(Pequeno conta sobre os Novíssimos do Homem)
Juraci Josino Cavalcante
Porciúncula ficou viúva repentinamente, e lá no
sítio onde morava era dificílimo não somente o socorro de um médico, mas até
mesmo de quem levasse o cadáver de seu marido para o cemitério. Não tendo
filhos ou parentes para lhe fazer companhia, ficou sozinha na casa velando o
corpo do marido enquanto um mensageiro se dirigia ao povoado mais próximo em
busca de auxílio.
Na presença do corpo inanimado viu-se então,
aquela viúva, na contingência de meditar sobre a morte. Asdrúbal era um homem
forte, robusto e ainda jovem quando faleceu. Prometia muito futuro para o
casal, que havia se transferido para aquele lugar logo após o casamento. Era um
recanto longínquo, mas que possuía boas terras para serem cultivadas, podendo
garantir o sustento da família então nascente. Dona Porciúncula olhava para o
corpo inerte de Asdrúbal e pensava em mil coisas, ali sozinha, a espera do carro
que iria transportar o corpo do finado.
Que transformação! Era este o primeiro
pensamento dela. Aquele que pela manhã havia lhe falado com voz forte e sonora
antes de partir para o trabalho no campo; aquele que pouco antes lhe prometera
muitos afagos e favores e que prometera viver em sua companhia por muitos e
muitos anos, jazia ali mudo para sempre. Aquele cujo semblante lhe transmitira
tanta alegria e esperanças, agora permanecia hirto, empertigado, pele
amarelecida, cabelos endurecidos, olhos estáticos. Seus olhos não mais viam,
sua boca não mais falava e tudo era sinistro em seu corpo. Não, não era mais o
mesmo Asdrúbal: a morte o transformara completamente. As mãos e os pés estavam
com uma cor meio azulada. Não havia mais nenhum sinal de vitalidade no corpo.
Era o início da decomposição.
Sentada, pensativa e triste, levantou os olhos
e divisou na parede uma pequena estrofe poética que o próprio marido havia
dependurado:
“Ó tu mortal que me vês
Olha bem como estou:
Eu já fui o que eu és
E tu serás o que eu sou”
Ao lado da poesia, um esqueleto humano.
Porciúncula assustou-se e clamou; “Meu Deus!
Daqui a algum tempo nada mais restará do Asdrúbal a não ser um esqueleto como
aquele!” Arrepiou-se e pensou em rezar. Lembrou-se que havia trazido entre seus
pertences um rosário e foi procurá-lo para rezar. A oração era o melhor
lenitivo para a sua alma e também para a do morto. O tempo passava e ela rezava
contrita, constantemente assaltada, vez por outra, por pensamentos de toda
espécie. Estava absorta em suas orações quando lhe pareceu ouvir a voz do
defunto:
- Você também, Porciúncula, um dia terá o mesmo
fim! Todos nós estamos sujeitos à morte. Eu apenas a enfrentei antes...
A voz era bem nítida, mas soava apenas em seu
interior. Mesmo assim, resolveu pensar alto.
- Custa a crer que isso seja verdade: por que
temos medo de morrer? – indagou a si mesma.
Ouviu novamente a mesma voz:
- Não deveríamos ter medo porque é a hora em
que vamos nos encontrar com nosso Criador, motivo principal de nossa
existência.
- Por que este medo, então?
- Por causa do pecado de Adão e Eva, nossos
primeiros pais. Depois do pecado original todos os homens ficaram sujeitos à
dor, ao sofrimento e à morte e, ao morrer, ao juízo divino. Talvez
imperceptivelmente sentimos em nosso interior um medo maior deste juízo do que
da própria morte. E isso por causa de nossos pecados. Por aí você vê a
gravidade do pecado. Lembre-se sempre que um dia também me fará companhia na
outra vida...
- Mas, vai demorar... se Deus quiser.
- Não, não vai demorar. Nossa vida na terra
passa muito rápido. A minha durou pouco mais de 20 anos, e é como se estivesse
nascido ontem. Alguns vivem menos, outros vivem mais, mas no final parece que o
tempo passado é o mesmo. Nossos avós,
por exemplo, viveram bem mais, 70 ou 80 anos, mas veja como passou rápido!
- Como você está mudado...
- Sim, realmente a morte nos deixa mudados.
Principalmente o nosso corpo. Olhe bem para o seu rosto, vá até um espelho e
veja como ela está...
- Muito bem, estou me olhando no espelho e vejo
quanto sou ainda jovem e saudável. Portanto, deverei viver muitos anos ainda...
- Pense bem como ele se transformará um dia,
sendo assim tão belo e saudável, como aliás todo o corpo, que será apenas uma
matéria inerte. Inicialmente desaparecerá todo o sangue: esta tez rosada que
você tem, igual à minha quando eu vivia, ficará igual a esta de meu cadáver.
Olhe agora para ele e veja como se encontra a minha pele, descorada, lívida;
veja minhas mãos, meus pés, todo o corpo, compare-o com o seu e lembre-se que
um dia ele ficará igual ao meu agora.
