São João Batista de La
Salle discorre sobre a importância do olhar na cortesia cristã:
“O Sábio diz:
Muitas vezes, por aquilo que aparece nos olhos[1],
se conhece o que uma pessoa tem no fundo de sua alma e qual é sua boa ou má
disposição. E embora não se possa ter plena certeza disso, não deixa de ser um
sinal bastante geral. Assim, um dos primeiros cuidados que se deve ter no que
se refere ao exterior é compor bem os olhos e regular bem a vista.
Uma pessoa que quer
fazer profissão de humildade e modéstia e ter um exterior correto e sossegado
deve procurar ter os olhos meigos, serenos e recatados.
Aqueles a quem a
natureza não deu esta vantagem e que não têm esse encanto precisam procurar
corrigir a falta por uma atitude alegre e modesta e cuidar de não tornar seus
olhos mais desagradáveis por sua negligência.
Há pessoas que têm os
olhos horríveis, que manifestam um homem encolerizado ou violento; e há outros
que sempre têm os olhos extremamente abertos e que olham com ousadia, o que
ordinariamente denota um espírito insolente que não tem respeito com as
pessoas.
Outras pessoas há que
têm os olhos soltos e que nunca param, olham ora de um lado e ora de outro o
que é próprio de uma cabeça leviana. Encontram-se algumas vezes outras que
mantêm os olhos fixos num objeto que parece querem devorar com os olhos.
Entretanto acontece muitas vezes que essas pessoas não prestam a mínima atenção
ao objeto que lhes é apresentado. São ordinariamente pessoas que pensam forte
em algum negócio que lhes é muito importante, ou que têm um espírito vago sem
se fixar em nada determinado.
Há outras ainda que
olham fixamente para o chão e também algumas vezes para os lados como pessoas
que procuram com os olhos alguma coisa que tivessem perdido. São espírito
inquietos e atrapalhados que não sabem o que fazer para sair de sua
inquietação.
Todas essas maneiras
de manter os olhos e de olhar são completamente contra a cortesia e as boas
maneiras e só se podem corrigir mantendo o corpo e a cabeça eretos e os olhos
modestamente abaixados e procurando ter um exterior livre e acolhedor. Como não
é educado ter a vista muito para cima, também os que vivem no mundo não devem
mantê-la baixa demais, porque isto seria mais próprio de um religioso do que de
um secular. Os eclesiásticos, contudo, e os que pretendem sê-lo, devem todos
aparecer com os olhos e um exterior muito reservado.
Pois é de boa educação
para os que se comprometeram ou que pretendem comprometer-se nesse estado de
vida, se acostumarem à mortificação de seus sentidos e mostrarem, por sua
modéstia, que, sendo consagrados a Deus ou querendo consagrar-se a Deus, têm o
espírito ocupado com ele e com o que se refere a ele.
A regra que se pode
tomar com referência com os olhos é mantê-los medianamente abertos e
proporcionais com o tamanho de seu corpo, de modo que se possa ver distinta e
facilmente todas as pessoas com quem se está. Contudo não se deve olhar
fixamente sobre o que quer que seja, especialmente sobre pessoas de sexo
diferente, ou os superiores, e se for preciso olhar alguém, deve ser de maneira
natural, bondosa e honesta e que não se possa notar nos olhares nenhuma paixão
nem afeição desregrada.
É muito incivil olhar
de soslaio, pois isto é sinal de desprezo e não pode ser permitido, exceto aos
patrões para com os empregados para os repreender de alguma falta grosseira em
que tivessem incorrido. Também é desagradável mover constantemente os olhos,
pestanejar seguidamente, porque isto é próprio de pouco talento.
Não menos contra a
cortesia como contra a piedade é olhar leviana e curiosamente tudo o que se
apresenta, e deve-se procurar não olhar de longe demais, e olhar diante de si,
sem mover nem a cabeça nem os olhos de um lado para o outro. Mas como o espírito
do homem é naturalmente levado a ver e a saber tudo, é muito necessário vigiar
sobre si para abster-se disso e dirigir muitas vezes a Deus estas palavras do
Profeta-Rei: Meu Deus, desviai meus olhos e não permitais que se fixem olhando
coisas inúteis.[2]
É uma grande
descortesia olhar por cima dos ombros voltando a cabeça; agir assim é desprezar
as pessoas com quem se está. Outra grande descortesia é olhar por cima dos
ombros e por detrás de uma pessoa que está lendo ou segurando alguma coisa,
para ver o que está lendo ou segurando.
Há alguns defeitos
referentes à vista os quais estão muito perto da baixeza ou da leviandade, de
maneira que ordinariamente as crianças ou os escolares são capazes de cair
neles. Por mais grosseiros que sejam esses defeitos, ninguém deve
surpreender-se de que se fale disto aqui, para que as crianças tomem cuidado
nisso e que se possa vigiar sobre elas para as impedir que se permitam tais
coisas.
Às vezes encontram-se
pessoas que fazem caretas com os olhos para se mostrar horríveis; e outras que
imitam os vesgos e os zarolhos para fazer rir os outros. Algumas vezes se veem
alguns que esbugalham os olhos com os dedos. Encontram-se também alguns que
olham com um dos olhos fechado, como fazem os atiradores de balestra[3]
quando visam ao alvo. Todas estas maneiras de olhar são completamente
descorteses e inconvenientes. Não há pessoa razoável nem as crianças de boa
família que não considerem todas essas caretas como coisas indignas de um homem
honesto”.
(“As
Regras de Cortesia e de Civilidade Cristã”, de São João Batista de La Salle,
Capítulo VI, Dos olhos e da vista)

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