sábado, 29 de março de 2025

NOS MAUS MINISTROS SACERDOTAIS REINA O PECADO DA LUXÚRIA

 

  

                                                            (Santa Catarina de Siena e seu místico 

                                                             casamento com o Menino Jesus)


Santa Catarina de Siena era analfabeta, mas foi eleita como Doutora da Igreja por causa de uma obra publicada por ela[1], “O Diálogo”, onde Deus Pai falava sobre os pecados de seu tempo, especialmente do clero, sendo o mais comum o da luxúria, hoje tão praticado entre eles.

Séculos antes viveu na Europa um bispo, chamado Udo, que praticou tantos destes pecados que mereceu um terrível castigo dado por Deus, fato narrado por Santo Afonso de Ligório em uma de suas obras (publicado pela BAC -  Obras Ascéticas - BAC - págs. 767/769).

Em nossa época tivemos alguém muito mais importante do que Santa Catarina de Siena que também deplorou tais pecados: Nossa Senhora quando apareceu em La Salette. As revelações de Nossa Senhora naquela ocasião (meados do século XIX) foram até proibidas de serem divulgadas por causa das denúncias contra os pecados dos clérigos, mas, algum tempo depois foram liberadas. Extraímos o texto a seguir do original francês, traduzido de "Celle qui Pleure", de Leon Bloy (Ed. Mercure de France - pp.200/213):

"Os padres, ministros de Meu Filho, os padres, por sua má vida, por suas irreverências e sua impiedade ao celebrar os santos mistérios, pelo amor ao dinheiro, o amor da honra e dos prazeres, os padres que chafurdam na lama da impureza. Sim, os padres pedem vingança, e a vingança está suspensa sobre todos eles. Malditos os padres e as pessoas consagradas a Deus, os quais, por suas infidelidades e sua vida indigna, crucificam novamente meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus clamam aos céus e pedem vingança, e a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais pessoa para implorar misericórdia e perdão pelo povo; não existem mais almas generosas; não existem mais pessoas dignas do sacrifício para oferecer a Vítima sem mancha ao Eterno em favor do mundo.[2]

Eis o texto de Santa Catarina (século XV):

"Tenho te mostrado, queridíssima filha minha, uma pequena parte da vida dos que vivem em religião, em que miséria se acham na ordem, vestido com roupas de ovelhas sendo lobos.

Agora volto aos clérigos e ministros da Santa Igreja, lamentando-me contigo de seus pecados, ademais dos que te tenho narrado, e das três colunas dos vícios de que te falei em outra ocasião, queixando-me contigo deles, ou seja, da imundície da inchada soberba, pois por ela vendiam a graça do Espírito Santo.

Cada um destes três pecados dependem um do outro.  O fundamento das três colunas é o amor a si mesmos. Enquanto elas se mantêm em pé, são suficientes para manter a alma fixa e obstinada em qualquer outro vício.  Por isso te disse que todos os vícios têm sua origem no amor-próprio, pois do amor a si mesmos nasce o principal de todos, que é a soberba. O soberbo se acha privado da dileção da caridade, e da soberba procedem a imundície e a avareza.

Agora te digo, filha queridíssima:  olha com quanta imundície têm manchado seu corpo e seu espírito. Ainda te quero dizer algo mais para que conheças melhor a fonte de minha misericórdia e tenhas compaixão dos miseráveis a quem se faz referências. Têm alguns tão convertidos em demônios, que não só não guardam reverência ao sacramento nem estimam a excelência do estado em que os tenho posto por minha bondade, senão que, como totalmente desmemoriados por causa do amor que têm a uma determinada criatura, ao não poder lograr o que desejam, se darão aos encantamentos demoníacos[3]. Com o sacramento que os tenho dado farão bruxarias para satisfazer seus miseráveis desejos e pensamentos desonestos e os porão em prática. A minhas ovelhas, cujas almas devem guardar e alimentar, as atormentam por estes e outros meios, que omitirei para não fazer-te sofrer. Como tens visto, as fazem andar desgarradas e fora de si, chegando a querer fazer o que não desejaram por meio de bruxarias que aquele demônio da carne lhes tem feito, e, pela resistência que se fazem a si mesmas, seus corpos sofrem grandíssimos trabalhos. Quem tem causado estes e outros miseráveis males que tu sabes e que não é preciso saber que te conte? Sua vida desonesta e miserável.