As vozes soavam em seu interior como se alguém
falasse de verdade aos seus ouvidos.
Pôs-se, então, a chorar e a se lembrar de seus pecados, que eram muitos.
Com o terço na mão, indagou:
- Que fazer se eu nunca me preparei para a
morte?
Como resposta, a voz soou novamente em seu
interior:
- O mais breve possível procure colocar em
ordem sua alma. Vá a um sacerdote, se confesse, descarregue sua consciência, e
depois comungue para que Nosso Senhor Jesus Cristo a confirme em estado de
graças, trazendo-lhe paz de espírito. Assim preparada, cotidianamente, Deus lhe
dará forças para enfrentar a morte com tranquilidade.
- E o que vem depois da morte?
- Para alma virão as consequências da vida que
levamos na terra. Irá para o Céu, para o Purgatório ou para o Inferno. Logo
após a morte somos julgados por Nosso Senhor Jesus Cristo, é o juízo
particular. Se estivermos com a alma pura, sem mácula e em união com a Vontade
e a graça divina, iremos então diretos para o Céu; se ainda tivermos muitas
falhas a corrigir, isso será feito no Purgatório, de onde as almas sairão um
dia purificadas para o Paraíso Celeste. Por último, se a pessoa tiver sido má,
em consequência da vida ímpia e maldade levada na terra, demonstrando
encontrar-se em franca oposição a Deus, será precipitada no Inferno.
- Isso quanto à alma; e quanto ao corpo?
- Este se desmanchará, se decomporá
completamente. Primeiramente vai ser pasto de vermes. Quando não houver mais
carne os vermes vão comer uns aos outros. Imagine você, com este belo corpo, e
uma multidão de vermes andando pelo seu rosto, alguns entrando pelo nariz,
outros pelos ouvidos e pela boca, indo até às entranhas, comendo a língua, a
garganta, as faces, etc. Dentro de pouco tempo começarão a surgir enormes
buracos e outras multidões de vermes deles sairão, misturando-se com a terra e
com a água purulenta que o corpo ainda expelirá. Sua alma, onde estiver, vai
pensar em quão inútil foi o desvelo, o cuidado e a vaidade que teve aquele
corpo, outrora tão formoso e agora aos poucos virando lama fedorenta e
asquerosa.
- Lama asquerosa?
- Sim; em pouco tempo, lá embaixo da terra, a
água purulenta misturada com a terra e com os vermes, farão de nosso corpo uma
simples lama fedorenta e de causar asco. Ninguém suportará o seu mau cheiro!
Tanto assim que não se guarda defunto ao ar livre, tem que ser debaixo da
terra, pois do contrário ninguém suportaria o fedor. Compare um pouco com
aquela lama que corre de nossa pocilga...
Porciúncula treme, soluça e sai de perto do
cadáver, correndo para bem longe a fim de não ouvir mais aquelas vozes interiores.
Sua consciência, no entanto, em breve mostrar-lhe-á que sua atitude de nada
adiantou, pois lá foram os pensamentos voltavam ao mesmo assunto. Fica vagando
pensativa. Ao longo de sua caminhada em redor da casa, de repente se depara com
a pocilga, pára e fica contemplando a lama que lá escorria. Apesar do mau
cheiro, aproxima-se da lama e numa parte de águas mais claras fica olhando para
seu rosto refletido nela. E pensava; “Será que um dia eu vou realmente ficar
daquele jeito que ele falou? Será que ficarei naquele estado e ainda com tal
mau cheiro?”.
Repentinamente, o vento trouxe até ela um
repugnante mau odor da lama, levando-lhe à memória as palavras de Asdrúbal. A
ideia da morte para ela ficou muito mais viva, então. Resolve voltar para a
casa e enfrentar a situação na presença do corpo do marido. Lá retorna
novamente suas orações e fica aguardando o transporte que o garoto foi buscar
no povoado.
Pelo cair da tarde chega o automóvel. De
início, o motorista alegou algumas dificuldades para transportar o cadáver,
pois estava sem o caixão e não devidamente preparado. Mas ali não havia como
fazê-lo e, assim, após muita insistência da viúva e um pouco compadecido
resolveu aceitar a empreitada. Acomodaram o defunto na parte traseira do
veículo, ficando na frente o motorista e dona Porciúncula. O garoto, que
residia próximo, ficou na casa para cumprir algumas determinações da viúva.
A viagem não era tão longa, mas estava ficando
escuro e o motorista começou a viagem acelerando bastante o veículo. No entanto,
decorridos alguns quilômetros, o carro quebra. Após diversas tentativas de
consertá-lo o dono do veículo só o conseguiu quando já era noite. Vendo que
transportava apenas um cadáver e a viúva, o motorista tomou uma decisão
drástica, alegando que temia fazer aquela viagem à noite por temer dos mortos.
Tirou o corpo do cadáver de dentro do carro, colocou-o no chão e disse para a
viúva que não poderia continuar a viagem. Nem sequer tinha coragem de trazê-los
de volta para o lugarejo de onde vieram. Alegou, também, que ela deveria ter
dito a ele que não tinha dinheiro no momento, e que só o teria quando chegasse
na cidade. Prometeu que iria atrás de outro que a pudesse transportar, caso
houvesse algum no lugarejo. E partiu celeremente.
