(Revista "Dr. Plínio" n. 152, novembro de 2010)
Entre o Padre Eterno e a criação existe
o Homem-Deus: inteiramente Deus, como as outras Pessoas da Santíssima Trindade;
tão homem quanto cada um dos descendentes de Adão.
Resta, contudo, um tal abismo separando
Nosso Senhor Jesus Cristo das demais criaturas, que a pergunta se impõe: na
ordem das coisas não deveria haver um outro ser que, ao menos de algum modo,
preenchesse esse hiato?
Ora, a criatura chamada a completar este
vácuo no conjunto da criação, a criatura excelsa, infinitamente inferior a
Deus, mas ao mesmo tempo insondavelmente superior a todos os Anjos e a todos os
homens de todas as épocas – é precisamente Nossa Senhora.
A Virgem Santíssima é para Deus Padre a
mais eleita das criaturas, escolhida por Ele, desde toda a eternidade, para ser
Esposa de Deus Espírito Santo e a Mãe de Deus Filho. Para estar à altura dessa
dignidade, Maria havia de ser a ponta de pirâmide de toda a criação, acima dos
próprios Anjos, elevada a uma inimaginável plenitude de glória, de perfeição e
de santidade.
Por isso, Dante, na Divina Comédia (que
alguns dizem ser a Suma Teológica de São Tomás de Aquino posta em verso),
depois de ter passado pelo Inferno e pelo Purgatório, percorre os vários
círculos dos bem-aventurados no Céu. Quando chega no mais alto coro angélico,
ou seja, no píncaro da mansão celeste, o Poeta começa a divisar a glória de
Deus. É uma luz difusa, que seus olhos não conseguem sustentar.
Ele repara então num outro ser que está
acima dos Anjos: Nossa Senhora. A Virgem Santíssima lhe sorri, e Dante
contempla nos olhos d’Ela o reflexo da luz de Deus.
Acabou-se a Divina Comédia.
O olhar humano fitou o olhar puríssimo,
o olhar sacralíssimo, o olhar sumamente régio, o olhar indizivelmente materno
de Nossa Senhora. Tudo então está consumado: a Divina Comédia termina na mais
alta das cogitações humanas.
Nossa Senhora é o grampo de ouro que une
a Nosso Senhor Jesus Cristo toda a criação, da qual Ela é o ápice e a suprema
beleza.[1]
Mediante a Encarnação do Verbo no seio
puríssimo de Maria, Deus, por um ato de sua infinita bondade, criou os vínculos
que O ataram ao gênero humano. E Nossa Senhora, tornando-se Mãe d’Ele, passou a
ser também a Mãe espiritual de todos os homens.
Em vista disto, quando Ela pede a seu
Divino Filho por nós, é como uma mãe que intercede junto a um filho em
benefício de outro irmão deste. É impossível não atendê-la. Por isso os
teólogos atribuem a Nossa Senhora o título de Onipotência Suplicante. Em virtude de suas insondáveis perfeições,
Ela é sempre ouvida por Deus em suas preces a nosso favor, e d’Ele nos obtém
aquilo que, por nós mesmos, não mereceríamos.
Um exemplo pode ilustrar esta verdade.
Imagine-se uma mãe que tenha dois
filhos: um, reto e probo, exerce a função de juiz; o outro é simplesmente um
criminoso, ao qual o irmão deve julgar.
Que acontece, então?
A mãe se dirige ao filho magistrado e
lhe diz: “Meu filho, sei que tu és juiz e que a ti cabe aplicar a justiça. Os
defeitos de teu irmão são tais que exigem a pena de morte. Na verdade, porém,
tu, ó juiz, me deves igualmente a vida. Poupa a desse homem que merece a pena
capital, em atenção aos rogos daquela que te gerou!”
Que filho recusaria tão extremosa
súplica?
Pois bem, semelhante a esta, é a
intercessão de Maria em favor da humanidade pecadora. E por ser Ela a Mãe de
Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele Lhe concede tudo o que o melhor dos filhos pode
dar à melhor das mães.
E é tal o valor da impetração de Nossa
Senhora que, segundo o ensinamento da teologia, todas as orações de todas as
criaturas devem ser apresentadas por Ela a seu adorável Filho, porque assim o
dispôs a vontade divina.
Essa é a Mãe de uma doçura sem nome, de
ilimitada compaixão para com seus miseráveis filhos, em favor dos quais Ela
obtém o perdão e as graças do Juiz.