Oh caríssima filha! A carne, que está sobre os coros dos anjos pela união da natureza divina com vossa natureza humana, a entregam a tanta miséria! Oh homem abominável e desgraçado; não homem senão besta! Tua carne, ungida e consagrada a Mim, a entregas tu às meretrizes e até a algo pior. Tua carne e a de todo o gênero humano, a que Adão havia chagado com seu pecado, foi livrada da chaga no madeiro da cruz pelo chagado corpo de meu Filho unigênito. Oh miserável! Ele te tem dado honra, e tu procuras vergonha? Te hás curado pelas chagas de seu corpo, e ainda mais, te tem feito ministro, e tu o feres com lascivos e desonestos pecados! O bom Pastor tem banhado as ovelhas em seu sangue, e tu as manchas para que não estejam limpas e fazes o possível para introduzi-las no lodo? Deves ser exemplo de honestidade e o és da desonestidade?

Tens inclinado todos os membros de teu corpo para que obrem miseravelmente  e a fazer o contrário do que por ti tem feito minha Verdade. Eu permiti que Lhe fossem vendados os olhos para iluminar-te, e tu, com os teus lascivos, lanças flechas envenenadas à tua alma e ao coração daquelas a quem olhas com tanta malícia. Permiti que Lhe dessem fel e vinagre, e tu, como besta indômita, te comprazes nos alimentos delicados, fazendo de teu ventre um deus. Em tua língua desonesta há palavras impuras e vãs. Com ela estás obrigado a corrigir ao próximo, a proclamar minha palavra, a recitar o Ofício com o coração e a boca, e não ouço mais que pestilência, jurando e perjurando como se fosses um bufarinheiro, e muitas vezes blasfemando. Permiti que Lhe fossem atadas as mãos para livrar-te das ataduras do pecado a ti e todo o gênero humano. Tuas mãos estão ungidas e consagradas para administrar o santíssimo sacramento, e tu as usa torpemente em miseráveis toques. Tudo o que se faz com tuas mãos está corrompido e dirigido ao demônio. Oh miserável! Te coloquei em tão grande dignidade para que me sirvas unicamente a Mim e a toda criatura racional.

Eu quis que Lhe fossem traspassados os pés e aberto o costado, fazendo de seu corpo escada, para que visses o segredo do coração. O coloquei como adega aberta onde podias ver e gozar do inefável amor que vos tenho quando achais e vês minha natureza divina unida à vossa, que é humana. Aqui vês o sangue que vós administrais, que é dado como banho limpar vossas maldades. Tens feito de teu coração templo do demônio. Teu afeto, simbolizado nos pés, não tem nada a oferecer senão corrupção e vitupério.  Os pés de teu afeto não levam a alma a outro lugar que aos lugares do demônio. De modo que todo teu corpo fere ao de meu Filho, porque fazes o contrário do que Ele tem feito e do que todas as criaturas estais obrigados a fazer.

Os membros de teu corpo têm recebido seu castigo, porque as três potências se acham unidas nele em nome do demônio, quando deveriam estar reunidas em Meu nome.

Tua memória deveria estar cheia dos benefícios que de mim tens recebido, e o está de desonestidades. Com a luz da fé deverias por os olhos de teu entendimento em Cristo crucificado, de quem te tenho feito ministro, e tu os tem posto nas delícias, posição social e riquezas do mundo, com mísera vaidade. Teu afeto deveria amar-Me sem intermediário algum, e tu o hás posto miseravelmente em amar as criaturas e em teu corpo, e até amas a teus animais mais que a Mim. Que é que me o demonstra? A impaciência que tens comigo se te tiro o que tu amas, o desagrado que encontras no próximo quando te parece receber algum prejuízo temporal dele.  Quando o odeias e maldizes, te aparta de meu amor e do seu. Desventurado de ti se, feito ministro do fogo de minha caridade, tu, por teus próprios e desonestos prazeres, perdes essa caridade pelo pequeno dano que recebes de teu próximo!