Largada numa estrada erma e inóspita, dona
Porciúncula pôs-se a chorar ao lado do corpo do marido. Lembrou-se do rosário e
começou a rezar novamente. Foi ao mato, quebrou dois galhos e fez uma tosca
cruz. Não havia luz nenhuma, não tinha lua no céu, e tudo estava escuro. Não ouvia
outros ruídos a não ser o coaxo dos sapos e o zumbido dos insetos.
Após longo tempo naquela aflição, cansou e
adormeceu. Mas logo acordou sobressaltada. Era a solidão, o tédio, o abandono
completo, que não a deixava dormir, além do desconforto de estar no chão duro e
cascalhado. O silêncio da noite espessa só era rompido pelos grilos, sapos e
demais insetos que infestavam as matas. E, por cima de tudo, tinha medo de
aparecer uma cobra e picá-la. Invadida por um medo pavoroso, começou a chorar.
Desta vez sua mente não foi afetada pela ideia de morte, mas de medo, de terror,
de pavor. Seus pensamentos começaram a se voltar para sua alma, e lembrou como
deveria ser terrível a perdição eterna, mil vezes pior do que aquela aflição.
Lembrou de suas aulas de catecismo quando era
criança, quando lhe disseram que no Inferno sofria terrível solidão e desespero
a alma condenada. Olhava para o cadáver, ali estendido á sua frente, e começava
a se lembrar do que lhe parecia ter ouvido dele pela manhã. Em seguida corria o
olhar pelos arredores e só via escuridão, causando-lhe terrível sensação de
pavor. Pensou em fugir dali, mas não conhecia o caminho. Tentou andar um pouco
na estrada, mas logo voltou, pois não lhe agradava a ideia de deixar ali
abandonado o corpo de seu marido. Pôs-se novamente de joelhos perante a
precária cruz que armara e começar a rezar o rosário, entrecortando as orações
com altos soluços.
A certa altura pareceu-lhe ouvir novamente a
voz do marido. Petrificada pelo medo, ficou muda e estática ouvindo o que ele
dizia:
- Tu tens medo, mas não tens a mínima ideia do
pavor que se tem na presença da Justiça
Divina aquele que pecou. As trevas que cobrem este lugar nada são se comparadas
com as do Inferno, onde gemem os réprobos eternamente. A solidão que aqui
campeia não reflete nem a pálida ideia da terrível solidão do Inferno, onde a
pior ausência é a do próprio Deus. Aqui tu ainda tens ainda consolo nas
orações. Reza, pois, que Deus se lembrará de ti.
Tomando coragem, respondeu:
- Aquele amigo que nos visitou naquele dia
falou que o Inferno não existe. Disse que Deus é muito bom para permitir que os
seres criados por Ele sejam condenados a um tal suplício eterno.
- É tudo mentira. O Inferno existe, sim. Negar
a existência do Inferno é a melhor maneira de se preparar para cair nele. Quem
julga que a Bondade de Deus não castiga é porque deseja pecar à vontade sem
criar problemas de consciência. E assim evita o temor. E quem não tema a Deus
torna-se indiferente a Ele e suas Leis, não praticando seus Mandamentos. Não
praticando seus Mandamentos torna-se uma pessoa ímpia. Sem temer a justiça
divina o ímpio apega-se a seus vícios, passando a detestar tudo o que o possa
contraria, como por exemplo o Decálogo e as virtudes cristãs. Na hora da morte
se desespera, falta confiança em Deus caindo, portanto, no Interno, no qual não
acreditava ou negava a existência.
- Mas, ele existe do jeito que falam? Será que
não há também muita imaginação das pessoas?
- Ele não é exatamente do jeito que falam, mas
muito pior. Olhos humanos nesta terra jamais viram; ouvidos jamais ouviram,
enfim, pessoas vivas jamais vislumbraram o tanto de tormentos que se passa no
Inferno. Apenas Deus permite que nos seja dado ter uma vaga ideia, e no entanto
às vezes tão dura para nós, mas que verdadeira.
- Que tipo de sofrimentos se passa por lá?
- Em primeiro lugar, a perda de Deus; depois
vem o remorso de consciência; em terceiro lugar a certeza de que seu destino
ali é eterno, não acaba nunca; depois vem o sofrimento pelo fogo, que queima
mas não consome.
- Como assim, queima, mas não consome?
- Todo fogo arde e queima por sua própria
natureza, mas o do inferno não consome, isto é, deixa sem alteração o que está
nele ardendo, deixa intacta sua natureza íntima e composição. Mas, ainda tem um
último tipo de sofrimento, que é a escuridão completa e um terrível cheiro
sufocante; embora haja completa escuridão os condenados podem se ver uns aos
outros.
- Qual é o maior sofrimento deles?
- É a ausência de Deus e a presença constante
do demônio, que nunca deixa de atormentá-los. Como consequência vêm outros
tormentos, como desespero, ódio a Deus, blasfêmias, maldições, etc.
