caso do padre Cícero fez com que o bispo autorizasse a abertura de processo para sua beatificação. Tal jornalista, no entanto, não publicou quase nada sobre as beatas (ou não teve acesso aos documentos ou omitiu-se de falar sobre o assunto), sabendo-se que há muito mais para se dizer sobre tais mulheres. Até mesmo o túmulo de uma delas foi retirado do cemitério para se evitar peregrinações dos devotos. Eram devotas simples e sinceras (a devoção ao Sagrado Coração de Jesus estava em franco progresso na época), as quais foram objeto de predileção divina com os milagres ocorridos. Um relato mais detalhado sobre elas foi feito pela historiadora Edianne dos Santos Nobre, acima citada, ao publicar em 2011 o livro “O Teatro de Deus”. Por sinal, Dom Fernando Panico pertence à ordem dos Missionários do Sagrado Coração (MSC). Sim, comprovadamente houve milagres eucarísticos, os quais alguns padres e bispos (pelo menos o bispo de Crato e o de Fortaleza são suspeitos de terem agido assim) quiseram abafar com perseguições odiosas e sem sentido. Isso motivou o Pe. Gabriel Vila Verde a publicar um interessante vídeo no youtube contando a verdade sobre o padre Cícero; eis o link https://www.youtube.com/watch?v=xUpWhhXLeZE&t=37s        O vídeo em questão foi retirado do YouTube. Mas o padre Gabriel Vila Verde publicou um livro sobre a matéria em 2020  sob o título de CORAÇÕES SACERDOTAIS - O padre Cícero na visão de outro padre.

Acrescento o texto abaixo, posterior à minha postagem, de 1.3.2026, com importantes informações sobre os milagres eucarísticos ocorridos naquele tempo:

"137 anos do Milagre da Hóstia do Precioso Sangue de Jesus, em Juazeiro do Norte.

O chamado Milagre da Hóstia de Juazeiro constitui um dos acontecimentos mais significativos da história religiosa do Nordeste brasileiro. O episódio, ocorrido em 1889, no então pequeno povoado da atual Juazeiro do Norte, envolveu diretamente a beata Maria de Araújo e o sacerdote Padre Cícero Romão Batista, marcando profundamente a trajetória do padre e redefinindo o destino histórico da localidade.

O fenômeno teve início em 1º de março de 1889, quando, durante a celebração da Eucaristia na capela de Nossa Senhora das Dores, a hóstia recebida por Maria de Araújo teria se transformado em sangue dentro de sua boca. O acontecimento repetiu-se outras vezes, gerando forte comoção entre os presentes e despertando crescente curiosidade e devoção popular. A notícia espalhou-se rapidamente pelo Cariri e pelas regiões vizinhas, provocando admiração entre os fiéis e preocupação nas autoridades eclesiásticas.

Entretanto, um momento decisivo para a consolidação pública do episódio ocorreu no primeiro domingo de julho de 1889, dia 7, quando a Igreja celebrava a Solenidade do Preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo. Naquela madrugada, realizou-se a primeira grande romaria ao “Joaseiro”. Cerca de três mil pessoas, vindas principalmente do Crato, percorreram as veredas em direção ao pequeno vilarejo. A peregrinação foi organizada pelo Monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro, então reitor do Seminário do Crato, autoridade respeitada por sua sólida formação filosófica e teológica.

A romaria não foi apenas deslocamento físico, mas experiência espiritual profunda. Como em tantas tradições religiosas, deixar a própria terra rumo a um “lugar santo” significava gesto de penitência, purificação e busca de sentido. Os romeiros atravessaram estradas pedregosas e arenosas movidos pela esperança de testemunhar algo extraordinário, fortalecendo sua fé por meio da oração e do sacrifício.

Durante a celebração, ocorreu um gesto inesperado e decisivo: do alto do púlpito, diante da multidão reunida, o reitor do seminário expôs publicamente os acontecimentos ligados ao suposto milagre da hóstia. Em seu sermão, descreveu minuciosamente os fatos e, como sinal concreto, apresentou ao povo uma das toalhas manchadas de sangue proveniente das ocorrências na capela. Em tom firme, declarou tratar-se do sangue de Jesus Cristo. O gesto provocou intensa comoção: lágrimas, exaltação e júbilo tomaram conta da assembleia.

Esse anúncio representou a quebra definitiva do silêncio que até então cercava os fenômenos iniciados em março daquele ano. Importa notar que a proclamação pública não partiu de Padre Cícero nem de Maria de Araújo, mas de uma autoridade eclesiástica de alto reconhecimento acadêmico e pastoral. O fato conferiu maior credibilidade popular ao acontecimento e ampliou enormemente sua repercussão.

Para Padre Cícero, porém, a situação foi motivo de profundo constrangimento e apreensão. Em carta dirigida ao bispo do Ceará, revelou sua angústia ao tomar conhecimento da exposição pública: afirmou ter ficado “para morrer de vexame”, desejando “sumir-se pelo chão adentro”. Tal reação demonstra o conflito interior vivido pelo sacerdote, dividido entre a devoção do povo e a obediência à hierarquia da Igreja.

A partir desse episódio, Juazeiro ingressa em uma nova fase histórica. A romaria de julho de 1889 pode ser considerada marco inaugural do movimento peregrinatório que transformaria o vilarejo em centro religioso de grande expressão. Centenas, depois milhares de pessoas passaram a acorrer ao local, buscando aconselhamento, trabalho, alimento e orientação espiritual.

A casa de Padre Cícero tornou-se ponto de acolhimento dos pobres e retirantes. Sua postura de escuta, conselho e proteção consolidou sua imagem como guia espiritual dos sertanejos. Muitos viam nele não apenas um sacerdote, mas um intercessor e defensor diante das adversidades sociais e econômicas que marcavam o Nordeste da época.

Assim, o acontecimento de julho de 1889 não apenas confirmou publicamente o fenômeno da hóstia, mas inaugurou um processo de transformação social, religiosa e urbana. Juazeiro deixou de ser um pequeno lugarejo para tornar-se polo de romarias e espaço simbólico de esperança e redenção para milhares de nordestinos.

O Milagre da Hóstia, portanto, representa na vida de Padre Cícero o início de uma trajetória marcada por tensões, perseguições e crescente liderança popular. Na história de Juazeiro, simboliza o ponto de partida de sua identidade como terra de fé, penitência e acolhimento, uma identidade que permanece viva na memória coletiva e nas romarias que até hoje movimentam a cidade.

Referência Bibliográfica: PINHO, Fátima. O Milagre da Hóstia de Juazeiro: entre a fé, a memória e a história. Revista Brasileira de História das Religiões, 2020.

 


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