Oh filha queridíssima! Esta é uma das três miseráveis colunas de que falei"

  (Extraído de: "Obras de Santa Catalina de Siena" - BAC - págs. 299/301).

[1] A obra foi ditada por ela para alguém escrever.

[2] Tanto em Sallete quanto em outras aparições Nossa Senhora sempre deixava uma mensagem para ser revelada depois, chamada de “segredo”, e o conteúdo era sempre a decadência do clero. Muitos videntes foram até perseguidos por clérigos por causa desse tipo de mensagens.

[3] Seriam as "missas negras", onde se ultrajam a Hóstia consagrada?


domingo, 23 de março de 2025

Bilionários se preparam para o fim da civilização

 


A pandemia do coronavírus disparou a oferta e demanda de 'bunkers' projetados para enfrentar o apocalipse, com os endinheirados gurus do Vale do Silício como principais instigadores.

 

 

—Alô?

—Até que enfim, senhor DeMarest. Escute-me bem. O senhor precisa estar no aeródromo de Saint-Rémy em 16 minutos.

—Como? O quê? E que horas são?

—8h34. Estamos tentando entrar em contato com o senhor e sua esposa há três horas para evacuá-los.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”. Por e-mail, Vicino confirma ao EL PAÍS o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

Chamada de survivalismo, esta corrente deixou para trás os arquétipos de fanáticos religiosos ou eremitas excêntricos para se deslocar para os escritórios mais poderosos de Vale do Silício ou de Wall Street. CEOs de empresas de tecnologia e investidores decidiram se preparar ativamente para uma hecatombe do sistema, talvez alentados pelas recentes imagens de brigas em supermercados por rolos de papel higiênico antes da quarentena. O cofundador do LinkedIn, Reid Hoffman, disse à The New Yorker que estima que 50% dos bilionários de Vale do Silício já tenham um bunker ou esconderijo preparado ao redor do mundo para o caso de o apocalipse acontecer e afirmou que “comprar uma casa na Nova Zelândia é algo como ‘piscar os olhos’, não é preciso dizer mais nada”.

Vicino confirma que o público interessado na Vivos tem cada vez mais capacidade econômica e nos últimos meses avaliou a construção de um resort com apartamentos subterrâneos de luxo em Marbella. Esse complexo será composto por residências de cerca de 200 metros quadrados e terá um sistema de filtragem de ar, piscina, academia e até um cinema para assistir Mad Max ou Filhos da esperança enquanto o mundo cai em pedaços. Atualmente têm centenas de refúgios em lugares como a Alemanha ou Dakota do Sul, Estado em que construíram uma comunidade do tamanho de Manhattan. “Muitos Governos do mundo têm enormes bunkers militarizados para seus oficiais e suas elites, mas não para o resto de nós. Eles não têm nenhum plano para salvá-lo se a extinção começar. A Vivos tem!”, clama. O preço de cada unidade, sem equipar nem mobiliar, ronda os 30.000 euros (cerca de 184.000 reais), mais outros mil por ano a título de aluguel.

Imagem do episódio ‘O aeródromo’ da série ‘O colapso’. FOTO: FILMINTHE VIVOS GROUP

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

THE VIVOS GROUP

A bíblia do radicalismo libertário, que o próprio Thiel qualificou como o livro que mais o influenciou em sua carreira, chama-se O indivíduo soberano: Como sobreviver e prosperar durante o colapso do Estado de Bem-Estar. Publicada em 1997 e escrito por James Dale Davidson e William Rees-Mogg, a obra já aponta a Nova Zelândia como refúgio perfeito para observar o fim da civilização como a conhecemos. Segundo os autores, a Internet e a consolidação das criptomoedas porão fim neste milênio nos “criminosos Estados-nação” e uma “elite cognitiva” se elevará acima da “fraude democrática”. Sem Governos nem impostos, é claro. Em declarações à Vanity Fair, um amigo próximo do guru reconhece o desejo deste de “comprar seu próprio país” e afirma ter oferecido até cem bilhões de dólares para torná-lo realidade. Sam Altman, outro bilionário de Vale do Silício, confirmou que ele e Thiel “tinham preparado um plano para fugir ao país” em caso de um colapso mundial.