- Existem realmente aqueles tanques cheios de
enxofre, com os diabos de tridente assando as almas, etc.?
- Lá existem não somente tais coisas imaginadas
pelo homem, mas há coisas piores imaginadas pelos próprios demônios, que
possuem inteligência superior e a usam naquele lugar com único fim de
manifestar seu ódio a Deus e às criaturas. Nisso eles são “especialistas”.
Existem tormentos especiais reservados para punir cada tipo de pecado praticado
na terra e não redimido. Cada alma é atormentada com o que pecou, de forma
horrível, indescritível. Há também lá horríveis prisões subterrâneas, abismos
insondáveis e sem fim, em geral cheios de animais peçonhentos lá postos para
atormentar seus habitantes.
- E tais animais existem por lá? Como isso é
possível se tudo lá é espírito?
- Chegará o dia em que os corpos serão
ressuscitados e as almas os tomarão de volta. Aí começará o inferno material
que se juntará ao espiritual. Assim como no Céu há o “Céu Empíreo”, destinado
aos corpos humanos, no inferno também haverá um lugar destinado aos mesmos,
acompanhados também de tudo o que a natureza material humana requer. Os animais
são imaginados entre nós para representar certos males e destinados a
atormentar os homens.
- Incrível isso: animais destinados a
atormentar o homem?
- Sim, porque lá tudo tem tal finalidade. Existem
supostos animais deste tipo que enxameiam numa só pessoa e dela não largam,
picando-a, aferroando-a, enchendo-a de peçonhas e pelos repelentes. Já
imaginou, uma pessoa vaidosa, que na terra vivia se enfeitando com finas roupas
e perfumes agradáveis, destas que não toleravam sequer um sujinho nas mãos ou
corria de uma simples formiguinha com nojo, e no entanto lá se ver coberta de
tais animais asquerosos por toda a eternidade? Isto não causa terrível
tormento?
- Claro! Não quero nem pensar.
- Agora, consciente de tudo isso, reza e pede a
Deus que lhe dê a oportunidade de se preparar condignamente para a morte e
alcançar da misericórdia divina o perdão de teus pecados. Medita sempre nos
novíssimos do homem e nunca pecarás, diz a Sagrada Escritura...
- O que vem a ser os novíssimos do homem?
- São os passos que nos esperam no fim da vida:
a morte, o juízo, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. E então se meditares na
morte, na justiça com Deus te julgará em seguida pelo que obraste enquanto
vivestes, no Purgatório que purificará teus vícios e defeitos, no Paraíso que
premiará tua vida se tiveres morrido na amizade de Deus, ou, finalmente, no
Inferno que te punirá eternamente se tiveres morrido na ira divina. Temos
também o Juízo Universal, quando todos os povos serão julgados por Deus no fim
do mundo.
Estava absorta neste diálogo interior
(parecendo recordar-se de lições catequéticas recebidas no passado) quando
começou a ouvir um pequeno ruído distante, parecendo ser de um carro que se
aproximava. Rezava aos pés de sua tosca cruz neste momento e a voz de Asdrúbal
não se ouvia mais. O ronco do carro foi se aproximando, quando ela percebeu que
já havia sinais dos primeiros albores da manhã.
O padre Adolf era um velho missionário
Austríaco, remanescente dos sacerdotes tradicionais que andavam pelos sertões,
pelas brenhas e matas, povoados distantes e abandonados, pregando missões,
confessando, celebrando missas e ministrando alguns sacramentos, como batismo,
extrema unção e comunhão a sadios e enfermos. Quando viu a viúva dando sinais
com a mão, e aos pés o defunto com a cruz, imediatamente mandou parar o carro.
Tanto o padre Adolf quanto seu motorista, o
senhor Tolentino, ficaram horrorizados e indignados com o procedimento do
motorista que havia deixado a viúva com o corpo do finado ali na beira da
estrada. Acomodaram o defunto no carro, junto com a viúva, parte traseira do
veículo, e continuaram a viagem. Enquanto viajavam, dona Porciúncula contou sua
triste história.
Inicialmente, ela não quis falar do que lhe
parecera ouvir ser a voz de Asdrúbal. Mas, por curiosidade, fez diversas perguntas
ao padre sobre a morte e o Inferno. O Padre Adolf ouvia suas perguntas e
confirmava aquilo que a Doutrina Católica ensinava sobre o assunto. Além do que
ela ouvira, o padre acrescentou mais alguns princípios que a voz de Asdrúbal
não falara. A certa altura, perguntou a viúva:
- Padre, mas é justo que Deus condene alguém a
um castigo eterno, que dure para sempre? O pecado que ele cometeu não foi aqui
na terra? Por que Deus não faz ele cumprir sua pena aqui mesmo? Como é que um crime é finito e pode ser
punido com pena infinita? Não há desproporção injusta nisso?
