Em artigo publicado no “Legionário”, em 20 de maio de 1945, sob o título de “Vacina”, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira comenta sobre a reabilitação de personagens históricos que, na realidade, foram verdadeiros monstros, porém mostrados depois como “bonzinhos”:
“Não
seria novo esse processo de reabilitação histórica. Observamo-lo em ação,
beneficiando a memória dos facínoras da Revolução Francesa. Enquanto
Robespierre, Danton, Marat, Saint-Just, a clique terrorista enfim, cometia suas
famosas atrocidades, toda a opinião mundial se indignava contra eles. Para as
crianças, eles personificavam os espectros e os monstros noturnos de que a
imaginação infantil povoa os quartos escuros. Para as mães, para as esposas,
para as filhas, eles eram algum dos bandos de monstros que São João anteviu e o
Apocalipse descreve com uma terrível meticulosidade de pormenores simbólicos.
Para os "espíritos fortes", a própria personificação dos germens de
decomposição e de desordem que as sociedades normais eliminam habitualmente, ou
pelo menos comprimem em seu "bas fond". De tal maneira esse horror
embebera todas as camadas da sociedade, que a reação mais ardente contra a
"mafia" do Comité não procedeu como de costume, dos políticos ou dos
militares, mas dos quadrantes menos habituados à ação violenta. Contra Marat,
por exemplo, foi o braço alvo e feminil de uma jovem sentimental, de boa
estirpe, de educação cuidada e compleição delicada, que vibrou o golpe fatal.
Passaram-se os tempos, morreram as últimas pessoas que tinham sofrido durante o
Terror, por si ou vendo os outros sofrer. Toda a abjeção dos personagens
revolucionários foi sendo esquecida. E, hoje, a estampa de Marat ou de Danton
figura, marcada com uma bela fita tricolor, no compêndio de História de muita
mocinha do feitio de Charlotte Corday. A cristalização da legenda histórica
transformou o bandido em herói, o tirano em mártir da liberdade.
O mesmo
se deu, "mutatis mutandis", com Napoleão. Não é inteiramente
verdadeiro dizer que em 1814 ou 1815 a França tenha sido derrotada pela Europa
coligada. Napoleão foi certamente derrotado. A França se deixou vencer.
Extenuada de lutas, farta das conquistas artificiais, do peso de seu Império
desmesurado anacrônico e postiço, dos louros inevitavelmente efêmeros da epopeia
napoleônica, os franceses já não queriam lutar e apoiavam molemente um déspota
de que, no fundo, se queriam ver livres. Não há dúvida de que os feitos
militares napoleônicos tem sido canonizados pelos técnicos de guerra como
admiráveis obras primas da perícia militar. Mas a ciência moral se recusava e
se recusa categoricamente a sancionar com igual admiração as causas e as consequências
dessas guerras. Para a Europa inteira, e mesmo para imensas camadas da opinião
francesa, Napoleão não era senão um Átila malfazejo que tinha arrastado seu
país e o mundo inteiro a uma aventura louca. Com o tempo, porém, a recordação
de tudo isto se esvaiu. E o Napoleão da legenda, o Napoleão que se ensina aos
escolares, emergiu heroico, viril, respeitável, na admiração de todos os povos,
mesmo dos que ele oprimiu mais duramente. E ficou para uso dos especialistas a
recordação mais científica, menos brilhante e mais verdadeira, do autêntico
Napoleão, que era o que as famílias na retaguarda, e os moribundos nos campos
de batalha, maldiziam de todo coração.
E haverá
ainda outros exemplos a aduzir”.