THE VIVOS GROUP

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.

Piscina comunitária da rede de 'bunkers' da Vivos.THE VIVOS GROUP

Segundo o site Finder, até 20% dos norte-americanos fizeram alguma forma de provisão pensando no fim do mundo. Vicino nega que a maioria de seus clientes pertença à elite. “São pessoas bem-educadas e informadas, de classe baixa, média ou alta, que têm a responsabilidade de proteger suas famílias durante estes tempos potencialmente catastróficos”, deixando claro que seu objetivo é oferecer esconderijos acessíveis a todos. O tempo de construção desses majestosos planos B pode variar de três a doze meses, dependendo da localização e do tamanho, e contam com pelo menos um ano de autonomia energética sem precisar sair à superfície. Esperemos que jamais se tornem o plano A.

https://brasil.elpais.com/internacional/2020-08-03/bilionarios-se-preparam-para-o-fim-da-civilizacao.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR2xmf-ymlFZDYYzpSY6oaHcZD6S4OKBSgpgjDufEs_MDc0zlXJFS9jQUJs#Echobox=1596481466

 

 

quinta-feira, 13 de março de 2025

A SUBLIMIDADE DA PUREZA

 


“Eu me reporto às minhas recordações de meu tempo de infância, tão vivas para mim – e cada vez mais vivas à medida em que passa o tempo, porque cada vez mais elas se mostram para mim como contendo ensinamentos que eram sementes que a vida foi consolidando, e à qual foram dando força e explicação extraordinárias –, quando eu me reporto àquelas recordações do tempo de infância, eu me lembro de meu primeiro choque com a impureza, e o contraste que se estabeleceu, no meu espírito, entre a pureza e a impureza.

Há algo de sublime na pureza, que me parece exceder tudo quanto da pureza se possa dizer. A palavra «imaculado», a palavra «limpo», a palavra «puro», a palavra «alvo», que outras palavras o vocabulário humano possa ter, nenhuma dessas palavras exprime inteiramente qualquer coisa de inconfundível que existe na pureza, mas que nós sabemos que encontraremos no Céu, quando os nossos olhares se detiverem extasiados na Virgem Maria.

Por outro lado, algo de horroroso, de cavernoso, de tenebroso, algo de execrando na impureza, uma desordem fundamental, uma sordície fundamental, algo de recusável por definição, de rejeitável e de inteiramente rejeitável. E o mesmo se pode dizer do igualitarismo que combate tudo quanto é qualidade, tudo quanto é categoria, tudo quanto é classe, tudo quanto é sublime. O igualitarismo quer que todas as coisas sejam chulas, que nenhuma delas tenha distinção, nem elevação, nem beleza. O trivial, o comum, o ordinário, o deformado, o desarranjado, o cacofônico: eis o falso paraíso do igualitarismo.

E então, nesse contraste entre a pureza, com todas as suas glórias, e o asco da impureza; no confronto entre a humildade e o igualitarismo, eu sentia vibrar em minha alma todo um universo feito de qualidades, um universo que afirma o ser sobre o não ser, afirma a ordem sobre a desordem, afirma a categoria sobre o que não tem categoria e, embevecido, considera uma série de categorias que vão se quintessenciando umas às outras, subindo, galgando continuamente até ao mais alto, até um ápice que é a categoria das categorias, a perfeição das perfeições, a classe das classes, a distinção das distinções, o contrário absoluto daquilo que, se em termos filosóficos se pudesse corretamente chamar, seria o mal absoluto, e que é uma forma majestosa, grandiosa, régia, uma forma que eleva, mas ao mesmo tempo tão suave, tão amena, tão acolhedora, tão desejosa de conter tudo em seus braços, tão cheia de atração, que nem se sabe bem direito dizer o que é.