- A pena é eterna porque tudo na outra vida é
eterno – pena e glória. Mas não é o fato de aqui se cometer que nos faz
merecedor de castigo aqui mesmo. Isto porque aqui o cometemos, com atos finitos,
mas a ofensa é feita a Deus, que é eterno e infinito. Tantos nossos méritos
como deméritos provêm de atos finitos, mas como consequências infinitas. Quer
dizer, o ato é finito, mas a ofensa é infinita por causa da infinitude do
Ofendido. Daí a razão de ser infinita a pena ou o prêmio.
- Não haverá um dia em que Deus acabe com o
inferno e levem todos para o Céu, como ato supremo de sua Bondade para com os
seres por Ele criados? Poderia criar um Céu menor para eles...
- Nós todos não conseguimos, às vezes, entender
bem tais coisas por causa de nosso curto entendimento. Mas, os que lá estão o
entendem muito bem. E os condenados lá estão porque o quiseram e de lá nunca
desejam sair. Isso porque eles não toleram a presença de Deus, e o Paraíso nada
mais é do que a visão de Deus. De modo que, precipitá-los no Inferno, afastados
da presença de Deus, além de ser um ato essencialmente de justiça, de algum
modo é também um ato de misericórdia. Deus os amaldiçoa e os condena porque
eles assim o querem. Sofreriam mais estar na presença de Deus do que ali
naquele suplício, se que é que alguém pudesse sofrer algo por estar perante
Deus. De outro lado, seria injusto
levá-los para o Céu se nada fizeram para merecê-lo.
- E que merecimentos têm os outros?
- Ora, muitos. Veja a vida dos santos, por
exemplo. Quanto sofrimento, quanto amor a Deus e ao próximo, quanto sangue
derramado. Você acharia justo, por exemplo, que vivessem na glória eterna, lado
a lado, um Santo como Santo Agostinho e Lutero? Um São Tomás ao lado de um
Hitler?
- Claro que não!
-Pois é: entre eles há um abismo
intransponível. Os santos e bem-aventurados no Céu; os réprobos e condenados no
Inferno. Não imaginas como é terrível o inferno!
- Não, padre, não me fale sobre o Inferno, por
favor. Eu sei muito bem dos padecimentos que lá sofrem as almas condenadas.
Gostaria que me falasse sobre o Paraíso celeste...
- Se sabes tanta coisa assim sobre o Inferno,
diga-me um pouco do que sabe.
Dona Porciúncula passou a repetir, mais ou
menos, tudo o que lhe parecera ouvir antes da voz de Asdrúbal sobre os
sofrimentos do Inferno. O padre Adolf ficou admirado, pois ela lhe transmitiu
corretamente tudo o que ensina a Doutrina Católica sobre o assunto.
- Muito bem, é isso mesmo. Mas fique sabendo de
uma coisa. Para nós torna-se um pouco mais fácil falar sobre o Inferno do que
sobre o céu.; isto porque a vida moderna é cheia de tribulações, de
padecimentos e da falta de Fé. As pessoas entendem melhor o que é o penar do
que o gozar a glória. Isto ocorre porque na sociedade atual não existe uma vida
social que procure se assemelhar com o Paraíso celeste: as pessoas não procuram
copiar o céu e seus anjos e santos, mas copiam o contrário.
- Como seria isso possível?
- Deus está no Céu distribuindo de uma forma
completa, com todos os seres por Ele criados, sua infinita Bondade. Aqui na
terra devemos também viver em sociedade procurando a prática desta Bondade,
mesmo de uma forma tão humana e pequena como somos. E isto pode ser feito
construindo uma Civilização baseada nesta Bondade, onde tudo espelhe o Paraíso
celeste. Onde haja entendimento, paz de espírito, degustamento de bens
apetecíveis e salutares não só ao nosso corpo mas á nossa alma. Se vivêssemos
assim, seria mais fácil entendermos como é o Céu, embora de uma forma bem
mitigada, bem longínqua mesmo da realidade, mas ao nosso alcance. Pois ninguém
consegue, neste mundo, entender o que se goza no Paraíso. Mesmo sem entender
completamente devemos nos esforçar para criar em nós uma ideia a mais próxima
possível. Isso até nos ajudaria a aumentar o amor a Deus.
- Não entendo: como seria possível copiar o
Céu? Ora, lá se vive espiritualmente, lá se goza dos bens da alma não é
verdade?
- Principalmente os da alma, mas também os do
corpo, pois todos serão ressuscitados para habitar e gozar do Céu Empíreo.
- Céu Empíreo? E existe este Céu? Não há um só
céu?
- Há este Céu, sim. Assim como somos formados
por duas substâncias – espiritual e corporal – na outra vida, no Paraíso,
desfrutaremos dos gozos de bens espirituais e materiais. E isto se dará neste
Céu, chamado de Empíreo porque será formado de substâncias materiais, embora de
uma matéria diferente da nossa. Nosso corpo glorioso, após a ressurreição,
deverá viver num paraíso todo composto de coisas também materiais e gloriosas.
Todos os nossos sentidos degustarão os prazeres ara os quais foram criados, de
forma diáfana, sábia, celeste.
- Dê-me um exemplo.