Robespierre foi por muito tempo chamado de “o
incorruptível” por historiadores da Revolução Francesa, tido como homem sério e
não corrompido pelos correligionários. Tanto ele como Danton hoje são nomes de
carros de passeio, tidos como heróis e símbolos nacionais franceses. Há um personagem que também é citado
abusivamente como mentor de uma nova era, o autor do “Contrato Social”, Rousseau,
ideólgo da Revolução Francesa e dos novos estados políticos que surgiram a
partir de então. Toda constituição
moderna é feita conforme os princípios do “Contrato Social”, e Rousseau citado
como filósofo avançado e benéfico à humanidade. Voltaire não chegou a compor
uma obra tão útil à Revolução quanto Rousseau, mas por ter sido famoso com seus
romances e ideias libertárias, apesar de ímpio e odiar a Igreja divulgando
princípios ateus, é tratado como um luminar dos novos tempos. Essa gente tão péssima é chamada de
“iluministas”, por pertencerem ao ciclo dos Iluministas daquela época, quer
dizer, “iluminados”, não sei com que luz, talvez com algum candeeiro dos
infernos. Napoleão nem se fala, de
ditador e guerreiro sanguinário passou a ser tratado como grande estrategista
militar, inclusive como modelo a ser seguido.
Estes são os da Revolução Francesa, mas outros
revolucionários já tiveram sua vida refeita segundo critérios diferentes a fim
de agradar o grande público, como Lutero, Stalin, Lênin, Mandela, etc. No
Brasil, não houve tentativa de reabilitação histórica, mas da fama, como o caso
de Lula, o qual isentaram dos crimes prometidos e o colocaram novamente na
disputa política para a presidência.
Vejamos quem eram alguns deles:
O Partido Filosófico
E existe, ou existia, um “partido” filosófico?
Isto é, um grupo político composto por gente dedicada à filosofia? Sim, é o que
confirma um grande historiador francês:
―
“Os filósofos gritavam contra a tirania, mas a verdadeira tirania era aquela
que eles exerciam sobre a literatura...
A seu lado, com a sua tolerância, com a ajuda
dos subsídios da aristocracia, com a cumplicidade e participação da
magistratura, da polícia e da
administração,
constituiu-se um novo poder, ativo, audacioso, intolerante: o partido
filosófico. Esse partido tem os seus quadros: as sociedades; os seus chefes: os
enciclopedistas; os seus arautos: os parlamentos; o seu exército: as suas
grandes manobras: as lutas políticas em volta dos impostos e da religião”.[1]
Vejamos alguns membros deste “Partido”:
Voltaire
―Talvez nenhum personagem tenha encarnado tão
profundamente o
espírito
filosófico do século XVIII quanto Voltaire.
Valendo-se da crítica, do deboche, da sátira e
da calúnia, por meio de um estilo fino, inteligente, variado, mas recheado de
obscenidades e blasfêmias, Voltaire visou incessantemente afastar a sociedade
do Ancien Regime dos princípios católicos que ainda a regiam.
Segundo Albert Soboul, foi Voltaire quem deu ao
deísmo francês do século XVIII sua marca indelével, sintetizando-o em alguns
raciocínios rápidos, em algumas formas simples, que dispensam os mais grossos
tratados e as mais longas dissertações.
Escreve Montalban: A descrição a seguir é muito
semelhante ao das assembléias legislativas de hoje, quer dizer, a da França
revolucionária fez “escola” e tornou-se um modelo republicano...
Apesar de se dizer apenas filósofo, Voltaire
teve uma atuação pessoal como agente revolucionário no campo do pensamento e da
pregação.
―Francisco Maria Arouet, [dito] Voltaire
(1694-1778), recebeu uma profunda cultura clássica do Colégio “Louis Le Grand”.
Seus mestres espantaram-se, tanto pela vivacidade de sua inteligência quanto
pela felonia de
seu
caráter.
Jovem ainda, Voltaire foi apresentado no salão
de Ninon de Lenclos. Em seguida passou a frequentar a companhia dos piores
libertinos e a escrever versos e sátiras. Por duas vezes foi desterrado de
Paris, e também por duas vezes prisioneiro na Bastilha.
A tragédia “Oedipe” (Édipo), onde se vê claro
sua incredulidade, deu-lhe fama como dramaturgo, e o poema épico sobre Henrique
IV (Henriade) confirmou seu prestígio de poeta.
Nesse período de sua vida, Voltaire foi mais
libertino e imoral do que incrédulo!. [2]
―Foi de Farney que Voltaire comandou o exército
dos filósofos, na guerra que moveu contra a Religião Católica e a Santa Igreja.