Como explicar o que há nesse universo, nessa concepção que é a luz de minha vida, desde que eu sou menino? Nessa concepção que me fez perceber aquela verdade que é a única verdade, em função da qual todas as verdades são verdades, e todas as verdades seriam erro se ela não existisse”.

 (Trecho de discurso pronunciado por ocasião do 60° aniversário de Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, 13.12.1968, a sócios e cooperadores da TFP).

sábado, 1 de março de 2025

QUAL DEVE SER O VERDADEIRO ESPÍRITO CRÍTICO DO CATÓLICO

 





A palavra “crítica” surgiu entre os filósofos antigos e destinava-se a criar uma discussão contrária aos princípios enunciados por algum expositor e permitir que ele comprove sua tese contestando os argumentos contrários. A partir do passar dos anos, porém, a palavra “crítica” passou a ter sentido o mais diverso possível, muitas vezes significando apenas a censura e condenação das ideias contrárias. Criticar hoje pode ser até crime.

Como deve ser o verdadeiro espirito crítico do católico em relação ao mundo em que vive?

Reproduzimos a seguir um artigo publicado por Dr. Plínio no jornal “Catolicismo” em que o mesmo explicita melhor essa questão: 

PALMATÓRIAS DO MUNDO? OU PALMATÓRIAS DO MAL?

 Plinio Corrêa de Oliveira           

 Sr. Redator:

Há católicos que julgam de sua obrigação manter-se em uma atitude de sistemática análise e comentário em relação a tudo o que se encontra nos diversos ambientes em que eles se movem.

Esta obrigação, eles julgam dever cumpri-la não só no quarto, em momento de meditação, mas em toda ocasião, e até na rua, onde se está geralmente para passeio ou trabalho. Se passa um bonde, analisam-lhe a forma, a cor, dizem se acham que sua velocidade é excessiva ou se é inferior à normal. Se passa um jovem, examinam se está vestido com extravagância ou compostura. Se passa uma jovem, têm imediatamente a atenção chamada para a observância do 6º Mandamento, e assim por diante. Nada lhes escapa. E até seu espírito se manifesta surpreendentemente destro em relacionar tudo com a moral. O bonde serve de exemplo. Se anda com velocidade exagerada, é expressão da mania de velocidade que o Papa acaba de condenar. Se anda com excessiva lentidão, é a modorra do Brasil inteiro que veem aflorar na indolência do motorneiro. E, assim por diante, não há o que não analisem, não classifiquem e não julguem.

Esta atitude que descrevo enquanto assumida por indivíduo, também pode ser de famílias ou de associações e de jornais. De jornais... sobretudo de um jornal: o "Catolicismo". Tudo quanto ele publica parece ser direta ou indiretamente calculado para pôr o leitor nesta atitude de sobreaviso sistemático. Basta pensar na secção "Ambientes, Costumes, Civilizações", que se me afigura feita para mostrar que na simples forma de uma cabeça de alfinete se pode refletir todo um firmamento de convicções artísticas, filosóficas ou até teológicas.

Confesso que tudo isto me causa não pequena estranheza. A meu ver, a naturalidade deve ser uma qualidade fundamental de toda mente equilibrada, e a fortiori do católico. Ora, o ponto de partida de toda naturalidade, aquilo que lhe é como que um pressuposto comezinho, é uma certa desprevenção de espírito, por onde nossa atenção caminha sem preocupações policiais, por todos os campos onde naturalmente venha a pousar, detendo-se sobre as coisas simplesmente como elas se apresentam espontaneamente à vista, vendo num bonde apenas um bonde, e numa cabeça de alfinete apenas uma cabeça de alfinete. Assim, fazer incursões pelas mais altas regiões da metafísica ou da teologia para julgar da forma de um chapéu, da velocidade de um veículo e do vôo de uma mosca, parece-me estreito, bizantino, antipático e, por assim dizer, torcicoloso.