- Nossos sentidos do corpo são o paladar, o
olfato, a visão, a audição e o tato; pois bem, no Céu Empíreo todos
desfrutaremos destes sentidos em mais alto grau e perfeição. Pela visão veremos
coisas fantásticas, cerimônias monumentais, luzes esplendorosas, anjos
magníficos; pela audição ouviremos sons extasiantes, como de músicas
instrumentais e vocais, coisas impossíveis de se imaginar aqui na terra; pelo
olfato sentiremos aromas excelentes, como de essências refinadíssimas ou de
perfumes celestes; pelo paladar sentiremos o gosto de comidas e bebidas e
comidas inebriantes, se é que se pode usar tal termo de comparação. No Céu Empíreo
haverá também mansões magníficas, palácios maravilhosos, jardins encantadores,
ambientes aconchegantes e cativantes para o corpo ressurreto, o qual não
sentirá cansaço nem ócio, pois será composto de outras substâncias, será
glorioso, eterno, na presença de Deus.
- E como vamos copiar isso aqui na terra?
- Através da Civilização. E somente a
Civilização verdadeira, que é a Católica, será capaz de criar ambiente para se
viver estes princípios em sociedade, pois somente ela contém os elementos
equilibrados de doutrina para realizar tudo isso. Nossa natureza decaída necessita muito de equilíbrio doutrinário
para não cair nos vícios capitais, como o da preguiça, do ócio, e entendermos
errado no que consiste o degustamento de nossos sentidos. Precisar criar aqui,
nem que seja palidamente, uma espécie de pequeno céu empíreo, imitando entre
nós as grandezas de Deus, onde sua Bondade possa ser facilmente entendida e
distribuída entre as pessoas. Se assim o fizermos as pessoas entenderão melhor
uma explicação sobre o Céu.
- Então poderemos viver um céu aqui na terra?
Isso é possível?
- De algum modo, sim; mas não nos esqueçamos
que estamos num “vale de lágrimas” e que as consequências do pecado original
nos acompanham até o momento de nossa morte. Acredito que, no dia em que a
Igreja consiga trazer esta espécie de céu aqui para o nosso convívio social, os
Santos Anjos aqui descerão e cantarão para que o possamos ouvir.
- De que tamanho é o Céu? Cabe tanta gente lá?
- Não conseguimos imaginar o tamanho do Paraíso
celeste. No entanto, há um santo, São Luís Grignion de Montfort, que nos dá uma
ideia aproximada deste tamanho. Diz ele que as estrelas do primeiro céu são 17
vezes maior do que a terra, as do segundo céu 90 vezes e são 45 estrelas, as do
terceiro céu são 54 vezes maiores do que a terra e são em número de 294, as do
quarto céu são 35 vezes maiores e somam 217 estrelas, as do quinto céu são 18
vezes maiores e são inumeráveis. Pois bem, o Céu ou firmamento onde ficam estas
estrelas tem um circuito de cinquenta milhões de léguas, e no entanto o Céu é
ainda mais extenso.
- Acho realmente difícil, como disse, imaginar
como seria o Paraíso celeste...
- Estivestes à noite em perturbação por causa
do abandono em que ficaste com o cadáver do teu marido. Mas, lembra-te das
noites serenas e tranquilas em que contemplavas o firmamento estrelado; depois,
procura lembrar-te, e juntar a essa noite serena, aqueles dias claros e de sol
brilhante; depois passa a imaginar como seria o melhor de nobreza, de
formosura, de riquezas que existem sobre a terra. Pensa tudo isto e eleva teu
espírito a outro mundo; lá no Paraíso existem milhares de milhões de anjos,
serafins e querubins, em quantidade muito superior a tais estrelas de que falei
e com tal brilho que as ofusca todas um só deles. O menor deles é, portanto,
mil vezes mais belo do que todo nosso mundo em que vivemos, possui mais riqueza
do que toda a terra, é mais formoso do que nosso sistema solar. Agora, que
maravilha contemplar todos juntos! Considera muito mais ainda o auge da bem-aventurança
que é a presença de Deus, a Santíssima Trindade! E lá estáa Santíssima Virgem
Maria, repleta de formosura, de uma beleza, de uma riqueza, de um encanto tal,
que a todos arrasta atrás de Si para louvar a Deus, formando um só conjunto
harmonioso.
O padre Adolf não conseguiu levar a conversa
mais adiante, pois o carro já estava entrando na pequena cidade, e o senhor Tolentino
o advertia do fato. Tanto o padre quanto o motorista tiveram muita caridade com
a viúva, indo tomar todas as providências para realizar um enterro digno para o
marido dela. Após rezar todas as orações de encomendação do corpo, inclusive
com certa pressa por causa do estado avançado de decomposição do mesmo, o padre
pediu á dona Porciúncula que o procurasse depois na igreja a fim de conversarem
com mais calma. Tinha a intenção de instruir a pobre mulher na doutrina
católica e ver se conseguia arrancar dela uma boa confissão. Até este momento
ela nada dissera sobre as vozes que supunha ter ouvido do seu marido.