De lá enviava suas “receitas” para aqueles “trinta cozinheiros”, - segundo
expressão sua a MMe. Du Deffand – que, espalhados pela Europa, preparavam as
mesmas “iguarias” para toda a alta sociedade.
Comenta Paul Hazard que, com o passar do tempo, sua oposição ao cristianismo se acentuava, exasperava-se e veio a tornar-se
ideia fixa. Esse espírito tão encantador, tão fino, tão sóbrio, era violento e
desmedido desde que se tratasse de “esmagar a infame”, como ele dizia.
Da “fábrica‖ de Farney”, (...) partiam incessantemente panfletos onde apareciam por vezes o gênio do artista e o fanatismo do sectário. Sua negação, ele a exprimia não em dez, nem em cem, mas sob mil formas diferentes; de modo que a obsessão, caráter geral do século, veio tornar-se para ele um estilo de ser: não queria e nem podia mais se desengajar dela.
A Bíblia era sem grandeza e sem beleza; o Evangelho não havia trazido senão infelicidade sobre a terra; a Igreja toda, inteira e sem exceção, estava corrompida ou louca; não havia um só confessor de fé que não fosse fanático; os mais puros, os mais nobres eram arrastados na lama; até São Francisco de Assis era despojado de sua doce auréola e tinha-se tornado um pobre louco.
Simplificação caricatural, vontade de nunca
considerar as razões do adversário, de passá-las sob silêncio ou desfigurá-las,
incansável repetição: tais eram alguns de seus procedimentos.
Sua fúria anti-religiosa é bem descrita pelo
Pe. Rohrbacher:
―Voltaire escreveu a seu amigo d‘Alembert, a 20
de junho de 1760: ‗Heralt disse um dia a um de seus irmãos: Vós não destruireis
a religião cristã – É o que veremos, disse o outro. – Este era o próprio
Voltaire, que escreveu ao mesmo amigo a 24 de julho seguinte: “Será possível
que cinco ou seis homens de mérito, que se compreendem, não alcancem êxito, depois
do exemplo que temos de doze homens desprezíveis que o alcançaram?”
E a 23 de agosto: Eu amo apaixonadamente meus
irmãos em Belzebu. Compreende-se perfeitamente quais eram esses irmãos no
príncipe dos demônios, e qual era o objetivo de sua conjuração. Voltaire lhes
disse um dia: Estou cansado de escutá-los repetir que doze homens foram
suficiente para estabelecer o cristianismo, e desejo provar-lhes que basta
apenas um para destruí-lo. (...)
Seu ódio contra a religião cristã
transformou-se em furor. Ele não a designa mais, em sua correspondência, senão
sob o apelido de “infame” ―Esmaguemos a infame ― esmagai a infame!, encontra-se
repetido mais de cento e cinquenta vezes: ele fez até um nome próprio destas
palavras satânicas, e assinava com abreviação: Ecr-lenf, ou Ecrlinf...
A este ódio furioso contra a religião cristã,
ele acrescentava a hipocrisia mais desavergonhada. Escrevia ao Conde
d‘Argental, em 16 de fevereiro de 1761: ―Se eu tivesse cem mil homens, sei bem
o que faria, mas como não os tenho, comungarei na Páscoa. Vós me chamareis de
hipócrita tanto quanto quiserdes!. Ele comungou efetivamente neste ano, como em
1768, com muita ostentação, recebendo o Pão Sagrado e se permitindo até mesmo
pregar na igreja como senhor da paróquia.[3]
Rousseau
―Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em
1712. Sua mãe morreu por ocasião de seu nascimento. Abandonado pelo pai e
entregue a si mesmo, ele viveu seus primeiros anos ao sabor das circunstâncias.
Estando na Savóia, Rousseau atraiu a atenção de
um padre católico que o enviou para a casa de Mme. de Warens, uma mulher paga
para cuidar de protestantes convertidos. Mme.de Warens tornou-se sua “mãe“ e
sua amante. Ela com trinta, ele com dezesseis anos.