Eu não diria tudo, se ficasse só nisto. Contra esse hábito de dividir longitudinalmente em quatro um fio de cabelo, para ver se nele se esconde uma heresia, tenho outra objeção a fazer. E é que ele conduz a um proselitismo incômodo e irritante. Como o comum dos homens não se preocupa com tais problemas quando vê moscas, bondes ou cabeças de alfinetes, o resultado está em que é necessário a todo momento fazê-los reparar nos monstros que nestes objetos, ou outros congêneres, se ocultam. Daí a toda hora o desejo de alertar o próximo. E de lhe perturbar o sossego. – Cuidado com isto. E mais com aquilo. Quando estiver, por exemplo, atravessando uma rua, cuidado com as mil influências ideológicas e morais que se desprendem dos veículos e transeuntes. Assim, é preciso cortar uma rua de intenso movimento, com a preocupação de evitar não só os atropelamentos físicos mas também os espirituais. E de tanto cuidado, para premunir o espírito contra uma agressão representada pelas linhas marcianas do automóvel que vem num sentido, cai-se debaixo das rodas de um ônibus que vem em sentido oposto.

Ora, pergunto, isto é cabível? E foi para que os homens vivessem metidos num tal formigueiro de preocupações, que Deus lhes deu este belo sol rutilante, este firmamento azul, esta linda natureza clara, lógica, sólida, amiga, em que eles se movem?

Francamente, não.

Não quero entrar em discussões com o Sr. Sei que os elementos imbuídos deste estado de espírito são esgrimistas temíveis, manejando o gládio da dialética com toda a espécie de citações dos Papas e de São Tomás. Não os quero acompanhar nesta esgrima fatigante, para a qual meu espírito não tem o menor pendor. Limito-me a manter o problema nos termos simples, claros, de uma clareza despretensiosa e quase diria caseira, em que o pus. É para viver neste dédalo de preocupações miúdas, incessantes, enervantes, que Deus colocou o homem no mundo? Não o creio. E, assim, a posição do tipo "Ambientes, Costumes, Civilizações" me parece totalmente falsa. Ela transforma a vida numa luta constante, em que uns poucos infelizes ficam na obrigação de dar com a palmatória em tudo e em todos, para se manterem fiéis aos princípios.

Ora, eu pretendo manter minha fidelidade aos princípios sem ser palmatória do mundo...

Um constante leitor      

Prezado leitor:

Deus é certamente o Deus dos simples. Não porém dos simplórios. Por isto mesmo, colocou-nos Ele num universo belo, claro, lógico, amigo, admirável pela simplicidade de suas grandes linhas harmoniosas; mas ao mesmo tempo dispôs, por detrás destes aspectos tão simples e graciosos, todo um insondável sistema de leis físicas ou biológicas em cuja consideração a mente se abisma. A inteligência humana, quando ágil, lúcida e equilibrada, ora repousa agradavelmente na contemplação dos aspectos aparentes, ora imerge, seduzida e entusiasmada, na análise de todas as maravilhas que esses aspectos encobrem, e na alternação entre preocupação e repouso, na passagem do fundo para a superfície, e vice-versa, realiza o plano de Deus, Criador infinitamente sábio e bom, tanto dos aspectos aparentes quando das realidades profundas do universo. E que dispôs que de umas e de outras tirasse o homem seu proveito.