Após o almoço já estava ela a procura do padre,
um tanto para a conversa que ele a convidara, mas também um tanto interessada
em conseguir uma carona no carro dela na volta pra casa. Em seu pensamento,
porem, não conseguia esquecer as vozes de Asdrúbal ao lhe falar sobre a morte e
as penas do inferno. Por causa disso estava invadida de um grande temor. Por
outro lado, as explicações do padre haviam lhe despertado um grande desejo do
Céu e lhe inspirava aumentar o amor a Deus. Tais sentimentos haviam lhe
invadido a alma, fazendo com que ela fosse rezar recolhida na igreja, chegando
a lhe provocar certos soluços. E assim, quando chegou à presença do padre os
olhos estavam úmidos e avermelhados de tanto chorar. Em parte isso ocorria
também por causa das saudades do marido, demonstrando angústia e desalento em
seu semblante.
- Por que tanto chorar, dona Porciúncula? Peça
a Deus a graça de resignação. Foi Deus que assim o quis, e se Ele o quis foi
para o seu bem.
- Veja bem, padre. Estava agora rezando o
rosário naquela igrejinha. Este deve ser o terceiro ou quarto que rezo de ontem
pra hoje. Não tenho rezado pouco, não encontro outro consolo e paz de espírito
senão nas orações, pois não tenho ninguém para consolar-me. Só Deus mesmo.
- Muito bem. Assim é que se faz. Mas,
precisamos conversar um pouco sobre sua alma. Venha aqui, abra seu coração e
conte-me tudo o que tem em seu interior. Só assim poderei lhe dar melhor os
princípios e a doutrina necessários para viver em paz a partir de hoje.
- Padre, em virtude dos apuros que passei nestes
últimos dias estou muito alquebrada, parecendo que estou doente. Não seria
deixar isso para outro dia? Prometo que virei lhe procurar especialmente para
esta conversa. Agora estou muito cansada e chocada com tudo o que aconteceu.
Estando boa de saúde e mais calma terei
mais disposição para esta conversa.
- Ilusão pura! O momento é este. Provavelmente
nunca mais nos veremos. Lembre-se que estou passando aqui apenas raramente, e
assim mesmo muitas vezes com pressa. Na realidade, a senhora está com algum receio.
É o respeito humano, não é?
- Acho que é.
- Coragem! Não lhe custa nada. Basta ser
sincera e contar tudo o que sente em seu interior.
- Tenho muitas dúvidas. Temos um corpo que vale
muito, pois eu o vejo e dele dependo para tudo; mas nossa alma, não – não a
vejo e não sinto a sua importância. Que diz disto?
- Teu corpo sem tua alma nada vale. Pense bem.
Os químicos já fizeram o cálculo do quanto vale nosso corpo: a sua gordura só
dá pra fazer um pedacinho de sabão; o seu ferro, uma pequena chave; o seu
açúcar só adoça uma xícara de chá; o fósforo dá prazer algo em torno de 2 mil
palitos de fósforos e o magnésio só dá para uma fotografia. Calcule quanto
valem estas coisas e veja que só dará alguns míseros trocados em dinheiro. Isto
é quanto vale nosso corpo, só ele, sem a alma.
- E com a alma?
- Tem valor infinito. Foi comprado pelo preço
preciosíssimo do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu na cruz para
nos salvar em corpo e Elma e nos abrir as portas do Céu. Nada no mundo vale
mais do que isto para nós. É a eternidade que está em jogo. Imagina que
encontrando-se numa região isolada, te aparecem dois grupos, um à esquerda e
outro à direita. À tua esquerda o grupo está liderado pelo o príncipe das
trevas, assentado num trono de fumaça e rodeado de demônios, e ao redor desta
corte infernal muitos pecadores, que, dominados pelo espírito do mundo, lhes
rendem suas homenagens. Observarás com atenção redobrada em todos os
desventurados vassalos desse rei abominável; verás que uns estão fora de si,
levados pelo espírito da cólera, da raiva e da vingança; outros estão dominados
pelo espírito da preguiça, ocupando-se somente de frivolidades e vaidades;
outros tantos estão embebidos de intemperança, igualam-se a loucos e a brutos
empavesados do orgulho, violentos e insuportáveis; alguns cheios de inveja,
outros corrompidos até à podridão pela impureza e muitos outros pela avareza.
Verás como todos estão ali sem repouso e sem ordem, desprezando-se mutuamente,
odiando-se uns aos outros, dilacerando-se, destroçando-se e matando-se. Eis o
que é o mundo, tiranizado por este rei sem compaixão.
- Falaste-me do grupo da esquerda. Diga-me algo
sobre o outro, o da direita.
- À tua direita encontrarás Jesus Cristo
crucificado, o qual, com ternura inexprimível de compaixão e amor, apresenta a
Seu Pai Suas orações e o Seu Sangue a fim de obter a redenção destes infelizes
escravos; acompanhando-O há numeroso grupo de devotos que com seus anjos estão
em volta d’Ele, e seguem-No aonde Ele vai. Verás como as almas deste grupo são
puras e cândidas, e como se amam umas às outras, tantas e tantas outras a quem
a morte dum marido ou duma mulher tornou de novo livre o seu amor e que se
consagram a Deus pela mortificação, caridade e humildade; verás quanta
felicidade têm estes filhos de Deus, cujas consciências andam limpas e tranquilas.