Em casa de Mme. de Warens, devorado por uma
profunda inquietação, ele tentou de tudo, até mesmo cursar um seminário, de
onde acabou sendo expulso.
Resolveu então correr o mundo, a pé, tendo por
companheiros de viagem ora um mestre de música, ora um aventureiro que se
embriagava, ora um falso arquimandrita. Enfim, cansado de tanto peregrinar,
retornou para junto de Mme. de Warens . que agora dividia seus favores entre
ele e o jardineiro.
Algum tempo depois, partiu para Lyon, onde se
tornou preceptor dos filhos de M. Mably que o expulsou porque ele lhe roubou a
adega. Por fim, tomou o caminho de Paris, onde se tornou célebre repentinamente,
quando a academia de Dijon premiou seu discurso sobre as ciências e as artes.
Contudo, sua vida errante continuava, ora
habitando no “hermitage”, recanto da floresta de Montmorency que lhe ofereceu
Mme. d‘Epinay, ora em uma dependência do palácio do Marechal de Luxemburgo, ora
tendo que fugir da França, perseguido pela ousadia de seus escritos.
A partir de 1768 a vida de Rousseau apresentava
um aspecto cada vez mais deplorável. Pouco a pouco sua loucura aumentava. Nesta
época ele se casou “diante da natureza”, com Thérese Levasseur, mulher de má
vida, com quem vivia desde 1744, e de quem teve cinco filhos, que a todos
abandonou.
Finalmente mudou-se para o bosque de Ermenonville, propriedade de um de seus admiradores, o Marquês de Girardin. Lá, em 1778 ele morreu, segundo alguns dando-se um tiro na cabeça; segundo outros, envenenando-se com ervas que colhera no bosque e que comera para afogar suas mágoas de Thérese Levasseur, da qual ele soubera que estava mantendo relações com um criado do Marquês. [4]
―Pierre Gaxote explica que a doutrina de Rousseau foi aplicada durante a Revolução Francesa, e o significado da expressão “Vontade Geral”, por ele utilizada no “Contrato Social”:
―Rousseau não se limitou aos anátemas, às
lamentações e às invectivas. Estabelece as bases da sociedade futura, que
assegurará aos homens o exercício de seus direitos naturais. Tais fundamentos
são: a igualdade completa dos associados, a alienação dos direitos de cada um
em proveito da coletividade, a subordinação dos contratantes à “Vontade Geral”.
Entendamo-nos sobre o sentido desta expressão.
A “Vontade Geral” não é a vontade do maior número, mas sim a voz profunda da
consciência humana, tal como ela deveria falar em cada um de nós, e tal como
ela se exprime pela boca dos cidadãos mais virtuosos e mais esclarecidos.
A sua primeira tarefa e, por assim dizer, a sua
única tarefa, consiste em destruir e impedir de renascer todos os organismos
naturais que, até então, enquadravam e sustentavam os indivíduos, e que passam
agora a ser considerados como opressivos e imorais. A propriedade, a família, a
corporação, a cidade, a província, a pátria e a Igreja são outros tantos obstáculos
a abater.
Objetar-se-á que a maior parte dos cidadãos os
respeitam, sentem-se bem com eles e ali encontram a sua felicidade e paz de
alma, mas isso pouco importa: não há liberdade contra a liberdade. Se a “Vontade
Geral” não fala dentro deles, é porque são pervertidos e degradados, e é um
dever, para os cidadãos “conscientes”, tratar de os emancipar, mesmo contra sua
vontade.
Tornada religião, a República tem a sua
ortodoxia, os seus eleitos e os seus réprobos. Maiorias, eleições, votos, consultas
populares, tudo isso é fachada, o jogo em que se deixam prender os ingênuos,
admirando-se de que as regras não sejam nunca aplicadas senão contra eles. Por
trás destas agitações, há a pequena congregação dos fiéis e dos iluminados. São
eles que detêm a verdade, e que juraram entre si estabelecer o seu império.
