(Revista "Dr. Plínio" n. 313, abril de 2024)
Plinio Corrêa de Oliveira
A quem vê a História com olhos de Fé, e sabe discernir ao longo dela as intervenções da Providência em favor da Santa Igreja, afigura-se impressionante a coincidência e a harmonia entre as missões de dois grandes santos: S. Luís Maria Grignion de Montfort e Sta. Margarida Maria Alacoque.
Quando se
formava o câncer revolucionário
Ambos viveram na França, em um momento de capital
importância para a história do mundo. No mais profundo da sociedade francesa,
os germes oriundos dos grandes movimentos ideológicos do século XVI continuavam
a se desenvolver vigorosamente. Discretas ainda, as tendências para o
racionalismo, o laicismo e o liberalismo se difundiam como uma corrente de água
impetuosa e subterrânea, nos setores-chaves da sociedade. E o lento mas inexorável
ocaso da aristocracia e das corporações de artesãos e mercadores, coincidindo
com a ascensão sempre mais marcada da burguesia, preparava de longe a
organização social que havia de nascer em 1789.
Em uma palavra, com longa antecedência, mas desde
logo com muita força, com uma força que em breve se tornaria humanamente quase
irresistível, a Revolução se vinha formando como um câncer, nas entranhas de um
organismo entretanto ainda sadio.
Processos históricos como este devem ser contidos
de preferência em seu nascedouro. Pois, se se permite seu desenvolvimento,
tornam-se cada vez mais difíceis de jugular.
Intervenção
da Providência para evitar a Revolução
Assim, importa ressaltar que, precisamente no
momento em que uma ação preventiva parecia mais oportuna e mais eficaz, a
Providência suscitou na França dois santos com uma evidente e especial missão
nesse sentido. Missão que, primordial e diretamente, se dirigia à primogênita
da Igreja, mas indiretamente beneficiaria o mundo inteiro. Pois, se de um lado
a extinção in ovo dos germes revolucionários na França poderia ter evitado para
todo o orbe as calamidades da Revolução, de outro lado um triunfo insigne da
Religião, ocorrido no país líder da Europa no século XVIII, poderia ter tido na
história religiosa e cultural da humanidade repercussões incalculáveis.
O reinado de Luís XIV se estendeu de 1643 a 1715.
Santa Margarida Maria viveu de 1617 a 1690, e São Luís Maria Grignion de
Montfort nasceu em 1673 e morreu em 1716. Como se vê, foram coetâneas do Rei-Sol
tanto a ação da santa visitandina à qual o Coração de Jesus comunicou suas
mensagens de amor, quanto a pregação do apóstolo angélico que ensinou a
"Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem".
Sentido
anti-revolucionário da mensagem de Paray-le-Monial
Os leitores de "Cristiandad" certamente
já conhecem os pedidos feitos por Nosso Senhor, por meio de Santa Margarida
Maria, a Luís XIV. Sabem que o Sagrado Coração predizia para a França grandes
males, mas prometia obviá-los se seus pedidos fossem ouvidos. Sabem por fim
que, não tendo Luís XIV atendido à mensagem - iludido quiçá por informações e
manejos ainda hoje mal conhecidos - na prisão do Templo Luís XVI prometeu
atendê-la. Mas era tarde, e a Revolução seguiu seu curso, para a desgraça de
todos nós.
Destes fatos, o que nos importa reter, no momento,
é que a partir do centro da França, de Paray-le-Monial, a Providência quis
acender no reino cristianíssimo um braseiro de piedade e um foco ardente de
regeneração moral, para evitar as calamidades que depois sobrevieram.
No mesmo sentido, entretanto, a Providência
suscitava no oeste da França outro movimento.
Precursor e
patriarca da Contra-Revolução
Como Santa Margarida Maria, São Luís Maria parece
não ter tido qualquer pensamento político particular. Ele previu para sua
pátria e para toda a Igreja grandes catástrofes. Mas seu olhar não se deteve
senão nas esferas mais profundas em que essas catástrofes se vinham preparando.
Seus escritos aludem a uma crise religiosa e moral de grande envergadura, da qual,
como de uma caixa de Pandora, toda espécie de males iria sair. Para obviar
esses males, ele pregava em seus inflamados sermões, ouvidos com profunda
avidez pelos camponeses do piedoso Oeste, a doutrina espiritual que condensou
em várias obras, das quais as principais foram o "Tratado da Verdadeira
Devoção à Santíssima Virgem", a "Carta Circular aos Amigos de
Cruz" e o "Amor da Sabedoria Eterna".
Bem analisados, estes três livros monumentais - e
infelizmente pouco conhecidos - são a refutação de todas as doutrinas falsas de
que nasceria o monstro da Revolução. Refutação por certo sui generis. As obras
de São Luís Maria não visavam primordialmente persuadir os espíritos céticos,
sensuais, naturalistas, de que estavam em erro. Sua principal preocupação estava
em premunir contra esses erros os católicos fervorosos ou tíbios. E assim, toda
a sua dialética consistia em inculcar o amor à Sabedoria, para premunir seus
leitores contra o laicismo ou a tibieza; em inculcar o amor à Cruz, para
premunir contra a sensualidade e o amor delirante dos prazeres os católicos de
uma era essencialmente gozadora e mundana; e em inculcar a devoção a Nossa
Senhora por meio da "santa escravidão", para premunir leitores
expostos a todo momento às insídias desse verdadeiro calvinismo larvado, que
foi o jansenismo.