Decide, portanto, por este último grupo. Vem, aproveita a oportunidade que se
lhe apresenta. Confessa-te, conta teus pecados a fim de obter de Deus o perdão
e a remissão deles. Quando foi a última vez em que te confessastes?
- Faz muitos anos. Eu era muito jovem ainda.
Quando fiquei adulta, imaginei que não precisava porque sempre pensei que para
estar com Deus bastaria a consciência tranquila, não fazer mal a ninguém, e
assim poderia obter o perdão de certas faltas. Não é isso mesmo?
- O que você entende pela expressão “estar com
Deus?”. O que quer dizer isto?
- É o que disse antes: não fazer mal a ninguém,
praticar sempre o bem e estar com a consciência tranquila.
- Não, isso não basta para estar com Deus. É
preciso estar com as três pessoas da Santíssima Trindade, o Pai, o Filho e o
Espírito Santo. É impossível estar somente com uma das três Pessoas, como com o
Pai, por exemplo, cumprindo o que Ele prescreveu nos dez mandamentos.
Necessitamos estar também com o Espírito Santo, seguindo os preceitos da Igreja
que Ele anima e praticando seus Sacramentos, e com o Filho, recebendo-O em
Corpo, Sangue, Alma e Divindade na Eucaristia, após fazer uma boa confissão.
Somente após isto estarás completamente com Deus.
Após algum momento de silêncio, dona
Porciúncula começou a soluçar, indicando haver sido tocada em seu interior.
Desta vez o pranto era mais sincero, partia do mais fundo do coração e não mais
resistia ao chamado da graça divina. Desabrochou completamente sua alma e
contou tudo o que lhe vinha na mente, tanto de sua vida passada quanto
presente.
O bom padre ficou surpreso com toda a narração.
E mais ainda quando soube que dona Porciúncula não era completamente ignorante
em matéria de Religião: em sua infância e parte da juventude havia passado
algum tempo morando com uma tia que lhe ensinara alguns princípios do Catecismo
e da Doutrina Católica. Sabia rezar e conhecia a finalidade dos Sacramentos da
Igreja, havia feito a primeira comunhão, e algumas outras depois. No entanto,
tudo era um tanto longínquo para ela. Relembrando estas coisas resolveu fazer
uma confissão completa e prometeu levar nova vida doravante.
Quando terminou a confissão, não mais chorava.
Seu semblante era outro. Seu rosto irradiava felicidade. Estava possuída de um
contentamento interior muito expressivo, embora moderado. Deste modo,
imaginava: “a quem participar esta paz de alma, tamanha felicidade interior?”
Sua alma estava ali aliviada de todos os pesos de sua consciência. Parecia
passar por um leve êxtase.
Saindo do Confessionário foi rezar na capelinha
perante um altar de Nossa Senhora. De repente, pareceu-lhe ouvir novamente a
voz de Asdrúbal:
- A felicidade que sentes nada mais é do que a
posse da graça divina: agora, sim, Deus está contigo com toda a Santíssima
Trindade. Deverás tentar manter fielmente a posse desta graça a fim de que
possas ao final da vida ter uma boa morte e ganhes o Paraíso celeste.
- Como mantê-la?
- Ser a fiel a Deus. Toda vez que pecares,
confessa logo que possas o teu pecado e mantém firme o desejo de sempre se
arrepender e o propósito de mudar de vida. Combate teus defeitos.
- Devido as dificuldades em achar um padre, só
posso me confessar uma vez por ano, por ocasião da Páscoa.
- Quantas vezes melhor; mas se não for
possível, aqui neste ermo, faça-o pelo menos uma vez por ano, como falou, mas
faça-a bem feita. Assim fazendo manterás a fidelidade a Deus em sua toda a Sua
Trindade Santíssima e renovarás sempre em seu interior esta paz que gozas
agora.
- E se eu pecar e não me confessar logo,
estando por exemplo longe daqui lá no sítio, perco esta felicidade que sinto
agora?
- Desde que, tão logo, faça um ato de contrição
e um firme propósito de nunca mais pecar, mesmo que teus pecados sejam muitos e
frequentes (como também muitos e frequentes os arrependimentos), recuperarás
toda ou parte desta felicidade que sentes agora. Vai depender do grau de teu
arrependimento.
As vozes somem. Porciúncula lembra-se, então,
da advertência do padre de que aquelas vozes nada mais eram do que a própria
consciência dela, avisando-a sobre qual o reto caminho a seguir na vida. No
entanto, para ela era tudo tão claro, o som da voz tão nítido e perceptível aos
ouvidos, que não teve qualquer dúvida de que realmente ouvira a voz de
Asdrúbal.
E a caminho de casa, embora na companhia do
padre Adolf e do senhor Tolentino, dona Porciúncula somente meditava em tudo o
que ouvira, em tudo o que se passara, e renovava constantemente seus propósitos
de mudar de vida, sob a inspiração de seus novíssimos e da paz de alma que lhe
inundava o ser.
-

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