Quantos exemplos não atestam essa
incansável solicitude de Maria para com os homens! Tome-se, entre outros, o do
Bom Ladrão, a quem o Divino Crucificado, atendendo às súplicas de sua Mãe aos
pés do Madeiro, perdoou na hora extrema com a estupenda promessa: “Tu hoje
estarás comigo no Paraíso” (Lc XXIII,
43).
Compreende-se, assim, a importância de
Nossa Senhora , como ela alivia a nossa penosa existência, e enche de júbilo
nossas almas. Como seria soturna a vida de um católico, se não fosse a proteção
da Virgem. Ao contrário, como ela é leve, cheia de esperança, de perdão e de
afeto materno, com a contínua assistência de Maria – a Onipotência Suplicante.[2]
Maria
reconcilia os pecadores com Deus
Nossa Senhora tem olhos de misericórdia,
e um simples olhar d’Ela pode nos salvar. Sua doçura é invariável, seu auxílio
ilimitado, pronto a nos atender a qualquer momento, sobretudo nas dificuldades
de nossa vida espiritual. Estas costumam ser de duas ordens.
Em primeiro lugar, a crise que se
poderia chamar clássica, quando a
pessoa se sente tentada e, portanto, hesitante entre o bem e o mal, com a
possibilidade de ser arrojada no precipício do pecado de um momento para outro.
É bem evidente que Maria é nosso auxílio, na plenitude do termo, nessas
circunstâncias.
Contudo, a solicitude de Mãe de
misericórdia se volta também para aquele que se encontra em apuro espiritual
muito mais grave, e que se traduz por esta súplica: “Minha Mãe, eu, sucumbindo ao peso da tentação, não andei bem. Pequei.
Tenho o receio de me habituar ao pecado e de nele me embrutecer. Por outro
lado, imensa é a minha vontade de me regenerar. Sei que não mereço a vossa
proteção, mas, porque sois a Auxiliadora de todos os cristãos, não apenas dos bons, senão até dos
mais miseráveis, pelo-Vos: vinde e auxiliai-me”.
Portanto, nessa visualização, é o
próprio fato de se ter caído em pecado que se alega diante de Nossa Senhora,
como razão para obter seu socorro. É o desamparado que encontra no seu
infortúnio o motivo pelo qual deve implorar a misericórdia de Maria.
E está na missão da Santíssima Virgem, é
o movimento profundo de seu coração materno, reconciliar os pecadores com Deus.
Porque a Mãe tem bondades, ternuras, indulgências e paciências que outros não
possuem. Ela pede, então, ao seu Divino Filho por nós, e nos obtém uma série de
graças, um sem número de perdões que jamais alcançaríamos sem a sua
intercessão.[3]
Maria,
Templo onde Jesus quer ser invocado
Jesus viveu em Maria e, de Maria, Jesus
se comunicou aos homens. Nossa Senhora é o sacrário onde está Nosso Senhor
Jesus Cristo, e o santuário de dentro do qual todas as graças se difundem para
o gênero humano.
Por isso, devemos rezar a Jesus enquanto
vivendo em Maria, porque Ele quer ser invocado dentro do seu templo, que é a
Santíssima Virgem. Pedir a Ele o quê? Que Ele venha e viva em nós, como vivia
n’Ela.
Viver em nós, quer dizer, é ter o
espírito da santidade de Jesus Cristo, que é o espírito da Santa Igreja
Católica Apostólica Romana. E é, portanto, o espírito “ultramontano”, a
expressão mais característica do espírito da Santa Igreja.
Isto é o que devemos pedir a Jesus, por
meio de Nossa Senhora, enquanto vivendo n’Ela.[4]
Terrível adversária do demônio
“Uma
única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não
só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna
Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e
sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou
contra o demônio. Ele Lhe deu até, desde o Paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado
inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha
serpente, tanta força para vencer, esmagar a aniquilar esse ímpio orgulhoso,
que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos
os Anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus.
“Não que
a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da
Santíssima Virgem, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre
incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava
de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus
concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se
viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um
só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os Santos; e uma só
de suas ameaças que todos os outros tormentos”.[5]
Inimizade posta por Deus. É Nossa Senhora que
aparece com tudo que há de terrível em seu poder voltado contra o demônio e
seus sequazes, e com aquela maldição de Mãe arrasando até os alicerces do reino
dele.
Lindíssima é a ideia de que, já no Paraíso
Terrestre, quando Nossa Senhora existia apenas na mente de Deus, Ela A adornou
de algo como um instinto antidiabólico, à vista do demônio serpeando por aquele
Éden.