Este princípio, prezado leitor, o Sr. o admite sem dúvida quanto ao universo material... Pois, do contrário, sua argumentação seria a glorificação do atraso e da ignorância. O que diria o Sr., com efeito, se um analfabeto lhe viesse falar contra os cientistas que, olhando para um aprazível panorama, longe de se contentarem com apreciar despreocupadamente a formosura da natureza, se perdessem em ponderações sobre a composição geológica do terreno, refletissem sobre os mil mistérios da vida vegetal e animal, e por fim se detivessem na análise de todo o microfirmamento de energias, equilíbrio e beleza que cabe em um grão de areia que um deles tivesse retirado com o dedo, da ponta do sapato, e considerassem os mistérios riquíssimos da vida microbiana que na superfície do grão de areia pode existir? Com o entusiasmo que sem dúvida tem pelas ciências, o Sr. teria redarguido a esse analfabeto que esses cientistas são admiráveis, precisamente porque sabem ir além das aparências acessíveis ao olho nu e à inteligência medíocre ou indolente. Sua indignação sagrada teria feito aflorar a seus lábios, numa desordem eloquente, os exemplos de pequenas realidades que, analisadas por gênios, revelaram leis naturais estupendas e utilíssimas ao homem. Por certo, o Sr. se teria lembrado das historietas ou das legendas pitorescas de Galileu que, vendo balançar uma lamparina, daí deduziu seu sistema; e de Newton que, vendo cair uma maçã ao solo, tomou este fato comezinho como ponto de partida para o estudo da gravidade. O Sr. teria terminado dizendo que não estaríamos na era atômica se os homens tivessem julgado ridículo estudar o que existe, não no grão de areia ou na cabeça de alfinete, mas no átomo, que é tão menor...

Se o objetante lhe tivesse afirmado que havia risco para um médico, de cair sob as rodas de um automóvel, se ele atravessasse uma rua pensando nos inconvenientes dos gases tóxicos e por isto suspendendo ligeiramente a respiração para não inalar a fumaça de um ônibus, o Sr. teria cortado a discussão, retrucando que só conversa com gente séria. E isto porque o Sr. sabe perfeitamente que o próprio de um homem culto está em poder fazer equilibradamente ações comuns, vendo nelas não apenas o que qualquer um vê, senão mais do que isto, e considerando com um mesmo olhar lúcido, os aspectos superficiais e profundos das coisas. Assim, um geógrafo, para guiar bem seu automóvel numa estrada, não está proibido de ver com olhos de técnico o panorama, e um artista pode estar num trem olhando a beleza da paisagem, sem por isto se jogar pela janela do vagão.

Tudo isto é tão banal que, enfarado, o Sr. deixaria de lado seu mofino e analfabeto interlocutor, e cuidaria de outra coisa.

Mas se tudo isto é tão banal, e se tudo isto o Sr. o sabe tão bem, porque não se lembrou de transpor estas considerações para o mundo das coisas espirituais?

É bem certo que este, por ser mais nobre que o da matéria, tem uma riqueza muito maior. E que num corpo pequeno como uma cabeça de alfinete – um cristal, por exemplo – o artista pode, tanto ou mais que o cientista, encontrar campo para considerações fecundas.

É certo, ainda, que o moralista pode descobrir em tudo uma significação moral importante, e que é para ele uma excelência o ser capaz de o fazer em tudo.

Então, se o Sr. acha ridículo imaginar um médico que atravessa a rua desvairado por reflexões técnicas, pois sabe que essa caricatura não corresponde à realidade, porque se compraz em pintar com estas cores ridículas o moralista?

Na verdade, caro leitor, ser o Sr. se maravilha vendo um cientista esmiuçar as coisas da matéria, e se enerva com um pensador que esmiúça as coisas do espírito, reconheça que é porque o Sr. tem compreensão para com as primeiras, sente por elas afinidade e simpatia, enquanto é infenso às outras, que não compreende porque nelas se perde como num dédalo.

Em uma palavra, o Sr. é filho ideológico do materialismo, embora provavelmente creia na espiritualidade da alma.

Por aí se vê como é difícil a alguém resistir às mil influências sub-reptícias, não só dos erros moderados e velados, mas até do mais crasso dos erros, que é o materialismo.

E o moralista que, dotado de um fino discernimento, aponta os sintomas dessas infiltrações ideológicas impalpáveis e ativas, deve parecer ao Sr. um amigo e não um carrasco. Pelo menos se realmente o Sr. preza a sua alma e tem o propósito de a manter livre de todo mal.