Em todos os seus livros a dialética é a mesma. Ele
mostra com argumentos tirados da Escritura, da Tradição, da História da Igreja
e da Hagiografia, que um católico não pode pactuar com o espírito do século, e
que toda posição de meio termo entre esse espírito e a vida de piedade não é
senão uma perigosa ilusão dos sentidos ou do demônio.
Nossa
Senhora na pregação montfortiana
No conjunto deste sistema, é preciso frisar que a
devoção a Nossa Senhora, considerada especialmente como Rainha do Universo, Mãe
de Deus e dos homens e Medianeira de todas as graças, tem um papel
absolutamente central. É por esta devoção que o fiel pode alcançar de Deus a
Sabedoria e o amor à Cruz. Pois Maria Santíssima é o meio pelo qual Jesus
Cristo veio a nós, e pelo qual podemos ir a Ele. Quanto mais unidos a Maria,
tanto mais estaremos unidos a Jesus. É nas almas marianas - intensamente,
ardentemente, filialmente marianas - que o Espírito Santo forma Jesus. Sem Ela,
os maiores esforços para a santificação redundam em desastres. Com Ela, o que
parece inacessível à nossa fraqueza se torna acessível, as vias como que se
franqueiam, as portas se abrem, e nossas forças, hauridas no canal das graças,
se centuplicam. O importante, pois, é ser verdadeiro devoto de Maria.
Mas esta devoção tem contrafações. O Santo mostra
quais são elas e nos premune contra os minimalistas, sobretudo os que se
contentam com uma devoção vã, feita de meras fórmulas e atos de piedade
externos. A devoção perfeita, ele a ensina: consiste em sermos escravos de
Maria, dando-Lhe todos os nossos bens espirituais e temporais, e fazendo tudo
por Ela, com Ela e nEla.
Frutos
contra-revolucionários da pregação montfortiana
São Luís Maria foi um grande perseguido. Prelados,
Príncipes da Igreja, o próprio governo, o combateram. Apenas o Papa e alguns
poucos Bispos franceses lhe deram apoio. Na Bretanha, no Poitou, no Aunis, sua
pregação se exerceu livremente, e perdurou através das gerações, conservadas
profundamente fiéis. Quando, durante a Revolução, a civilização cristã precisou
de heróis para a defenderem em terras da França, estes surgiram mais ou menos
em toda a extensão do reino cristianíssimo. Mas em certa região o povo inteiro
pegou em armas, numa reação maciça, compacta, impetuosa e indomável. Os
chouans, cuja memória nenhum católico pode evocar sem a mais profunda e
religiosa emoção, eram os netos daqueles mesmos camponeses que São Luís Maria
formara na devoção a Nossa Senhora. Onde São Luís Maria pregara e fora ouvido,
não houve a Revolução ímpia e sacrílega; houve, pelo contrário, cruzada e
Contra-revolução.
Atualidade
de Santa Margarida Maria e São Luís de Montfort
Pouco importa saber até que ponto os movimentos de
Paray-le-Monial e da Vandéia no século XVII se conheceram. A importância de um
e de outro não ficou circunscrita àquela época. Filhos da Igreja, neste trágico
século XX, podemos e devemos ver ambos os movimentos numa só perspectiva, e,
assim unidos, fazer deles nosso tesouro espiritual.
O nexo essencial que os liga está hoje em dia posto
em tal luz, na consciência de qualquer fiel, que nem sequer é necessário
insistir sobre ele. A devoção ao Coração de Jesus é a manifestação mais rica,
mais extrema, mais delicada, do amor que nos tem nosso Redentor. A via para
chegar ao Coração de Jesus é a Medianeira de todas as graças. E assim se vai ao
Coração de Jesus pelo Coração de Maria. Esta última devoção, que Santo Antonio
Claret pôs em tanta luz, São Luís Grignion de Montfort, ao que parece, não a
conheceu. Mas é o ponto de junção entre a mensagem de Paray e a pregação do
apóstolo marial da Vandéia. Ponto de junção que, diga-se de passagem, teve
tanto realce nas aparições de Fátima.
Mas ao lado desses grandes laços fundamentais há
outros. Nós os compreenderemos bem, num relance de olhos, se considerarmos o
que poderiam ser hoje a França, a civilização cristã, o mundo, se os movimentos
de Paray e da Vandéia tivessem sido vitoriosos nos séculos XVII e XVIII. Em
lugar da Revolução, com suas execráveis seqüelas que nos arrastaram até à
voragem atual, teríamos o reino da justiça e da paz. Opus Justitiae pax, lê-se no brasão de Pio XII. Sim, a paz de
Cristo no Reino de Cristo, da qual nos distanciamos cada vez mais.
E assim fica posta em evidência a altíssima
oportunidade da mensagem de Paray e da obra de São Luís Maria. Elas nos ensinam
que o fundo dos problemas que geraram a crise atual é religioso e moral. E nos
indicam os meios sobrenaturais pelos quais a Revolução universal de nossos
dias, filha insolente e depravada da Revolução Francesa, pode ser jugulada. É
só do bom uso desses meios que podem nascer, no campo cultural, social ou
político, as reações que preparam, na Terra, a Realeza de Cristo pela Realeza
de Maria.
(Publicado pela revista "Cristiandad", Barcelona, Novembro de 1958)

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