terça-feira, 7 de abril de 2026

A CORTESIA NO OLHAR SEGUNDO SÃO JOÃO BATISTA DE LA SALLE

 

São João Batista de La Salle discorre sobre a importância do olhar na cortesia cristã:

O Sábio diz: Muitas vezes, por aquilo que aparece nos olhos[1], se conhece o que uma pessoa tem no fundo de sua alma e qual é sua boa ou má disposição. E embora não se possa ter plena certeza disso, não deixa de ser um sinal bastante geral. Assim, um dos primeiros cuidados que se deve ter no que se refere ao exterior é compor bem os olhos e regular bem a vista.

Uma pessoa que quer fazer profissão de humildade e modéstia e ter um exterior correto e sossegado deve procurar ter os olhos meigos, serenos e recatados.

Aqueles a quem a natureza não deu esta vantagem e que não têm esse encanto precisam procurar corrigir a falta por uma atitude alegre e modesta e cuidar de não tornar seus olhos mais desagradáveis por sua negligência.

Há pessoas que têm os olhos horríveis, que manifestam um homem encolerizado ou violento; e há outros que sempre têm os olhos extremamente abertos e que olham com ousadia, o que ordinariamente denota um espírito insolente que não tem respeito com as pessoas.

Outras pessoas há que têm os olhos soltos e que nunca param, olham ora de um lado e ora de outro o que é próprio de uma cabeça leviana. Encontram-se algumas vezes outras que mantêm os olhos fixos num objeto que parece querem devorar com os olhos. Entretanto acontece muitas vezes que essas pessoas não prestam a mínima atenção ao objeto que lhes é apresentado. São ordinariamente pessoas que pensam forte em algum negócio que lhes é muito importante, ou que têm um espírito vago sem se fixar em nada determinado.

Há outras ainda que olham fixamente para o chão e também algumas vezes para os lados como pessoas que procuram com os olhos alguma coisa que tivessem perdido. São espírito inquietos e atrapalhados que não sabem o que fazer para sair de sua inquietação.

Todas essas maneiras de manter os olhos e de olhar são completamente contra a cortesia e as boas maneiras e só se podem corrigir mantendo o corpo e a cabeça eretos e os olhos modestamente abaixados e procurando ter um exterior livre e acolhedor. Como não é educado ter a vista muito para cima, também os que vivem no mundo não devem mantê-la baixa demais, porque isto seria mais próprio de um religioso do que de um secular. Os eclesiásticos, contudo, e os que pretendem sê-lo, devem todos aparecer com os olhos e um exterior muito reservado.

Pois é de boa educação para os que se comprometeram ou que pretendem comprometer-se nesse estado de vida, se acostumarem à mortificação de seus sentidos e mostrarem, por sua modéstia, que, sendo consagrados a Deus ou querendo consagrar-se a Deus, têm o espírito ocupado com ele e com o que se refere a ele.

A regra que se pode tomar com referência com os olhos é mantê-los medianamente abertos e proporcionais com o tamanho de seu corpo, de modo que se possa ver distinta e facilmente todas as pessoas com quem se está. Contudo não se deve olhar fixamente sobre o que quer que seja, especialmente sobre pessoas de sexo diferente, ou os superiores, e se for preciso olhar alguém, deve ser de maneira natural, bondosa e honesta e que não se possa notar nos olhares nenhuma paixão nem afeição desregrada.

É muito incivil olhar de soslaio, pois isto é sinal de desprezo e não pode ser permitido, exceto aos patrões para com os empregados para os repreender de alguma falta grosseira em que tivessem incorrido. Também é desagradável mover constantemente os olhos, pestanejar seguidamente, porque isto é próprio de pouco talento.

Não menos contra a cortesia como contra a piedade é olhar leviana e curiosamente tudo o que se apresenta, e deve-se procurar não olhar de longe demais, e olhar diante de si, sem mover nem a cabeça nem os olhos de um lado para o outro. Mas como o espírito do homem é naturalmente levado a ver e a saber tudo, é muito necessário vigiar sobre si para abster-se disso e dirigir muitas vezes a Deus estas palavras do Profeta-Rei: Meu Deus, desviai meus olhos e não permitais que se fixem olhando coisas inúteis.[2]

É uma grande descortesia olhar por cima dos ombros voltando a cabeça; agir assim é desprezar as pessoas com quem se está. Outra grande descortesia é olhar por cima dos ombros e por detrás de uma pessoa que está lendo ou segurando alguma coisa, para ver o que está lendo ou segurando.

Há alguns defeitos referentes à vista os quais estão muito perto da baixeza ou da leviandade, de maneira que ordinariamente as crianças ou os escolares são capazes de cair neles. Por mais grosseiros que sejam esses defeitos, ninguém deve surpreender-se de que se fale disto aqui, para que as crianças tomem cuidado nisso e que se possa vigiar sobre elas para as impedir que se permitam tais coisas.

Às vezes encontram-se pessoas que fazem caretas com os olhos para se mostrar horríveis; e outras que imitam os vesgos e os zarolhos para fazer rir os outros. Algumas vezes se veem alguns que esbugalham os olhos com os dedos. Encontram-se também alguns que olham com um dos olhos fechado, como fazem os atiradores de balestra[3] quando visam ao alvo. Todas estas maneiras de olhar são completamente descorteses e inconvenientes. Não há pessoa razoável nem as crianças de boa família que não considerem todas essas caretas como coisas indignas de um homem honesto”.

 

(“As Regras de Cortesia e de Civilidade Cristã”, de São João Batista de La Salle, Capítulo VI, Dos olhos e da vista)



[1] Eclo 19, 26

[2] Sl 118 (119), 37

[3] Espécie de atiradeira, também chamada de besta.

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