E mais uma vez o paralelo entre as coisas da alma e do corpo se impõe. Um médico de apurado senso clínico, que desvendasse todos os sintomas iniciais dos males que acometem seus doentes, não poderia ser visto por estes como inimigo. Só as crianças é que veem os médicos com prevenção, porque não gostam de remédios amargos.

Não gostar do moralista porque ele faz bem à alma mas nem sempre é cômodo, não é mostrar-se infantil?

Que se procure alertar os católicos contra as mil influências nefastas a que estão expostos hoje em dia, e especialmente contra as influências mais despercebidas, mais indiretas, mais sinuosas, nada melhor.

Por certo, isto não degenerará em psicose nem em mania, senão quando se tratar de maníacos e de psicóticos tão frequentes nesta era de almas "coca-cola", de uma simplicidade simplória...

Mas um espírito equilibrado sempre saberá praticar equilibradamente a virtude, e não será a virtude que o desequilibrará.

Que virtude? No caso, especialmente a da circunspeção, isto é, a de saber, do alto, olhar, ver, discernir em torno de si. Virtude de que nos deram exemplo todos os Santos, e que a Igreja preza tão alto que por assim dizer com ela identificou a missão do Bispo: episkopos, - de epi, sobre e spokein, inspecionar – é aquele que, de cima e com vigilância, olha em torno de si.

Vivemos em uma época que, sob muitíssimos aspectos, é para o neopaganismo o que para a Religião Católica foi o século XIII. Tudo hoje está embebido de neopaganismo, ele nos entra até pelos poros. Pio XII disse que em nossos dias a simples perseverança no estado de graça exige de inúmeras pessoas uma virtude heroica.

Viver nesta época com uma desprevenção absoluta, no culto da irreflexão e da espontaneidade ( eufemismo para designar o descontrole ), é ou não é entregar-se a essa mil influências?

E alertar alguém, com amenidade, com lucidez, com afetuosa insistência, sobre a necessidade dessa habitual vigilância, é ou não é apostolado?

Palmatória do mundo? Fórmula vaga e infeliz. Palmatória do erro, palmatória do mal, para o bem do próximo, porque não?

Em resumo, caro leitor, aqui está nossa justificação. Que acontecerá no dia em que o mal não tiver palmatórias no mundo? O que já em larguíssima medida ocorre em torno de nós. Solto, triunfante, insolente, ele perseguirá pelo silêncio, pelo ostracismo, pelo escárnio, mais tarde pelo ferro e pelo fogo, todos os bons.

Para chegar a este resultado, o que o mal mais deseja é não ter palmatórias.

Quer o Sr. arcar com a responsabilidade de reduzir à inação as palmatórias do erro e do vício, para que o mundo inteiro fique sujeito à palmatória do demônio?

Outrora, quando alguém atacava o mal com vigor, denodo, insistência, chamavam-no, não de palmatória, mas de martelo, o que é muito mais forte. Mas o apelido era uma honra. Carlos Martelo foi amado em toda a Cristandade por ter sido o martelo da França sobre a cerviz dos maometanos. E Santo Antônio de Pádua, porque abatia sobre os cátaros os golpes terríveis de sua dialética, era aclamado por todos os católicos como martelo dos hereges.

Hoje as coisas mudaram, e quem maneja, já não o rude martelo de outrora, mas a inofensiva palmatória, sente levantar-se contra si um clamor até em meios católicos.

Quando numa cidade sitiada há uma corrente que geme a cada tiro que se dispara contra o sitiante, o que se pode esperar?

É bem o caso de aplicar aqui, ligeiramente modificadas, as palavras de Voltaire: Deus me livre de tais amigos, mais ainda do que de meus próprios inimigos...

O Redator                   

Ambas estas cartas foram escritas pela mesma mão.

Procuram elas condensar os vários aspectos do debate da superficialidade, da moleza e da tibieza, com o zelo, a coerência e a santa intransigência; do entreguismo do gênero "terceira força", com a vontade de lutar. Dos troianos que amam Tróia, com os que sorriem ao cavalo de madeira...

 

(Jornal “Catolicismo” Nº 92 – Agosto de 1958)