Com efeito, a primeira característica de Nossa
Senhora face ao demônio é o ódio. Assim como Ela foi cheia de graça, assim Ela
foi cheia de ódio contra esse amaldiçoado inimigo de Deus. Porque o ódio santo
é, evidentemente, um dom do Altíssimo. Ora, Maria está toda cheia dos dons de
Deus, logo está cheia de ódio ao demônio.,
Em seguida, São Luís Grignion fala da
clarividência que foi dada por Deus a Maria, para descobrir a malícia da velha
serpente. É, portanto, o ver claro, é a sagacidade, é a virtude evangélica da
astúcia, recomendada por Nosso Senhor, jogando contra a diabólica astucia e
liquidando o demônio! Donde as palavras de São Luís Grignion: “Tanta força para vencer, esmaga e aniquilar
esse ímpio orgulhoso”. É a batalha enunciada em todos os seus termos.
Assim, cheia de sagacidade e cheia de ódio, Nossa Senhora só pode ter vitórias.
“O temor
que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os Anjos e
homens e, em certo sentido, o próprio Deus”.
É uma maravilha de audácia, mas é a pura
verdade. Comparada com Deus, Nossa Senhora é menos do que uma pequena milícia
em comparação com o maior exército da terra. Assim, compreende-se o pensamento
de São Luís Grignion: é tal a humilhação que sofre o demônio sendo esmagado por
Nossa Senhora, que ele tem disto especial medo. E um único bater de cílios de
Maria, porque carregado de ódio a Satanás, põe em polvorosa o Inferno inteiro.
Ela é a inimiga por excelência do demônio; é
Aquela que passa sua eternidade lutando contra ele.
Na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus há
este lindo traço: ela disse que haveria de passar o Céu dela fazendo o bem
sobre a Terra. Interrogada por sua superiora se ela, então, do Céu protegeria
os homens, a Santa teve esta magnífica resposta: “Não, eu descerei!”
Nossa Senhora passa o Céu d’Ela fazendo o bem
sobre a terra, e se há quem possa dizer “Eu descerei”, é Ela, que tantas e
tantas vezes se tem mostrado aos homens. Mas, Ela faz duas formas de bem: o bem
para o homem e o mal para o demônio. De maneira que o “Eu descerei” da
Santíssima Virgem é também descer com o látego, com o castigo para o demônio e
seus empedernidos agentes humanos.[6]
AS PRECES DE MARIA ANTECIPARAM A
REDENÇÃO
...Todos os teólogos são acordes em
afirmar que, se a salvação raiou para o mundo na época em que raiou, devemo-lo
às preces onipotentes de Maria, que conseguiu antecipar o dia do nascimento do
Messias. Ninguém pode dizer quantos anos ou quantos séculos teria ainda
demorado a Redenção, sem as preces de Maria.
Não foi, pois, daqueles que, no tempo de
Augusto, se agitavam nas praças públicas ou nos conciliábulos políticos para
conseguir a reorganização do mundo, que esta reorganização veio. Ela veio da
oração humilde e confiante da Virgem Maria, inteiramente ignorada por seus
contemporâneos, e vivendo uma vida contemplativa e solitária, no pequeno
recanto, onde a Providência a fez nascer.
Sem com isto, desmerecer por pouco que seja a vida ativa, é preciso notar que foi por meio da oração e da contemplação, que se antecipou o momento da Redenção. E que os benefícios que o gênio de Augusto, o tino de todos os grandes políticos, todos os grandes generais, financistas e administradores de seu tempo não puderam dar ao mundo, Deus os dispensou por meio de Maria Santíssima. Quem mais beneficiou ao mundo não foi quem mais estudou, nem quem mais agiu, mas quem mais e melhor soube orar.[7]
[1] Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado, João Clá Dias, pág. 60.
[2]
op. cit. págs. 68/69.
[3]
Santa Gertrudes rezava, dizendo “Esses vossos olhos misericordiosos a nós
volvei”, quando Nossa Senhora lhe aparece mostrando-lhe os olhos do Menino
Jesus e dizendo: “Estes são meus olhos sobremaneira misericordiosos que posso
proveitosamente inclinar sobre quantos me invocam, enriquecendo-os com
abundante fruto da salvação eterna”. (op. cit. pág. 70).
[4]
op. cit. pág.
86).
[5]
Cf. “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís Grignon de
Montfort.
[6]
op. cit. págs.
108/110
[7]
Revista “Dr. Plínio”,
nº 33, dezembro de 2000

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