Eles é que são a “Vontade Geral”. [5]
De tal maneira estava imbuído dos princípios
naturistas que se deixou pintar como o personagem Robson Crusoé, gorro de couro
de raposa e capote de lã, forma como é retratado até hoje.
Robespierre
Este, como Danton, embora não tenham sido
filósofos pode-se que eram o braço do poder do “partido” de que falamos.
“Robespierre
―...é o homem de clube por excelência. Tudo o que o prejudica na vida real
torna-se-lhe no clube um penhor de êxito. Tem o espírito pouco profundo, poucas
ideias e pouca invenção? Está ao nível do seu auditório, não o espanta e não
excita a sua inveja. A sua personalidade é fraca e distinta? Funda-se na personalidade
coletiva e dobra-se sem esforço à disciplina democrática. A sua situação social
é quase nula? O clube funda-se sobre a igualdade de todos os seus membros e ele
suporta mal as superioridades exteriores de categoria e dinheiro. Preocupa-se
pouco com os seus trabalhos? Mais assíduo poderá ser às sessões do clube. Viveu
ainda pouco e a sua experiência dos homens e das coisas é ainda limitada? O
clube é uma sociedade artificial, construída ao contrário da verdadeira
sociedade. Tem a inteligência formalista, sem grande ponto de apoio sobre o
real? No clube não é a ação que conta, mas sim a palavra.
Imbuído
de Rousseau, cheio da doutrina do Contrato Social, exercitado por seis anos de
repetição no manejar de cabalas, compreendeu, sentiu e adivinhou que a lei dos
movimentos revolucionários é: ―nenhum inimigo à esquerda‖. Compreendeu, sentiu
e adivinhou que, quanto mais fraco for o governo, mais fortes serão as
sociedades. E não se enganou no terreno: manobra sobre o que é mais sólido.
Este homem medíocre tem o senso ou, se assim o quiserem, o gênio da Revolução e
do seu mecanismo.
Em 1789 é
realista. Depois da fuga de Varennes, pede a substituição do Rei pelos meios
constitucionais. É republicano na Legislativa e montanhês na Convenção. Vai
para o “dirigismo” no mesmo passo do clube; nem muito depressa nem muito
devagar... É um ortodoxo, segundo a ortodoxia do dia. As suas intervenções na
Assembléia não têm outro significado. Ao passo que Mirabeau, Lameth, Duport e
muitos outros procuram a satisfação de ambições pessoais, ele não sobe à
tribuna senão para lembrar a Lei e os Profetas...
Pouco lhe
importa que o aplaudem ou o apupem. Não fala para a Assembléia, mas sim para a
clientela jacobina. E é por isso que o clube o glorifica. Em 1 de abril de 1790
é nomeado presidente; em junho de 1791 é encarregado de preparar o programa
para as próximas eleições. Em julho de 1791, depois do morticínio do Campo de
Marte e da dissolução dos ”Feuillants”, é um dos poucos deputados que se mantém
fiel à sociedade-mãe e contribui para lhe juntar as sociedades dos
departamentos, serviço este que não se esquece.
Todos os
revolucionários mergulham de qualquer forma na vida. Marat tem uma amante.
Brillaud-Varenne está apaixonado por sua mulher. Fouché tem uma rapariga a quem
adora. Hanriot ama o vinho. Danton é casado e tem filhos. Saint-Just teve
também uma adolescência bastante movimentada.
Robespierre
não ama coisa alguma: nem dinheiro, nem mulheres, nem a aventura, nem a boa
mesa. Vive modestamente em casa do marceneiro Duplay, no meio de uma corte de
bisbilhoteiros e bobos.
O
universo de Robespierre está no círculo fechado e inflamado dos jacobinos.
Entrega-se de alma e coração a todas as paixões que o agitam, sem que nenhum
sentimento exterior venha a contraria o seu curso... Vive num mundo artificial,
donde não quer sair e que acaba por considerar o verdadeiro mundo.
Robespierre
faz corpo com o jacobinismo. Como ele, por toda a parte vê ciladas, conjurações
e precipícios. Como ele, é desumano e violento. Mas, à medida que os jacobinos
se depuram, o seu nível moral e intelectual se rebaixa e Robespierre cresce
outro tanto. É honesto, correto e limpo na sua pessoa.
Não
especula com os fornecimentos nem se aproveita dos acontecimentos para
enriquecer. Leva uma vida simples e digna: isto basta para o fazer subir ao
pináculo...!”
[6]
Danton
―”Fundido em bronze, incensado e canonizado por
uma escola inteira de historiadores, Danton foi tido, durante vinte e cinco ou
trinta anos, como a mais bela encarnação do patriotismo revolucionário ou –
numa só palavra – do patriotismo. Para os seus fanáticos, é o homem de Estado
―ardente e entusiasta que sonha acabar com a obra secular da defunta monarquia,
dando à França as fronteiras da antiga Gália, o tribuno veemente que atira em
desafio aos tiranos da Europa uma cabeça de Rei, o homem de audácia que bate
com o pé o solo nacional para dele fazer brotar as legiões de voluntários, e o demagogo
intransigente que se lança numa luta sem tréguas contra o inimigo”.
Esta é a lenda, mas a verdade é outra. Ao cabo
de uma longa e difícil investigação, Alberto Mathiez conseguiu restabelecê-la,
pedaço a pedaço, e as suas pesquisas estão hoje suficientemente adiantadas para
que o possamos acompanha com toda a segurança.
Advogado há dois anos, Danton estava, em 1789,
numa situação financeira difícil. Muito endividado, cheio de necessidades,
escravo dum temperamento tirânico, lançou-se na Revolução como um ceifador num
prado. Eloqüência brutal, figura de bronze e grande grosseirão, é o Mirabeau da
canalha. Durante três anos, trabalha os auditórios mais populares. Arrastando atrás
de si uma clientela de aventureiros e indivíduos tarados, vamos encontrá-lo em
todas as conjuras e todas as agitações. Sem vergonha e sem escrúpulo, venal,
procurando sempre estar de bem com Deus e com o demônio, recebe dinheiro da
Inglaterra, do duque de Órleãs e da Corte. Uns compram-no para que promova
arruaças e outros compram-no para que acabe com elas. Não crê na demagogia, mas
faz dela um ofício. A Revolução arranca-lhe atos de entusiasmo e de energia,
mas não tem confiança na sua duração e procura manter sempre uma linha de
retirada. Por isso, conserva-se em boas relações com os agentes realistas da
Bretanha e de Paris. Quando se oferece ocasião, presta-lhes serviço discreto,
que lhe proporcionaram redondos reconhecimentos. Na tribuna é pela guerra
implacável; mas, em segredo, manifesta-se em favor de uma paz atamancada. Em
público, gaba-se de ter feito o 10 de agosto e deitado abaixo a Monarquia; na
intimidade, anuncia ao futuro Luís Filipe a restauração do trono a favor da
irmã mais nova. Em Paris, é o homem da rua, o defensor dos proletários. Em
Arcis, compra terra, uma quinta, dois priorados e cem hectares de terra de
lavoura. No ministério que faz parte, representa o tipo moderno do político
espertalhão, cético e amigo de gozar, gostando do poder sabendo tirar dele todo
o proveito‖. [7]
[1] A Revolução Francesa, Livraria Tavares
Martins, Porto, de Pierre Gaxote, pág. 62.
[2] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – João S. Clá Dias – págs. 217/218.
[3] “Despreocupados... Rumo à Guilhotina” – de João S. Clá Dias – págs. 225/226
[4] cf. ―Jean-Jacques
Rosseau, Les Confessions‖; G. Lenotre). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”,
de João S. Clá Dias, pág. 253.
[5] (Pierre Gaxote, ― A Revolução Francesa, págs. 49/50). (“Despreocupados... Rumo à Guilhotina”, de João S. Clá Dias, pág. 249).
[6] A Revolução Francesa - Pierre
Gaxote, págs. 291/294.
[7] A Revolução Francesa -
Pierre Gaxote, págs. 197/198

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